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Optamos por apresentar, neste tópico, as variadas possibilidades de interpretação, uso e reiteração dos vocábulos “país/países”, uma vez que, como afirmamos, justamente por adaptar-se a qualquer contexto e escala, “país/países” podem ser usados ora com o sentido de nação, ora de estado nacional, ora ainda, como “terra/pátria amada”.

“País” é um termo tão corriqueiro, tão intensamente agregado a nosso vocabulário, que sequer pressupomos que ele careça de qualquer definição. Antes, ao contrário: pensamos de antemão, que, ao utilizarmos o termo “país”, estabelecemos com nossos interlocutores uma “comunidade de sentido” que dispensa qualquer explicação – explicar o que entendemos por “país” seria até mesmo uma espécie de “pleonasmo”.

Minha terra tem palmeiras, Onde canta o sabiá, As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá, Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.

[...]

Excetos de Gonçalves Dias, Canção do

exílio. Disponível em

http://www.secrel.com.br/jpoesia/gdias 01.html#exilio

Acesso em: 29 jan.2006.

Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas

E quase tem mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá. [...]

Excetos de Oswald de Andrade Canto

de regresso à pátria. Disponível em

http://www.secrel.com.br/jpoesia/oswal .html#canto

Acesso em 29: jan.2006.

Aqui é o meu país No seio da minha amada

Nos olhos da perdiz Na lua na invernada

Nas trilhas, estradas e veias que vão Do céu ao coração

[...]

Ivan Lins e Vitor Martins. Meu país. CD Awa Yiô, 1992. Disponível em

http://ivan-lins.letras.terra.com.br/letras/46443/

e

http://www.ivanlins.com.br/ Acesso em: 30 dez.2005

Nas favelas, no Senado Sujeira pra todo lado Ninguém respeita a Constituicão Mas todos acreditam no futuro da

nação Que país é este

[...]

Renato Russo. Que país é este? Álbum: Que país é este?, 1987. Disponível em

http://www.legiaourbana.com.br/legiao-urbana/

Afinal, supomos que todos sabem o que este vocábulo significa e o que ele denota precisamente.

“País/países” são termos tão comuns, que como pode ser observado nos poemas e nas letras de músicas que destacamos, cabe em qualquer contexto e em qualquer escala: seja para apontar nossas belezas, num tom idílico (Aqui é o meu país), seja para ironizar algumas concepções sobre o Brasil e determinadas conjunturas (Que país é este?). Estes “tons”, ou a entonação presente nas duas letras de músicas destacadas não são novidade. Como pode ser observado nos dois excetos de poemas, no século XVIII o “tom idílico” exaltava nossas belezas naturais, enquanto que, na primeira metade do século XX, era a ironia que substituía o “mítico/sentimental”. No caso específico desses poemas, é preciso destacar ainda uma particularidade: em Gonçalves Dias, “país” pode abarcar todo o Brasil; em Oswald de Andrade, a escala é bem mais precisa, posto que ele refere- se explicitamente à sua terra, São Paulo.

Por isso, consideramos, para efeito desta pesquisa, os termos “país/países” como um “híbrido”, ou, como ressalta Chauí (2000), um semióforo.

Esses termos nos chamaram a atenção nas entrevistas com os docentes. Ao serem indagados sobre suas concepções sobre nações e estados nacionais, invariavelmente, em algum momento, utilizavam estes vocábulos, tanto para se referirem às nações, quanto aos estados nacionais. Ao elaborarmos nosso roteiro de entrevistas, ainda não havíamos percebido qualquer indício acerca destas palavras.137 Foi sua freqüência nas entrevistas e, posteriormente, nos livros didáticos que analisamos que nos despertou para seus possíveis sentidos e significados (ou para a ausência deles).

Passamos então, a ficar cada vez mais atentas à ocorrência destas palavras não apenas nas entrevistas e livros didáticos, mas também em livros mais acadêmicos, de caráter formativo e epistemológico, ou mesmo, em teses e dissertações. Pudemos observar então, a freqüência com que esta palavra é usada. Em todo o material lido para esta pesquisa, apenas em alguns livros encontramos o termo “país” acompanhado por alguma precisão/definição conceitual.138 Intrigadas com esse termo, optamos por,

137 Isso denota o quanto esses vocábulos são corriqueiros, despercebidos, constituintes de sentido. Foi a partir da nossa pesquisa empírica, das repetições que ouvimos nas entrevistas, que começamos a perceber melhor as singularidades e a importância no uso destas palavras.

138 Caso dos seguintes livros: ESCOLAR, Marcelo. Crítica do discurso geográfico. São Paulo: Hucitec, 1996; MAGNOLI, Demétrio. O corpo da pátria – imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808 – 1912). São Paulo: Editora da Unesp/Moderna, 1997; LACOSTE, Yves. Vive la nation – destin d´une idée géopolitique. Paris : Fayard, 1997.

primeiro, pesquisar seu significado em dicionários de língua portuguesa.139 De acordo com o Dicionário Aurélio, país tem os seguintes significados:

[do latim pagense (subentendido agru), ‘território rural’, ‘país’, atr. Do fr. ‘pays’] S.m. Região, terra, território: Elegia do País das Geraes [= o Estado de Minas Gerais] (título de um livro do poeta Dantas Mota). 2) Pátria, terra. 3) Território habitado por uma coletividade, e que constitui uma realidade histórica e geográfica com designação própria; nação; O Brasil tem fronteiras com todos os países da América do Sul, exceto Chile e o Equador; O escândalo abalou o país. 5) Meio, ambiente, clima: sentia-se fora de seu país, entre costumes estranhos. 6) Fig. Região, terra, lugar: o país das quimeras; o país dos sonhos. 7) Jur. Conjunto formado de povo e território, não chegando a constituir um Estado, por lhe faltar soberania ou governo independente. (2000, p.1247)

Assim, o vocábulo país é associado ora à nação, ora ao clima, ora a uma quimera (um professor, durante a entrevista, referiu-se a esse aspecto, chamando atenção para o fato de “até a Alice, ter um país” – o das Maravilhas). Porém, logo abaixo do termo país, apareceu a palavra paisagem que também muito nos chamou a atenção: Paisagem [do

fr. Paysage].

País e paisagem, no francês, têm a mesma raiz semântica. Pesquisamos também no Mini

Houaiss, até por ser utilizado por professores e estudantes da escola básica, e

encontramos país com a seguinte acepção: S.m. 1) território de uma nação

(‘agrupamento’). 2) conjunto de habitantes desse território; 3) pátria, terra. (2004, p.

543). E logo abaixo, o termo paisagem com o sentido de “espaço geográfico”.

Por fim, resolvemos procurar também em outro dicionário da língua portuguesa, publicado durante o período da ditadura militar,140 cujo sentido de país é s.m. Região:

terra: pátria; os habitantes de um país; paisagem; clima.

Neste ponto, a associação de país à pátria, nação e paisagem, comum às três obras, muito nos intrigou. Pesquisamos então no Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio, o significado da palavra, uma vez que o termo, nos dicionários de língua portuguesa, se remete à “pátria” e mais, “país” é associado à nação – sem contar as muitas vezes que o termo foi associado a estado nacional em livros didáticos e nas entrevistas. Desse modo, esperávamos que esse termo estivesse definido no campo da ciência política, o que não se verificou. O referido dicionário apresenta diversos outros termos muito utilizados no campo das ciências sociais, mas nenhuma referência a “país”. Pesquisamos ainda na L´enciclopédia della Geografia - publicada pelo Istituto

139 Até porque alguns professores apontaram os dicionários como fonte de pesquisa para suas aulas. 140

Geográfico De Agostini, em 1996, em Novara, Itália - e também não encontramos uma definição para país (ou “paesi”).

Resolvemos, então, buscar o sentido de “pays” e “paysage” em dicionários de francês. No Larousse, "pays" significa: 1) território de uma nação; nação, Estado. Conjunto de habitantes de uma nação. 2) Região, como espaço físico, climático, econômico, etc. O país do qual se fala ou onde se está. 3) lugar ou região de origem. O Larousse também apresenta pays como pessoa do mesmo vilarejo, da mesma região. Por exemplo, se uma pessoa está fora do Brasil e encontra um brasileiro, usa ou pode usar a expressão "encontrar o país".

Paisagem, para o mesmo dicionário, significa: 1) expansão do país que se pode ver; 2) representação de uma paisagem; 3) aspecto de conjunto, situação de “uma área” (paisagem política, econômica). O/A Paysan/Paysanne é definido como pessoa do campo, que vive do trabalho da terra. Curiosamente, o dicionário observa que os sinônimos agricultor, cultivador, trabalhador agrícola são mais utilizados por causa do valor negativo do termo paysan. No Petit Robert, afirma-se que o termo pays foi criado em 1360, como país; habitante de um pagus, de um canton.

Desse modo, “país” associa-se à “pessoa” e “origem”, ou melhor, ao lugar de origem de certa pessoa. Desse modo, “país” apresenta certa familiaridade entre pessoa e terra, possibilitando o estabelecimento de uma afetividade com o território.

Assim, o argumento de Thiesse (1997) acerca da utilização das monografias regionais, do folclore e da valorização da região (la petit patrie) para a construção da nação francesa ganha ainda mais sentido (la petit patrie enclose dans grande).

Optamos ainda por pesquisar o sentido de “país” nos dicionários de etimologia, filosofia, sociologia e antropologia. Encontramos definição para “país” nos diferentes dicionários de etimologia. Em geral, “país” é associado a “lugar de nascimento,” “terra natal,” “burgo/aldeia,” “nação,” “estado,” “região,” “solo natal.” Porém, nada foi encontrado em dicionários de filosofia e sociologia ou obras de referência, como a Enciclopédia Einaudi.

O sentido que os dicionários de português atribuem ao vocábulo “país” são derivados de seu sentido etimológico, ou seja, “país natal, solo natal”. O sentido de “burgo”, ou de “lugar de nascimento” perde-se ou é substituído por outro, aquele que denota, agora, nossa nacionalidade, não mais, necessariamente, a “terra de nossos pais”, mas a “nossa própria terra”.

A própria escala do vocábulo é modificada: de lugar de nascimento (específico, o burgo, o “lugar”), “país” torna-se a “pátria”, comunidade nacional cuja identidade partilhamos com nossos conterrâneos, mesmo que não os conheçamos a todos.

Assim, apesar de esses termos serem bastante comuns, praticamente não encontramos uma definição precisa deles na área das ciências sociais – ou uma primeira aproximação com o vocábulo, possibilitada por obras introdutórias ou gerais como dicionários específicos e a própria Einaudi.

Como os professores entrevistados definem o termo “país”? Qual o sentido que esta palavra tem para eles? Qual seu significado? A que associam “país”: a nação ou a estado nacional – ou a ambos, indistintamente?

Este conceito/categoria não fez parte das perguntas aos professores, mas à medida que aparecia nos discursos, abríamos mais questões. Era um termo “livre”, explorado apenas quando citado pelo entrevistado. Dos 14 professores entrevistados, 12 se lembraram do termo “país” que é bastante comum nos livros didáticos analisados.

Dois professores citaram também, livremente, sem qualquer indução, a palavra “pátria” (professores Jatobá e Mogno).

A palavra “país”, quando aparecia no discurso dos entrevistados, motivava as seguintes perguntas: de que forma apareceu o termo “país”? Ele se relaciona à nação, ao Estado nacional ou a ambos? Em que contexto você o emprega?

Como pode ser observado nos trechos destacados a seguir, o termo “país” manifesta-se nas concepções dos professores-sujeitos de forma “híbrida”, desprovido de um “sentido político imediato”, variando de acordo com o processo de formação de cada um – em alguns momentos, o termo é relembrado da formação básica de alguns docentes. Ele é tão “corriqueiro”, que é falado sem que sequer se tenha pensado em seu significado – quase como um “ato falho”, ou algo tão comum, que não se observa enquanto se fala, ou seja, não se pronuncia com cuidado, mas como uma palavra que “flui, que escapa” no diálogo, e que pressupõe compreensão imediata pelo outro.

Não estou lembrado. Eu usei o termo país? Passou despercebido. (risos) Eu deveria ter usado nação então. Se usava, usava sempre como sinônimo. Mas, aí o sentido de país qual que seria? [...] Parte física, território formado, fechado, com [...] um povo [...] digamos, suas [...] características peculiares próprias, que é diferente de outros, que tem autonomia, que tem leis, que tem [...] um destino, que tem [...] uma formação mais diferenciada do outro próximo, da nação próxima. Dessa forma. (Professor Figueira)

O uso do termo “país” é tão automático, que o professor sequer tem consciência de ter utilizado em sua entrevista. País aparece como sinônimo de nação e parece referir-se, neste caso, à paisagem, ela também entendida como “aquilo que se vê”, ao território formado (aspectos conferidos pelos mapas políticos em pequena escala), com povo e soberania. De acordo com Almeida (2005)141, “país se adequa a qualquer quadro político-territorial, em qualquer contexto, seja nação, estado nacional e em qualquer estágio de construção”, até por ser um termo relativamente “neutro”, portanto destituído de uma conotação política. Daí seu caráter híbrido e sua utilização massiva e indistinta, tanto pelos professores, quanto nos livros didáticos e mesmo, nos “científicos”.

Eu [...] eh, eu comparo, eu falo que é sinônimo de país até pra facilitar o

entendimento deles porque quando a gente fala país eles têm a noção de Brasil,

que seria um território de poder, com presidente, nem que seja um mínimo, você vai criar, é um espaço que tem presidente, que tem, eh [...], tem deputados, tem senadores. [...] Acho que é um espaço delimitado com leis [...]. Um grande território que tem ali uma lei que determina, todos que estão ali dentro ali tem que se submeter àquela lei. Então, por isso que eu transito aí pra... É uma didatização do assunto. Porque quando a gente está estudando na faculdade a gente não ouve muito falar país. Você quase não ouve. É tudo estado-nação. O que é estado-nação? É país. [...] Estado com E maiúsculo é país, estado com E minúsculo é Minas Gerais. [...] A etimologia da palavra não. Talvez venha de pais, pátria, alguma coisa assim. A pátria seria [...] sinônimo de país. A nação ela é [...] específica de um povo com uma identidade. Pode ser que uma nação seja estado-nação. Por exemplo, vamos pegar a Alemanha. Então, os alemães ali todos reunidos é uma nação que tem um estado [...] instituído pelo poder político que vai administrar ali. É uma nação e um estado-nação. A Espanha você já tem os bascos, que é uma nação, mas não é um estado-nação no meu conceito, que eu estava entre a França e a Espanha. Já a Espanha ali você tem várias nações, você tem também os [...] como é que chama? Catalães. Então, a Espanha é um estado- nação, que tem várias nações dentro. Aí eu falo: “A Espanha também é um país que é sinônimo de estado-nação”. Eu não consigo diferenciar país e estado-nação não. Agora, vou até pesquisar depois dessa... Agora eu estou curioso pra saber.

141 Essas observações foram obtidas diretamente do autor, durante a realização de uma mesa-redonda promovida pelo V Encontro Estadual de Geografia de Minas Gerais, realizado de 26 a 29 de julho de 2005, em Belo Horizonte - MG.

Sinônimo também. Todos são sinônimos. Eu não consigo. Eu não falo pátria não. Nunca falei pátria, fica parecendo uma coisa meio ditadora. A gente lembra da ditadura, do hino nacional, pátria amada, uma coisa mais obediente assim, mais pátria de [...] aquele que, uma coisa mais assistencialista quando a gente fala pátria, um coisa... Assistencialista. Aquela coisa, a pátria vai ser o seu pai que vai estar ali te vigiando. Então, eu não uso a palavra pátria não. (Professor Mogno)

Ele usa o termo “pátria” para dizer que não usa essa palavra, até porque ela remete à vigilância, à ditadura, ao “assistencialismo”. Novamente, a observação anterior de Almeida é crucial, acrescida, neste caso, das questões políticas, territoriais e escalares apontadas por Vlach e Haesbaert:142 para Vlach, “país se refere ao mapa, à forma geométrica e permite abstrair o político, pois, utilizando-se este termo, não se faz a discussão política da sociedade que ali vive;” para Haesbaert “país é criado com a modernidade, a exclusividade de um único país, associando-se neste caso, à questão da escala.”143 País, portanto, seria uma palavra que significa concomitantemente tudo e nada. Um termo que se supõe de compreensão imediata, de consenso geral e utilizado em qualquer escala (territorial e temporal), e ao mesmo tempo, desprovido de sentido e significado (peso?) político; por isso, tão comum, corriqueiro, fácil, intangível e pleno de sentidos.

Outro aspecto muito importante da entrevista do professor Mogno está na afirmação de que na faculdade - ele é recém-formado e está cursando mestrado em geografia, área de concentração “teoria da geografia” - se usa o tempo todo estado nacional, mas nem sempre se precisa seu significado e o contexto no qual é utilizado.

Parece que na escola básica, o termo “país” é muito mais comum. Talvez porque ao utilizar “país” se esvazie a carga política dos termos nações e estados nacionais e permita aos docentes “fugirem ao tema” - sobre o qual parecem sentir-se inseguros, uma vez que afirmaram carecer de formação mais específica para trabalhar estes conceitos, principalmente na graduação. Talvez também essa “fuga da política” seja uma “herança” da “geografia moderna ou tradicional” a se perpetuar na escola básica.

142

Referimos à participação e às observações de Vânia Vlach, Rogério Haesbaert e Lúcio Flávio de Almeida na mesma mesa-redonda, no evento já citado.

143 E aqui constatamos outro hibridismo: originalmente, “país” associava-se à grande escala (o lugar de nascimento); atualmente, refere-se ao estado nacional ou à nação, mas tanto em um como em outro, a escala agora é pequena.

Por que falamos em “herança”? Porque um dos grandes autores e divulgadores da geografia – principalmente a escolar, no Brasil – Aroldo de Azevedo,144 em 1955 escreveu um texto no Boletim Paulista de Geografia em que afirmava a necessidade de se fazer da geografia uma ciência “neutra”, que se distanciasse da senda política, sobretudo aquela associada à geopolítica alemã, que resvalou no nazismo e nos horrores da II Guerra Mundial. Nesse texto, ele afirma, inclusive, que escreve sobre geografia política e geopolítica com certo “temor”, mas o faz por considerar importante discutir e “alertar os jovens geógrafos acerca desta senda tão instável”. Assim, o ensino e a pesquisa de geografia deveriam primar pela neutralidade científica, tão “cara aos franceses”, afastando-se das “influências instáveis da geopolítica alemã”, que levou o mundo ao desastre da II Guerra Mundial.

É possível que este recurso ao termo “país” seja uma tentativa de afastamento da “instabilidade da geopolítica”, de afirmação da “neutralidade” da geografia, de uma “despolitização do discurso geográfico” – mas não exclusivo dele em se tratando do vocábulo “país”. É provável ainda que esteja relacionado à forte influência da geografia francesa sobre a constituição da geografia brasileira (afinal, o termo “pays” é de origem e uso francês, nossa “herança e tradição”).

Em contrapartida, será que o termo “país” não teria sua origem no senso comum, desde praticamente a Idade Média (considerando-se a influência da cultura européia em nossa própria cultura), tendo-se perpetuado na escola básica? Nesse caso, a utilização e mais, a constituição de uma comunidade de sentido para o termo “país” não poderia ser uma produção derivada diretamente da escola básica e que se estende até a produção acadêmica?

No discurso do docente Mogno, os alunos aparecem como “sujeitos ocultos, porém presentes” no diálogo conosco durante a entrevista, sendo o “país” aquele que tem soberania, expressa nos poderes legislativo e executivo, o “lugar” que “identifica” os sujeitos no contexto dos demais “países”.

O professor Pinheiro, por sua vez, associa “país” a limites e fronteiras:

Eu vejo a diferença, país delimitado espacialmente. País, Brasil com uma fronteira. Tem um limite. Isso é país. (Professor Pinheiro)

País associado a fronteiras e, novamente, aos mapas políticos em pequena escala, que lhes conferem “existência e materialidade” no cenário de outras nações. Daí parece que

144 AZEVEDO, Aroldo de. “A geografia a serviço da política”. Boletim Paulista de Geografia. AGB – Seção Regional de São Paulo, n. 21, out. 1955. p. 42 – 68.

há uma gradação entre os termos “país”, nação e estado nacional. “País” implica delimitação, materialidade simbólica nos mapas políticos em pequena escala; nação, por sua vez, remete àquela idéia de identidade, e estado nacional refere-se à posição daquele grupo, daquela organização no cenário mundial, ou seja, estado nacional seria um estágio de negociação/arranjos/acordos/disputas no cenário internacional.

Benzer Belgeler