O Brasil esteve no rol de destinatários da IASD desde o momento em que a Igreja almejou expandir suas fronteiras além-EUA. Sua empreita no país vinculou-se ao envio de literatura religiosa à América do Sul. Antes do trabalho missionário efetivo, desempenhado por pastores, a IASD enviou grande quantidade de literatura aos países do Sul continental. Apesar de o trabalho missionário ser o principal instrumento da implantação da IASD no Brasil, podemos afirmar que, antes da presença de missionários e obreiros, a Igreja abriu caminho através da mensagem impressa.
Contudo, antes de iniciarmos a análise do processo, cabe entender algumas questões teóricas, de suma importância no que tange a inserção do protestantismo e a trajetória da IASD no Brasil. Na verdade, o problema está na busca de solução para as perguntas: a) Qual é o lugar da IASD na história do protestantismo brasileiro? b) Será que podemos classificar a IASD como uma denominação protestante? Comecemos então pela primeira questão.
O passo inicial é tratar, brevemente, da trajetória do protestantismo no Brasil. Assim poderemos em seguida, achar o ponto aproximado no qual a IASD se encaixa nessa cronologia histórica. Uma tarefa não muito fácil, pois os estudos sobre Religião no Brasil ganharam destaque a partir da década de 1950, e sobre o protestantismo, especificamente, a partir de 1960, o que significa ser um campo de análise ainda recente.
Além de pesquisadores estrangeiros, brasilianistas, como Émile G. Leonard, Roger Bastide, nota-se também os principais estudiosos brasileiros, dentre eles: Cândido P. Ferreira de Camargo, Beatriz M. de Souza, Antônio Gouvêa Mendonça e Leonildo Silveira Campos. E este último, diz o seguinte a respeito do trabalho de investigação do cenário religioso brasileiro:
A investigação do fenômeno religioso no Brasil, principalmente do protestantismo, começou a se desenvolver com mais rapidez apenas no decorrer das décadas de 1960 e 1970. Mas, naquela época, a investigação do fenômeno religioso pelas ciências sociais ainda era, no Brasil e na América Latina, mais do que uma tarefa pioneira, um tema esperando pesquisadores.88
Estudos mostram que os protestantes estão presentes no Brasil desde o período colonial. Entretanto, somente no início do séc. XIX é que o protestantismo, efetivamente, teve um crescimento visível. Podemos afirmar, sem prejuízos, que o Brasil é um país massivamente cristão. E mais do que isso, um país massivamente católico-cristão89, apesar da constante queda do
catolicismo no Brasil, em razão do surgimento de novas religiões e do próprio crescimento do protestantismo - pluralismo de denominações.
88 CAMPOS, Leonildo Silveira. Protestantismo Brasileiro e Mudança Social. In: SOUZA, Beatriz Muniz de; MARTINO, Luis Mauro de Sá (Orgs.). Sociologia da Religião e Mudança
Social: Católicos, Protestantes e novos movimentos religiosos no Brasil. São Paulo: Paulus,
2004, p.110.
89 Uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas – FGV, no ano de 2011, que também levou em conta dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) entre os anos de 2003 e 2009, acusam que a totalidade de brasileiros que se dizem católicos no Brasil, caiu de 73,8% para 68,4%. Mesmo assim, esses 68,4% de católicos declarados, configuram o cenário religioso brasileiro de forma peculiar, caracterizando-o, ainda como um país massivamente católico, e massivamente cristão, somados ao número de cristãos- evangélicos, que aumentou de 17,9% para 20,2% no país. Fonte: FGV. (Coord. Marcelo Côrtes Neri) Novo Mapa das Religiões. Rio de Janeiro: FGV, CPS, 2011. Disponível em: http://www.fgv.br/cps/religiao/ - Acesso em 09/12/2011.
Assim, quando os protestantes ganharam lugar no cenário religioso brasileiro, enfrentaram o desafio de disputar fiéis com a Igreja Católica. Além do mais, no início de séc. XIX, a corte portuguesa havia se instalado no país, e a religião oficial do Estado era a Cristã-Católica. Portanto, além de disputar fiéis com uma Igreja já consolidada na prática, os protestantes enfrentariam também no plano político uma Igreja legitimada pelo Estado monárquico, que visava proteger seu território dos invasores. Ora, segundo o pesquisador das religiões Antônio Gouvêa Mendonça, as partes atuantes que compunham o cenário religioso da época eram exemplos de um “choque cultural”.
Vale ainda considerar o fato de que a resistência portuguesa aos invasores era sempre feita não somente em nome de sua soberania política e de seus interesses comerciais, mas também na defesa de sua fé contra as heresias. De modo que a história da presença protestante no Brasil à incipiente cultura ibero-católica nada mais é do que um constante exemplo de choque cultural. O protestantismo só conseguiu implantar-se definitivamente quando condições políticas e sociais apresentaram possibilidades de neutralizar a presença protestante de modo que ela não viesse conseguir, por conta de seu enquistamento, transformações sensíveis na cultura católica luso-brasileira.90
E esse momento das “condições políticas”, citadas por Mendonça, aconteceu a partir de 1810, com a abertura dos portos brasileiros às nações amigas. Isso representou, na verdade, uma oportunidade para a inserção do protestantismo no país. Embora o cristianismo-católico ainda fosse a Religião oficial do Estado, a abertura dos portos, a possibilidade da permanência dos estrangeiros em solo brasileiro, em termos políticos, trouxe certa liberdade de atuação aos protestantes. Destarte, à regra geral, o protestantismo no Brasil somente passaria a ganhar força a partir de 1810.
No que tange o protestantismo brasileiro, Mendonça sugere existir 3 (três) categorias de análise a respeito de sua inserção. E essas categorias são as seguintes: Protestantismo de Invasão, Protestantismo de Imigração e
Protestantismo de Missão. Bem, o Protestantismo de Invasão corresponde
90 MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O Celeste Porvir: A Inserção do Protestantismo no Brasil. 3ª Ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, pp. 37 e 38.
aos protestantes no início do Brasil colônia. É marcado pela presença dos
huguenotes franceses no Rio de Janeiro, de 1555 a 1567, e dos reformados holandeses, no nordeste, mais especificamente em Recife, de 1630 a 1654.
O Protestantismo de Imigração tem início em 1808, com a chegada da Família Real ao país, e efetivamente a partir de 1810, com a abertura dos portos às nações amigas. Diz do período de entrada de protestantes ingleses e alemães no Brasil. A chegada dos protestantes alemães ao país tem início em 1824, com o fluxo de imigração, que atinge a cidade de Nova Friburgo-RJ e Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Espírito Santo. O fluxo migratório traz consigo a IL - Igreja Luterana, que dá origem ao luteranismo no Brasil. Surge a IELB - Igreja Evangélica Luterana
do Brasil, em 1904, e a IECL - Igreja Evangélica de Confissão Luterana, em
1950. Ambas ligadas à cultura brasileira através de seus projetos voltados à Educação - escolas e universidades confessionais.
O Protestantismo de Missão corresponde ao período da chegada das missões evangélicas protestantes, em sua maioria, advindas dos EUA no início do séc. XIX. Marca o momento de atuação dos distribuidores de bíblias e colportores, pioneiros do protestantismo no país, categoria com a qual a IASD mantém uma estreita relação, pois o início de sua inserção no Brasil também está ligado ao trabalho dos colportores e distribuidores de literatura religiosa. Sinteticamente: o Protestantismo de Missão diz do momento das missões empreendidas por denominações religiosas tradicionais como a IM -
Igreja Metodista (1836); a IC - Igreja Congregacional (1855); a IP - Igreja Presbiteriana (1859) - que em 1903, depois de um cisma, deu origem à IPIB - Igreja Presbiteriana Independente do Brasil; a IB - Igreja Batista (1882) e a IPE - Igreja Protestante Episcopal (1889). Portanto, com base na reflexão de
Mendonça, o campo protestante no Brasil configurou-se a partir da terceira década do séc. XIX, na atuação de denominações tradicionais, que deram origem ao que hoje chamamos de Protestantismo Histórico.
Agora, voltemos à pergunta: Qual é o lugar da IASD na história do
protestantismo brasileiro? Embora a resposta dessa primeira questão tenha
podemos ou não considerá-los protestantes. Pensemos neles enquanto uma denominação religiosa, somente. Assim responderemos adequadamente.
A presença dos ideais adventistas do sétimo dia no Brasil data do ano de 1884, inicialmente com a entrada de literatura religiosa por intermédio do porto de Itajaí-SC, destinada às colônias alemãs da região Sul. Quase dez anos depois, em 1893, chegam os primeiros missionários, credenciados e dispostos a empreender a obra de forma efetiva. Isso significa que, se formos levar em conta as categorias de protestantismo brasileiro (invasão, imigração e missão), propostas por Mendonça, o ponto de referência sobre a IASD no Brasil se encaixaria na terceira categoria: o Protestantismo de Missão.
Embora a IASD tenha relação também com a segunda categoria (Protestantismo de Imigração), já que as literaturas religiosas que chegavam ao Brasil em 1884 eram destinadas aos alemães imigrantes que viviam nas colônias do Sul, é na terceira categoria que ela pode ser entendida com mais coerência. Tanto no que se refere aos colportores e distribuidores de bíblias, quanto aos missionários credenciados - enviados pelas igrejas para implantar definitivamente a obra no Brasil, que dão vez ao período do Protestantismo
de Missão - a IASD tem expressado uma relação com essas características.
Assim, podemos afirmar que o início de sua história, de um ponto de vista
acadêmico - pois o que estamos fazendo aqui é exatamente isso - tem a ver
com a categoria e as particularidades do Protestantismo de Missão.
No meio acadêmico, os estudos sobre os adventistas do sétimo dia no Brasil ainda são tímidos. Nota-se que, ao menos até o presente momento, a IASD tem pouco espaço nas análises, e quase não se faz referência a seu papel como denominação presente desde os tempos do Protestantismo de
Missão. Talvez seja pelo motivo de os adventistas do sétimo dia não terem
demonstrado, ao longo do séc. XX, um crescimento tão acelerado como o fez algumas igrejas do protestantismo histórico. Os batistas e presbiterianos, por exemplo, até 1960, foram os que mais cresceram em número de crentes no país. (MENDONÇA, 2008) Ora, mas isso não significa que a IASD não tenha crescido. Ela cresceu certamente, nos seus quase 130 anos de existência no Brasil, contudo, em proporções diferentes das demais Igrejas.
Agora, voltemo-nos para a segunda questão: Será que podemos
classificar a IASD como uma denominação protestante? Primeiro, pensemos
um pouco a respeito do conceito de protestantismo, e mais especificamente, no conceito de protestantismo brasileiro. Será que o termo protestantismo
brasileiro é capaz de configurar com propriedade, de modo a dizer de todas
as peculiaridades/características básicas, as denominações religiosas cristãs
não-católicas, presentes no Brasil? Afinal, perguntemo-nos: desde a Reforma Protestante do séc. XVI, empreendida por Calvino e Lutero, o que de fato
mudou nessa experiência - até mesmo nesse conceito - de vida religiosa? Podemos supor, pelo dinamismo histórico, que muita coisa mudou. Os mais de quatrocentos anos que se passaram provam que o luteranismo e o calvinismo tradicionais, históricos, já não são mais os mesmos de antes. Se pensarmos, por exemplo, no caso do protestantismo estadunidense - do qual o Brasil teve influência direta através das missões no início do séc. XIX - veremos que os ideais tradicionais da reforma, levados pelos colonizadores europeus, sofreram notórias adaptações ao chamado american way of life. O calvinismo e o luteranismo primitivo deram origem a diversas denominações religiosas. Cada uma com sua própria visão teológica de mundo. Haja vista à complexidade do protestantismo local após o surgimento do pentecostalismo. Afinal, nos EUA, ainda hoje é comum perguntar: qual é a igreja dos negros e qual é a igreja dos brancos? Por que tantos discursos parciais?
No caso do protestantismo brasileiro, a dinâmica não é diferente. As ideias protestantes, inevitavelmente, tiveram de adaptar-se aos padrões culturais do país. Se levarmos esse fato ao pé da letra, veremos claramente que o Brasil recebeu um calvinismo e um luteranismo - pilares protestantes - de segunda-mão, e que ainda por cima, se não bastasse as reapropriações
norte-americanas, ele teve de lidar ainda com suas próprias reapropriações,
ou seja, brasileiras. Somado à trajetória do pentecostalismo no Brasil, intenso depois da década de 1950, veremos que o que chamamos de protestantes, tornou-se um objeto mais complexo. Assim, o cenário requer distinções. Por exemplo, diferenciar protestantes históricos (ou tradicionais) de pentecostais e neopentecostais, virou tarefa elementar, considerando as interpretações
teológicas feitas a respeito da ação do Espírito Santo. Sobre essa distinção, Mendonça faz a seguinte afirmação:
Temos insistido em distinguir em qualquer sistema de classificação das religiões cristãs não-católicas no Brasil os protestantes tradicionais do grande e difuso grupo pentecostal que, por sua vez, também necessita ser revisto. A distinção deve ter como princípio geral a doutrina do Espírito Santo como referida no Pentecostes. Para as igrejas cristãs tradicionais em geral, o Pentecostes foi o evento fundante da Igreja Cristã, segundo a promessa de Cristo no evangelho (João 14: 16-18). Pela presença constante, o Espírito na Igreja, o Pentecostes, não se repete. Para os pentecostais clássicos, o Pentecostes se repete como experiência renovada e, particularmente, fenomênica do Espírito. Por isso, as igrejas pentecostais, segundo sua forma de crença fundamental, distinguem-se essencialmente das tradicionais da Reforma. Além dessa ruptura básica, os pentecostais, distinguem-se dos protestantes tradicionais pela forma de transmissão religiosa, que neste se dá por uma pedagogia racional e naqueles pela emoção.91
Ademais, quanto à distinção dos próprios pentecostais, no intuito de sabermos, afinal, quem são os pentecostais tradicionais e quem são os
neopentecostais, isso vem sendo uma tarefa bastante complicada, para não
dizer controversa, no campo acadêmico brasileiro.
Parece existir, assim, um tipo de insuficiência conceitual no termo
protestantismo brasileiro, quando usado para configurar as denominações
que compõem o grupo dos cristãos não-católicos no Brasil. Aliás, o estudo das religiões no país apresenta-se tão complexo, que todas as categorias de análise utilizadas, passaram a ser questionáveis. E quanto a isso, vale notar, novamente, as considerações feitas por Antônio Gouvêa Mendonça:
Hoje todas as categorias empregadas, sejam protestante, evangélico, pentecostal ou neopentecostal, são imprecisas e questionáveis, necessitando ser revistas, apesar da mobilidade própria da dinâmica religiosa, que ganhou
91 MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Protestantismo brasileiro, uma breve interpretação
histórica. In: SOUZA, Beatriz Muniz de; MARTINO, Luis Mauro de Sá (Orgs.). Sociologia da Religião e Mudança Social: Católicos, Protestantes e novos movimentos religiosos no
extraordinária capacidade de se reproduzir sem cessar, em decorrência da Reforma.92
E o que deve ser feito então? A resposta não é simples. Talvez um estudo crítico e cuidadoso, atento às categorias utilizadas, observando com cautela até que ponto as mesmas são satisfatórias explicativamente. Antônio Gouvêa Mendonça sugere que utilizemos a categoria “cristãos não-católicos” quando quisermos distinguir a parcela de crentes em oposição aos cristãos-
católicos, ora massivamente presentes no país; e a categoria “evangélicos”,
ao tratarmos dos cristãos-protestantes, sejam eles os protestantes históricos,
pentecostais ou neopentecostais, de modo generalizado.
A proposta seria trabalhar com o conceito de cristão não- católico e, dentro dele, estabelecer as distinções necessárias e evitar as generalizações inadequadas que vêm sendo feitas. [...] Como o termo “evangélicos” é mais corrente, ele poderia ocupar o lugar de protestantes.93
O que parece, de maneira lógica, coerente. Afinal, a proposta pode funcionar satisfatoriamente nas seguintes ocasiões: a) quando desejarmos fazer generalizações, podendo utilizar o termo evangélicos de forma aberta; b) quando desejarmos trabalhar com singularidades históricas protestantes, pois, mesmo sendo as denominações generalizadamente tratadas, seríamos capazes também, de distingui-las através das particularidades históricas.
Voltemos à pergunta: Será que podemos classificar a IASD como
uma denominação protestante? Ora, protestante não convém. Denominação evangélica cristã não-católica, sim, podemos classificar com segurança. Mas,
afinal, por que não podemos classificá-la também como uma denominação
protestante? A razão disso está no próprio discurso teológico. A IASD não se vê como uma Igreja protestante, muito menos uma Igreja pautada no modelo
clássico do protestantismo do séc. XVI, que mostra características teológicas herdadas do catolicismo tradicional, um exemplo: a guarda do Domingo.
92 Idem, p. 76.
Grande parte das igrejas evangélicas ditas protestantes observa o
Domingo como dia de descanso. Isso foi criticado pela IASD desde Ellen G.
White. Aliás, a guarda do Domingo, afirmou White, é o principal elemento de
distinção entre a “Igreja Remanescente” e os “protestantes”. A IASD guarda o Sábado e não o Domingo. Na sua concepção, o Sábado é o verdadeiro sinal
que representa a singularidade do Povo de Deus, e não o Domingo. A IASD, portanto, se vê como uma Igreja Singular, um Povo Diferente em relação aos
protestantes, aos não-cristãos, e, principalmente, aos Católicos ou à Igreja
Católica - que na ótica da IASD, é representação da besta apocalíptica e da
prostituição teológica. Assim, o Sábado, além de elemento de clara distinção
da IASD em relação aos protestantes - tradicionais calvinistas e luteranos - é também elemento fundamental de sua identidade. E notemos, novamente, a consideração de Ellen G. White a respeito do nome do Povo de Deus:
Não podemos adotar outro nome mais apropriado do que esse que concorda com a nossa profissão de fé, exprime a nossa fé e nos caracteriza como povo peculiar. O nome Adventista do Sétimo Dia é uma contínua exprobração ao mundo protestante. É aqui que está a linha divisória entre os que adoram a Deus e os que adoram a besta e recebem seu sinal. O grande conflito é entre os mandamentos de Deus e as exigências da besta. É porque os santos guardam todos os mandamentos de Deus, que o dragão lhes move guerra. Se rebaixassem seu padrão e cedessem nas particularidades de sua fé, o dragão estaria satisfeito; mas suscitam sua ira por ousarem exaltar o padrão e desfraldar o estandarte de oposição ao mundo protestante que reverencia uma instituição do papado (o Domingo)94. O nome Adventista do Sétimo Dia exibe o verdadeiro caráter de nossa fé e será próprio para persuadir os espíritos indagadores.95
Portanto, com base no discurso teológico da IASD, não convém que a consideremos como sendo uma denominação protestante. Isso porque “o nome Adventista do Sétimo Dia é uma contínua exprobração ao mundo protestante.” E devemos assim entender, não apenas pelo motivo óbvio de ver a própria IASD dizer quem ela é realmente e no que acredita enquanto
94 Grifo nosso.
95 WHITE, Ellen G. A Igreja Remanescente. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª Ed., 2005, pp. 65 e 66.
verdade. Mas também pela própria dinâmica histórica de transformação do protestantismo clássico, que fez do calvinismo e do luteranismo, experiências
religiosas bem diferentes do que eram no século XVI.
Voltemos à história da IASD no Brasil. Observamos anteriormente que a chegada do adventismo ao país relaciona-se ao momento final do fluxo de missões evangélicas vindas dos EUA no séc. XIX. Isso a coloca dentro da categoria nomeada: Protestantismo de Missão. Vimos que a empreita esteve inicialmente voltada às comunidades alemãs instaladas na região Sul, o que implica certa relação com a ideia de Protestantismo de Imigração, embora o adventismo não tenha sido efetivamente trazido pelos imigrantes alemães.
Assim, a instalação da IASD no Brasil foi empreita essencialmente missionária, de estratégia institucional, com base no trabalho de colportores e pastores enviados especificamente para cumprirem essa função. Contudo, também tem relação com as comunidades de imigrantes alemães, pois foram estes os primeiros a receber a literatura adventista no Brasil. A respeito das comunidades alemãs no país e a chegada da IASD, vale citar as palavras de Haller Elinar S. Schunemann, Doutor em Ciências Sociais e Religião pela UMESP, professor no Centro Universitário Adventista de São Paulo - UNASP e um dos atuais pesquisadores do adventismo no Brasil:
A Igreja Adventista do Sétimo Dia [IASD] no Brasil atualmente apresenta a maior membresia em números absolutos deste movimento mundial. É, também, um dos grupos mais expressivos dentro do protestantismo96 no Brasil, sendo que apenas duas tradições dentro do país apresentam uma membresia maior: os luteranos e os batistas, excluídos os diversos ramos pentecostais. O quadro sócio-econômico atual da membresia da IASD é bem diferente do perfil apresentado em sua inserção no Brasil. Há uma peculiaridade da chegada