Quanto aos acordos setoriais pressuporem consenso, harmonia, alinhamento de interesses e expectativas, bem como conjugação de esforços entre Poder Público e setor empresarial, na prática, essas premissas podem não se concretizar, especialmente por parte da União, que, porventura, pode criar diversos subterfúgios e óbices para não ver descrito nos acordos o rol de obrigações visando assegurar a implementação e operacionalização dos sistemas de logística reversa. A título de exemplo, poderiam compreender obrigações da União no âmbito dos acordos setoriais:
a. acompanhar, por intermédio do MMA, a execução dos acordos;
b. formular, executar e fazer cumprir, em âmbito nacional, a Política Nacional do Meio Ambiente em geral e a Política Nacional de Resíduos Sólidos em particular;
c. assegurar tratamento não discriminatório de forma a primar pela isonomia no cumprimento da PNRS;
d. regulamentar, no âmbito de sua competência normativa, as matérias relacionadas ao transporte interestadual e/ou intermunicipal dos produtos pós-consumo; a rótulos e/ou as embalagens de produtos, incluindo, mas não se limitando, a informações que tais rótulos ou embalagens devam conter; à realização da reciclagem de produtos pós-consumo exclusivamente em determinado Estado ou Município; à exigibilidade de licenças e/ou autorizações ambientais dos pontos de recebimento ou PEV;
e. cumprir e fazer cumprir, na sua esfera de competência, o disposto na Lei Federal n. 9.795/1999 e no Título IX do Decreto Federal n. 7.404/2010,49 que tratam de educação ambiental na gestão de resíduos sólidos;
f. cumprir e fazer cumprir, na sua esfera de competência, o disposto no Título VIII do Decreto Federal n. 7.404/2010, notadamente o parágrafo
49 “Art. 77. A educação ambiental na gestão dos resíduos sólidos é parte integrante da Política Nacional
de Resíduos Sólidos e tem como objetivo o aprimoramento do conhecimento, dos valores, dos comportamentos e do estilo de vida relacionados com a gestão e o gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos. § 2o O Poder Público deverá adotar as seguintes medidas, entre outras,
visando o cumprimento do objetivo previsto no caput: I – incentivar atividades de caráter educativo e pedagógico, em colaboração com entidades do setor empresarial e da sociedade civil organizada; II – promover a articulação da educação ambiental na gestão dos resíduos sólidos com a Política Nacional de Educação Ambiental; III – realizar ações educativas voltadas aos fabricantes, importadores, comerciantes e distribuidores, com enfoque diferenciado para os agentes envolvidos direta e indiretamente com os sistemas de coleta seletiva e logística reversa; IV – desenvolver ações educativas voltadas à conscientização dos consumidores com relação ao consumo sustentável e às suas responsabilidades no âmbito da responsabilidade compartilhada de que trata a PNRS; V – apoiar as pesquisas realizadas por órgãos oficiais, pelas universidades, por organizações não governamentais e por setores empresariais, bem como a elaboração de estudos, a coleta de dados e de informações sobre o comportamento do consumidor brasileiro; VI – elaborar e implementar planos de produção e consumo sustentável; VII – promover a capacitação dos gestores públicos para que atuem como multiplicadores nos diversos aspectos da gestão integrada dos resíduos sólidos; e VIII – divulgar os conceitos relacionados com a coleta seletiva, com a logística reversa, com o consumo consciente e com a minimização da geração de resíduos sólidos.”
único do artigo 71 e o artigo 73,50 no que se refere à instituição do Sistema Nacional de Informações Sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (Sinir); g. fiscalizar, na sua esfera de atribuições, o cumprimento dos acordos setoriais, observada a competência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para lavrar auto de infração e instaurar processo administrativo para a apuração de infrações à legislação ambiental no que diz respeito aos sistemas de logística reversa objeto;
h. notificar, no caso de descumprimento de obrigações dos acordos setoriais, a(s) parte(s) do ocorrido com a descrição clara e objetiva dos fatos e a indicação dos respectivos dispositivos legais e contratuais violados, acompanhadas de Laudo Técnico de Constatação;
i. lançar editais para incentivo a pesquisa e desenvolvimento (P&D), assim como apoiar e incentivar pesquisas realizadas por órgãos oficiais, pelas universidades, por organizações não governamentais e pelo setor empresarial, com a finalidade de promover o desenvolvimento de conhecimento e tecnologias relacionadas à gestão integrada e ao gerenciamento de produtos pós-consumo;
j. fomentar e incentivar a fabricação de produtos com maior potencial de reciclagem ou maior conteúdo de materiais reciclados em sua composição; l. contribuir significativamente para a consecução da viabilidade técnico- econômica dos sistemas de logística reversa objeto de acordos setoriais; k. fomentar e estimular, em articulação com os órgãos e entidades do Poder Público competentes, a infraestrutura necessária para os sistemas de logística reversa objeto de acordos setoriais e para a reciclagem; e
m. desenvolver mecanismos de financiamento, benefícios e incentivos fiscais relacionados aos sistemas de logística reversa, conforme anteriormente comentado.
50 “Art. 71. Fica instituído o Sistema Nacional de Informações Sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos
(Sinir), sob a coordenação e articulação do Ministério do Meio Ambiente, com a finalidade de: I – coletar e sistematizar dados relativos à prestação dos serviços públicos e privados de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, inclusive dos sistemas de logística reversa implantados; II – promover o adequado ordenamento para a geração, armazenamento, sistematização, compartilhamento, acesso e disseminação dos dados e informações de que trata o inciso I; III – classificar os dados e informações de acordo com a sua importância e confidencialidade, em conformidade com a legislação vigente; IV – disponibilizar estatísticas, indicadores e outras informações relevantes, inclusive visando à caracterização da demanda e da oferta de serviços públicos de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos; V – permitir e facilitar o monitoramento, a fiscalização e a avaliação da eficiência da gestão e gerenciamento de resíduos sólidos nos diversos níveis, inclusive dos sistemas de logística reversa implantados; VI – possibilitar a avaliação dos resultados, dos impactos e o acompanhamento das metas dos planos e das ações de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos nos diversos níveis, inclusive dos sistemas de logística reversa implantados; VII – informar a sociedade sobre as atividades realizadas na implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos; VIII – disponibilizar periodicamente à sociedade o diagnóstico da situação dos resíduos sólidos no País, por meio do Inventário Nacional de Resíduos Sólidos; e IX – agregar as informações sob a esfera de competência da União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Parágrafo único. O Sinir deverá ser implementado no prazo máximo de dois anos, contados da publicação deste Decreto.
Art. 73. A implementação do Sinir dar-se-á mediante: I – articulação com o Sinima e com o Sistema Nacional de Informações de Recursos Hídricos – SNIRH; II – articulação com os órgãos integrantes do Sisnama, para interoperabilidade entre os diversos sistemas de informação existentes e para o estabelecimento de padrões e ontologias para as unidades de informação componentes do Sinir; III – integração ao Sinisa no tocante aos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos urbanos; e IV – sistematização de dados, disponibilização de estatísticas e indicadores referentes à gestão e gerenciamento de resíduos sólidos.”
No entanto, o que se observa com o acordo setorial que visa estruturar e implementar sistema de logística reversa de embalagens plásticas usadas de óleos lubrificantes, ou seja, o único acordo por ora celebrado, é que as obrigações da União estão limitadas a elaborar algumas ações de educação ambiental, nos termos do § 2o, art. 77 do Decreto 7.404/2010, “monitorar a efetivação do sistema, junto às entidades signatárias deste Acordo Setorial e aos órgãos ambientais competentes, realizando reuniões, no mínimo anuais, para avaliação e implementação de medidas de suporte que lhes forem competentes, e participar dos programas de divulgação do presente Acordo Setorial”.
7.6 Antecipação da solução de conflitos inerentes às esferas do Poder Executivo