4 WEB SERVİS METOTLARI DETAY AÇIKLAMALARI
4.2 H İZMET K AYIT M ETOTLARI
4.2.3 HizmetKaydiIptal Metodu
Uma esperança escondida por trás de nuvens cinzas que encobrem a periferia da cidade, a nuvem do Tubarão é povoada, tem chuva e tormenta, mas também tem um sol imanente, como no rap That´s my way, de Edi Rock:
Esse é meu caminho e nele eu vou! Eu gosto de pensar que a luz do sol vai iluminar o meu amanhecer Mas se na manhã o sol não surgir
Por trás das nuvens cinzas tudo vai mudar A chuva passará e o tempo vai abrir A luz de um novo dia sempre vai estar Pra clarear você
Pra iluminar você Pra proteger Pra inspirar E alimentar você
O rap embala minha análise, enquanto releio a entrevista narrativa do Tubarão e vejo palavras e expressões utilizadas por ele como “dificuldade”, “virar estatística”,
“periferia”, “discriminação”, “barreiras da sociedade”. Entre os primeiros versos da música, ouvimos “a gente atira no escuro, não escuta ninguém”, é um canto de solidão, de
abandono, mas também de uma história que é de muita gente, tanto que Edi Rock, em sua música, e Tubarão, em sua narrativa, sempre falam “a gente” e quase nunca se referem a
eles mesmos como “eu”, mostrando uma clara compreensão de que estão contando uma história que não é só deles. A expressão “a gente” traz uma ideia congruência, como se
falassem de muitas pessoas que formam, na verdade, um grupo que conta uma história que começou bem antes da deles, como podemos ver no trecho da entrevista em que Tubarão fala da necessidade do grafiteiro provar para o grupo que faz parte dessa história:
No meu conceito é ele provar que tá no graffiti de verdade e não é só pintar, é conhecer o graffiti, é entender conceitualmente, saber sua história, saber que aquilo alí não começou com você, e que história é essa que você está carregando porque, querendo ou não, você carrega essa história.
A concepção de que cada pessoa “carrega” uma história, que é “a síntese
individualizada e ativa de uma sociedade”, é trabalhada por Ferrarotti (1988, p.26) ao desenvolver o conceito de “universal singular”, já que cada um de nós, em sua concepção,
somos transformados constantemente nesse processo de mediação entre as nossas experiências, os lugares a partir dos quais falamos e os grupos aos quais pertencemos.
Para Ferrarotti (1988, p.32), “a pessoa vive e conhece mais ou menos claramente
sua condição, através dos grupos a que pertence”, ou seja, existe uma dimensão coletiva
nos relatos individuais. Posso dizer que a narrativa do Tubarão foi a que mais claramente percebi a relevância do grupo, sua fala reivindicava um título dos pioneiros do graffiti em Fortaleza e apresentava uma indignação pelo uso do termo para qualquer expressão artística que usasse spray.
A participação e exclusão são marcantes em sua fala. A nomenclatura graffiti, com grafia em inglês, foi uma correção sugerida por ele quando enviei sua entrevista para que fizesse modificações ou acréscimos. A correção era para me dizer que o graffiti do qual ele fala vem da periferia nova-iorquina, dos bairros Bronx e Blooklyn, criada num momento de forte exclusão social de negros e imigrantes, entre os anos 1970 e 1980.
Segundo Rose (1997), principalmente nos anos 1980, os meios de comunicação
viam os moradores desses bairros como “problema social”, o poder público não levava
benefícios para a região e os espaços de lazer eram praticamente inexistentes. Sobre isto,
Rose (1997, p.202) afirma: “enquanto os líderes municipais e a imprensa popular
condenaram literal e figurativamente o South Bronx, seus moradores e sua vizinhança, seus jovens habitantes negros e hispânicos responderam à altura”.
O hip hop é criado, assim, num contexto de forte exclusão social e passou a usar elementos como a dança, a música e a tinta para falar sobre os problemas cotidianos que os jovens enfrentavam e também para reivindicar, protestar e mostrar uma face colorida e vibrante da periferia. O graffiti era o elemento de maior visibilidade, já que eram pintados em vagões de metrô que percorriam boa parte da cidade, levando as cores e palavras, muitas vezes incompreensíveis, para os locais em que os moradores da periferia não frequentavam. Mas eram nos seus locais, nos bairros, em que a cultura hip hop foi desenvolvida, as ruas eram usadas como espaços para festas, disputas de rimas e o break aconteciam nas calçadas, fazendo do movimento uma expressão da periferia nova-iorquina e, depois, de várias outras pelo mundo, inclusive a de Fortaleza.
Tubarão explica a origem do hip hop no Ceará, fala dos filmes que assistia nos anos 1990, de como ficou interessado e, ao mesmo tempo, achou que era algo muito distante até conhecer o movimento MH2O, que é apresentado por ele como o primeiro movimento organizado da cultura hip hop no Ceará, como nos explica:
O MH2O, em 90, ele agrega todos os elementos e dá meio que o surgimento do hip hop, mas o graffiti ele não entra nessa época, porque não tinha quem praticasse. Tinha os B-
boy, os raps, os DJ’s, mas não tinha o graffiti ainda e aí, em 92, o Flip, que era B-boy,
começa a fazer graffiti e dá início a partir daí.
Esse movimento de estruturação do grupo, como nos fala Latour (2012), precisa ser constante para o seu processo de manutenção, ou seja, os grupos não existem a priori, eles são criações e necessitam de um trabalho dos seus atores para que possa continuar existindo. Esse empenho em criar e manter o grupo aparece em vários momentos da
entrevista, como quando diz que tinha como objetivo “criar uma cena” no Estado e para
isto fez um trabalho de reunir pessoas, incentivar a formação de crews e organizou cinco edições do primeiro evento voltado para o graffiti em Fortaleza.
A necessidade de afirmar e fortalecer o grupo acontece pois é constituído por uma rede de relações mutáveis e repleta de contradições internas, fazendo com que seja necessário, nas palavras de Latour (2012, p.50), "recrutar" participantes que possam dar visibilidade ao grupo, diferenciá-lo dos demais, criando fronteiras entre eles, e o territorializando.
Discuto aqui a territorialização do grupo não apenas como geográfica, apesar dessa questão ser marcante para o hip hop que se define como um movimento de periferia e tem a relação com os bairros e as ruas onde vivem os seus praticantes como um importante espaço de intervenção, como vemos no exemplo de Demetrius, citado por Knauss (2001), que se tratava de um jovem de origem grega que, em 1971, chamou a atenção da imprensa por escrever TAKI 138 em vários muros de Nova Iorque. A inscrição fazia referência ao seu codinome e ao número de sua casa, assim como Frank 207, Chew 127, Junior 161, exemplos citados por Sodré (2008), também tinham uma demarcação territorial em suas inscrições.
Na entrevista com Tubarão, o pergunto sobre a relação que tem com o seu bairro e ele conta que tudo parte dele, que começou em sua rua, depois passou a pintar o bairro e só depois outros bairros, pois, em suas palavras, “querendo ou não, o graffiti também é uma demarcação de território, ele é como um redemoinho, ele está parado num canto e vai
MH2O criou núcleos pela cidade que chamava de “posses”, também evidenciando a demarcação geográfica do grupo e requisitando alguns espaços como seus.
Mas destaco que a demarcação também é da ordem do discurso. Ele reivindica em sua entrevista uma separação entre os grafiteiros e os artistas urbanos, fala de uma divisão que é também de classe, reclama de uma exclusão social e da visibilidade da arte urbana
ficar dissociada das questões da periferia. Tubarão fala da “velha escola”, que seria
formada pelos primeiros grafiteiros de Fortaleza ligados ao movimento hip hop, eles atuam como os agregadores do grupo e como os reguladores no sentido de definir as regras para a entrada e permanência de novos membros, sendo este também um processo de afirmação do grupo que age no objetivo de sua manutenção. Assim, quando outros sujeitos que não estão inseridos nesse processo passam a usar o termo "graffiti", podem ser vistos como uma ameaça para a permanência do grupo, pois não possuem compromisso com as suas regras internas e podem atuar na sua desterritorialização.
Latour (2012, p.56) fala que "para cada grupo a ser definido, aparece logo uma lista de “antigrupos”. Isso é muito vantajoso para quem observa, pois significa que os atores estão sempre mapeando o contexto social em que estão inseridos", ou seja, seguir os passos do grupo, suas articulações e conflitos, é uma forma interessante de perceber o contexto social em constante mutação. A proposta do autor é perceber a sociedade por suas associações e não como algo pré-existente em que os indivíduos se "encaixam", e rastrear o movimento de conflito, afirmação e reinvenção dos grupos é fundamental para percebermos a sociedade.
A exclusão dos “antigrupos”, a afirmação de que existe um grupo "verdadeiro", que
tem a autoridade de afirmar quem participa e quem está fora é, então, fundamental para a manutenção do próprio grupo. Podemos perceber essa demarcação da nomenclatura em vários momentos da entrevista, desde quando Tubarão devolve a transcrição com a grafia do termo corrigida para o inglês, pois não quer dissociar a expressão do movimento hip hop, até o uso do termo “estúdio”, para substituir “atelier”, pois o último termo já é usado
pelos artistas urbanos, fazendo também uma diferenciação entre “artistas” e “grafiteiros”,
apesar de refletir, no próprio momento da fala, que também são artistas, mostrando que as definições do grupo são cambiáveis e repletas de tensões.
O grupo necessita, assim, de uma afirmação constante, pois está tensionado tanto externo, quanto internamente. As heterogeneidades precisam ser controladas ao mesmo tempo em que as mudanças são necessárias. Analiso a presença dessa tensão entre controle
e necessidade de transformação quando Tubarão fala do seu intuito de “criar uma cena”, de
convidar novas pessoas, de criar um estilo próprio para o graffiti produzido no Ceará, mas, ao mesmo tempo, lembra que existe uma tradição que precisa ser mantida, um grupo de pioneiros que deve ser reconhecido e uma necessidade de compreender que o graffiti é uma escrita que fala da juventude negra da periferia e que, sendo assim, fala que é necessário o reconhecimento de que a história começou antes e que o grafiteiro precisaria compreender
a missão que tem de “carregar essa história”.
Ao fazer um processo de reflexão sobre o porquê da relevância do grupo ser tão marcante na fala do Tubarão e não na dos outros entrevistados, volto à minha dissertação de mestrado (ARAÚJO, 2008), quando estudei jovens que tinham passado pelo trabalho infantil e escolhiam as amizades como elemento mais relevante em suas vidas, acima de família e escola. Percebo uma similaridade entre as condições de opressão, como a moradia em bairros periféricos e a sensação de exclusão social. Pertencer a um grupo, nos dois casos, dialoga com a necessidade de superação de uma “situação limite”, termo usado por Freire (2014) para designar situações que precisam ser superadas, como podemos ver na fala do Tubarão:
O meu graffiti, eu acho que ele conta várias histórias. Ele conta uma trajetória de um jovem da periferia que contrariou a estatística, que não virou só um número de estatística para a sociedade, que contrariou esse universo, que conseguiu chegar a espaços antes nem almejados pela periferia, pela juventude, principalmente a juventude negra da periferia. Traz esses traços da cultura negra, da cultura nordestina, e até um pouco de traço da cultura indígena, dessas realidades, dessas vivências, e que você pode transformar, que o destino não está escrito, é você quem escreve, através das suas ações.
Vemos aqui como pertencer ao movimento hip hop, para o entrevistado, contribuiu
para o processo de superação de uma “situação limite”, também destaco que esse
movimento começa, também como nos diz Freire (2014), a partir do reconhecimento da sua condição de opressão e dos grupos dos quais faz parte - negro, nordestino, da periferia e de origem indígena - e esse reconhecimento leva a uma necessidade de superação, de transformar e de ser autor de sua própria história.
Recorrendo aos autores da pesquisa (auto)biográfica, destaco dois elementos fundamentais para esse processo de construção de um projeto de vida em que se sabe autor
de sua própria história, o primeiro é a percepção aqui trabalhada do graffiti como uma escrita de si e o segundo é a compreensão de que cada história é um "singular universal".
Ao falar sobre o desenho como uma "narrativa gráfica" para crianças, Goldberg (2016, p. 2011) esclarece que "o desenho se configura também como um espaço de reflexão sobre o mundo, de registro do fluxo de pensamento, de captura de imagens, objetos, sensações, desejos, impressões". Ao desenhar estamos, assim, fazendo um trabalho reflexivo sobre o que nos aconteceu, inventando uma relação entre formas, cores e experiências, dando congruência ao vivido e criando uma história repleta de nós mesmos e da nossa relação com o mundo.
Essa narrativa gráfica permite ao sujeito uma alteridade que é inventiva no sentido de possibilitar um olhar para si que se volta problematizado. A expressão do graffiti, ligada ao movimento hip hop, surge como uma possibilidade de narrativa gráfica de grupos excluídos e invisibilizados nos espaços urbanos. As questões desenhadas nos muros e metrôs de Nova Iorque eram protestos, denúncias, mas também propostas de um outro mundo possível, com novas cores, misturando o reconhecimento de uma “situação limite” com o que Freire (1992) chama de "inédito viável" que é um futuro ainda desconhecido, mas que se sabe melhor.
Como um arco-íris que anuncia o final da chuva, os graffitis colorem a superfície cinza das cidades, suas cores guardam as marcas das nuvens carregadas de protesto, dor,
sentimento de exclusão, mas também anunciam um “inédito viável” que não chegará como
dádiva, mas como uma construção consciente de um futuro possível para si e para o grupo, compreendendo aqui a narrativa do graffiti como singular e plural, ou seja, como uma narrativa de um sujeito e de seu grupo.
Na perspectiva apontada por Ferrarotti (1988, p.26), somos a “síntese individualizada e activa de uma sociedade” e os grupos são os mediadores da nossa relação
com a sociedade. Em outras palavras, cada indivíduo se relaciona com o mundo por meio dos grupos dos quais participa, essa relação o transforma e transforma o mundo de tal forma que estão, sujeito e mundo, imbricados num processo de invenção mútua, fazendo com que cada pessoa seja uma síntese singular da história do mundo. Nas palavras do
autor, “um homem nunca é um indivíduo; seria melhor chamá-lo um universo singular:
‘totalizado’ e ao mesmo tempo universalizado por sua época, que ele ‘retotaliza’ ao se reproduzir nela como singularidade” (FERRAROTTI, 2014, p.79).
Preciso fazer uma ressalva que esse processo que o autor chama de "totalização" precisa ser compreendido nesta tese como algo provisório, repleto de contradições e heterogeneidades. Prefiro usar o termo "trama" no sentido de um conjunto de relações que
se entrelaçam e também se repelem. Explico: fazendo uma releitura do “universal singular”
de Ferrarotti (1988 e 2014), proponho a concepção de que cada narrativa é uma trama formada pelas nossas experiências, pelos nossos lugares, pelos nossos grupos, pelo outro,
pelos “antigrupos” e pela forma como atravessamos e somos atravessados por esses
elementos. O tecido formado por essa trama é único, é singular, pois é um atravessamento de quem o produziu, mas também é repleto de fios que afetaram o narrador e que continuam o interpelando e o levando a produzir novas tramas.
A narrativa do Tubarão conta uma história que é dele e dos jovens que vivem nas periferias dos centros urbanos, que se sentem discriminados e que buscam no graffiti uma forma de virar autores de suas histórias, mas também a narrativa é uma invenção dessa história, atua no processo de fundação e manutenção do grupo que não existia a priori e nem se mantém como em seu surgimento, já que é situado em seu tempo, em seu contexto e é transformado partir das relações dos seus sujeitos.
Os seus graffitis estão carregados de experiências suas e dos grupos em que participa, contêm a memória de outros tempos e um desejo de futuro. São plurais, pois trazem uma polifonia e permitem uma heterobiografia que é a criação que fazemos de nossas histórias a partir da história do outro, e são singulares pois são corporalizados, são criações que Tubarão faz a partir do que lhe toca, do que lhe atravessa.