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Senetle İspat Kuralının İstisnaları

C. BELGE VE SENET KAVRAMI, SENETLE İSPAT ZORUNLULUĞU VE

3. Senetle İspat Kuralının İstisnaları

4.1 1º de abril

“Tive participação direta na revolução, como governador ajudei integralmente o movimento revolucionário de 1964, tendo participado ao lado do coronel Newton Reis, então chefe militar da guarnição de Vitória e comandante do Batalhão Tibúrcio. Mantive

entendimentos com o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, e com os chefes militares de Minas Gerais visando à vitória da revolução, isto aproximadamente seis meses antes da revolução.” (LACERDA, Francisco. Diário Pessoal)

O telefone ofendeu o silêncio. – Alô! Tô indo – e mais nenhuma palavra. Desligou, levantou e escolheu a roupa com o tato. Blusa, botão, calça, cinto, sapato, cadarço, blazer e rua. A quarta-feira nem havia amadurecido em dia quando Setembrino Pelissari saiu de casa. Pela janela do carro passavam centenas de portas fechadas, o comércio e os prédios dormiam sem se incomodar com a luz da rua, que ainda estava acesa. O clichê da madrugada só era deixado de lado em um pedaço daquela noite: o salão nobre do Palácio Anchieta.

Lá, gente de gravata tentava prever o futuro e convocava o resto dos aliados e do secretariado do governo para fazer o mesmo. Setembrino era deputado estadual, logo que chegou foi procurar o resto das palavras que não pode trocar pelo telefone, mas era difícil achar alguma certeza em meio a tantos boatos. Uns falavam que o exército de São Paulo78 iria encontrar as tropas de Minas e haveria um embate, outros que Jango tinha fugido, mas a verdade era que ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, apesar das inúmeras ligações feitas em busca de notícias.

78 Na última hora, o golpe ficou dependendo da adesão do general Amaury Kruel, comandante do 2.º Exército,

baseado em São Paulo, e amigo pessoal de Goulart. No dia 31 de março, pressionado pelos outros golpistas, Kruel ligou para Goulart e lhe pediu que recuasse. Goulart disse não e Kruel escolheu um lado.

As poucas respostas sobre a temperatura do resto do país aumentavam o volume dos pontos de vista (opostos) que circulavam os ouvidos de um sujeito chamado pelo povo de Dr. Chiquinho, e pela história de Francisco Lacerda de Aguiar, governador do Espírito Santo. De um lado o presidente da CGT79 do estado, Manoel Santana, pedia o apoio para Jango, do outro, as notícias que vinham dos demais estados e do 3º BC80 apontavam que a “revolução democrática” ia ganhar a briga. Como Chiquinho tinha boas relações com os dois lados daquela disputa, era melhor esperar a poeira baixar antes de qualquer decisão. Se o presidente se mantivesse no poder, ele sobreviveria, e se a provável vitória dos militares acontecesse, ele possuía uma carta secreta na manga já fazia algum tempo.

Cerca de seis meses antes do golpe, o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, esteve no Espírito Santo. O objetivo oficial da visita era a inauguração de uma agência do

Banco Crédito Real de Minas Gerais81, mas ele aproveitou para fazer um acordo82 com Chiquinho. Ficou acertado que o Espírito Santo apoiaria o movimento revolucionário e que os portos e ferrovias capixabas viabilizariam a entrada de mantimentos e armas que alimentariam as tropas mineiras num possível embate com forças janguistas83.

A preferência de Chiquinho pelo lado militar da trincheira tem uma explicação simples, ele acreditava que a bandeira que Jango defendia lhe roubaria o governo do estado cedo ou tarde. Adivinha quem o convenceu disso? Magalhães Pinto! “O objetivo de Jango ele

79 Confederação Geral dos Trabalhadores do Espírito Santo.

80 O nome Batalhão Tibúrcio é uma homenagem ao tenente coronel Antonio Tibúrcio Ferreira Souza, que foi

comandante na Guerra do Paraguai (1865-1872). Com mais de 150 anos de existência, o Batalhão se chamou 3º BC (Batalhão de Caçadores) de 11 de maio de 1964 a 1º de janeiro de 1973, quando passou a ser chamado de 38º BI (Batalhão de Infantaria), denominação que conserva até hoje. Na época da Ditadura o local foi palco de muitas prisões e torturas, principalmente após o AI-5, na chamada Oban (Operação Bandeirantes), que passou pelo Espírito Santo em 1973, prendendo militantes do PC do B.

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Foi incorporado pelo Bradesco em março de 1988.

82 Em 1963, os dois governadores já haviam feito um acordo que dividiu a região do Contestado entre os dois

estados, o “Acordo Bananal”.

nunca me falou, mas eles me falaram: era fazer aqui uma república sindicalista, até disseram que o Espírito Santo era o primeiro estado e Sergipe o segundo. Então ia chegar aqui um sindicato e assumir o governo e eu, naturalmente, ia procurar apoio, não tinha, e ficava por isso mesmo. Aí faziam em Sergipe, em um outro estado pequeno até chegar nos grandes. Isso quem me falou foi o Magalhães Pinto”, conta Chiquinho numa entrevista de 198184.

Antes de ter medo de Jango, Chiquinho era muito íntimo do presidente, que costumeiramente vinha descansar nos fins de semana e feriados prolongados na residência oficial do governo, na Praia da Costa85. No dia 12 de fevereiro, o presidente voltou ao estado para pescar e buscar sua esposa e filhos, que veraneavam em Vila Velha. No dia 15, aproveitou para fazer uma reunião com um grupo de 40 lideranças86 que coordenavam o movimento contra a Central Brasileira de Energia, atual Escelsa. Jango apoiava a estatização das concessionárias elétricas87 controladas por empresas estrangeiras, e não seria diferente no caso do Espírito Santo. O presidente deixou a privatização a cargo de Chiquinho, que a essa altura já confabulava com Magalhães Pinto, e se propôs a colaborar financeiramente para a compra da Companhia.

84 Instituto Jones dos Santos Neves. Depoimento de Francisco Lacerda de Aguiar (Fita 3). 85 A família Goulart passou o carnaval de 1964 no Espírito Santo

86 Deputado José Parente Frota (presidente da Comissão), Américo Bernardes (prefeito de Vila Velha), Augusto

Calmon Nogueira da Gama (presidente da Frente de Mobilização Popular), Manoel Santana (presidente do Conselho Sindical), Bianor Ribeiro (Delegado do Trabalho), Celso Mério (industrial), Guilherme Brender (delegado da Supra) Marien Calixte (jornalista de O Diário), Jorge Miranda (estudante), Rubens Gomes (o pai), Benjamim de Carvalho Campos, José Cupertino Leite de Almeida, Cristiano Passarela, José Carlos Pereira de Souza, Raulino Gonçalves e José Antônio Costa (vereadores de Vila Velha), José Maria Cláudio, Hugo Ranconi, Hélio Nogueira Gama, Walter Regis Barbosa, Ednard de Souza Rebouças e outros.

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Em 1962, a Eletrobrás, inicialmente proposta por Getúlio, em 1954, foi organizada por João Goulart, com as características de uma holding estatal. O objetivo de Jango era fazer do estado brasileiro o maior produtor de energia elétrica do país, mas os militares o derrubaram antes disso. O projeto de Jango só viraria realidade em 1965, quando o governo militar adquiriu – a um preço exorbitante – as onze empresas do grupo americano

Amforp (American and Foreign Power Company), que centralizava quase todo o setor elétrico em

funcionamento no Brasil. No Espírito Santo, essa onda de privatização colocou a Companhia Central Brasileira de Força Elétrica sob o controle da Eletrobrás.

Na ocasião, Jango também falou sobre os novos níveis do salário mínimo, anunciou a empréstimo de Cr$ 100 milhões de cruzeiros para a prefeitura de Vitória e solicitou ao prefeito de Vila Velha, Américo Bernardes, que tomasse as providencias para medida semelhante – Américo foi um dos poucos presentes nessa reunião que não foi preso pelos militares logo após o golpe. O presidente também divulgou que a assinatura do decreto de desapropriação dos eixos rodoviários se daria no meio de um comício monstro dali a um mês: o comício da Central do Brasil.

Lacerda de Aguiar foi convidado por Jango para o comício do dia 13 de março, mas não compareceu. Além de ter medo de perder o governo, o fazendeiro Chiquinho decididamente não jogava no time da reforma agrária. “Eu estava no Rio de Janeiro quando Jango fez aquele comício da Central do Brasil, ele me telefonou para eu ir e eu não fui ao comício dele. Todos que foram acabaram cassados, eu fui o único que não fui porque eu não concordava com aquilo. Dividir meu suor, meu trabalho, um absurdo!”, conta na mesma entrevista. Provavelmente essas divergências e até o acordo com Magalhães Pinto iriam por água abaixo se Jango sobrevivesse ao golpe. Mas não foi isso que aconteceu.

Até hoje, as opiniões sobre a amizade de Chiquinho e Jango são conflitantes, há quem acredite que era apenas uma conveniência política, mas existe quem defenda uma certa semelhança de personalidade. Pode até ser, ambos eram populistas, mas cada um para um tipo de povo. O fato é que a última manifestação material dessa relação estacionou na frente das escadarias do Palácio Anchieta horas antes daquela madrugada nervosa de 1º de abril. Os dois caminhões cheios de problemas traziam uma encomenda do governador: 50 mil exemplares

de um Dicionário de Darcy Ribeiro88, com uma dedicatória de Chiquinho em louvor ao então presidente João Goulart. Os livros considerados “subversivos” chegaram no começo da manhã do dia 31 de março, na véspera do golpe, e precisavam sumir antes que a “revolução chegasse”.

A missão de desaparecer com aqueles livros chegou via telefone na redação do jornal

O Diário, na época de propriedade de Chiquinho. Foi José Carlos Monjardin Cavalcante, um

dos diretores do jornal, quem atendeu a ligação bomba que transformou o seu começo do dia em corre-corre. “Tocou o telefone na redação, era do gabinete do governador pedindo para tirarmos dois caminhões Mercedes, que estavam em frente ao Palácio com dicionários de Darcy Ribeiro que iam ser entregues na Secretária de Educação. Naquele tempo, alguns governadores de estado patrocinaram uma edição desse dicionário e o Chiquinho, para não ficar mal com o governo de Jango, fez o mesmo”. Cacau, como era conhecido, seguiu imediatamente para o Palácio junto com Fernando Jakes (Jakaré), outro diretor do jornal.

Na pressa de sair da redação, o Ford Galaxie de Jakaré ainda teve que levar um contratempo na bagagem, eram mais alguns livros, que também precisavam sumir. “O Dálton89 era um elemento de esquerda, redator de política do jornal, esse rapaz era medroso. No dia da revolução ele tinha aqueles livros de Lênin e pegou aquela porra toda e queria tocar fogo na minha granja, mas eu não deixei. Aí ele me deu os livros para levar e depois sumiu

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Sua produção no setor de ensino e cultural deixou marcas no país: criou universidades (como a da Brasília), centros culturais, novas proposta educativas, além de deixar inúmeras obras escritas em várias línguas. Dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios, mas sua trajetória sempre esteve próxima às lideranças dos governos. Aos 30 anos foi Ministro da Educação, no Gabinete Hermes Lima e, mais tarde, Ministro-Chefe da Casa Civil de João Goulart, onde coordenava a implantação das reformas estruturais quando sucedeu o golpe militar de 64, que o lançou no exílio. A intensa produção de livros o transformou num dos imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL).

por uns três dias. Os livros do Daltom foram também com o caminhão. Pouquíssima gente sabe disso”, conta Jakaré.

No Palácio, a primeira coisa que fizeram foi pegar as notas fiscais da mão dos motoristas, não podiam deixar rastro. Desceram as escadarias, entraram no Galaxie e deram o sinal para que os dois caminhões os seguissem. Assim foi feito. O pequeno comboio foi pela Av. Florentino Ávidos e andou cerca de duas horas até Araçatiba, onde Chiquinho tinha uma fazenda.

Chegando lá, desembarcaram os livros com a ajuda dos funcionários da fazenda. Tentaram queimar, não deu, a capa do Dicionário era muito dura. Tentaram rasgar a primeira página com o oferecimento de Chiquinho, mas eram muitos livros. Sem tempo e sem alternativa, a solução encontrada foi colocar tudo num galpão, tapar com folhas de milho e ir embora. “Ficou tudo lá e a revolução passou tranqüila, sem saber de nada, e Chiquinho saiu honrosamente sem ter nenhum comprometimento, sendo que uma semana antes ele vivia com João Goulart na Praia da Costa e no Palácio Anchieta”, lembra Cacau.

Setembrino Pelissari também sabia da ligação do governador