2. GEREÇ ve YÖNTEM
2.2. YÖNTEM
2.2.8. Tibia Külü, Kalsiyum, Fosfor, Mangan ve Çinko
A entrevista realizada com P3, categorizada no Quadro 6, apresenta, em minha análise, um claro e forte posicionamento perante as questões sociais, construído a partir do também forte envolvimento com o Pensamento Sistêmico.
Categorias Subcategorias Elementos
História
Motivações iniciais
- Influência do Pensamento Sistêmico: “dando conta da questão social e da Psicologia” – “equação que uniu questões sociais e questões relacionais”
- Influência do desenvolvimento da Terapia Familiar: “...onde delírios ganhavam sentido”
- Questionamento da prática psicológica: “exacerbação do individualismo” (pela psicanálise) – “falta de
profissionais para demandas típicas dos postos de saúde”
- Inquietações políticas: “alienação dos psicólogos” – “consciência política” – “busca por mudança social”
Passos iniciais
- Atrelamento ao Pensamento Sistêmico: “divulgar a questão sistêmica”
- Foco em formação: “eventos, cursos e publicações” - Foco no tema da violência: “construir sociedade pacífica” – “violência como construída no contexto”
Expansão
- Construção de “metodologias aplicáveis” - Colaboração com Políticas Públicas - Atuação como “grupo gestor”
- Desenvolvimento de “campanhas e oficinas” - Colaboração na “construção de leis que busquem proteger contra a violência”
Estrutura
Adesões teóricas - “Abordagens construtivistas e construcionistas do pensamento sistêmico” - “Marca mais forte”: Construcionismo
Estratégias e ferramentas
- “Prevenção e intervenção”
- Criação de “situações mais reflexivas” - “Práticas de grupo”
Categorias Subcategorias Elementos
Concepções
Relações com a clínica psicológica
- “Um nozinho”: “não se trabalha pressupondo uma mente individual”
- “Consultório em outros contextos”
- Clínica: “toda e qualquer intervenção que seja intencional na busca por melhoras”
- Psicoterapias como “exclusivas dos psicólogos”; terapias como “exclusivas de ninguém”
Relações da clínica com o social
- “Clínica individual e ação social: a mesma escuta” - “Ação social como clínica, e não clínica como ação social”
- “Ouvir demandas das problemáticas sociais”
Responsabilidade social
- “Não é a dada” – “dentro da responsabilidade relacional” – “se tudo é construído na linguagem não dá prá dizer que não tenho nada com isso”
- “Saúde é do Estado” – “não somos um centro de atendimentos”
Acompanhamento e avaliação
Sistematização - - “De acordo com objetivos de cada projeto” “De resultados” – Setor de avaliação - “Não de longo prazo como gostaríamos”
Limites - A “gestão institucional” – “manter a coerência com o que se acredita” - “Lugar de tensão” – “chamado para o autoritarismo”
Quadro 6: Categorias temáticas construídas a partir da análise da entrevista realizada com P3
A história do I3 se entrelaça, para P3, com inquietações que se construíram desde a percepção de uma Psicologia que “exacerbava o individualismo” em suas práticas, até a percepção de uma “alienação” dos psicólogos perante as questões políticas. Uma constatação, e muitas vezes uma crítica, também feita por autores que buscam construir a história da Psicologia Clínica, conforme vimos no segundo capítulo deste trabalho. Parecia haver para P3 uma “busca por mudanças sociais” que não encontrava ressonâncias nas práticas da Psicologia desenvolvidas até então. A resposta parece ter se construído a partir do encontro com o Pensamento Sistêmico, cuja influência foi descrita como uma importante motivação para a fundação deste instituto.
Ao afirmar que esse encontro – com o Pensamento Sistêmico – veio “dar conta da questão social e da Psicologia”, ou que se apropriou dele como a “equação que uniu questões sociais e relacionais”, ajuda a compreender como é que a adesão a este pensamento provocou e tem provocado movimentos de abertura e ampliação das
ações psicológicas, na direção de um maior envolvimento e comprometimento com a sociedade, ou com o indivíduo em sociedade. Pensa-se que justamente por viver, sem resistências (afinal, era por isso que buscava!), as implicações da união da Psicologia com as questões sociais, que as práticas do I3 ganharam a força e pró- atividade que senti nos relatos desta entrevista.
Os passos iniciais confirmam a importância desta adesão ao revelar que o primeiro movimento do instituto foi o de “divulgar a questão sistêmica”, colocando na ocasião o foco na formação, oferecendo cursos, promovendo eventos e publicações. Um comprometimento inicial com a teoria que revela seu pragmatismo na escolha do polêmico tema da “violência”, transformando-se em um comprometimento político- social, ou melhor, seria dizer um posicionamento – teórico, com implicações sociais – por entenderem “a violência como construída no contexto”. O posicionamento se confirma ainda na declarada intenção de “construir um mundo mais pacífico”.
Sua adesão teórica, dentro do Pensamento Sistêmico, acompanhando seu desenvolvimento, construiu-se nas abordagens Construtivista e Construcionista, revelando alimentar-se das contribuições de ambas, mas apontando uma “marca mais forte” para o Construcionismo. Uma adesão, em sua estrutura, que justifica a escolha de estratégias associadas à criação de “situações mais reflexivas”, em “práticas de grupos”, por acreditar na construção relacional do conhecimento. Já os elementos “prevenção” e “intervenção” podem apontar para uma possível contradição com esta posição, se compreendidos de forma linear e hierárquica. Mas, ao se considerar a possibilidade de prevenção e intervenção realizadas de forma a contemplar o processo reflexivo, esta contradição se desconstrói.
Na subcategoria que se refere à abrangência de suas ações, no que tange à sua
clientela, vê-se uma postura que pode ser compreendida como uma quebra de
dicotomias – privado/público – quando declarou que podem atuar “onde somos chamados”, em qualquer dos setores, privado ou público, uma posição que se avalia como mais útil, em tempos contemporâneos, para a compreensão e ação com sistemas humanos. No entanto, quando foi convidado a refletir sobre o que entende como sendo a responsabilidade social do I3, acaba por afirmar que “saúde é do Estado”, numa possível contradição perante a afirmação anterior de abertura para ambos os setores.
Ainda com relação à clientela, surgiu o elemento “demanda espontânea ou não” (que se referia, na entrevista, aos casos encaminhados pela Justiça), uma atitude que se compreende dentro do que foi qualificado como sendo de forte adesão às suas crenças e valores. Assim sendo, se a crença está no poder transformador do diálogo e da reflexão, como próprio das abordagens Construtivistas e Construcionistas, esses recursos poderão ser oferecidos como estratégia de ajuda, em qualquer condição, inclusive na de presença obrigatória. E ainda, se há a crença no poder terapêutico do processo grupal, pode-se afirmar que o desejo de estar no grupo, com os consequentes benefícios deste pertencimento, pode se construir ao longo do processo, ao se sentir acolhido genuinamente.
Ao conversar sobre suas concepções relativas à clínica psicológica, P3 trouxe, como primeira reação, a expressão “um nozinho!”, referindo-se ao fato de, a partir de seus pressupostos teóricos, não se trabalhar “pressupondo uma mente individual”. Avalia-se que o nó aqui presente pode estar relacionado ao que Neubern (2001) chamou de “perspectiva individualista”, considerando como unidades também o casal ou a família, que promoveriam uma ação que desconsiderasse a complexidade dos fenômenos. No entanto, a clínica psicológica, em suas ações contemporâneas, tem revelado que pode ir além desta perspectiva, sem deixar de ser Psicologia Clínica, como o próprio P3 parece acreditar, ao apontar a possibilidade da existência de “consultório em outros contextos”.
O “nozinho” trazido por P3 expõe o desafio atual da Psicologia Clínica em se redefinir perante seus novos passos, que tem levado à expansão de seu campo de atuação, uma extensão que pode produzir inclusive uma quebra de fronteiras entre as diferentes áreas de atuação com os fenômenos humanos, instalando-se neste cenário o questionamento a respeito de quem seria o “dono” do terapêutico. Para o I3, segundo P3, a construção útil neste momento, é a de que as psicoterapias seriam “exclusivas dos psicólogos” e as terapias, “exclusivas de ninguém”. Vislumbra-se aqui uma tentativa de reorganização perante as consequências de ações que se desenvolvem em um contexto de inter ou transdisciplinaridade, considerando, como Vasconcellos (2002), que a Teoria Sistêmica convida a “transcender as fronteiras disciplinares” (p. 187). Cita- se a Teoria Sistêmica, por entender que, foi no encontro com este pensamento que a
Psicologia potencializou sua vocação transdisciplinar, apoiando-me na concepção de Figueiredo (2004) da Psicologia como uma disciplina que mais do que estar entre outras, estaria constituída “no e pelo entre outras” (p. 108).
A clínica, conforme vivenciada por P3, ganha dele uma definição, quando a relaciona a “toda e qualquer intervenção que seja intencional na busca por melhoras”. Chama-se atenção aqui para os elementos intervenção e intencional, como presenças que marcam também um posicionamento, agora como parte da atitude clínica. Uso a palavra também, por estar aqui corroborando minha avaliação, a partir das construções de P3, de ser este um instituto, que se posiciona com clareza. Uma atitude que vem acompanhada de um inequívoco envolvimento, que se pode perceber na expressão usada para tratar das relações da clínica psicológica com o social, ao se referir aos contextos em que atuam e como chegam lá, afirmando que é preciso “ouvir demandas das problemáticas sociais”.
Como parte da sua percepção de clínica, vivida na concepção sistêmica do social, trouxe uma afirmação que pode causar um estranhamento perante os seus referenciais sistêmicos, dizendo que “clinica individual e ação social” teriam “a mesma escuta”. Mas o estranhamento pode se desfazer perante uma definição que, conforme Aun (2005), associa trabalho clínico ao contexto do consultório, e trabalho social aos contextos estabelecidos por grupos, instituições e rede sociais. P3 pode ter se referido, ao falar de “clínica individual” ao contexto do consultório, sendo que a posição sistêmica ficaria sustentada pela referência à “mesma escuta”. Não se trata aqui de restringir a compreensão da clínica ao contexto do consultório e sim de apontar uma de suas características.
Como compreender então a afirmação de P3 de que seria possível a “ação social como clínica”, mas não a “clínica como ação social”?
Sua concepção da responsabilidade social inerente às práticas do I3 trouxe elementos de uma implicação que se construiria a partir da aceitação de que “tudo é construído na linguagem” – como próprio das abordagens pós-modernas a que aderiram como embasamento – e, sendo assim, não daria para dizer “não tenho nada com isso”, já que a construção na linguagem é relacional, resultante do posicionamento de todos, mesmo que seja mediante o silêncio. A linguagem está aqui, portanto
compreendida, conforme definição de Gergen (2010, p. 59), como um “processo interativo, construído nos espaços compartilhados de pessoas em relação”.
Já a responsabilidade com o acompanhamento e avaliação das práticas do I3, tem sido realizada por meio de procedimentos sistematizados por um setor de avaliação, pautados nos objetivos de cada projeto, sendo a avaliação classificada como “de resultados”, e não ainda a de “longo prazo” como gostariam. P3 revelou aqui cuidado e preocupação com essas questões, assim como com a “gestão institucional”, entendida por ele como “lugar de tensão”, perante a busca de coerência com as crenças e pressupostos do instituto, que teriam como consequência relações mais heterárquicas, implicando a todos nas decisões.