• Sonuç bulunamadı

Após dois anos de administração Collor, a conjuntura política se complica; em meio às várias denúncias de corrupção no governo, ao pagamento de propina, à denúncia de seu irmão Pedro Collor à revista Veja, a situação do presidente torna-se insustentável. Os cidadãos começam a sair às ruas pedindo seu impeachment; as denúncias aumentam; seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, é acusado de lavagem de dinheiro...todo esse cenário culmina no seu processo de cassação. Contudo, antes de ser cassado, Fernando Collor renuncia, em outubro de 1992, assumindo em seu lugar o vice, Itamar Franco.

Seu pronunciamento de posse diferencia-se dos demais por ocorrer em uma situação peculiar no cenário político brasileiro: sua posse deu-se em decorrência da renúncia de um presidente pronto a sofrer um processo de impeachment, por denúncias de corrupção envolvendo seu governo. Assim sendo, Itamar Franco não pode colocar-se como tendo sido eleito por voto do povo; talvez, por esse motivo, em seu pronunciamento o lexema “povo” aparece apenas quatro vezes. Observemos os recortes abaixo, em que apontam as referências ao povo:

(I1) O povo brasileiro retoma o Estado em suas mãos depois de um período turbulento, carregado de intranquilidade, indignação e constrangimentos. É em nome desse povo, e no cumprimento da Constituição da República, que este governo se inicia, comprometido com os valores simples dos brasileiros.

(I2) Este governo, dure o tempo que durar, será o governo de todos, para não ser o governo de alguns poucos.

(I3) (…) um país não pode ter a sua modernidade recluída em setores de ostentação enquanto o resto do povo se afronta (…) com a fome, o desespero, a doença e a ofensa.

(I4) Em nome do povo brasileiro, comecemos a trabalhar.

Já no primeiro parágrafo de seu pronunciamento, Itamar Franco refere-se ao “povo brasileiro” como tendo o papel de agente pela retomada do país das mãos da corrupção, dos que não estavam trabalhando em favor da população, mas por interesses próprios. Nesse parágrafo, temos o deslize de “povo brasileiro” para “desse povo” e, em seguida, para “valores simples dos brasileiros”; esse processo metafórico produz uma cadeia de significação para o que se tem como “povo” nesse pronunciamento. O “povo brasileiro” significa aqueles que foram às ruas, numa referência interdiscursiva ao movimento dos “caras pintadas”, na luta contra a corrupção, e em prol do impeachment de Fernando Collor; esse “povo” é caracterizado como sendo “os que têm fome”, “os desesperados”, “que são doentes e ofendidos”, ou seja, uma situação semelhante àquela apresentada nos pronunciamentos de Collor e Sarney.

Dessa feita, Itamar coloca-se alinhavado aos interesses dessa parcela da população, comprometido com os “valores simples dos brasileiros”; aqui, podemos notar a retomada da simplicidade que caracteriza o povo brasileiro, como está presente, também, no pronunciamento de José Sarney, caracterizando o sentido de POVO 1, isto é, pessoas corretas, que servem o país, em busca de melhorias. Assim, o povo é caracterizado como solidário, que busca apenas o cumprimento de seus direitos, garantidos pela Constituição Federal de 1988. Ademais, o povo é entendido como compondo a maior parte da população brasileira, uma vez que se o “governo se inicia, comprometido com os valores simples dos brasileiros” e, da mesma forma, “será o governo de todos, para não ser o governo de alguns poucos”, grande parte da população brasileira é incluída como “povo”, e caracterizada como pessoas de valores simples, em oposição a “alguns poucos”, que buscam apenas o poder, tomando, às vezes, caminhos não tão “corretos”.

Nesse pronunciamento de Itamar Franco, o povo brasileiro aparece na temática sobre a modernidade do país e sua evolução, atribuindo a ela a responsabilidade pela situação de fome, desespero e doença. Aí, o povo é tido como alijado da modernidade que poucos gozam, restando a ele – o povo – o afrontamento com “a fome, o desespero, a

doença e a ofensa”; assim, o povo é caracterizado disforicamente, ou seja, lhe são

atribuídas apenas características negativas, como sendo desprovido de alimento, de esperança, de saúde, restando-lhe apenas o sentimento de ofensa, em relação aos que gozam de todas essas benesses. Essa temática de Itamar dialoga, pelo interdiscurso político, com o discurso de José Sarney, em que este afirma que “(...) há necessidade de

medidas urgentes. O Papa João Paulo já disse: O povo tem fome.(...)”, em que Sarney

utiliza-se da citação do discurso de João Paulo segundo para sustentar os sentidos que caracterizam o povo. Assim, no pronunciamento de Itamar Franco, os sentidos para povo são:

POVO 1: aqueles brasileiros que retomam o Estado em suas mãos;

POVO 2: as pessoas que se afrontam com a fome, o desespero, a doença e a ofensa; POVO 3: os que não governam, mas tem o presidente que governa em seu nome.

Observe-se que, também no pronunciamento de Itamar Franco, os sentidos de “povo” estão relacionados às temáticas sociais, como saúde e alimentação, mas se mantém o sentido de alijamento do poder, na medida em que é em seu nome que o governo vai trabalhar, ou seja, o “povo” não tem o direito de governar. Entretanto, também observamos uma característica marcante dos governos democráticos, baseados no “governo do povo, pelo povo e para o povo”; o povo não terá a participação política ativa, uma vez que não governam, mas terá o presidente, que governará por ele e para ele.

2.2.5 Análise dos sentidos de “povo” no pronunciamento de Fernando Henrique