O cuidado em não vitimizar as mulheres – ainda que trabalhando na perspectiva delas como vítimas – nos inquietou desde o primeiro momento da nossa pesquisa e nos perguntávamos: como encontrar resistências nessas mulheres que são seviciadas, estupradas, espancadas e que sofrem tantos outros tipos de atrocidades? Após pesquisas e discussões acerca dessa possibilidade, assim como análises dos documentos e depoimentos, conseguimos perceber que, nos conflitos de gênero, algumas formas sutis, outras mais reveladas, são percebidas como certa resistência que para as mulheres, como vítimas, torna-se uma maneira de burlar a situação de violência vivida. Isso se tornou mais perceptível nos casos de lesões corporais, por isso optamos por ressaltá-los aqui.
Rachel Soihet enfatiza que até a década de 1970 muitas discussões acerca da passividade da mulher e da sua conseqüente opressão foram trazidas à tona. Isso, segundo a autora, acabou por empobrecer e obscurecer, de certa forma, o protagonismo das mulheres como sujeitos políticos, ativos da mudança social e da sua própria mudança. A superação de tal visão se deu quando a história, em oposição àquela que via as mulheres como espancadas, violentadas, sub-remuneradas, abandonadas, loucas, entre outras, cedeu lugar para pesquisas que descortinassem a passividade da mulher na história, surgindo, a partir daí, a mulher rebelde, viva e ativa, sempre tramando, imaginando mil astúcias para burlar as proibições, a fim de atingir seus propósitos237.
Em parte corroboramos com o pensamento da autora, pois entendemos e compreendemos que a mulher precisa ser vista como sujeito e protagonista da sua própria história. Todavia, não podemos com isso negligenciar a invisibilidade e opressão que foram delegadas às mulheres na maior parte da nossa história. Talvez por conta disso é que os primeiros
237 SOIHET, Rachel. História, mulheres, gênero: contribuições para um debate. In: AGUIAR, Neuma. (Org.)
Gênero e ciências humanas: desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro. Record: Rosa dos Tempos,1997.
estudos com relação às mulheres enfatizaram tais aspectos, trazendo para nossa realidade a necessidade de dar visibilidade à opressão que as caracterizava tanto no espaço público quanto no privado.
Lia Zanotta Machado e Maria Thereza B. Magalhães nos chamam a atenção para algo fundamental nesta busca pelas ações das mulheres: o cuidado em não incorrermos no equívoco simplista de nos obrigarmos a uma falsa escolha entre a vitimização e a não vitimização, uma vez que está em curso a crítica a vitimização das mulheres. O que precisamos entender é que, em pesquisas que têm como eixo central as mulheres, não basta entendê-las vítimas, mas sim com ações e interações nos conflitos de gênero238.
Para Margareth Rago, é ao longo da década de 1980, com a ênfase dada aos Estudos de Gênero, que emerge o que se poderia considerar como uma segunda vertente das produções acadêmicas sobre as mulheres. Nessa nova vertente:
Floresce um conjunto de estudos preocupados em revelar a presença das mulheres atuando na vida social, reinventando seu cotidiano, criando estratégias informais de sobrevivência, elaborando formas multifacetadas de resistência à dominação masculina e classista. Confere-se um destaque particular à sua atuação como sujeito histórico e, portanto, à capacidade de luta e de participação na transformação das condições sociais de vida. Em todos os casos, registra-se uma forte preocupação em recuperar a presença de mulheres pobres e marginalizadas, trabalhadoras ou não, como agentes de transformação; em mostrar como foram capazes de questionar praticamente as inúmeras falas misóginas elaboradas pelos homens de ciência para justificar sua inferioridade intelectual, mental e física em relação aos homens e sua exclusão da esfera dos negócios e da política239.
Para nós, o primeiro passo para perceber quando e como as mulheres vítimas de violência poderiam ser vistas como agentes políticas em suas resistências se deu ao descobrimos a violência passível de ser uma relação de poder. Para tanto, nos baseamos no que foi exposto por Michel Focault:
[...] é preciso entender que em qualquer relação, não há apenas o dominador, aquele que tem o poder concentrado em suas mãos, mas na existência de “redes de circulação de poder”, nessas redes o poder não está concentrado nas mãos de apenas uma pessoa e a outra o recebe inerte, sem ação, antes, o poder funciona em redes e nessas redes o indivíduo é sempre transmissor de poder. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam,
238
MACHADO, Lia Zanotta. MAGALHÃES, Maria Thereza B. In: SUÁREZ, Mireya. BANDEIRA, Lourdes. (org.)
et alii. Violência, gênero e crime no Distrito Federal. Brasília: Paralelo 15, Editora de Brasília, 1999.
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mas estão sempre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação, nunca são alvos inertes e consentidos do poder, são sempre centros de transmissão240.
Ou seja, em nosso caso, as mulheres que são espancadas não o são sem esboçar, ainda que minimamente, uma reação; se esta não acontece no momento do ato violento, poderá vir posteriormente, de maneira sutil, mas imersa em uma relação de poder, demonstrando o poder que as mulheres podem exercer sobre quem as agride.
Heleieth Saffioti e Wânia Pasinato Izumino abordam a questão do poder nos conflitos de gênero da seguinte forma: para ambas, o poder não está concentrado apenas nas mãos dos homens, ainda que esteja distribuído de forma desigual, pois as mulheres também exercem poder através de ações/reações diversas241.
Ainda nesse sentido, Elaine Reis Brandão ressalta que, ao nos atermos apenas à vitimização da mulher nos casos de violência, estaríamos conferindo uma abordagem simplista demais a algo tão complexo, pois, afinal, dentro do contexto dessas relações violentas, as mulheres se utilizam de artimanhas para confrontar o poder exercido sobre elas, como uma espécie de contra-poder, que as faz também sujeitos dessas relações242.
A partir desses posicionamentos e ao lidar diretamente com nossas fontes, (re) descobrimos a resistência das mulheres vítimas de violência, suas astúcias, utilizadas de maneira sutil como formas de burlar e/ou contra-atacar o machismo e a violência dentro das relações; temos percebido que essas mulheres se utilizam de artimanhas, ameaças e ações que mais parecem invisíveis, mas que se fazem presentes. Assim, dividimos esses modos de resistência em três momentos: o momento da ação, da reação e da acomodação.
Descortinamos esses três níveis de resistência para proceder as nossas análises e percepções. O primeiro momento de resistência é a ação. Este se dá como forma de resistência mais visível e palpável, está concretizada nos processos-crime. Neles as mulheres se mostram detentoras de poder ao lutar por um basta à violência sofrida. Para se chegar a essa instância – considerada por vezes como último recurso a se procurar após várias tentativas de rompimento com a violência sofrida e novas chances dadas ao agressor –, as mulheres, que podem ou não ter
240 FOUCAULT. Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 183.
241 Cf. IZUMINO. Wânia Pasinato. Justiça e violência contra a mulher: o papel do judiciário na solução dos conflitos de gênero. São Paulo: Annablume: FAPESP, 2004. SAFFIOTI, Heleieth. ALMEIDA Suely de. Violência de gênero – poder e impotência. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter Ltda, 1995.
o apoio dos familiares, dos amigos e da sociedade, querem ver a punição dos seus agressores. Esse primeiro gesto foi denominado de ação, porque temos conhecimento de que as agressões sofridas pelas mulheres que chegam ao conhecimento do judiciário são apenas uma ínfima parte, já que, na grande maioria das vezes, a denúncia se limita à queixa na delegacia, sendo retirada posteriormente.
Essas denúncias retiradas posteriormente, que se apresentam em número expressivo, nos remetem, a priori, a uma aceitação por parte das mulheres agredidas de uma condição inferior nos conflitos de gênero. No entanto, após algumas análises, as percebemos como uma forma de resistência, não uma resistência direta, como encontrada na ação, mas como uma forma de negociação, de barganha entre a agredida e o agressor. A denúncia se torna uma forma de poder dentro da relação violenta ao trazer o medo, a apreensão e fazer com que o agressor se sinta acuado, transformando assim em uma forma de negociação.
O poder de retirar ou não a queixa torna-se um trunfo para as mulheres, deixando-as menos vulneráveis às agressões, pois, afinal, de certa forma, passam a ter poder de decisão acerca do futuro do agressor. A denúncia aparece também como um recurso para interromper momentaneamente o ciclo de violência sofrida, uma vez que a mulher, ao denunciar, terá o recuo por parte do agressor, ainda que este possa se dá de forma temporária.
Essa denúncia vista como arma provisória vem carregada de esperanças por parte das mulheres, que não têm em mente dar continuidade aos trâmites de um futuro processo. Antes, sua intenção é que o parceiro melhore e deixe de lhe agredir, uma vez que, amedrontado quanto às possíveis implicações de uma próxima agressão, por já estar envolvido em uma denúncia, suas chances de ser preso aumentariam devido à reincidência. Esse é o maior justificador da retirada da denúncia, a possibilidade de mudanças por parte do agressor, ao perceber que a mulher reagiu à sua agressão, tendo coragem de denunciá-lo.
Outro momento em que a retirada da denúncia é vista como reação consiste na negociação entre o agressor e a agredida para que ocorra essa retirada. Neste momento, a retirada ou não da queixa deixa a mulher em posição de poder, negociando com seu agressor alguns pressupostos que poderão vir a libertá-la da situação de violência, como, por exemplo, tal negociação pode ser feita para que o agressor assine o divórcio ou saia de casa, entre outros
242 BRANDÃO, Eliane Reis. Violência conjugal e o recurso feminino à polícia. In: BRUSCHINI, Cristina. HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.). Horizontes Plurais: novos estudos de gênero no Brasil. São Paulo: Ed. 34, 1998. p. 51-84.
acordos. A denúncia, aqui, serve como barganha, que é utilizada pela mulher para reagir, se expondo e impondo, exigindo mudanças. Enfim, de maneira singular, este momento é pensado como forma do seu exercício de poder.
Dentro da reação acima, cristalizada na denúncia, temos outros quesitos que são apontados pelas próprias mulheres como forma de “reação” denominada “armas femininas”. Nesses quesitos, as mulheres não aceitam a condição de “vítima”, reconhecendo a não unilaterização das agressões masculinas; enfatizam que, nessas relações, fazem provocações verbais, xingamentos ao parceiro, preferencialmente de “corno”, a palavra que mais “os fere”, partindo para a agressão física, ou ainda ressaltar em público que são elas as “mantedoras do lar”, sabendo que assim eles serão humilhados. Essas são apenas algumas das muitas formas de reação aos desmandos masculinos. Outras maneiras de reagir estão no que é concebido pelas mulheres como “vantagens” do feminino, dentre as quais a que mais se destaca é a greve de sexo e das tarefas domésticas, como forma de castigar e revidar a agressão sofrida, fazendo com que os homens “pensem duas vezes antes de espancá-las”243.
Por vezes, nos parece difícil conseguir enxergar tais reações em mulheres que são submetidas à violência, mas ressaltamos que tais reações são concretizadas por uma parcela mínima de mulheres, que se identificam como mulheres fortes, independentes financeiramente do marido, que gostam de enfatizar “não dependo desse homem prá nada”.
Mas existem aquelas que exercem a resistência de forma ambígua e castradora, que se desassociam daquelas que exercem uma reação imediata e procuram uma forma peculiar para exercer seu poder de resistência: a acomodação. Essa forma de resistência, conforme ressalta Elaine Reis Brandão, consiste em procurar desculpas, baseadas no que perpassa o imaginário social sobre as representações de gênero, para permanecer nas relações violentas. Geralmente, essas mulheres reavaliam a atitude do agressor, comumente seu parceiro, devido à fragilidade “natural” que o torna doente, nervoso, alcoólatra, viciado, forte fisicamente, mas fraco moralmente. Outras vezes, atribuem leitura mágico-espiritual ao conflito, acreditando em uma interferência sobrenatural (macumba, o demônio, possessão, entre outros). Assim, utilizam-se da vida religiosa como recurso para a superação do conflito e para a reordenação familiar, uma vez que não concebem as atitudes do agressor como resultado do seu livre arbítrio ou determinação
individual. Para essas mulheres, as mudanças ocorridas no comportamento masculino são explicadas no contexto de uma instância suprapessoal244.
Outra desculpa dada nessa acomodação é uma reavaliação da própria participação no conflito, quando as agredidas assumem parcela de responsabilidade frente ao ocorrido e atribuem isso, ainda que de forma, por vezes, inconsciente, ao que a sociedade propaga como inerente ao feminino: o não cumprimento dos seus afazeres domésticos, mais precisamente ter deixado de zelar da casa, dos filhos e do próprio agressor. Dessa forma, aprofundam sua capacidade “naturalizada” para o sacrifício, para a devoção e dedicação absoluta ao outro, o perdão para a superação de todas as dificuldades pelos prazeres sublimes do exercício da maternidade e dos compromissos socialmente impostos às mulheres, que, para cumprirem verdadeiramente seu papel, precisam seguir o exemplo bíblico simbólico de Maria, da sua resignação e força em suportar a dor.
Essas foram as formas percebidas de ação/reação das mulheres nos conflitos de gênero. São maneiras sutis, outras nem tanto, do exercício de poder em relações nas quais as mulheres eram vistas como destituídas de poder. Estamos conscientes de que a tentativa de relativização da vitimização feminina não significa desconhecer a brutalidade das situações de violência nas quais as mulheres estão envolvidas, mas perceber que a tensão que perpassa tais relações é passível de resistência e também de mudanças e, para que isso ocorra, as mulheres precisam reagir às agressões sofridas, entendendo que o que as faz serem agredidas é, dentre outros aspectos, a permanência do pensamento social de que os homens são “detentores naturais de poder”, dominadores e superiores e que atribui erroneamente ao feminino a submissão, a inferioridade e a destituição de poder nos conflitos de gênero.
Ao buscarmos e expormos o poder participado nesses conflitos, nosso intuito foi o de primar para se romper com tal imaginário, acreditando, portanto, que a atuação feminina não deixa de se fazer sentir, por meio de poderes e contra-poderes que se situam no cotidiano, no espaço público ou privado, nas experiências, e que são, por vezes, ignorados.
Chartier destaca, na dominação masculina, o peso do aspecto simbólico, que supõe a adesão dos dominados às categorias que embasam sua dominação. Assim, segundo ele, um objeto maior da história das mulheres consiste no estudo dos discursos e das práticas que garantem o
244 BRANDÃO, Elaine Reis. Violência conjugal e o recurso feminino à polícia. In: BRUSCHINI, Cristina. HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (Org.). Horizontes Plurais: novos estudos de gênero no Brasil. op. cit. p. 76.
consentimento feminino às representações dominantes da diferença entre os sexos. Definir a submissão imposta às mulheres como uma violência simbólica ajuda a compreender como a relação histórica – cultural e linguisticamente construída – é sempre afirmada como uma diferença de ordem natural, radical, irredutível, universal. O essencial é identificar, para cada configuração histórica, os mecanismos que enunciam e representam como “natural” e biológica a divisão social dos papéis e das funções.
Além disso, alerta Chartier, uma incorporação da dominação não exclui a presença de variações e manipulações por parte dos dominados. A aceitação pelas mulheres de determinados cânones não significa, apenas, vergarem-se a uma submissão alienante, mas, igualmente, a construção de um recurso que lhes permita deslocarem ou subverterem a relação de dominação. As mulheres, compreendem dessa forma, uma tática que mobiliza para seus próprios fins uma representação imposta – aceita, mas desviada contra a ordem que a produziu. As fissuras na dominação masculina não assumem, via de regra, a forma de rupturas espetaculares, nem se expressam sempre em um discurso de recusa ou rejeição. Elas nascem no interior do consentimento, quando a incorporação da linguagem da dominação é reembolsada para marcar uma resistência. Assim, definir os poderes femininos permitidos por uma situação de sujeição e de inferioridade significa entendê-los como uma reapropriação e um desvio dos instrumentos simbólicos que instituem a dominação masculina, contra seu próprio dominador245.
Analisamos, portanto, neste capítulo, os crimes contra a vida, dando uma atenção especial à relação desses crimes cometidos contra mulheres e o Sistema Judiciário, abordando a desigualdade perpetrada por este quando os crimes são relacionados aos conflitos de gênero e especialmente quando ocorrem no âmbito familiar. Para a preservação da família, a justiça faz vistas grossas aos crimes cometidos contra as mulheres nos casos de lesão corporal ou, ainda, julgam menos o crime do que os papéis sociais destinados a homens e mulheres em nossa sociedade; ao invés de ler o ato de violência, atribuem aos sujeitos envolvidos imagens binárias e naturalizadas, que acionam o maniqueísmo de pares opostos, o jogo manipulador, discursivo e político do patriarcado.
Analisaremos, no próximo capítulo, a violência contra as mulheres nos crimes de estupro, que constam do Código Penal vigente como “crime contra os costumes”.
245 CHARTIER, Roger. Diferença entre os sexos e a dominação simbólica (nota crítica). In: Cadernos Pagú; 4: Fazendo história das mulheres. Campinas: NEG/Unicamp. 1995. p. 40-43.