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FaturaTutarOku Metodu

Belgede SOSYAL GÜVENLİK KURUMU (sayfa 91-0)

4   WEB SERVİS METOTLARI DETAY AÇIKLAMALARI

4.3   F ATURA B İLGİSİ K AYIT M ETOTLARI

4.3.4   FaturaTutarOku Metodu

Cena 1: Na biblioteca do Cuca Mondubim

Eu ainda estava no primeiro semestre do doutorado quando uma colega falou de uma exposição de um dos primeiros grafiteiros de Fortaleza. Fiquei curiosa, pois seu nome não aparecia em minhas pesquisas iniciais, nos conhecemos naquele dia, o falei que estava iniciando uma pesquisa e que gostaria de falar melhor com ele em outra ocasião, ele ficou interessado, disse que gostaria de participar e me entregou seu cartão.

Nos vimos ainda em alguns eventos e fui percebendo os conflitos internos entre as pessoas que faziam parte do cenário do graffiti em Fortaleza, vi que não existia um grupo

coeso e que Tubarão era um ponto de divergência entre os outros artistas que havia escolhido para entrevistar.

Durante a etapa das entrevistas, conversamos algumas vezes também pelas redes sociais e combinamos de nos encontrarmos para fazer a sua entrevista narrativa no Cuca do Mondubim, no sábado pela manhã. Cheguei um pouco antes, eu não conhecia o local e andei pelo espaço, vi um grupo ensaiando passos de break, observei alguns graffitis nos muros e reconheci a assinatura de Tubarão em um deles.

Fiquei o esperando sentada num banco onde via o movimento de entrada e saída e podia ver caso chegasse, fiz anotações em meu “diário de itinerâncias”, desenhei o espaço, até que ele chegou, nos cumprimentamos e ele perguntou se a entrevista poderia ser na biblioteca, falei que sim, sentamos e o expliquei a metodologia da entrevista narrativa, disse que ele poderia falar livremente, que depois o entregaria a entrevista transcrita para que fizesse cortes ou acréscimos25 e a explicação contribuiu para iniciarmos uma construção de confiança fundamental para a entrevista.

Conversamos por quase duas horas, fomos interrompidos algumas vezes por amigos que vinham cumprimentá-lo e por uma pessoa da equipe do Cuca para chamá-lo para uma oficina que ele daria após a entrevista.

Num determinado momento da entrevista, um amigo seu sentou perto de nós e acompanhou entusiasmado algumas respostas, rindo e concordando com as afirmações do Tubarão. Sua presença contribuiu para gerar um clima de descontração e continuamos conversando, mesmo depois de desligar o gravador, sobre os pioneiros do graffiti no Ceará, sobre a "velha escola" e o seu amigo queria esclarecer o quanto Tubarão é importante no cenário local do graffiti.

Ao sair da entrevista, peguei novamente o meu “diário de itinerâncias” e escrevi os

sentimentos que emergiram, como fui afetada pela fala do entrevistado. Voltei para as primeiras anotações que fiz sobre Tubarão e vi que cheguei a ter dúvidas se o incluiria na pesquisa por não ter sido citado pelos outros entrevistados e vi a importância de sua fala. Percebi, então, a importância de levar em conta as singularidades, a riqueza de possibilidades de análise que a diferença possibilita e também compreendi o quanto questões que pareciam linhas soltas são, na verdade, densas linhas da trama que estou criando nesta pesquisa.

25

Tubarão foi o primeiro que devolveu a transcrição com sugestões de acréscimos de alguns locais que tinha visitado, com a correção dos nomes dos pioneiros do graffiti no Ceará e com a grafia do termo em inglês.

Cena 2: Redemoinho

Marinas (2014), ao descrever a compreensão cênica, nos diz que o momento de análise é importante para fazermos uma relação entre as cenas do passado, presente e futuro. Aqui, entretanto, analisarei a segunda cena do Tubarão não a partir de uma dimensão temporal, mas geográfica. Em sua fala, nos diz que o sua relação com o graffiti começa em sua rua, depois vai para o bairro, depois para a cidade, como um redemoinho que vai ampliando sua área de alcance, mas que mantém sua potência máxima no centro.

Monto nesta cena uma organização geográfica, iniciando pelo bairro Planalto Ayrton Senna, na região chamada de Ipaumirin, onde Tubarão conheceu o movimento MH2O e pintou os primeiros muros em sua própria rua, como ele descreve:

Começou no bairro. Na época, eu morava ali, onde hoje é o Planalto Ayrton Senna, na época chamava de Pantanal. Eu morava bem na divisa entre o Pantanal e o Zé Walter, numa região que a gente chamava de Ipaumirin. E aí, o MH2O, que era a organização, ele já tinha vários núcleos, que a gente dava o nome de “posses”, espalhados pela cidade (...) Então, eu comecei no meu bairro, na minha rua mais especificamente, aí eu fui pintar o bairro, do bairro pro vizinho e aí pra outro bairro. Depois, passei para a cidade toda, daí fui pros interiores. Depois pra outro Estado e fui fazendo esse percurso.

O MH2O, como podemos analisar na fala do Tubarão, tinha essa relação entre fortalecer sua atuação nos bairros e, ao mesmo tempo, ampliar sua área de alcance, assim como o entrevistado. Para Certeau (1998), os lugares transformam-se em espaços quando praticados pelos seus transeuntes que deixam rastros e criam uma relação com o espaço que poderá o transformar, muitas vezes, em oposição ao seu projeto inicial. O graffiti, quando feito sem autorização, e a pixação atuam numa construção subversiva do espaço, trazendo usos não previstos para a superfície citadina, conferindo novos sentidos aos locais e deixando uma marca sua em seu trajeto, como se fossem "posses".

Mesmo indo para outras regiões, espalhando seus desenhos em outros bairros e mesmo outras cidades, seu principal ponto de atuação continua sendo o seu bairro e o entorno. Ao falar sobre como montou sua crew, em 2005, fala que conheceu seu parceiro Mils quando passaram a morar na mesma rua e resolveram pintar juntos. A própria escolha do local da entrevista, no Cuca Mondubim, que fica na mesma região, mostra a localização

como importante na narrativa do Tubarão. É interessante observar que a origem do graffiti ligado ao movimento hip hop também tem uma forte relação com o bairro, vemos isso tanto em pesquisas acadêmicas quanto nos relatos dos sujeitos que demarcam o surgimento da cultura hip hop especificamente nos bairros do Brooklyn e Bronx, em Nova Iorque.

Em outra passagem já comentada da entrevista, Tubarão fala da necessidade que

sentiu em “criar uma cena” para o graffiti no Ceará e que resolveu fazer o primeiro evento com o foco no graffiti e não nos outros elementos da cultura hip hop, em 2007. Nesse primeiro evento, eles pintaram um mural coletivo no muro do Beco da Poeira, local de comércio popular que funcionava no Centro de Fortaleza, no período. O evento é um momento de expansão geográfica e também de número de adeptos, mas é importante perceber que continua em espaços de circulação das classes sociais menos favorecidas.

Logo depois, Tubarão também fala que passou a ministrar oficinas e palestras, mas sempre com o foco nas periferias, mostrando que o redemoinho não cobre todos os pontos da cidade. Quando passa a atuar em outros espaços, tem a preocupação de esclarecer que mantém a relação com o seu território de origem, como vemos em sua fala:

A gente vem desenvolvendo, há alguns anos, esse trabalho mais de estúdio também. A gente chama de estúdio, é um negócio mais atelier, eu não gosto desse termo “atelier”, por isso que a gente chama estúdio, mas é a pintura em tela, trabalhando mais esses outros suportes fora o muro, na perspectiva de exposições e também de vender alguns trabalhos. Então, a gente também tá entrando nessa linha, que é uma linha que a gente tá entrando, mas é bem no sapatinho, como a gente diz, porque é um outro universo, outra realidade, e historicamente é um universo muito elitista, muito acadêmico, voltado para o universo das artes como um todo e a arte de rua sempre ficava às margens desse universo. A gente tá chegando, tá entrando, tá participando, mas sem perder a essência, sem perder a postura do graffiti, sem perder a ideologia.

O conflito entre participação e exclusão é muito recorrente em Tubarão, também a questão da sua fala partir de seu local, mas que deseja não ficar circunscrito às fronteiras entre periferia e centro, deseja penetrar as linhas da cidade, mas povoando com suas cores e de seu grupo. Também esse desejo pode ser visto no graffiti nova-iorquino que usava os vagões de metrô para levar as cores da periferia aos mais variados pontos da cidade.

A repetição do desenho de um tubarão em seus graffitis pode ter uma relação com esse desejo de penetrar os espaços, de engolir muros, divisas e exclusões. Também pode ser um desejo de rasgar o concreto citadino para que Ipaumirin possa entrar e ele sentir que sua história e seu bairro realmente fazem parte de Fortaleza.

Cena 3: Todas as cores do invisível

Analiso, na última cena de cada sujeito, questões pouco exploradas ou mesmo silenciadas durante a entrevista, mas que possuem uma potência que pode dar forma à narrativa, como no caso do Tubarão, em que uma questão pouco explorada foi a relação entre o aumento da visibilidade e aceitação do graffiti a partir da participação de jovens de classes sociais mais favorecidas. A questão permeia toda a fala do entrevistado, está presente quando reivindica o pioneirismo e a autoridade de usar o termo graffiti, também

aparece na exclusão deliberada de termos que considera “acadêmicos”, como “atelier”, de

seu vocabulário.

Na passagem a seguir podemos ver como a crítica à questão da visibilidade do graffiti a partir da entrada de jovens de outras classes sociais aparece em sua fala:

(...) é uma arte que vem das ruas, que vem da periferia, que no início, nos Estados Unidos, foi nos bairros do Brooklyn e o do Bronx, mais precisamente, em Nova Iorque, onde os jovens, na sua maioria negros e latinos, que deram início ao movimento do graffiti, pintando os trens nova -iorquinos, passando por uma série de processos. Aí, é difícil você reconhecer uma cultura que vem da periferia, é muito difícil você ter esse reconhecimento da sociedade e academicamente. Então, quando outras classes sociais começam a fazer parte desse universo da rua, da street art, da arte urbana, que o graffiti está envolvido, é muito mais fácil você focar o direcionamento para essa galera do que para a galera que vem da periferia.

Durante o processo de escrita da tese permaneço, mesmo que de forma não sistematizada, acompanhado os entrevistados nas redes sociais e nos eventos ligados ao graffiti em Fortaleza. Recordo agora de uma postagem feita por Tubarão26, em nome da VTS, que é sua crew, afirmando que não reconhecia o dia 27 de março como o Dia

26

Disponível em:

https://www.facebook.com/437015636366472/photos/a.438776212857081.114584.437015636366472/13046 52509602776/?type=3&theate Acesso em: 10 de abril de 2017

Nacional do graffiti, por ter sido uma data escolhida como uma homenagem ao artista Alex Vallauri, artista plástico etíope que passou por Nova Iorque nos anos 1970 e depois veio à São Paulo e, juntamente com outros artistas e estudantes de arquitetura, começou a fazer desenhos nos muros de São Paulo com tinta spray.

A nota publicada em nome da VTS fala que a data não possui relação com o movimento hip hop, que foi um movimento nascido nos guetos e que tem em sua história uma luta social e de quebra de barreiras que são invisibilizadas quando criam porta-vozes para eles e termina sua postagem falando que eles mesmos querem contar suas histórias.

É interessante observar que Alex Vallauri é realmente citado por Ramos (1994), Gitahy (2012), Knauss (2001) e Sodré (2008) como um dos principais precursores do graffiti no Brasil e que a ligação do graffiti com o movimento hip hop é pouco aprofundada pelos autores.

A questão que Tubarão nos coloca é a de que existe uma invisibilização do graffiti enquanto expressão da periferia e reivindica essa visibilidade por ela ser necessária à manutenção do grupo. Como discutimos na primeira parte da análise da entrevista narrativa do Tubarão, os grupos não existem a priori, eles precisam de empenho de seus membros para que virem um agregado e para que possam manter uma coesão em meio às

heterogeneidades internas e a pressão dos seus “antigrupos”. Nesse sentido, dissociar o

graffiti da periferia é uma forma de atuar na desmobilização do próprio grupo.

Destacamos também que, enquanto reivindicação de um grupo excluído, o graffiti ligado ao movimento hip hop trazia cor e formas aos problemas sociais como precariedade na habitação, desigualdade social e preconceitos. Ao tirá-lo desse contexto, o graffiti pode passar a atuar no processo de invisibilização dos mesmos problemas, trazendo um embelezamento para a cidade e jogando tinta em suas imperfeições.

Paro um instante para escrever em meu diário de itinerâncias a necessidade de aprofundar essa questão do graffiti e fazer uma ligação entre as falas dos entrevistados, penso em como a escrita da tese leva a caminhos e nos faz voltar também. Antes de iniciar esta escrita, planejei fazer um capítulo com uma revisão teórica sobre o graffiti e desisti por optar em não escolher as categorias de análise à priori e deixar que elas sejam inventadas na análise das entrevistas.

A proposta de construir neste ponto “Muros” uma escrita em que você possa

escolher por qual sujeito vai iniciar sua leitura faz com que me pergunte se você está lendo Emerson Tubarão primeiro e penso em como passar por aqui antes pode mudar o seu

encontro com os outros. Imagino as múltiplas sequências possíveis e que sempre nos perdemos nestes caminhos. Não saber por onde você andou antes de chegar aqui faz com que procure escrever cada subponto pensando em como a narrativa é um “universal

singular”, contém algo que é só seu e, ao mesmo tempo, conta a história de todos.

2.5 Gleison Luz - “você está aqui com o seu canal aberto e aí você vê muita, muita,

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Benzer Belgeler