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No Brasil, os números de violência física e/ou sexual contra as mulheres são alarmantes. A cada quatro minutos uma mulher é agredida. Dentre essas agressões, 70% dos casos da violência tendem a ser praticada dentro dos lares; 65% das agressões são praticadas pelos integrantes do próprio núcleo familiar, sendo que maridos e companheiros respondem por 70% dos casos210.

Apesar do alto índice de violência doméstica contra as mulheres no Brasil, o Estado, em nome da preservação da família, “base da sociedade”, procura se eximir dos conflitos ocorridos no âmbito doméstico, escusando-se de zelar pela integridade daquelas que sofrem esse tipo de violência, e, ao tentar promover “a paz social”, acaba por ferir o artigo 226 da CF/88, que

210 FERNANDES, Emília. Dia Internacional Pela Não Violência. Senado. Disponível em www.senado.gov.br, acesso em 26/02/2006.

diz: “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado”. E vai além com a arbitrariedade, ao negligenciar a violência doméstica, quando, por lei, deveria coibi-la, uma vez que seu papel seria o de “garantir a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito das suas relações”211.

Apesar de a violência denominada “doméstica” – como aquela que ocorre entre “marido e mulher” – ganhar ênfase em grande parte dos estudos, ela pode ser praticada também contra empregadas/os, agregadas/os e até mesmo pessoas que convivam esporadicamente, desde que perpasse relações violentas que ocorreram/ocorrem dentro da casa ou unidade doméstica. As agressões mais encontradas nesses casos são: abuso físico, sexual e psicológico, além da negligência e do abandono.

Em nossa pesquisa, uma parcela considerável dos documentos encontrados nos mostrou que 54% das agressões são vistas como possíveis crimes relacionados à violência doméstica – foram entendidos como “possíveis” porque, quando não mencionada explicitamente a relação entre agressor e agredida, optamos por fazer como nos casos de homicídios, basearmos no fator “sobrenome igual” para considerarmos como violência doméstica. Esse fator que utilizamos pode ser visto com pontos negativos e positivos, pois podemos incorrer no erro de uma simples coincidência de sobrenomes e assim atribuir erroneamente a agressão à violência doméstica, ou, em perspectiva contrária, podemos desconsiderar, talvez em possibilidade maior, aquelas relações que não estão registradas em padrões legais, como o casamento, excluindo assim agressões que se passam no ambiente doméstico, mas que se dão através de uniões informais, como no caso de pessoas amasiadas, o que se verifica em grande proporção na sociedade montes- clarense.

Diferentemente dos demais crimes pesquisados, o crime de lesão corporal foi o que apresentou uma divisão mais peculiar nos documentos encontrados. Ainda que o Telex também prepondere sobre os demais documentos, a distribuição dos demais itens se deu de forma que nos permitiu análises diferenciadas. A começar pelo “Termo de Audiência”, já analisado anteriormente.

Outra peculiaridade encontrada no crime ora analisado se refere ao item Telex, mais precisamente em três desses documentos; o que muito nos chamou a atenção foi constar que tanto

a mulher quanto o homem estavam mencionados como réus e vítimas, ou seja, depreende-se que a mulher foi até a delegacia fazer a denúncia e, chegando lá, o homem também prestou queixa contra a mesma, o que nos permitiu enxergar dois pontos presentes em nossa discussão: o primeiro, o fato de a mulher não estar totalmente submissa nas relações de violência, como muitas pesquisas enfatizam, mostrando assim que também são sujeitas nessa relação, embora muitas pesquisas optem por entender que quando a mulher agride o faz como forma de reação.

Em parte, concordamos com essa posição. Entretanto, compreendemos que ela se verifica primordialmente pela construção cultural e social de que fazemos parte. Ao não enxergarmos as mulheres com papel ativo, capaz de agredir seu companheiro, reafirmamos o que se concebe culturalmente na sociedade acerca da docilidade e incapacidade de atitudes violentas atribuídas às mulheres. O outro ponto é o homem ter enfrentado o preconceito existente e também ter denunciado a mulher por agressão. Em nossa análise foi observado, em função do sobrenome, que dois dos três casos se referem a casais, mas, quanto ao último, não foi possível fazer essa afirmação.

A nossa ênfase em ver nesses documentos uma peculiaridade reside no fato de entendermos que a violência doméstica não é praticada apenas contra mulheres – ainda que esta seja em grande número –, mas que, em alguns casos, os homens também são vítimas de violência das mulheres, entretanto, esse percentual é bastante reduzido. A violência doméstica cometida contra os homens quase não aparece em registros oficiais, prova disso é nossa pesquisa, uma vez que, em um universo de 114 documentos relacionados a processos-crime, apenas 3 nos forneceram essa informação, fora aqueles em que, por machismo e vergonha, os homens não denunciam as violências sofridas. Devido à cultura presente em nossa sociedade, a questão da violência doméstica contra homens é pouco reconhecida, ou melhor, a sociedade sequer cogita a sua existência. Afinal, se um homem é vítima de violência de sua mulher, o estigma e a ridicularização fornecem razões para que ele não queira que seu caso venha a conhecimento público212.

Foi o que pudemos constatar pela entrevista de Magda, a única mulher, dentre as seis entrevistadas para esse crime, que enfatizou que também agrediu. Ela afirma que não o denunciou porque não quis, e foi ele quem saiu mais machucado, ele que teria que denunciá-la:

212 Para uma melhor leitura sobre o assunto, ver: BARSTED, Leila Linhares. Metades vítimas, metades cúmplices? A violência contra as mulheres nas relações conjugais. In: DORA, D. D. Feminino masculino: igualdade e diferença na justiça. Porto Alegre: Sulina, 1997, p. 73-84.

[...] ele teve o que ele mereceu das minhas próprias mãos, eu não sou mulher de deixar os outros resolverem as coisas prá mim não...Onde já se viu, eu chegar em casa cansada do trabalho e o homem querer me espancar? Comigo não. Ele me bateu, mais eu também bati demais nele, ele ficou com tanta vergonha dos vizinhos que ficou quase uma semana sem sair de casa, também, né? Com razão, apanhar de mulher...(risos), mas foi ele quem começou213.

Observamos que a própria mulher ressalta que o marido é que deveria denunciá-la e não o fez. Outro ponto a ser observado foi o relatado por Magda em relação ao marido ter ficado uma semana sem sair de casa com vergonha, tendo sido motivo de deboche para a própria Magda, que riu ao enfatizar o que está presente no imaginário social acerca do homem, que não pode consentir em ser agredido por aquela que eles consideram um ser frágil, sem capacidade para tal. Modelo este apropriado e repassado pelas próprias mulheres.

Ao pesquisarem sobre a violência contra as mulheres, alguns/as autores/as procuram respostas para a violência sofrida pelas mulheres em aspectos culturais e socioeconômicos. Culturais, como a consolidação da autonomia da mulher nas últimas décadas, rompendo com a tradição da autoridade exclusiva do marido, parceiro ou pai, provocando maior instabilidade nas relações interpessoais da família tradicional criando situações de tensão. Outro aspecto cultural refere-se à separação entre a sexualidade e reprodução, que conduziu a emergência de novas formas de expressão da sexualidade feminina fora do domicílio familiar e conjugal, ocasionando tensão porque não mais somente o homem poder regular essa sexualidade. No que concerne ao item socioeconômico, destaca-se a crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho somada ao aumento das taxas de escolaridade, o que lhes permite desempenharem funções no espaço público, funções que outrora não lhes eram destinadas. De acordo com esses/as autores/as, são nessas delicadas tensões nas relações entre homens e mulheres que o conflito e, posteriormente, a violência por vezes acontece214.

De certa forma, tais aspectos contribuem para casos de violência, entretanto, não podemos atribuir a tais casos apenas essas duas vertentes, haja vista que a violência não pode ser vista como algo advindo apenas do fator cultural e socioeconômico, mas precisa ser pensada de forma mais abrangente. Se reputarmos como causa da violência contra mulheres o não exercício da autoridade masculina, o que dizer dessa violência estar presente mesmo quando

213 Magda, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008.

214 SCRAIBER, Lilia Blima et al. Violência dói e não é direito: a violência contra a mulher, a saúde e os direitos humanos. op. cit. p. 83-85.

as mulheres não tinham autonomia sequer para viajar ou trabalhar fora de casa e o domínio masculino existia e tinha base legal para isso?

Como exposto em nossas considerações iniciais, o interesse em pesquisar a violência contra mulheres se deu a partir de uma pergunta: por quê? Diante do aprofundamento das nossas leituras, das discussões levantadas, das análises das fontes, percebemos o cuidado que nos seria necessário com essa pergunta, assim como em atribuir à violência causas diretas como a cultural ou econômica, como se fosse possível desassociar os vários fatores que contribuem para tal prática.

Muitas vezes, erroneamente, questionamentos como esses nos levam a respostas que acabam por reforçar o que está presente no ideário social, que a mulher parece gostar de apanhar ou, ainda, que as mesmas estão presas aos seus agressores por questões econômicas, sendo assim cúmplices da sua própria violência. É o que pudemos constatar na entrevista da ex-delegada Mary, em que ela fez questão de reforçar o que está presente no senso comum de que as mulheres se mantêm em relacionamentos abusivos devido à dependência econômica do companheiro:

[...] A delegacia da mulher é uma delegacia melindrosa porque você trabalha com a emoção das pessoas sabe, e com a dependência econômica da maioria das mulheres que chega na delegacia, porque só chega aqui a parte pobre [...] é também a dependência econômica como eu já disse que faz com que elas retirem a denúncia [...] porque tem muita mulher que prefere ficar sob o jugo de alguém, aí elas preferem viver as conseqüências de um casamento, uma união infeliz prá poder ter uma vida cômoda215.

A fala da ex-delegada nos mostra duas questões. A primeira é o que permeia o imaginário social de que a violência contra mulheres só atinge mulheres pobres, ainda que ela não tenha feito essa afirmação, utilizamos da menção de que só chega à delegacia a parte pobre da sociedade para ressaltar que isso não condiz com a realidade. Talvez as mulheres pobres são as que em maior número procuram a delegacia, por não terem outros meios em que se apoiar em casos de violência sofrida, e também pelo fato de que as mulheres mais abastadas possuem outros recursos de proteção – como a possibilidade de pagar um advogado para que consigam diretamente a separação ou ainda sair de casa na primeira agressão, por terem onde ficar e como se sustentar, conservando assim o sigilo acerca da violência –, mas não se pode com isso generalizar e inferir que a violência ocorra apenas contra mulheres pobres.

Outra questão é ela dizer que “muita mulher prefere ficar sob o jugo de alguém, (...) uma união infeliz pra ter uma vida cômoda”. Nesse ponto, a entrevista da ex-delegada está permeada de contradições: como ter uma vida cômoda na pobreza? Nos relatos de vida que obtivemos, não encontramos mulheres que prefiram a agressão por serem sustentadas satisfatoriamente pelos maridos, pela comodidade que o relacionamento afetivo/conjugal lhes proporciona; antes, porém, nossas fontes orais se apresentaram de maneira diversa do que foi exposto pela delegada, pois são mulheres pobres, que trabalham, que ajudam ou sustentam as casas sozinhas. Assim, o “continuar nessas relações” se dá por diversas outras razões, nos casos que analisamos, mas não por “ter uma vida cômoda”, como afirma a ex-delegada.

Em nossas fontes, tanto nos processos quanto nas entrevistas, houve a preponderância de pessoas de classe baixa, mas, ainda assim, nos processos, observamos denúncias contra 2 comerciantes e 1 fazendeiro, profissões consideradas de pessoas de classe média e alta, respectivamente, na sociedade montes-clarense, isso sem contar aqueles documentos que não fazem menção do aspecto profissão. Assim, por mais que nossos dados nos mostrem que a “classe pobre”, nas palavras da ex-delegada, aparecem prioritariamente em nossas fontes, não podemos afirmar que a violência não acontece em outras classes sociais, uma vez que a violência contra mulheres independe de classe social.

Outro ponto que ganha relevância no imaginário de nossa sociedade é o de que, se as mulheres que sofrem a violência não buscam ou reivindicam ajuda, não cabe a quem está de fora se preocupar, pensamento este que se condensa no tão conhecido jargão: “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Entretanto, podemos observar que tal jargão popular começa a cair em desuso.

2.2.3 - “EM BRIGA DE MARIDO E MULHER NINGUÉM METE A COLHER?”

Dentre os avanços no que concerne à violência contra as mulheres, percebemos que a mesma está deixando de ser aceitável, pelo menos para alguns membros da sociedade, que têm contribuído para que tal violência deixe de ser vista como uma “inconveniência tolerável”, um deslize na vida dos casais, um processo de socialização de que os pais, maridos ou irmãos necessitam para uma melhor educação das suas filhas, esposas e irmãs.

Em muitos documentos encontrados, esse “modelo de correção” é colocado em cheque; a “tolerância” com relação aos espancamentos de mulheres tem ganhado outras