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TİCARİ DEFTER VE BELGELERİN ZIYAI

A reconstituição dos quatro primeiros anos do período Militar no Espírito Santo precisa contar com a lembrança de quem viu. Tornar esse problema metodológico um impedimento para validade da pesquisa é o mesmo que pedir às laranjas que não nasçam amarelas. É impossível registrar totalmente um acontecimento, por isso é impossível lembrar totalmente dele. Nossa capacidade (orgânica e psíquica) de percepção é muito inferior ao que pode ser percebido. Além disso, o mecanismo da lembrança perpassa o de escolha. Soma-se a isso a imensa imprecisão que esquecimento acarreta ao processo de memória. O ponto é que a percepção do tempo depende de como o significamos.

A memória conserva fragmentos do passado e conserva informações que passam por um processo de organização e reconstituição. “Ä autonarrativa, e por conseqüência a identidade, são apoiadas por essas informações e – mais do que isso – pelo uso que o grupo ou individuo faz dessas informações” 68.

Em relação a memória, ressalta-se que ela é sempre constituída pelo par lembrança esquecimento, motivada por interesses do presente, o

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FÁBRICIO, Branca Falabella, e LOPES, Luiz Paulo da Moita in Mídia e Memória: a produção de sentidos

nos meios de comunicação / organizadoras Ana Paula Goulart Ribeiro, Lúcia Maria Alves Ferreira – Rio de

que faz com que um grupo esteja constantemente reconfigurando aquilo que ele acha mais importante sustentar como lembrança69.

O caminho traçado segue o seguinte: um depoimento é feito de lembranças, que dependem da memória, que é o resultado do embate de trabalhos de significações do Estado, da sociedade e do próprio individuo. É justamente essa força de governo, do ambiente e da personalidade os indutores das representações criadas pelo homem e que interferem diretamente na maneira com que ele se apropria de seu tempo, interage com ele, o conta. Mas tudo isso depende do processo de memorização dos indivíduos. Um mecanismo que, segundo Freud, tem ligação direta com o trauma. O pai da psicanálise defende que o trauma aumenta o poder de fixação de ações ou fenômenos da existência, ou seja, é catalizador de memorização. Freud define a experiência traumática como aquela que o individuo não consegue assimilar totalmente quando ela ocorre. Sendo assim, o testemunho não é uma narração de fatos violentos, “mas da resistência aos mesmos”.

A psicanálise vê a história ligada ao trauma70. Primo Levi trabalha com o conceito de memória da catástrofe. Defende que o processo de memorização é uma leitura de cicatrizes. O acontecimento real se transforma em estrutura imagética, que consiste na imagem fixada somada ao conhecimento que o individuo possui sobre ela. Freud sugere que essa estrutura está no centro do aparelho psíquico humano. Coisa que se maximizou com o advento do

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FÁBRICIO, Branca Falabella, e LOPES, Luiz Paulo da Moita in Mídia e Memória: a produção de sentidos

nos meios de comunicação / organizadoras Ana Paula Goulart Ribeiro, Lúcia Maria Alves Ferreira – Rio de

Janeiro: Mauad X, 2007, p 146.

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SILVA, Márcio Seliggmann in História Memória, Literatura / SILVA, Márcio Seliggmann, organizador – Campinas, SP: Unicamp, 2003. p 48.

cinema e da fotografia, que povoaram com mais imagens o inconsciente ótico humano, acostumado a conectar idéias junto de imagens para lembrar de fatos71.

Por si só, o homem é um ser de linguagem. O ato de contar histórias é uma tradição da existência humana, como tem por objetivo se fazer entender, deve ser guiado por uma lógica narrativa: a língua: justamente o elo que liga o inconsciente ao consciente do individuo. De acordo com Walter Benjamin, a narrativa é elo de ligação do passado com o presente. Só entendemos o processo temporal porque ele é narrado. Mais que isso, ele é um ato provido de consciência reflexiva que busca construir identidades, ou seja, produzir uma história que faça sentido para quem a conta, e não só para quem escuta. Sendo assim, a maneira como narramos um acontecimento tem ligação direta com o modo como significamos o mesmo. Tudo depende “dos processos, ferramentas e atores sociais que dão sentido aos dispositivos”72.

A língua tem indicado inequivocamente que a memória não é um instrumento para exploração do passado; é, antes, o médium onde se deu a vivencia assim como o solo é o médium no qual as antigas cidades estão soterradas. Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. Antes de tudo, não deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalhá-lo como se espalha terra, revolve-lo como se revolve o solo, pois fatos nada são além de camadas que apenas à exploração mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escavação, ou seja, as imagens que, desprendidas de todas as conexões mais primitivas, ficam

71 SILVA, Márcio Seliggmann in História Memória, Literatura / SILVA, Márcio Seliggmann, organizador –

Campinas, SP: Unicamp, 2003. p 51, 76, 373, 394, 399.

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BARBOSA. Marialva, Carlos. Percursos do Olhar. Comunicação, narrativa e memória. Niterói: EdUFF. 2007, p 147.

como preciosidades nos sóbrios aposentos de nosso entendimento tardio, igual a torços na galeria do colecionador. E certamente é útil avançar em escavações segundo planos. Mas é igualmente indispensável a enxadada cautelosa e tateante na terra escura. E se ilude privando-se do melhor, quem só faz o inventário dos achados e não sabe assinalar no terreno de hoje o lugar no qual é conservado o velho. Assim, verdadeiras lembranças devem proceder muito menos informativamente e [antes] indicar o lugar exato onde o investigador se apoderou delas. A rigor, [...] uma verdadeira lembraça deve, portanto, ao mesmo tempo fornecer a imagem daquele que se lembra, assim como um bom relatório arqueológico deve não apenas indicar as camadas das quais se originam sés achados, mas também, antes de tudo, aquelas outras que foram atravessadas anteriormente.

Cabe ao micro historiador, e também ao jornalista, desvendar nas contradições e na pluralidade de pontos de vista vestígios de contextos sólidos que somem a rememoração total do acontecimento. O trabalho da micro-historia é uma cultura da busca infinita de informação, “tenta não sacrificar o conhecimento dos elementos individuais a uma generalização mais ampla, e de fato acentua a vida e os acontecimentos individuais. Mas, ao mesmo tempo, tenta não rejeitar todas as formas de abstração, pois fatos insignificantes e casos individuais podem servir para revelar um fenômeno mais geral”73. A própria expressão história vista de baixo, aplicada ao proceder da micro-história, implica que existe algo acima que também deve ser considerado. Pessoas comuns não podem ser desvinculadas de seu contexto social.

73 LEVI, Giovanni. A Escrita da História, novas perspectivas / Peter Burke (org) – São Paulo: UNESP: 1992.

O ruído do tempo é inerente ao trabalho alocado na plataforma oral. Na verdade, toda lembrança é uma construção que tem certo imprevisível. Fica a mercê do mentiras, enganos, esquecimentos. Existe risco dela não corresponder a um fato. Sendo assim, cabe ao pesquisador lembrar que o tempo faz esquecer. É preciso atenção para separar o fato narrado do que realmente aconteceu, ou da interpretação de quem o contou. Uma declaração tem muito de discurso. Pessoas podem sinceramente dizer imprecisões. Isso pode ser propositado, ou não.