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O Deputado Federal Newton Lima apresentou projeto de lei com o objetivo de, conforme explicação em sua ementa, “garantir a divulgação de imagens e informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública, cuja trajetória pessoal tenha dimensão pública ou cuja vida esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade”82. Assim, o PL 393/11 visa a alteração do art. 20 do Código Civil para garantir a liberdade de expressão, informação e o acesso à cultura. Transforma o parágrafo único em § 1º e insere o § 2º ao mencionado dispositivo, no sentido de garantir a divulgação de imagens, escritos e informações com finalidade biográfica de pessoa cuja trajetória pessoal, artística ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade, sem a autorização prévia.

Na justificação do projeto, a fundamentação é no sentido de que, em outros países, como Estados Unidos e Inglaterra, o fato de as pessoas públicas, como artistas e desportistas, por exemplo, estarem constantemente na mídia restringe os seus respectivos direito à imagem e à privacidade, tornando lícita a publicação de biografias não autorizadas e a realização de obras audiovisuais sobre elas, sem a necessidade do prévio consentimento. Dessa forma, o referido projeto de lei seria uma maneira de adequar a legislação brasileira à realidade internacional, visto que a informação transcende as fronteiras de cada país.

Em seguida, após a aprovação do referido projeto nas Comissões de Educação e Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados83, o deputado federal Ronaldo Caiado apresentou emenda de plenário propondo a inclusão do § 3º no art. 20, para garantir ao biografado que, eventualmente, se sentisse ofendido, o direito de requerer a exclusão em

81 GUIMARÃES, 2015, p. 42.

82 CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei nº 393, de 2011. Dispõe sobre a alteração do art. 20 da Lei nº

10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, para ampliar a liberdade de expressão, informação e acesso à cultura. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2011. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/ proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=491955>. Acesso em: 26 out. 2016.

edição futura dos trechos que considerasse serem ofensivos. A regra passaria a ter a seguinte redação:

Art. 20 – omissis

§ 1°: Em se tratando de morto ou de ausente, são partes legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes ou os descendentes.

§ 2° A mera ausência de autorização não impede a divulgação de imagens, escritos e informações com finalidade biográfica de pessoa cuja trajetória pessoal, artística ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade.

§ 3° Na hipótese do §2°, a pessoa que se sentir atingida em sua honra, boa fama ou respeitabilidade poderá requerer, mediante o procedimento previsto na Lei n° 9.099, de 26 de setembro de 1995, a exclusão de trecho que lhe for ofensivo em edição futura da obra, sem prejuízo da indenização e da ação penal pertinente, sujeitas estas ao procedimento próprio. 84

Após ser aprovada pelo Plenário da Câmara dos Deputados, com a supracitada redação, o PL 393/2011 foi remetido ao Senado Federal para deliberação, onde passou a tramitar como PL 42/2014, sob a relatoria do Senador Ricardo Ferraço, que apresentou parecer defendendo a sua aprovação, mas com duas propostas de emenda. A primeira seria a seguinte: “Altera o art. 20 do Código Civil para permitir a divulgação de imagens, escritos e informações sobre pessoas célebres, com finalidade biográfica, independentemente de autorização do biografado”. No tocante ao § 3°, alteraria a competência, sugerindo a seguinte redação: “Na hipótese do § 2º, as ações judiciais da pessoa que se sentir prejudicada em sua honra, boa fama ou respeitabilidade serão processadas pelo rito sumário previsto no artigo 275 do Código de Processo Civil”85.

Explica o senador que os litígios decorrentes da edição de obras literárias são demasiado complexos e que provavelmente necessitariam de produção de prova pericial, o que não ocorre nos procedimentos do Juizado Especial, além de que “geraria um mecanismo posterior de censura das biografias, incompatível com a liberdade de expressão que se busca reconhecer nesse projeto”86. Após, o parecer foi aprovado pela Comissão de Educação do

84 CAIADO, Ronaldo. Emenda de Plenário. In: BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 393, de 2011.

Dispõe sobre a alteração do art. 20 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, para ampliar a liberdade de expressão, informação e acesso à cultura. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoes Web/fichadetramitacao?idProposicao=491955>. Acesso em: 26 out. 2016.

85 SENADO FEDERAL. Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Parecer. In: ______. Projeto de Lei da

Câmara nº 42, de 2014. Altera o art. 20 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, para garantir

a liberdade de expressão, informação e o acesso à cultura. Brasília, DF: Senado Federal, 2014. Disponível em: <http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getTexto.asp?t=157755&c=PDF&tp=1>. Acesso em: 26 out. 2016.

Senado Federal, e depois foi encaminhado à Comissão de Constituição de Justiça, estando apto para ser votado.87

No entanto, o projeto de lei não soluciona o problema das biografias não autorizadas, visto que a nova regra impediria a publicação e distribuição de biografias de pessoas públicas com o mero argumento da “não autorização”. Se o argumento do biografado for a violação à honra, boa fama ou respeitabilidade, ou o fim comercial da obra, a biografia poderia ser proibida com o simples requerimento da parte. Seria possível ainda que a parte promovesse ação pelo procedimento sumário para a retirada de trechos ilícitos em caso de publicação do livro biográfico. Nesse sentido, é o entendimento de Anderson Schreiber88:

É fácil perceber que o acréscimo não resolve o problema. Embora o art. 20 exija, em regra, a autorização da pessoa para a divulgação da sua imagem, da sua voz e de seus escritos, o próprio dispositivo reconhece que há exceções, às quais os tribunais acrescentam outras tantas, especialmente no exercício das liberdades constitucionais de informação e de expressão artística ou intelectual. Em outras palavras: basta interpretar o art. 20 à luz da Constituição para perceber que a ausência de autorização não impede juridicamente a edição de biografias, do mesmo modo que não impede a circulação de jornais. A melhor jurisprudência já caminha nesse sentido, limitando-se a impedir a circulação de biografias naquelas hipóteses em que considera ter havido uma injustificada violação à privacidade, à imagem ou à honra do biografado. O verdadeiro problema é que, na ausência de parâmetros legais, cada magistrado acaba recorrendo ao seu próprio “sentimento” sobre o que é ou não é um atentado injustificado à privacidade, à imagem, ou à honra do biografado.

Dessa forma, o legislador apenas transferiu o momento da controvérsia para após a publicação da obra, na visão de Anderson Schreiber89: “Os projetos de lei existentes erram, portanto, o alvo. Nenhum deles evitará que as ações judiciais continuem acontecendo e que o público continue privado de excelentes biografias enquanto decisões liminares estiverem em curso”.

Afirma ainda o mencionado autor que a solução adequada seria aquela em que o legislador indicasse as circunstâncias para a ponderação entre a privacidade do biografado e a liberdade de expressão do biógrafo, estabelecendo um parâmetro para a atuação dos magistrados.90

87 SENADO FEDERAL. Projeto de Lei da Câmara nº 42, de 2014. Altera o art. 20 da Lei nº 10.406, de 10 de

janeiro de 2002 - Código Civil, para garantir a liberdade de expressão, informação e o acesso à cultura. Brasília, DF: Senado Federal, 2014. Disponível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/ 117559>. Acesso em: 26 out. 2016.

88 SCHREIBER, 2013, p. 148-149. 89 SCHREIBER, 2013, p. 149. 90 SCHREIBER, 2013, p. 149.

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