• Sonuç bulunamadı

4. YURTDIŞINDA YAPILMIŞ ARAŞTIRMALAR

6.3. Tek Yönlü MANOVA Sonuçları

Muitos são os fatores existentes em nossa sociedade, assim como em nossas fontes, acerca dos possíveis motivos que levam homens a espancarem mulheres e estas a permanecerem presas a relações violentas. No que tange aos motivos que levam os homens a espancarem, dois preponderam em vários estudos: o álcool e as drogas. No que concerne a permanecerem as mulheres em relações violentas, um motivo ganha ressonância em muitas pesquisas: a dependência econômica.

Nos depoimentos colhidos, 50% das mulheres agredidas ressaltam que o álcool é fator desencadeador das agressões, os homens também atribuem a ele o porquê de agredirem e a ex-delegada entrevistada corrobora com esse pensamento. Com relação à dependência econômica, nossas fontes orais vão contra aquilo que está presente no imaginário social e nas literaturas consultadas.

Heleieth Saffioti nos permite questionar esses argumentos expostos acerca dos motivos que levam homens a agredirem. Ela afirma que a embriaguez não pode justificar a violência cometida pelos homens, porque o álcool, os entorpecentes e as dificuldades financeiras são apenas facilitadores do processo de violência. Em anuência com a autora, acreditamos que a violência masculina advém das relações de poder construídas histórica e socialmente entre homens e mulheres, enraizadas na cultura desses personagens222.

Em nossa conversa com Mary, ex-delegada, ela enfatiza que o alcoolismo é o fator primordial para as relações de violência: “99% dos motivos apresentados pelos agressores é o alcoolismo (...) em especial no âmbito da família”223.

Essa justificativa também é usada pelas mulheres; Marina e Mércia preferem delegar as agressões do marido ao álcool sem ressalvas, já Marilda consegue vê-lo apenas como uma forma de encorajamento, quando ressalta que, muitas vezes, seu marido a espancava mesmo sem ter bebido, como expõe nos depoimentos abaixo:

222 SAFFIOTI, Heleieth I. B. Violência de Gênero no Brasil Contemporâneo. In: SAFFIOTI, Heleieth I. B., VARGAS, Monica Munoz (org.). Mulher Brasileira é Assim. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos,1994. p. 151 – 185. 223 Mary, ex-delegada da Delegacia da Mulher em Montes Claros. Montes Claros/junho 2008.

[...] acho que ele batia em mim por causa da cachaça, ele me batia e falava que não gostava de mim, ele só me batia quando ele bebia [...] eu acho que na verdade ele bebia como desculpa, a bebida era desculpa para fazer o que ele fazia, mas não é a principal culpada não moça, é não, quantas vezes ele são aí queria bater ne mim [...]224.

[...] aí aqui ele trabalhava num lugar que era meio expediente então no outro expediente ele não tinha outra coisa pra cobrir aquele espaço então ele ficava nos boteco para cobrir aquele espaço aí ficou viciado, né, aí ele bebia, chegava dentro de casa e me batia fazia ruindade comigo, né [...] tudo por causa da bebida sempre assim sempre eu falo a violência dentro de casa por causa da bebida, chega quebra tudo [...] ele é alcoólatra assim sabe, ele pega os trem e vende tudo prá comprar pinga, troca os trem a troco de cachaça [...]Eu acho que a violência dele é só por causa da bebida mesmo [...]225.

[...] Ele não era agressivo, de jeito nenhum, só ficou assim depois que eu descobri que ele era usuário de drogas, aí os problema foi aumentando, aumentou o problema da bebida, começou as agressões depois da bebida mesmo sabe? Era ele beber e ele transformava, não respeitava ninguém, nem a mim, nem a mãe, quando ele tava na dele ele não respeitava ninguém não, nem filho, nem nada226.

Os agressores também enxergam no álcool um propulsor para o desencadeamento da agressão. Por vezes, esse foi o argumento utilizado para conseguirem absolvições nos casos de homicídios e também de lesões corporais, é o que percebemos seja nos processos-crime seja na fala dos agressores entrevistados. Primeiramente os depoimentos, Vítor atribui ao seu crime o fato de ter bebido e Valdeir ressaltou que só batia na esposa quando estava bêbado:

[...] eu tinha bebido um pouco, tava assim meio inconsciente entende? Aí quando eu caí eu levantei aí puxei o revólver, quando eu fiz assim acerto bem na minha cunhada ela entrou na frente da minha esposa aí no ela cair eu já tava desesperado fui dá mais dois tiro na mulher minha foi uma tentativa e um homicídio aí eu acertei minha esposa, feriu minha esposa e acertei minha cunhada que morreu na hora [...]227.

[...] Eu batia nela quando estava bêbado, nós dois bebia, nos dois brigava, aí eu batia nela, quando não estava bêbado não batia não, nossas briga era só por causa da bebida mesmo228.

224 Marilda, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008. 225 Mércia, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008. 226 Marina, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008. 227 Vítor, homicida entrevistado. Montes Claros, junho/2008. 228 Valdeir, agressor entrevistado. Montes Claros, junho/2008.

Na documentação analisada, a presença do álcool e das drogas também se verifica como fator desencadeador da prática da violência contra as mulheres. No Auto de prisão em flagrante delito de n.° 003.576, a testemunha, que é mãe da vítima, ressalta que: “As agressões praticadas pelo acusado contra sua filha deviam-se ao efeito de drogas, uma vez que o mesmo faz uso de maconha”229.

Já em outro Auto de prisão de n.° 003.851, temos a agressão contra a vítima pelo fato de a mesma, conforme depoimento, ter sido forçada pelo marido a ingerir bebida alcoólica (cachaça) e, como não quis, o mesmo entrou em atrito verbal, partindo em seguida para agressão física, utilizando para tal uma marreta. Em depoimento, o agressor ressaltou:

[...] Que aproximadamente sete meses atrás se encontrava recolhido na cadeia pública da cidade de Janaúba/MG à disposição da justiça pública daquela comarca por força de prisão preventiva (por outro crime não relacionado a este), sendo liberado dia 21/12/1992 por determinação da MM. Juíza de direito, em plena liberdade, dirigiu-se para esta cidade para o convívio familiar, com a esposa e filhos, chegando aqui no dia seguinte, quando eufórico com o reencontro com a família e estando sete meses sem fazer uso de bebida alcoólica deu ênfase ao seu vício, bebendo todas, que completamente embriagado na data de ontem desde cedo deu continuidade a sua bebida e nas primeiras horas desta data, ingerindo aguardente misturado com vinho sem saber os motivos apossou de uma marreta, desferindo um golpe contra a sua esposa, que o declarante não golpeou pela segunda vez ou mais porque a esposa tomou-lhe a referida marreta e para se defender aplicou-lhe um leve golpe atingindo-o também na cabeça, que julga o declarante que o motivo de agredir sua esposa se deu ao fato de forçá-la a ingerir a bebida que tomava o que não foi aceito vez que a mesma não faz uso de bebida alcoólica, que esta foi a primeira vez durante quinze anos de matrimônio que acontece algo dessa natureza entre ele e sua esposa230.

Interessante ressaltar como a mulher torna-se passível de agressão por questões mínimas; o fato de não querer ingerir bebida alcoólica foi motivo para que seu marido a agredisse de forma extremamente violenta, utilizando-se de uma marreta. Diferente do que foi exposto pelo agressor ao enfatizar que “lhe aplicou apenas um golpe”, os relatos obtidos nesse documento com relação ao estado da vítima, pelas testemunhas e pelo policial, afirmam que a mesma estava “toda ensangüentada, com ferimentos pela face e cabeça”, contrariando, assim, o relato do agressor ao querer diminuir seu crime.

229 PROCESSO DE LESÃO CORPORAL. N.º 003.576. DPDOR – AFCG. Montes Claros: 1988. Fl. 04. 230 PROCESSO DE LESÃO CORPORAL. N.º 003.851. DPDOR – AFCG. Montes Claros: 1988. Fl. 09.

Em outro Auto de prisão, uma testemunha atribuiu a agressão sofrida pela mulher ao álcool – é o que está presente no imaginário social, é o que prefere acreditar a sociedade, uma vez que, atribuindo a causas imediatas as agressões, torna-se mais fácil sanar o problema. Entretanto, acreditamos que as agressões sofridas pelas mulheres vão além de motivos palpáveis, e serão de difíceis soluções, caso não se mude a mentalidade e, consequentemente, a cultura da nossa sociedade. Assim relatou a testemunha:

[...] vizinho da vítima e do conduzido, tem ciência de que este freqüentemente agride a mulher, que essas agressões são sempre motivadas pelo uso imoderado de bebidas alcoólicas pela vítima e pelo conduzido. Que inclusive hoje os dois estavam embriagados [...] que pode constatar que a vítima estava bastante machucada e com sangramentos no corpo inteiro231.

No que diz respeito ao fato de as mulheres se manterem presas a relações violentas pela dependência econômica, como é ressaltado pela justiça assim como pela sociedade e grande parte de pesquisas que envolvem a violência contra as mulheres, tivemos respostas contrárias ao lidar com nossas entrevistadas, uma vez que essas mulheres fizeram questão de afirmar que não dependiam economicamente do homem, não contavam com o apoio financeiro de seu parceiro e estes, geralmente, se mostravam negligentes com a “função de provedor”:

[...] eu trabalhava, sempre trabalhei, nunca deixei de trabalhar mesmo esperando neném, eu nunca dependi dele, mas mesmo assim eu insistia em ficar casada [...] eu dava assistência prós meus meninos como se fosse o homem que tivesse saído de casa, porque ele não trabalhava, eu fiquei dando despesa, na época eu trabalhava e fiquei dando despesa prós meus filhos, ele não trabalhava aí eu tinha que sustentar ele, sustentava mesmo como sustento até hoje, até outro dia tinhas as notinha dessa casa aqui, fui eu que construí, tudo com meu suor, com meu trabalho [...]232.

[...] porque eu que trabalho e coloco tudo dentro de casa ele não me ajuda com nada, ele não sustenta nada [...] a vida inteira eu trabalhei tem 13 anos e três meses que eu trabalho só com essa menina aqui e ainda lavava roupa prá fora [...]233.

[...] ele era assim uma pessoa muito lenta sabe? Sabe por que a gente viveu bem? Porque eu nunca levei uma conta de água e falei assim, ô fulano, chegou a água, chegou a luz, eu sempre dava conta de tudo, eu pagava tudo, a casa que nós entramos prá dentro quando nós casamos, foi eu que batalhei, quando nós entramos já tava de tudo pronto234.

231 PROCESSO DE LESÃO CORPORAL. N.º 003. 866. DPDOR – AFCG. Montes Claros: 1993. Fl. 04. 232 Marilda, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008.

233 Mércia, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008. 234 Marina, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008.

[...] lá em casa eu que tenho que tomar conta de tudo, porque se for esperar por ele é perigoso nós até passar fome, ele não põe nada dentro de casa, nada mesmo, se não fosse eu...[...]235.

Interessante avaliar como é desconstruído o estigma da mulher dependente financeiramente do marido, estigma este nutrido pelo imaginário social e encontrado nos discursos dos documentos analisados, na literatura sobre a temática e ainda na fala das autoridades policiais. No cotidiano dessas mulheres agredidas, a dependência econômica não se verifica, pois grande parte das mulheres trabalha para sustentar a casa, os filhos e por vezes até mesmo os maridos. Acreditamos ser esta uma das riquezas das fontes orais: nos revelarem outras histórias que causam rupturas no que é tido como certo e verdadeiro, permitindo-nos apreender uma outra versão dos fatos, versão esta ora assimilada, ora paradoxal, que acaba por diferenciar o prescrito do vivido.

As duas outras entrevistadas, Meredith e Mercedes, relataram que não trabalhavam, mas não atribuem a dependência econômica como fator primordial para viverem por algum tempo submetidas às agressões dos seus maridos. Meredith ressalta que “isso é mais complicado do que as pessoas podem imaginar, envolve muita coisa, amor, filhos, uma família, né?” Mas fez questão de ressaltar que na primeira agressão saiu da casa do marido com os dois filhos, “muita gente me perguntava: você vai viver de quê? Eu respondia não sei, dou meu jeito, com esse homem é que eu não fico”. Já Mercedes enfatizou que pensava unicamente nos filhos, pois sabia que se deixasse seu marido não ia ter o apoio de ninguém, então como criar quatro filhos/as sozinha? Livrou-se do seu agressor no dia em que sua mãe foi buscar “eu e meus menino”236.

Com essas mulheres, compreendemos que nas relações de violência nem sempre as mulheres estão como sujeito passivo, dependente, que precisa de seu agressor para sobreviver. Em muitos casos, elas têm o domínio da situação, procuraram reagir, são vítimas, mas não vitimizadas. Aprendemos, ao lidar com nossas fontes, que nem sempre as agressões têm apenas um lado para ser observado; muitas vezes, é preciso buscar os detalhes, os discursos que enunciam e constroem a subordinação, a resignação, a passividade como atributos do feminino, procurando com isso camuflar a ação dessas mulheres, como se as mesmas aceitassem essas violências sem contestar, sem burlar, sem usar de artimanhas nesses conflitos.

235 Magda, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008.

Assim, com a ajuda de algumas pesquisas que já conseguem ver as ações das mulheres de forma mais palpável, buscamos observar em nossas fontes tais ações, abordando a resistência das mulheres nos conflitos de gênero.