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Estupro significa ato de constranger alguém a ter relações sexuais sem desejo e sem consentimento, mediante o uso da violência física, psicológica ou de graves ameaças, podendo ocorrer tanto na esfera privada como nos espaços públicos, e ser praticado por pessoa conhecida ou não da vítima246.

O crime de estupro, antes de ser visto como um crime contra a pessoa humana – como os analisados no capítulo anterior –, é percebido como um crime contra a honra, não apenas das mulheres, mas também, e principalmente, dos homens como pais, irmãos, maridos entre outros homens “protetores” próximos das vítimas. Isto é, os valores primeiros ultrajados no crime de estupro estão diretamente ligados à visão que a sociedade tem do crime e não aos direitos individuais do ser humano, independentemente do sexo.

Essa visão perpassou períodos remotos e ainda se faz presente em nosso último Código Penal, que considera o estupro como um crime contra os costumes, e não contra o indivíduo – a mulher, que sofre de fato a agressão. Assim, tal discurso está ainda localizado na ordem do status imposto socialmente em que a defesa das mulheres se dá em prol da defesa do patrimônio masculino e dos valores androcêntricos da sociedade.

Diferentemente de alguns países, como a Itália, no Brasil, o crime de estupro, no Código Penal, é praticado apenas contra as mulheres, já que só é considerada a relação vaginal. Qualquer ato praticado contra o homem é entendido como atentado violento ao pudor, que tem uma carga criminógena bem menor. Outro ponto a se destacar nos crimes de estupro é que, diferentemente dos crimes de lesão corporal, ele ganha maior relevância no Sistema Judiciário, no que concerne à penalização, dentre os crimes praticados contra mulheres, ainda que com ressalvas e algumas peculiaridades.

Sobre a maior penalização ocorrida nesse tipo de crime, Danielle Ardaillon e Guita Debert advertem que o crime de estupro causa horror e esse caráter horripilante cria dificuldades para se encontrar uma categoria em que o estuprador possa ser encaixado, de forma a vislumbrar circunstâncias atenuantes para tal crime, ou até mesmo para se dar um caráter humano a esse tipo de violência. Por isso, os processos de crime de estupro obedecem a um desenrolar distinto daqueles outros crimes contra mulheres. Assim, segundo as autoras, ao se afirmar que é um crime

punido com severidade relativamente maior que os outros crimes, é importante atentar para a lógica que preside essas condenações247.

Outra singularidade do crime de estupro é o caráter privado da ação penal, ou seja, a decisão de acionar o sistema é da vítima ou de seu representante legal, exceção feita aos casos em que o agressor é o próprio pai ou o responsável legal da vítima menor de 14 anos e àqueles que resultam em lesão grave ou morte, quando cabe ao promotor a incumbência de promover a ação, independente da manifestação das vítimas. Isso confere aos/as queixosos/as desse tipo de delito um papel crucial na definição de quais ocorrências e autores darão entrada no sistema.

A construção histórica acerca do crime de estupro foi se modificando gradativamente. Em 1830, era tratado como sendo dos crimes contra a segurança da honra. No Código de 1890, dos crimes contra a segurança da honra, honestidade das famílias e do ultraje público ao pudor, especificamente no capítulo I, da violência carnal, e no Código Penal de 1940, ainda em vigor, como sendo dos crimes contra os costumes, no capítulo I, dos crimes contra a liberdade sexual248. São pouquíssimas as produções científicas brasileiras acerca do crime de estupro e, com relação às existentes, concordamos com Rita Laura Segato quando a mesma afirma que a literatura relativamente escassa sobre o estupro cruento é quase toda de ordem pragmática, baseada em estatísticas, dirigida a divulgar, entre o público feminino, instruções sobre como se evitar o crime ou sobre o que se fazer depois de tê-lo sofrido249. Acrescentamos ainda que são destinadas a mostrar como as mulheres devem moldar suas atividades, suas vestimentas, sua postura corporal para não incitar os homens a praticá-lo.

Nosso intuito, portanto, foi entrecruzar fontes como os processos-crime, as histórias de vida e a literatura temática; não com o objetivo de fazer afirmações ou buscar soluções para tais crimes, mas analisar o crime de estupro, assim como desnaturalizar imagens construídas sobre esse crime nos diversos âmbitos da nossa sociedade, e em especial da sociedade de Montes Claros, assim como suas características no decorrer da nossa história.

O crime de estupro, no imaginário dos agentes jurídicos, está permeado de ambiguidades e diferenças percebidas no que tange ao gênero, etnia e classe social, elementos

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ARDAILLON, Danielle. DEBERT, Guita. Quando a vítima é a mulher: análise de julgamentos de crime de estupro, espancamento e homicídio. op. cit. p. 22 e 23.

248 PINHEIRO. Diva Veruska Alves. Evolução histórica do crime de estupro - doutrina e jurisprudência. Artigo disponível em www.jusnavigandi.com.br. Acesso em 06/05/2008.

249 SEGATO, Rita Laura. A estrutura de gênero e a injunção do estupro. In: SUÁREZ, Mireya. BANDEIRA, Lourdes. (Org.) et alii. Violência, gênero e crime no Distrito Federal. op. cit. p. .389.

que corroboram para diferenciações sociais dos indivíduos, atribuindo normas, modelos e características nos quais os atores de tais crimes devam se basear, uma vez que são esses modelos que serão usados nos julgamentos do referido delito, referenciais que ora servem como atenuantes, ora como agravantes, tanto na perspectiva do julgamento da vítima quanto do acusado.

O que percebemos em nossas pesquisas, especialmente nos processos-crime, é que o Sistema Judiciário, apesar de aparentemente funcionar segundo os critérios de racionalidade e neutralidade decorrentes do princípio primeiro – a justiça –, constitui-se com práticas de diferenciação. A desigualdade se instaura no interior dos processos-crime, principalmente através da utilização de categorias de gênero, classe e etnia, presentes na concepção dos conceitos de “credibilidade” ou de “idoneidade moral”. Dessa forma, buscamos destacar a ocorrência de uma prática jurídica que descreve comportamentos sociais, na qual a relação efetuada pelos agentes jurídicos se concentra entre o comportamento social adequado, para homens e mulheres. A partir disso, não se julga o crime, mas a adequação dos envolvidos às normas sociais que querem o judiciário.