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Minha formação em nível superior se deu em duas instituições de ensino. Na Universidade Estadual do Ceará (UECE) concluí o curso de Bacharelado em Instrumento/Piano. Na Universidade Regional do Cariri (URCA) concluí o curso de Licenciatura em Letras, com Habilitação em Língua Inglesa. Tive, destarte, a oportunidade de cursar um Bacharelado e uma Licenciatura, dois universos bastante diversos quanto à estrutura e finalidades. Iniciei a primeira formação em 1992 e concluí a segunda em 2001. Foram, portanto, nove anos convivendo, como aluna, dentro do ambiente da graduação.

Em relação à Licenciatura em Letras, essa formação me possibilitou o envolvimento com línguas e literatura o qual considero um grande diferencial em minha carreira, visto que me permite transitar por outros caminhos que não apenas o musical, enriquecendo o leque de oportunidades e leituras. Porém, tendo em vista que o tema deste trabalho refere-se à formação de professores de Música, concentro-me, aqui, nos meus estudos musicais realizados na UECE.

Em 1992, iniciei o Bacharelado em Instrumento/Piano naquela universidade. Como resido em Juazeiro do Norte-CE, tive que mudar-me para Fortaleza, local onde o curso se localizava, permanecendo naquela cidade por cinco anos, tempo de duração da graduação. Para me auxiliar em minhas lembranças desta época, recorro aos meus arquivos, às minhas pastas suspensas, geralmente empoeiradas e ansiosas por uma mão que as tire do esquecimento. Encontro meu diploma, depois meu histórico escolar. Percorro com o olhar cada uma das disciplinas listadas ali e tudo me volta à mente como se fosse hoje: aos dezessete anos, saída do interior para a cidade grande, no afã de aprender música em um curso superior.

Encaro a vivência como aluna da graduação em Música como uma das mais ricas na minha formação. Aliás, a vida universitária é, quase sempre, a maior experiência de todo estudante. O estabelecimento de laços afetivos, a troca de conhecimentos entre alunos e professores, tudo marca para o resto da vida. No meu caso não foi diferente.

É importante, porém, não perdermos de vista que esse trabalho trata da formação de professores de Música construída dentro de uma Licenciatura, e, no entanto, minha formação

se deu dentro de um Bacharelado. Apesar de se tratar de um curso de Bacharelado em Piano e consequentemente ser voltado para a performance e não especificamente para a docência, posso afirmar que os conhecimentos lá adquiridos relacionam-se, até hoje, com a minha vida como professora de Música. Sim, isso é fato.

Em primeiro lugar, os saberes especificamente musicais que hoje possuo vêm, em sua maioria, daquela época. Em relação às disciplinas de Música, essas me forneceram um sólido conhecimento musical que entendo seja meu maior alicerce formativo. Os professores daquela instituição eram sempre zelosos em nos encaminhar a bons níveis de compreensão e fluência musical. De minha parte, empenhei-me ao máximo, tentando atender adequadamente às demandas do curso e às solicitações de meus professores.

Destaco as disciplinas específicas de Música como as principais: Treinamento Auditivo, Harmonia, Contraponto, Polifonia, Análise, Canto Coral, Técnica Vocal, Piano e Regência. Como afirmei, nossos professores nos incentivavam a buscar bons resultados no que concerne ao aprendizado musical. Era nosso alvo conseguir uma boa técnica instrumental e vocal, por meio da adequada interpretação do repertório escolhido por nossos mestres. Nós, alunos de piano, tínhamos que, inclusive, ao final do curso apresentar um recital. Sem dúvida, todo esse empenho gerou resultados positivos no que concerne à aprendizagem musical.

Entretanto, apesar de muito proveitosas, as disciplinas especificamente musicais eram totalmente voltadas para a música conhecida como erudita. Ou seja, geralmente cantávamos ou tocávamos músicas de outros povos, sem dúvida músicas que me são muito caras, porém, faltava um pouco mais de experiência com o que é nosso, com a nossa música. Como já citado antes neste trabalho, isso é bastante comum em outras instituições. Por isso, sempre achei que minha formação tinha uma grande lacuna em relação ao repertório popular brasileiro, tão rico e apreciado internacionalmente. Minha memória traz, inclusive, relatos dos próprios professores na época, os quais desejavam trabalhar mais com a música de nosso país, mas não se dispunham a enfrentar a resistência do “sistema”. Penso que até hoje faz falta essa pitada de Música Brasileira em meu currículo. Há muito venho tentando preencher essa lacuna, mas, com certa frequência, as pessoas ainda se referem a mim como “pianista clássica”.

Em segundo lugar, apesar de ser um Bacharelado, tínhamos também disciplinas de cunho pedagógico na integralização curricular do curso. Isso se dava principalmente porque a instituição entendia que, ao saírem da universidade, a maioria dos pianistas ali formados

tornava-se professores de piano, sendo muito poucos os que tinham a oportunidade de seguirem uma carreira completamente dedicada aos palcos.

Em relação a essas disciplinas, havia algumas direcionadas ao ensino do instrumento, no caso, o piano. Lembro que, em relação a esse aspecto, cumpríamos as seguintes disciplinas: Prática de Ensino do Instrumento, Técnica de Iniciação Musical e Pedagogia e Didática do Instrumento. Ao cursarmos estas disciplinas, refletíamos sobre como daríamos aula de piano ao sairmos da universidade. Fazíamos a análise de vários métodos para piano, se eram adequados ou não, em vários aspectos. Para mim, foi extremamente rica essa experiência, visto que, naquela época, eu já era professora de piano. Pensar criticamente sobre os métodos de piano que eu já utilizava enriqueceu meus conhecimentos sobre o assunto. Vejo como bastante positivas essas disciplinas.

Cursávamos também as disciplinas Didática Geral e Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º e 2º graus. Essas eram freqüentadas também por alunos provenientes de vários outros cursos existentes na UECE. Em relação à disciplina Didática, por exemplo, tínhamos a seguinte situação: em uma mesma sala se buscava orientar um professor de Matemática e uma professora de Piano quanto às formas de ensino, avaliação e planejamento de aulas. Por isso, o professor responsável por conduzir essa disciplina obrigava-se a tratar os conteúdos de forma bastante generalizada, na busca por atender público tão diverso. Particularmente, acredito que seria bem mais proveitoso se, nesta disciplina, houvesse um direcionamento quanto ao que cada um ali iria ensinar. No meu caso, o ensino de Música.

Resumindo um pouco esta seção, entendo que minha formação construída na UECE é marcada por um bom embasamento quanto ao conhecimento musical, mas com influência predominante da música chamada erudita. É pertinente afirmar ainda que, apesar de haver cursado um bacharelado, tive, ali, a oportunidade de, por meio de algumas disciplinas oferecidas por aquele curso, refletir um pouco sobre o ensino de Música, especialmente sobre o ensino de piano. Importa registrar também o claro distanciamento que algumas disciplinas mantinham do ensino de Música propriamente dito. A cadeira de Didática é um exemplo disso. A verdade é que foi com essa formação que encarei o ensino de Música na Educação Básica. É sobre essa experiência que discorrerei na seção seguinte.