3. Kesintili Süreklilik
3.1. Teknolojinin Gelişimindeki Süreklilik
O tema do bilinguismo como poética da criação, tem em Steiner um de seus mais sérios estudiosos. Steiner dedica sua obra Extraterritorial. A literatura e a revolução da linguagem a estudar:
a emergência de pluralismo linguístico ou "desabrigo" em certos grandes escritores. Esses escritores mantêm uma relação de hesitação dialética não apenas com uma língua materna - como antes fizeram Hölderlin ou Rimbaud -, mas com várias línguas. Isto praticamente não tem precedentes. (1990, p.10)
Essa reflexão de Steiner permite aproximarmos à obra de Pérez Firmat. A escrita em deslocamento presente na obra El año que viene estamos en Cuba é constantemente perpassada pelos dois idiomas. Na introdução dessaobra, escrita inicialmente em inglês e traduzida pelo próprio escritor ao espanhol, Gustavo Pérez Firmat sente a necessidade de explicar o motivo de não ter escrito a obra primeiramente em sua língua materna:
Es posible que a algunos lectores les parezca que todavía quedan en mi texto demasiadas palabras inglesas o giros norteamericanos. Pero borrar las huellas del inglés en la traducción- aun si fuera capaz de hacerlo- sería tan falso como haber borrado todas las huellas del español en el original. Para bien y para mal, existo en dos idiomas, y si el español me hace muchísima falta, no menos falta me hace el inglés. [...] En mi caso, como en el de millones de otros hispanos residentes en este país, dos son los idiomas propios y ajenos: el español y el inglés. Mi destino – o mi desatino – es escribir inglés con acento cubano y escribir español con cierta inflexión Yanki. So be it.27 (PÉREZ FIRMAT, 1997, p.II)
Retomando Steiner (1990), essa necessidade de explicar ao leitor o motivo pelo qual, apesar de ser cubano, optou por escrever a obra inicialmente em língua inglesa, está relacionada ao fato do escritor ser considerado, por toda sua vida acadêmica e por toda a sua produção literária até o momento de publicação da obra, como alguém que domina perfeitamente seu idioma e a temática que é tratada. No caso de Pérez Firmat é necessário perceber que o autor possui simultaneamente dois idiomas, tendo que fazer continuamente a escolha de expressar-se em um ou outro idioma, o que lhe possibilita trabalhar esse bilinguismo de acordo com a situação que é desenrolada na narrativa, o que caracteriza o seu proceder estético. Assim, utilizando-se simultaneamente dos dois idiomas, adaptando o modo de escrever de um idioma à sintaxe do outro, Pérez Firmat influencia as suas duas línguas, tanto o espanhol – idioma adquirido primeiro – quanto o inglês – idioma adquirido em uma segunda fase (o que não o torna menos importante no processo de escritura criativa) e falado a maior parte de sua vida, seja tanto no âmbito familiar – com seus filhos e esposa – quanto no âmbito profissional – nas aulas que dá na universidade, nos trabalhos acadêmicos e obras literárias que são escritos nesse idioma.
Indivíduos bilíngues, que fazem uso simultaneamente de dois idiomas, tem a tendência de encarar sua condição sob a ótica da perda, como se esse indivíduo se tornasse menos cubano ou como se nunca fosse se tornar americano o suficiente, mas é
27 É possível que pareça a alguns leitores que ainda restem em meu texto muitas palavras inglesas ou
gírias norte-americanas. Mas apagar as marcas do inglês na tradução- mesmo se fosse capaz de fazê-lo – seria tão falso quando ter apagado as marcas do espanhol no original. Para bem e para mal, existo em dois idiomas, e se o espanhol faz muitíssima falta, o inglês não me faz menos falta [...] No meu caso, como no de milhões de outros hispânicos residentes neste país, dois são os idiomas próprio e alheios: o espanhol e o inglês. Meu destino – ou meu desatino – é escrever inglês com sotaque cubano e escrever espanhol com certa inflexão ianque. Que assim seja.
necessário enxergar a situação de outra ótica e perceber que a maior característica de indivíduos em situação de deslocamento é a soma de duas culturas e de dois idiomas e de acréscimo de informações à sua personalidade. Nos indivíduos bilíngues existe um medo de perda cultural pela influência da cultura estrangeira, por isso há sempre um movimento no sentido de preservar a cultura materna:
mi padre [...] domina el inglés algo mejor que cuando llegó, pero todavía siente hacia los americanos esa mezcla de incomprensión, admiración y desdén [...] mi padre nunca será americano, y no le hablen de solicitar la ciudadanía, porque se enfada.[...] puede ser ‘residente permanente’ de Estados Unidos, pero seguirá siendo ciudadano eterno de Cuba.28 (PÉREZ FIRMAT: 1997: XII)
Essa conexão que o pai do personagem faz entre nacionalidade e idioma coincide com o que era ditado pela antiga historiografia literária e pela necessidade dos Estados-nação de se defenderem uma presumida pureza linguística perante as influências estrangeiras. No entanto, estando exilado em território estrangeiro, essa resistência do personagem inevitavelmente cairá por terra, posto que para comunicar-se é necessário adotar o idioma da maioria da população de sua localidade, mesmo que essa adoção seja feita a contragosto.
Na narrativa de El año que viene estamos em Cuba, ficção e realidade se misturam para exemplificar os sentimentos do personagem Gustavo em relação à viver em dois idiomas. O narrador-personagem conta ao leitor um sonho que teve e retrata a divisão de seu ‘eu’ em dois:
He rememorado nuestra partida de Cuba cientos, quizás miles de veces. He soñado con ella, he elaborado fantasías […] A medida que el ferry se retira lentamente de su embarcadero, miro hacia el muelle y veo a un niño que me
dice adiós.[…] Al mirarlo, me doy cuenta de que ese niño soy yo. En mi
fantasía, habito dos lugares a la vez. Estoy en el muelle y estoy en el ferry.[...] en la última imagen de la fantasía me encuentro en el ferry, con las manos agarradas a la barandilla, mirando al niño que fui, al niño que ya no era, que se desvanece poco a poco.29 (PÉREZ FIRMAT, 1997, p.4).
28 Meu pai [...] domina o inglês um pouco melhor do que quando chegou, mas ainda sente em relação aos
americanos essa mistura de incompreensão, admiração e desdém [...] meu pai nunca será americano, e não falem com ele de solicitar a cidadania, porque se irrita. [...] pode ser ‘residente permanente’ dos Estados Unidos, mas continuará sendo cidadão eterno de Cuba.
29
Relembrei nossa partida de Cuba centenas, talvez milhares de vezes. Sonhei com ela, elaborei fantasias.
Essa divisão em dois Gustavos que está presente nos devaneios do personagem- narrador é um prenuncio dos seus sentimentos ao longo do livro: dividido, duplo, uma pessoa composta por dois ‘Gustavos’: o Gustavo que ficou em Cuba e o Gustavo que partiu de Cuba. O fenômeno do exílio, o movimento diaspórico é tratado aqui como uma mutilação, uma violência àquele que deixa sua pátria para viver em outro país e deixa para trás parte de sua história: “El exiliado abandona no sólo su patria y sus posesiones sino parte de sí. Sobre todo si es muy joven, pues entonces se destierra antes de alcanzar una identidad duradera y estable.” 30
(PÉREZ FIRMAT, 1997, p.5). Mais adiante na narrativa, o personagem fantasia que regressa a Cuba e encontra o Gustavo que deixou para trás, como deveria ter sido se jamais tivesse abandonado a ilha. No momento desse encontro o personagem se questiona se reconheceria a si mesmo nesse Gustavo que permaneceu na ilha, e questiona ainda qual seria a língua materna que ambos Gustavos deveriam utilizar para se comunicar: inglês ou espanhol?
Apesar de ter chegado de Cuba já sendo capaz de se comunicar em língua inglesa e tendo algum conhecimento da cultura estadunidense pelos filmes que assistia com seus irmãos e pelas viagens anteriores aos Estados Unidos feitas com seus pais, o personagem Gustavo sente um estranhamento em relação à sua nova professora, que além de adotar uma postura com seus alunos diferente da postura dos professores cubanos do antigo colégio do personagem, também se utilizava de um tom de voz baixo, motivo pelo qual o personagem afirma que, nos Estados Unidos, a familiaridade com a língua inglesa se deu primeiro de maneira visual (Gustavo se esforçava para ler os lábios da professora) do que auditiva, já que não conseguia ouvir a professora americana que falava em tom baixo, ao contrário de seus antigos professores cubanos. Acreditamos que isso possa ter influenciado o personagem Gustavo a escolher uma carreira como professor de literatura em sua vida adulta, posto que era no texto escrito que o personagem ultrapassava com mais facilidade a barreira inicial com o idioma.
me diz adeus. […] Ao olhá-lo, me dou conta que esse menino sou eu. Na minha fantasia, habito em dois lugares ao mesmo tempo. [...] na última imagem da fantasia estou na balsa, com as mãos agarrando a grade, olhando o menino que fui, o que menino que já não era, que desaparece pouco a pouco.
30
O exilado abandona não somente sua pátria e suas posses, mas parte de si. Sobretudo se é muito jovem, pois então é desterrado antes de adquirir uma identidade duradoura e estável.
Mais adiante na narrativa, em 1963, estudando no colégio La Salle, nos Estados Unidos, que empregava muitos professores que o personagem Gustavo havia conhecido em Cuba e grande parte dos alunos do colégio sendo de origem cubana, Gustavo voltou a estar imerso em sua cultura cubana materna, voltando a falar espanhol com frequência fora do ambiente familiar, e a conviver com adolescentes que compartilhavam de seu idioma materno e devolveram ao adolescente Gustavo o orgulho de seu bilinguismo, podendo transitar livremente entre o inglês e o espanhol, se comunicando com igual facilidade com os alunos cubanos e os alunos americanos. Traços da cultura americana (como os esportes, as torcidas organizadas, músicas cantadas nas partidas esportivas) eram intencionalmente adaptados para se encaixarem melhor na cultura cubana e no idioma espanhol:
Aunque mucha gente usaba apodos americanos [...] hablábamos español entre nosotros y nos considerábamos insobornablemente cubanos. A la vez que absorbíamos la cultura norteamericana, tendíamos a cubanizarla.
[…]. El cheer más popular del colegio lo habíamos traído de Cuba […] 31
(PÉREZ FIRMAT, 1997, p. 45)
Assim, o idioma materno que durante algum tempo ficou limitado somente ao âmbito familiar voltou a fazer parte da rotina do personagem, moldando seu modo de ver e se colocar no mundo a partir de seu bilinguismo que era exercido naturalmente enquanto crescia.
31 Ainda que muitos usassem apelidos americanos [...] falávamos espanhol entre nós e nos
considerávamos insubornavelmente cubanos. Ao mesmo tempo em que absorvíamos a cultura norte- americana, tendíamos a torná-la mais cubana. […]. Trouxemos o canto mais popular do colégio de Cuba