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Toplumsal Cinsiyet Eşitliğine İlişkin Tartışmalar Normlar ve Standartlar

Durante as narrativas do restante do grupo, os membros ficavam atentos a todos os detalhes do que ouviam. Nessas ocasiões, cada um relembrava com o companheiro sua própria história sendo contada a partir do outro, devido às similaridades que iam surgindo. Esse paralelo foi primorosamente descrito pelo prof. Jacques Therrien a seguir: “O outro no diálogo gera o efeito do espelho que reflete essa personagem eu distinto do imaginado no monólogo” (informação verbal) 4. Nesse momento, esses podiam solicitar a explicação de pontos que não ficavam claros. De acordo com Josso,

Durante essas duas horas, os participantes interrogam o narrador para lhe pedir esclarecimentos sobre as situações e os acontecimentos narrados, para lhe fazer explicar mais detalhadamente aquilo que deles se extrai em termos de conhecimento desi,conhecimento sobre o meio ambiente humano e natural. (2007, p. 421).

Percebi que o fato de estar se expondo, compartilhando fatos de sua vida com várias pessoas causou, por vezes, certo desconforto em alguns participantes. A presença do outro como alguém que está analisando é algo a ser considerado pelo formador. “O lugar do outro como revelador de mim mesmo e como tendo uma visão redutora do eu. Este outro que acolhe a minha diferença e que a ameaça, cuja presença oscila entre o medo de se afirmar e o medo

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Frase proferida pelo Prof. Jacques Therrien em vinte e nove de maio de 2015, por ocasião da primeira qualificação deste trabalho.

de não poder fazê-lo.” (JOSSO, 2004, p. 61 – grifo da autora). A esse respeito, lembro-me claramente de uma das participantes constrangendo-se em sua narrativa ao falar sobre como se sentia inibida em uma das disciplinas do curso devido aos diferentes níveis de execução do instrumento5, nos quais ela se considerava como apenas uma iniciante. Em ocasiões como esta, foi importante esclareceraosmembrosdogrupo que apesar de, em alguns pontos, sermos diferentes dos outros, em muitos outros somos semelhantes. Isso ajuda a enriquecer as colocações do grupo frente a essa existência singular-plural:

Todos os grupos biográficos constatam que a apresentação e a escuta de histórias introduz uma dialética de identificação e de diferenciação que alimenta o questionamento sobre seu próprio percurso e, conseqüentemente, o questionamento do percurso dos outros. (JOSSO, 2007, p. 421 – grifos nossos).

Durante a fase das narrativas dos participantes, eu precisava estar atenta, pois era provável que emoções e sentimentos aparecessem no meio do processo. Esse era um momento possível de acontecer a todos, pois, como humanos, estávamos sujeitos aos nossos afetos. Por isso, eu deveria ser cautelosa ao tratar estas questões. No dizer de Josso (2004, p. 127),

Ainda que a tarefa na qual estamos envolvidos no seminário exija uma mobilização preponderante do intelecto, as trocas são também muitas vezes induzidas pelas

emoções ou sentimentos desencadeados por uma idéia ou certas palavras que

circulam. Também aqui, não é fácil gerir estes momentos. (grifos nossos).

Realmente, é bastante complexo o trato com as questões afetivas, dada a subjetividade em que essas geralmente se apresentam. O fato é que diversos autores (DAMÁSIO, 2004; SAWAIA, 2000) apontam para a realidade em que razão e afetividade se amalgamam. Pensamos e sentimos ao mesmo tempo. Como afirma Castro: “Não basta estudar as emoções e os sentimentos: é preciso superar a dicotomia razão/afetividade” (2014, p. 33). Desta forma, procurei encarar os sujeitos da pesquisa em sua completude – intelectualmente e emocionalmente entrelaçados – no sentido de que razão e afetos estivessem igualmente contribuindo para o enriquecimento de todo trabalho realizado.

Com o desenrolar das narrativas orais, chegavam então os momentos em que os participantes ativavam o que Josso denomina de recordações-referências:

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O Curso de Licenciatura em Música da UFCA é uma das poucas graduações no Brasil que não submete seus futuros licenciandos ao Teste de Habilidade Específica. Esse fato possibilita o ingresso de alunos com variados níveis de execução instrumental.

Falar de recordações-referências é dizer, de imediato, que elas são simbólicas do que o autor compreende como elementos constitutivos da sua formação. A recordação- referência significa, ao mesmo tempo, uma dimensão concreta ou visível, que apela para as nossas percepções ou para as imagens sociais, e uma dimensão invisível, que apela para emoções, sentimentos, sentido ou valores. A recordação-referência pode ser qualificada de experiência formadora, porque o que foi aprendido (saber-fazer e conhecimentos) serve, daí para frente, quer de referência a numerosíssimas situações do gênero, quer de acontecimento existencial único e decisivo na simbólica orientadora de uma vida. São as experiências que podemos utilizar como ilustração numa história para descrever uma transformação, um estado de coisas, um complexo afetivo, uma idéia, como também uma situação, um acontecimento, uma atividade ou um encontro (JOSSO, 2004, p. 40).

Portanto, as recordações-referências são marcos de nossa vida de formação. Essas recordações-referências relacionam-se ao que Josso chama de momentos-charneira. Esse termoéutilizadonasobras portuguesas e francesas a respeito das histórias de vida. Relaciona- se com os acontecimentos que marcam a passagem das diferentes etapas de nossa vida (ingresso na Universidade, ingresso no mundo do trabalho, casamento, nascimento dos filhos, morte de um dos progenitores, etc.): “[...] é a preparação individual para um primeiro desbravar dos períodos significativos do percurso de vida de cada um e dos momentos-

charneira, bem como a listagem das experiências significativas de cada período.” (Ibidem, p. 64 – grifos nossos). Para os participantes, aqueles eram momentos de transição na vida. Primeiro, pelo fato de terem saído do Ensino Médio para o Ensino Superior. Isso por si só é uma grande mudança de vida: a escolha da profissão e tudo que está envolvido com esse aspecto. Segundo, por agora estarem saindo de um curso superior como profissionais para, digamos assim, a vida adulta, para o mundo do trabalho.

Portanto, nesta etapa, era importante que os participantes da pesquisa tivessem ciência da diferença entre vivência e experiência. Nesse sentido, Josso propõe alguns conceitos para elaboração da experiência dos quais tratarei a seguir.

Inicialmente, a autora nos remete às experiências pelas quais passamos, mas que não foram planejadas ou buscadas por nós. Josso as nomeia como experiências construídas a

posterioriou ao ato de “ter experiências”. Geralmente, são fatos que chegam a nós por acaso.

Há uma quebra do fluxo normal do cotidiano e nos deparamos com o inesperado. Após o espanto com a ocorrência, inicia-se uma reflexão sobre tudo que se passou e conseguimos digerir o acontecido. É comum que durante esse processo haja uma fase de compartilha, durante a qual contamos a alguém o que passamos. É o momento em que verbalizarmos a experiência. Por fim, precisamos definir o que vamos fazer com essa experiência. Em que local de minha vida ela se encaixa, ainda que tenha chegado de forma imprevista.

Em segundo lugar, Josso trata das experiências planejadas por nós, onde há uma procura do sujeito na direção das mesmas. São as experiências construídas a priori ou ligadas à busca por “fazer experiências”. No entanto, mesmo que estas experiências tenham sido projetadas por nós, há um certo grau de imprevisibilidade também nesse processo, pois nem sempre o que planejamos acontece como imaginávamos fosse acontecer. Portanto, é possível que uma experiência construída a priori (planejada) fuja ao esperado controle, vindo a assemelhar-se ao que acontece quando temos experiências construídas a posteriori (ocorridas por acaso). Segundo Josso (2004, p. 53),

Ainda que tudo tenha sido imaginado para ser dominado, parece-me importante que estejamosatentosparaofatodeodesconhecidoterlugar neste processo [experiências planejadas], e que há, portanto, um cruzamento entre a experiência construída a

priori e a experiência construída a posteriori. (grifos da autora).

Finalmente, Josso propõe uma última etapa na abordagem experiencial. Essa é, segundo ela, a fase de pensar as suas experiências. Nesse momento, pretende-se avaliar o extrato de tudo por que passamos. Geralmente perguntamos: “o que fica comigo depois de tudo que passei?” O resultado deste questionamento é “[...] um conjunto de vivências que foram sucessivamente trabalhadas para se tornarem experiências” (Ibidem, p. 54). Portanto, é através das vivências às quais atribuímos significado que vamos construindo nossa bagagem de experiências para a vida que se segue.

Após a reflexão sobre as vivências e experiências dos participantes e a conclusão de todos os relatos, iniciamos uma nova fase do trabalho. Atingimos o momento em que passamos para a escrita das narrativas. “Numa terceira fase, os participantes elaboram individualmente a redação de sua história. Cada participante recebe o conjunto das histórias narradas das quais ele deverá tomar conhecimento antes do início da reflexão sobre cada uma das histórias escritas” (JOSSO, 2007, p. 421). Esta foi uma fase na qual tive bastante dificuldade. Na etapa das narrativas orais, as quais foram gravadas, os participantes contribuíram bastante, gerando boas horas de gravação. Porém, quando solicitados a redigirem suas narrativas, como sentiram dificuldade! Creio que, mesmo entre os graduados, essa pode ser uma tendência natural: preferir falar a colocar uma ideia no papel. Enfim, esse empecilho fez com que a maioria dos participantes protelasse ao máximo a entrega de suas narrativas escritas, motivo pelo qual certo atraso foi gerado em relação ao nosso planejamento. Passado algum tempo, porém, cada membro recebeu as narrativas escritas de todos os outros componentes do grupo.

Estes, ao compararem suas narrativas orais, presentes nas gravações anteriormente disponibilizadas, e suas narrativas escritas, geralmente encontravam diferenças. “Na passagem da narração oral à escrita, os participantes constatam as modificações na informação relatada, eles as questionam e, uma vez explicadas, procuram compreendê-las.” (JOSSO, 2007, p. 421). Isso também é compreensível pelo fato de, ao sairmos do nível da língua falada para o nível da língua escrita, estávamos partindo de uma narrativa feita “ao vivo” para outra elaborada com mais tempo e atenção. Nesta fase,

Cada história é trabalhada visando perceber os momentos de articulação, muitas vezes fundadores, os valores que orientaram as escolhas, os registros das ciências do humano6 nos quais as experiências são relatadas, as dialéticas que permitem

compreender as orientações gerais de uma vida, as atitudes e aprendizagens do sujeito nas situações, nos acontecimentos, nos encontros e nas atividades impostas ou escolhidas ao longo da vida (Ibidem, p. 421).

Concluída esta parte do trabalho, seguimos para a fase da análise, sobre a qual prefiro tratar em separado na seção seguinte.