4 WEB SERVİS METOTLARI DETAY AÇIKLAMALARI
4.4 R APOR B İLGİSİ K AYIT M ETOTLARI
4.4.8 RaporBilgisiBulTCKimlikNodan Metodu
Cena 1: Na Unifor, sentados numa mesa redonda
Quando entrei em contato com Luz para marcarmos nossa entrevista já nos conhecíamos. Os seres flutuantes criados por ele motivaram minha escolha por discutir arte urbana nesta tese e minha curiosidade de conhecer o autor daquela assinatura que me perseguia, ou que eu passei a ficar sensível pela sua presença, levaram a alguns encontros em eventos e reuniões.
Já tínhamos conversado sobre a pesquisa nessas outras ocasiões e alguns alunos meus já o tinham entrevistado para trabalhos das disciplinas que leciono na Unifor, o que acabou nos aproximando em consequência.
Quando o perguntei onde preferia que acontecesse a entrevista, ele disse que poderia ser na Unifor, pois já tinha estudado no local e iria fazer um trabalho nas proximidades. Marcamos, então, para o turno da noite, fomos para a sala da coordenação do Curso de Publicidade e Propaganda e, antes de iniciarmos a entrevista, conversamos sobre alguns projetos do curso, depois o expliquei com mais detalhes o procedimento da entrevista narrativa, reforçando que poderia falar livremente e que devolveria a entrevista transcrita para que pudesse fazer acréscimos ou correções. Ele demonstrou receptividade e disse que gostava da ideia de uma construção coletiva.
Comecei perguntando seu nome completo, pois apesar das conversas que já tivemos, só o conhecia por Luz, então ele diz: “Meu nome de batismo é Gleison Araújo de
Almeida, mas sou popularmente conhecido como Luz”. Foi como conhecê-lo novamente e também como se tivesse me contado um segredo.
No meio da entrevista, quando o perguntei sobre sua relação com a rua, ele fala sobre como construiu um personagem para se sentir seguro e aceito e mostra uma foto sua com cabelos curtos e ri dizendo que era muito diferente. Lembrei de mim, quando comecei
a andar de skate e era a única mulher do grupo. Notava que existia um certo descrédito por parte de alguns colegas que falavam que "ela não vai acompanhar" quando fazíamos longos percursos na cidade procurando novos lugares para a prática, ou quando precisávamos enfrentar obstáculos como lareiras e falavam que era melhor eu não tentar. Como reação, optava por descer as ladeiras mais perigosas e continuar andando mesmo sangrando após uma queda.
Assim, na construção da minha heterobiografia, que, segundo Delory-Momberger (2008), é a elaboração que fazemos de nossa história a partir da história do outro, teci relações entre nossas experiências e lembrei da dureza da rua, sobretudo na madrugada, e de como precisamos nos reinventar para que possamos flutuar em sua superfície sem sermos engolidos por ela.
Continuamos conversando, um amigo em comum passou pela sala e nos cumprimentou, o telefone tocou e pedi desculpas por ter esquecido de tirar do gancho e ele
disse “relaxa”. Então, começamos a falar sobre a diferença entre grafiteiros e artistas
urbanos e as disputas internas que existiam e, depois, ele falou sobre como a internet é usada por muitos como um campo de discussões acaloradas, o fazendo ficar irritado com a lembrança, mas sem perder o clima de conversa que tivemos desde o primeiro momento.
Com o gravador desligado fomos lanchar e continuamos conversando sobre disputas internas para quem poderia usar o nome graffiti e se dizer grafiteiro. Ele me conta de um curso que Tubarão deu no Cuca Mundubim e que ele levantou essa discussão, defendo o uso do termo apenas aos que eram ligados ao movimento hip hop. Luz conta que a fala do Tubarão estava repercutindo muito entre eles e, ao chegar em casa e checar meu diário de itinerâncias e a agenda de cursos do Cuca notei que o curso tinha sido dado no mesmo dia da entrevista narrativa que fiz com Tubarão e que essa questão na nomenclatura tinha sido uma das questões mais pontuadas por ele.
Pensei em como a pesquisa interfere no contexto pesquisado, podendo gerar tensões, principalmente quando está preocupada com as diferenças e não com as generalizações. Mas também essa compreensão coloca uma responsabilidade para minha escrita tanto de trazer essa polifonia, muitas vezes dissonante, para a análise e o cuidado de não fechar as ramificações do rizoma, nem tratar o cenário do graffiti em Fortaleza como algo possível de ser definido de forma linear e acabada.
Cena 2: Sem filtro
Nesta segunda cena, faço uma articulação da narrativa de Luz, procuro as cenas de sua infância, espalhadas em sua narrativa, seu relato sobre as mudanças e indecisões na vida de artista e termino com o seu projeto de futuro, compondo um trabalho reflexivo que
faço a partir das cenas do cotidiano do entrevistado. Ao fazer uma síntese da “compreensão cênica” de Marinas, Abrahão (2014) explica que sua metodologia de análise não busca
trazer uma linearidade à narrativa, mas sim construir uma trama interpretativa das várias cenas, sem deixar de lado o que a autora chama de "peculiaridades biográficas".
Inicio, assim, com o cotidiano de um menino que precisou trabalhar cedo depois
que o seu pai deixou sua mãe com quatro filhos, como ele nos relata: “Eu lembro de
quando a pixação chegou em Fortaleza, foi a época que minha mãe se separou do meu pai e meu pai nos deixou com quatro filhos, deixou minha mãe com quatro filhos pequenos, e
eu não tinha essa coisa de tá na rua, eu tinha que trabalhar”.
Primeiro fala “meu pai me deixou com quatro filhos”, depois corrige e diz que
deixou sua mãe, mostrando o quanto tomou para si a responsabilidade com a criação de seus irmãos e também a necessidade de trabalhar, ganhar dinheiro, ajudar a família e não decepcionar sua mãe. Essa questão do receio em decepcionar sua mãe aparece em outro momento da entrevista, quando fala da dificuldade que foi para sua família aceitar que tinha escolhido trabalhar com arte de rua, mas manteve firme sua decisão, pois a via como um projeto de carreira profissional.
Luz fala que precisou pensar cedo em como ganhar dinheiro e, aos 16 anos, teve seu primeiro emprego como entregador de medicamentos numa farmácia, conta que passou apenas três meses e que saiu depois de ser atropelado por um caminhão durante uma entrega, fala que foi socorrido na farmácia em que trabalhava, mas que lhe cobraram pelos materiais usados. A experiência foi um "momento charneira" (JOSSO, 2004), um divisor de águas em sua trajetória, tanto que depois do acidente resolveu trabalhar por conta própria e nunca mais trabalhou regularmente para ninguém.
Passou por várias experiências, desde atuando como letreiro nas ruas, até pintando quadros de paisagem em tela, mas parecia perdido. A necessidade de encontrar um caminho e de obter sucesso em sua jornada parece um imperativo em sua fala.
Para Delory-Momberger (2012a), essa necessidade de obter sucesso em sua trajetória e a responsabilização de alcançar suas metas para o próprio indivíduo são resultantes do processo de industrialização, da crescente onda mundial de urbanização e da
globalização, fatores que elevaram a necessidade de especialização das profissões e de flexibilidade dos trabalhadores que precisam constantemente mudar em função do mercado. Como resultado desse movimento, temos uma sociedade centrada no indivíduo, em que as instituições não possuem a mesma força e em que cada um é visto como responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso.
Esse processo de responsabilização do indivíduo por sua trajetória leva a uma necessidade constante de ter um projeto profissional e de formação e esforço contínuos. O sujeito passa a ser visto como o único responsável pelo seu sucesso e pelo seu fracasso, enquanto, na verdade, sua história é uma trama, tecida por vários atores além dele mesmo, que irão interferir nos caminhos percorridos e nos resultados alcançados.
Podemos ver o "imperativo de realização pessoal", como nos fala Delory- Momberger (2012a), quando Luz descreve que passou a andar com alguns artistas da
cidade, mas sabia que não tinha “o mesmo nível artístico deles”, e que precisaria trabalhar
muito para encontrar o seu estilo próprio.
Aqui, questões econômicas e sociais que influem na definição do que pode ser
entendido como “arte” não são percebidas pelo sujeito. Em outros momentos, como
quando diz que tinha um foco bem definido e quando fala que queria rapidamente construir sua identidade artística, vemos o quanto ele se sentia pressionado a obter sucesso com a mudança que escolheu fazer em sua trajetória aos 32 anos.
Mas é importante falar que essa necessidade de realização pessoal, de acordo com Delory-Momberger (2012a), gera a demanda de um trabalho reflexivo mais profundo, para perceber nossa história como uma trama, perceber como a história do outro ajuda a compor nossa própria história e entender como os outros atores desempenharam um papel de criação e mutação dessa rede complexa que é nossa “história de vida”. A esse trabalho biográfico reflexivo Delory-Momberger (2012a) intitula de "condição biográfica".
A "condição biográfica" é a demanda imprescindível de entendermos nossas condicionantes sociais, de percebermos as modulações do controle, de reconstruirmos nosso vínculo com o outro e de compreendermos sua importância para nós e nossa importância para ele.
Luz apresenta o seu caminho como individual, traz para si o peso do reconhecimento e das críticas, busca uma visibilidade para o seu trabalho, mas ao mesmo tempo sente que está muito exposto, tanto que procurou ficar distante das redes sociais.
Prefere deixar uma marca sua na cidade e diz que construiu uma “máscara”, mas já percebeu que ela não o protege, que seus canais continuam abertos.
Diz que prefere caminhar sozinho para chegar mais rápido, não tem tempo a perder, mas o trabalho reflexivo que a entrevista biográfica proporciona o leva a uma abertura
quando nos diz que “no momento eu quero andar mais rápido, talvez lá na frente eu queira ir mais longe”, talvez.
Durante a entrevista, o perguntei sobre sua relação com internet e ele falou que praticamente não postava suas produções, que julgamentos de outras pessoas do meio e disputas como a do uso da nomenclatura graffiti foram os responsáveis por alguns desentendimentos e ele prefere ficar afastado desse debate.
Em determinado momento da entrevista, disse que imaginava uma situação em que
não postaria mais, em as pessoas iriam se “apoderar” de suas produções e que o
marcariam, sem que ele precisasse marcar ninguém, como vemos em sua fala a seguir: Sabe de uma coisa que eu gosto e depois eu parei e pensei, “rapaz, e se eu apagasse tudo isso e de repente deixasse as pessoas se apoderarem da minha imagem”. As pessoas baterem fotos e me marcar, sabe. Eu já pensei em fazer isso, mais pela questão do desprendimento, sabe. Eu acho que se eu fizesse isso eu dobraria a minha produção de rua muito, eu acho que passaria a produzir mais, porque eu não teria aquele compromisso e
“ah, Fulano de Tal vai me curtir”. Não, acho que a coisa, às vezes, dá essa doidera na
cabeça de fazer isso e ver no que é que dá.
A boa sensação de ter um descanso no empenho de realização de seu projeto o leva a pensar como sua produção seria mais livre, mostrando o quanto seu trabalho passa por uma demanda de aprovação, nos fazendo analisar que o seus desenhos são mediados pelas suas experiências, pela polifonia do espaço e também pele demanda de realização profissional que o acompanha.
Cena 3: “Que me marquem”
Como falar dos assuntos reprimidos quando tudo é luz? Os seus graffitis são feitos em grandes dimensões, as cores são vibrantes e as linhas paralelas e transversais parecem preencher tudo. O que escapa? Depois de muitas leituras resolvi abordar algo que na
verdade está presente em sua entrevista narrativa, logo no início de sua fala, mas que não encontrei em nenhuma pesquisa anterior: o seu nome.
Os nomes dos outros entrevistados apareciam em suas redes sociais ou em matérias de jornais. No caso do Luz isso não acontecia, seu perfil era "graffiti Luz" e em seu site também aparecia a mesma descrição. Retomando a fala de Delory-Momberger (2012b) sobre performatividade narrativa, podemos avaliar que o nome Luz corporeificava o personagem que havia inventado, mas, de certa forma, também escondia o Gleison Araújo de Almeida da fotografia que me mostrou durante a entrevista.
Luz é sua armadura e, há um só tempo, ele mesmo, assim como Agilunfo, personagem de Ítalo Calvino (1993) que lutava sem medo no exército do imperador Carlos Magno, com sua armadura incrivelmente branca e nada por dentro. Agilunfo era um cavaleiro inexistente, sua armadura era ele mesmo, sem ela seria levado pelo vento. Em certo momento do livro, o cavaleiro parte em busca do sentido de sua existência e começa a perceber que sua armadura não é intransponível, que também é afetado pelas pessoas e pelo caminho.
Nosso personagem Luz também é uma armadura brilhante que parece existir por si só, mas, na verdade, é feito de Gleison. Os dois foram misturados, aço brilhante e pele em um corpo que acha que suporta tudo, que aprendeu a não se deixar tocar, mas que construiu uma armadura porosa, um filtro por onde tudo passa.
Ele fala também rapidamente sobre o seu pai o ter deixado quando era adolescente, das responsabilidades que passou a ter ainda muito novo e de como aprendeu a resistir. Então, fico à pensar se Luz foi criado como uma proteção. Seu nome, falado como quem conta um segredo no começo da entrevista, pareceu abrir uma chave em nossa conversa, como se fôssemos mais íntimos de repente.
Essa questão possibilita uma outra leitura de sua entrevista, a busca por sucesso, por visibilidade, parece contrastar com uma busca por anonimato e com o distanciamento da internet, mostrando que existe uma complexidade na entrevista narrativa que a análise desta terceira cena ajuda a aprofundar.
A partir da reflexão do texto, chego à discussão de que a máscara que Luz criou aprendeu a existir, mas, assim como nem a armadura de Agilunfo é intransponível para a experiência, a de Gleison também não é. Pode ser que um dia sinta medo de estar na rua, queria ir mais longe acompanhado por outros artistas urbanos, pinte curvas no lugar de
paralelas, volte aos tons de marrom e ressignifique o seu uso ou faça desenhos onde não podem ver. Pode ser até que sua própria armadura o torne mais vulnerável.
Cerca de um mês após a entrevista, Luz muda seu nome de perfil nas redes sociais para Almeida Luz, penso que ele resolveu deixar-se tocar, reflito sobre como a narrativa de si pode ser formadora, pode nos levar a um trabalho reflexivo sobre nós mesmos e resultar numa reinvenção de si.
Penso em como Luz também pode ter sido incorporado pela cidade e ter contribuído para converter o seu concreto e aço em uma matéria porosa e imagino que, no lugar de ser uma armadura, o personagem inventado por Gleison é uma intensidade
materializada de tudo que o afeta e atua, assim, “abrindo o céu onde correm as nuvens”,
como nos fala Calvino (1990) em outro texto.
Termino de escrever sobre Luz, olho pela janela e vejo um dia sem nuvens. O sol forte do meio dia faz um convite para que eu o sinta queimar minha pele enquanto mergulho nas águas verdes do mar de Fortaleza. Aceito. É domingo e eu preciso de uma energia que só encontro na mistura de sol, vento e sal. Deixo este texto um instante, aproveito para me despir dele um pouco, quero entrar no mar sem proteção. Penso em você, se também gosta de mergulhar seu corpo nas águas quentes da minha cidade e nos imagino brincando na praia enquanto conversamos sobre os nossos caminhos.