• Sonuç bulunamadı

1. ARAŞTIRMANIN KONUSU, AMACI ve DENENCESİ

2.3. Evlilik Doyumu

Apesar dos grandes avanços internacionais, regionais e nacionais conquistados em relação ao tema, especialmente na década de 1990, ainda persistem, em nosso século XXI, decisões judiciais violadoras dos direitos humanos das mulheres.

Decisões estas marcadas pela impunidade dos agressores e pela incorporação de estereótipos, preconceitos e discriminações contra as mulheres vítimas de violência, nas instâncias que, acreditamos, deveriam, no mínimo, procurar se policiar para que tais preconceitos não se fizessem presentes. Observamos assim que, se as penalidades existem em lei, quase sempre não saem do Código Penal para a aplicação real.

De acordo com os principais tratados e declarações internacionais de direitos humanos das mulheres, os Estados ficariam comprometidos a garantir a igualdade e a não discriminação perante a lei e na prática e, ainda, a assegurar que se revoguem quaisquer leis que

204 Excelentes trabalhados têm sido realizados para que isso ocorra, dentre eles podemos destacar a importante participação das Ongs que lutam para a erradicação da violência contra as mulheres como o CFMEA, UNIFEM, CLADEM, Instituto Patrícia Galvão, os SOS Mulheres. Na academia temos os grupos de pesquisa relacionados à violência de gênero, como por exemplo o NEGUEM da Universidade Federal de Uberlândia, o Grupo de Estudos e Pesquisas de Gênero da Universidade Estadual de Montes Claros, o Instituto de Estudos de Gênero na Universidade federal de Santa Catarina, O Núcleo de Estudos de Gênero na UNICAMP, o Curso de graduação presente na Universidade Federal da Bahia sobre Gênero e Diversidade, dentre outros.

discriminem por motivo de sexo, bem como que se elimine o preconceito de gênero na administração da justiça205.

As penalidades relacionadas ao crime de lesão corporal, conforme o que está presente nas partes de processos já mencionados, possuem variações que ocorrem de acordo com a gravidade da agressão. Assim, temos: lesão corporal de natureza grave – art. 129, parágrafo 1º - se resulta incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias; perigo de vida; debilidade permanente de membro, sentido ou função; aceleração de parto, pena: reclusão, de 1 a 5 anos. Lesão corporal de natureza gravíssima – art. 129, parágrafo 2º – se resulta em incapacidade permanente para o trabalho; enfermidade incurável; perda ou inutilização de membro, sentido ou função; deformidade permanente; aborto, pena: reclusão de 2 a 8 anos. Lesão corporal seguida de morte – art. 129, parágrafo 3º – se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo, pena: reclusão, de 4 a 12 anos. Lesão corporal culposa – art. 129, parágrafo 6º – se o agressor não tinha intenção real de provocar a lesão, mas assumiu o risco de produzi-la, pena: detenção de 2 meses a 1 ano.

Apesar de constarem do Código Penal e de ganharem reforços com os tratados e declarações internacionais dos direitos humanos da mulher, percebemos em nossas fontes que, raras vezes, tais penalidades são aplicadas. Diferentemente do crime de homicídio e de estupro, em que, apesar de mínimas e com alguns privilégios, algumas condenações foram visualizadas, no crime de lesão corporal estas passam quase despercebidas, havendo, inclusive, a necessidade de se criar uma lei específica, a Lei 10.886/04, já exposta anteriormente. Tal lei foi criada, em princípio, pelo fato de que grande parte dos casos de lesões corporais que chegam até as delegacias é proveniente de casos de violência doméstica e, posteriormente, pela luta das feministas em prol de que os delitos de lesão corporal contra mulheres sejam passíveis de uma maior atenção e punição, funcionando, assim, como tentativa de inibir a violência doméstica.

Cabe salientar, como já exposto no I Capítulo, que a punição do crime de lesão corporal, em grande parte, ficou destinada aos Juizados Especiais Criminais que, em funcionamento desde o ano de 1995, contribuíam sobremaneira para a não punição dos casos de violência contra as mulheres ou, antes, destinavam penas brandas e pecuniárias aos agressores, que acreditavam ter suas práticas legitimadas nesse sentido. Foi o que aconteceu com Marina,

nossa única entrevistada que denunciou o marido agressor e levou até o fim sua denúncia, que ocorreu em 2003, e foi, portanto, abarcada pela Lei dos Juizados Especiais Criminais. Sua revolta foi o marido ter sido condenado a pagar R$ 60,00 em cestas básicas. Segundo ela, “naquele momento eu pensei: será que minha vida vale só isso pelo simples fato de eu ser mulher”206?

Com a implementação da Lei Maria da Penha, que anulou a aplicação da Lei dos Juizados Especiais Criminais no que tange aos conflitos de gênero, a luta contra a violência em relação às mulheres ganhou reforços para que a impunidade presente em casos que envolvam mulheres vítimas de violência deixe de ocorrer em nossa sociedade.

A defesa de uma punição mais severa para homens que agridem mulheres tem se tornado fonte de discussão com opiniões diversas e controversas, inclusive nos meios feministas. Alguns/as são contrários/as a essa busca pelo rigor punitivo207. Em nossas análises, percebemos que este se torna imprescindível para que a violência contra a mulher seja vista como um crime passível de punição como qualquer outro, o que dificilmente ocorre.

Acreditamos que os altos índices de violência contra as mulheres estejam ligados exatamente ao que vigora em nossa sociedade acerca da não necessidade de punição para esses crimes. Trazendo para nosso contexto, utilizamos o que expõe Michel Foucault quando o mesmo enfatiza que para o cálculo da medida exata da punição cabível ao infrator, seria necessário avaliar os efeitos do castigo e o poder que se pretende exercer sobre o grupo social. Portanto, o que se pune é a desordem que o comportamento ilícito causa ao grupo social, e a punição adequada deve carregar o sentido do exemplo208. Talvez aqui se encontre o problema maior da impunidade dos crimes contra mulheres, já que o espancamento de mulheres é pautado na justificativa de uma correção, uma disciplinarização do comportamento feminino que tenha, por um motivo ou outro, se desviado das normas sociais impostas.

Assim, ao absolver ou delegar penas brandas aos crimes contra mulheres, ocorre a inversão do exemplo que se obtém com a punição; não é o agressor que terá que ficar atento a segui-lo, mas a vítima que percebeu, através da justiça, que o seu ato de ter denunciado a agressão foi reprovado pela sociedade através da instância que prima pela lei e pela ordem.

206

Marina, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008. 207

SAFFIOTI, Heleieth. Socióloga é contra a Lei Maria da Penha. Entrevista concedida ao Jornal A Gazeta de Cuiabá em 28/11/2007. Disponível em www.violenciamulher.org.br . Acesso em 25 de outubro de 2008.

208

Ainda seguindo Michel Foucault, se a função da punição é evitar a repetição do comportamento ilícito por outros indivíduos, reduzindo o interesse pelo crime, infundindo o temor da pena, o que dizer quando esse processo se dá de forma inversa? Se a arte de punir repousa na institucionalização de um conjunto de ações que visem suplantar a força desorganizadora do comportamento ilícito e apresentar a pena como conseqüência natural da ação inadequada, o que ocorre quando não há penalização desta?

Assim, adotando o conceito dado por Foucault de que:

A pena é um conjunto de sinais, de mecanismos de redução de interesse pelo crime e de duração da ação recriminatória, voltada não somente ao infrator, mas a todos os possíveis infratores. A representação do ‘preço a ser pago’ pelo crime funcionaria como inibidor das ações ilícitas”.209

Podemos inferir que a não punibilidade dos agressores nos casos de violência contra mulheres – e mais especificamente nos casos de lesão corporal – colabora para que a sociedade permaneça com a idéia de que para esse crime não é necessária punição. Antes, porém, a agredida é que deve se ver como alguém que se desviou dos padrões comportamentais exigidos pela sociedade e, ao ter sua agressão não penalizada pelo sistema judiciário, deverá servir de exemplo para que as demais mulheres da nossa sociedade permaneçam no lugar que lhes é inerente: realizadoras dos seus deveres de mulher, como boa esposa/mãe/dona-de-casa, passiva e submissa. Em posição contrária, o homem que agride e não é punido ganha o respaldo jurídico, como nos casos de lesão corporal, ou, ainda, respaldo da sociedade, como nos casos de homicídio, uma vez que vão ao tribunal do júri e são julgados, absolvidos ou condenados com privilégios pelo júri, “parcela representativa da nossa sociedade”.

Tais posições têm perpassado gerações e ainda se fazem presentes em nossa sociedade e ganham a assimilação dos principais envolvidos, homens e mulheres. E nessa assimilação, as maiores prejudicadas são aquelas que sofrem a agressão, porque aceitam o que está dentro da norma e é imposto pela nossa cultura ocidental acerca do que é ser homem e o que é ser mulher. Dessa forma, se anulam, acabam por acreditar que ao deixarem de cumprir com seu papel, conforme aquilo que a sociedade pontua como ideal, dão o direito ao seu parceiro de espancá-las. Assim, pensam que a violência que sofrem é algo banal, corriqueira e sem importância, miram-se no exemplo daquelas que trouxeram à tona problemas semelhantes, mas os agressores não foram punidos, assim preferem se calar e não denunciar.

Claro está que nem todas as mulheres apresentam essa resignação, esse conformismo ao aceitarem uma vida de violência como o seu “destino natural”; muitas vão à luta, brigam e exigem seus direitos, encontram respaldo principalmente nas lutas que foram desencadeadas pelos movimentos feministas das últimas décadas. Com eles, a visibilidade para os problemas que afetam as mulheres encontrou respaldo na argumentação de que “o pessoal é político”, como forma de trazer à tona que as experiências das mulheres são moldadas pelo contexto social maior em que estas estão inseridas. Portanto, questões que são consideradas como “privadas” devem ser percebidas dentro desse contexto, e a violência doméstica também pertence à esfera pública, também tem importância e deve ser tratada como tal.

Acreditamos que muitas mulheres em Montes Claros agiram em prol da argumentação de que “o pessoal é político”, ao enfrentarem a sociedade montes-clarense, a impunidade judiciária e as normas estabelecidas e denunciarem seus agressores. Entretanto, essa análise feita nos 114 documentos encontrados não se verifica com nossas entrevistadas. Das 6 mulheres que sofreram agressões dos seus maridos, apenas uma denunciou e foi até o fim; as demais sequer prestaram queixas, talvez por descrença no nosso Sistema Judiciário, sabendo que, ao levarem ao conhecimento deste as agressões sofridas no âmbito doméstico, não seriam ouvidas, então preferiram resolver seus problemas no âmbito privado, adotando a máxima de que “roupa suja se lava em casa”.