Inscrito no documento Metodologia (SANTA RITA (PB), 2006), o Plano Diretor do Município de Santa Rita, na visão do setor público, é entendido como instrumento de uma política que vem romper “com o modelo de Planejamento tecnocrata do passado, desvinculado da participação da comunidade”. Além disso, havia a proposta de reforçar a capacidade de gestão territorial e urbana, de forma a “[...] reduzir as desigualdades territoriais e promover a inclusão social [...]”, capacitando e apoiando a participação social no processo de elaboração do Plano Diretor, com base nas orientações definidas pelo Estatuto da Cidade.
O objetivo geral do Plano Diretor Participativo é a preparação e organização da Máquina Administrativa do Município para o atendimento das demandas da população por melhores condições de vida, baseando-se nos instrumentos de políticas urbanas previstas no art. 182 da Constituição Federal e regulamentados pelo Estatuto da Cidade (documento Metodologia).
O pronunciamento feito por representante do setor público e integrante da coordenação do Plano Diretor no primeiro Seminário destaca ainda os aspectos da inclusão, da democracia, de um pacto coletivo de gestão, em que as lideranças são os atores principais:
Plano Diretor é o compromisso espelhado nas potencialidades locais inseridas na estratégia de desenvolvimento regional, includente e democrático, com a justa distribuição dos benefícios desse desenvolvimento [...] “includente” e “democrático”, entendemos que se referem a este lançamento do Plano Diretor da Cidade de Santa Rita, para que as pessoas possam participar, incluir-se nesse processo. [...] é um pacto entre a sociedade civil organizada e os Poderes Executivo e Legislativo, para orientar o desenvolvimento, o ordenamento e a expansão urbana do Município, sob a forma da Lei, conforme previsto no Estatuto da Cidade [...] A construção desse pacto representa um desejo coletivo de projeto para o futuro da cidade. [...] é um projeto da sociedade, da comunidade, cujas lideranças são os principais gestores, pois elas vivem e conhecem a rotina da Cidade, com as quais estão intrinsecamente relacionadas, mais do que nós [do setor público] (Ata Seminário 01).
Um representante do executivo local, palestrante no primeiro seminário, enfatizou aspectos relacionados à infraestrutura, habitação social e acessibilidade, como objetivos do Plano Diretor Participativo de Santa Rita, e que estão relacionados às necessidades da população de baixa renda:
[...] em relação aos objetivos do plano diretor: [...] assegurar a distribuição adequada de espaços, equipamentos e serviços públicos, com a infra- estrutura necessária, atendendo às demandas da população que habita e/ou atua no Município, [...] é propiciar as condições de moradia das áreas ocupadas pela população de baixa renda, preservar e recuperar o meio ambiente natural e construído, [...] melhorar as condições de acessibilidade no Município, através de implemento e adequação da rede viária e de estudo de tráfego, que discipline o fluxo de veículos e determine espaços adequados para estacionamentos (Ata Seminário 01).
Num trecho da fala de um dos entrevistados, representante de entidade dos segmentos sociais populares, que participou de todo o processo de elaboração do Plano Diretor Participativo de Santa Rita, a concepção de plano diretor também é percebida como instrumento de gestão, com foco na melhoria da qualidade de vida da população.
O plano diretor é um instrumento de grande importância na orientação dos gestores no desenvolvimento das políticas urbanas, aonde vai pensar/ planejar o desenvolvimento urbanístico da cidade, para melhorar a qualidade de vida das pessoas, numa forma que trata transporte urbano, mobilidade e acessibilidade. Acho que mais ou menos o entendimento que a gente tem sobre o que o plano diretor pode orientar na gestão administrativa de um governo. (RSC3)
Nas falas dos entrevistados, há também o entendimento da necessidade ou da importância do “olhar” da população, da contribuição daqueles que vivenciam os problemas da cidade, na formulação do plano diretor “para todos”, com projetos e prioridades coerentes com a realidade local, num trabalho de parceria junto ao governo local:
O plano diretor, eu vejo uma abertura onde a população, através de suas organizações sociais, pode contribuir para elaboração de uma cidade para todos. E quando eu digo para todos, é porque muitas vezes se escuta essas questões técnicas nos bastidores, mas que está lá na ponta, quem está lá na periferia tem uma outra visão, tem uma outra necessidade. É uma outra realidade no ambiente onde ele está. Então no momento em que a gente tem um plano diretor participativo, é participação de todos, e quando eu digo a participação de todos é um plano para todos (RSC1).
Eu acredito que vai ajudar muito o gestor a fazer administração mais organizada, mais participativa, ouvindo opiniões, trabalhando de uma forma bem pacífica, elaborando propostas, ouvindo a sociedade, discutindo, debatendo. Com certeza só tem a ganhar um município que trabalhar, nesse sentido, com Plano Diretor (RSC2).
[...] o maior parceiro de um gestor público é a sociedade civil organizada, então, a visão de um gestor não atinge a necessidade de desenvolvimento do município como um todo, então é aí onde entra o plano diretor com a participação da sociedade, é onde a sociedade vai contribuir na construção de um plano diretor, aonde vai atender as suas necessidades, aonde vai atender os seus desejos, os seus sonhos. Saindo daquela cidade que foi construída de uma forma desorganizada para uma cidade melhor planejada, aonde o desfrute da sociedade seja a partir do sonho que ele deseja ver naquela cidade, que ela planejou, que ela conseguiu colocar no papel juntamente com a gestão [...] (RSC3).
O que se observa nos posicionamentos citados, é que tanto o setor público quanto a sociedade civil têm um entendimento convergente acerca da concepção de plano diretor: orientar o desenvolvimento e ordenamento da expansão urbana, atender às demandas da população, assegurar a distribuição adequada dos bens e serviços urbanos, propiciar melhores condições de moradia às populações de baixa renda, recuperar o meio ambiente natural e construído, melhorar a acessibilidade, foram aspectos levantados e que podem contribuir para sair de uma cidade desorganizada para uma “cidade melhor planejada”.
Essas opiniões se afinam com as colocações de Ferreira (1979), sobre os propósitos do planejamento: a definição de objetivos comuns que se pretende alcançar, envolvendo diferentes grupos ou organizações, comprometidos e interessados na sua realização, considerando os meios e recursos limitados para implementá-los.
Incluir a participação no processo, capacitar e apoiar essa participação, elaborar um plano includente e democrático, realizar um pacto entre setor público e sociedade civil, contemplar necessidades da população mais vulnerável, foram colocações feitas pelo setor público que reforçam o propósito de uma efetiva participação social no processo de elaboração do Plano Diretor Participativo de Santa Rita. São afirmações que se coadunam com os pontos de vista dos entrevistados, representantes da sociedade civil, quanto ao envolvimento da sociedade no processo.
Tomando-se por referência Bordenave (1983), mais do que “fazer parte” ou “participar de forma passiva”, há um interesse e um consenso por uma “participação ativa”, o que acontece quando se “sente parte” ou se “tem parte” de um processo participativo, e, nesse caso, de se sentir parte do processo de formulação do plano diretor do município. Pelo que foi mencionado por diversos sujeitos, há uma conjunção de interesses e intenções a partir das concepções e objetivos, na construção do Plano Diretor Participativo de Santa Rita, com participação social, enquanto um plano para todos, de uma cidade para todos, “uma cidade onde os moradores possam viver bem” (Ata do Seminário 01).
Nos posicionamentos, portanto, há uma intenção por mudanças na maneira de planejar, de viabilizar a elaboração do Plano Diretor, estando inclusive em consonância com as normas em vigor, que orientam para o envolvimento da sociedade civil no processo. Entretanto, só a intenção da “participação” não significa que mudanças efetivas possam ocorrer. Conforme Demo (2001) e Albuquerque (2004), num estado privatista por tradição, de relações corporativas com os grupos dominantes, “participação” é um processo de conquista onde a redução das desigualdades sociais só acontece pelo esforço dos sujeitos em participar na defesa de seus interesses, interferindo nos processos de tomadas de decisão.
Como visto no Capítulo que trata da atual política de desenvolvimento urbano do país, uma etapa desse processo de conquista se concretizou no plano legal, e de acordo com o artigo 2º, inciso II, do Estatuto da Cidade, a gestão democrática no planejamento urbano deve acontecer através da participação da população e de suas representações sociais, na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano (BRASIL, 2001). Essa determinação foi detalhada na Resolução nº 25/2005 do Conselho Nacional das Cidades, já comentado anteriormente.
No município de Santa Rita, a gestão local procurou envolver os segmentos sociais no processo de elaboração do Plano Diretor que teve, para tanto, como elemento principal o
chamado Programa de Participação Popular, culminando com a realização de seminários temáticos onde houve a participação de representantes do setor público e da sociedade civil. Dessa forma, atendeu-se aos preceitos relativos à participação na elaboração de planos diretores constantes na legislação em vigor. No entanto, como se pode observar neste trabalho, houve momentos de afirmação e de negação da participação, resultado da maneira como todo o processo de elaboração do Plano foi conduzido. Mesmo assim, percebe-se aspectos positivos na formulação dessa Lei, na medida em que ela incorporou reivindicações dos segmentos sociais que representam os interesses da população excluída socialmente, apesar de não estar claro, na referida Lei, quais serão os encaminhamentos e os procedimentos para sua viabilização.
Como aborda Villaça (2005), a maneira como essa participação social acontece não deixa de ser uma mudança no paradigma ideológico, uma reorientação do enfoque ideológico vigente, que é focado no interesse de uma minoria dominante, na medida em que se considera as contribuições e as demandas expressas pelas representações das camadas mais amplas da população, nos momentos de participação e tomadas de decisão, aspectos estes averiguados neste trabalho.