4. YURTDIŞINDA YAPILMIŞ ARAŞTIRMALAR
5.3. Araştırmanın Bilgi Toplama ve Ölçme Araçları
uma união infeliz pra ter uma vida cômoda”. Nesse ponto, a entrevista da ex-delegada está permeada de contradições: como ter uma vida cômoda na pobreza? Nos relatos de vida que obtivemos, não encontramos mulheres que prefiram a agressão por serem sustentadas satisfatoriamente pelos maridos, pela comodidade que o relacionamento afetivo/conjugal lhes proporciona; antes, porém, nossas fontes orais se apresentaram de maneira diversa do que foi exposto pela delegada, pois são mulheres pobres, que trabalham, que ajudam ou sustentam as casas sozinhas. Assim, o “continuar nessas relações” se dá por diversas outras razões, nos casos que analisamos, mas não por “ter uma vida cômoda”, como afirma a ex-delegada.
Em nossas fontes, tanto nos processos quanto nas entrevistas, houve a preponderância de pessoas de classe baixa, mas, ainda assim, nos processos, observamos denúncias contra 2 comerciantes e 1 fazendeiro, profissões consideradas de pessoas de classe média e alta, respectivamente, na sociedade montes-clarense, isso sem contar aqueles documentos que não fazem menção do aspecto profissão. Assim, por mais que nossos dados nos mostrem que a “classe pobre”, nas palavras da ex-delegada, aparecem prioritariamente em nossas fontes, não podemos afirmar que a violência não acontece em outras classes sociais, uma vez que a violência contra mulheres independe de classe social.
Outro ponto que ganha relevância no imaginário de nossa sociedade é o de que, se as mulheres que sofrem a violência não buscam ou reivindicam ajuda, não cabe a quem está de fora se preocupar, pensamento este que se condensa no tão conhecido jargão: “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Entretanto, podemos observar que tal jargão popular começa a cair em desuso.
2.2.3 - “EM BRIGA DE MARIDO E MULHER NINGUÉM METE A COLHER?”
Dentre os avanços no que concerne à violência contra as mulheres, percebemos que a mesma está deixando de ser aceitável, pelo menos para alguns membros da sociedade, que têm contribuído para que tal violência deixe de ser vista como uma “inconveniência tolerável”, um deslize na vida dos casais, um processo de socialização de que os pais, maridos ou irmãos necessitam para uma melhor educação das suas filhas, esposas e irmãs.
Em muitos documentos encontrados, esse “modelo de correção” é colocado em cheque; a “tolerância” com relação aos espancamentos de mulheres tem ganhado outras
percepções. É o que visualizamos em nossas fontes, pois em alguns documentos mencionam que foram os vizinhos ou parentes que acionaram a polícia, como exporemos abaixo:
Aos quatro dias do mês de fevereiro de 1988, às 11:40 horas nesta cidade de Montes Claros [...] o policial se encontrava na viatura [...] quando foi solicitado por terceiros, a comparecer na residência da vítima, quando o conduzido aqui presente praticava agressões contra sua esposa216.
[...] Na data de 24/02/1992, por volta de aproximadamente 24:40 horas, a guarnição policial foi comunicada para comparecer, com certa urgência, no local do ocorrido, pois havia um homem espancando barbaramente uma mulher e segundo o solicitante que não se identificou, se tratava de um homicida [...] Os policiais se dirigiram até a casa onde havia ocorrido o fato, onde encontraram o autor da agressão cercado pelos vizinhos tentando fugir, ocasião que o policial deu voz de prisão em flagrante delito, na presença das testemunhas [...]217. [...] Na presente data, 17/09/1993, por volta das 18:20 horas, o policial no comando da viatura [...] foi acionado para comparecer a uma residência para atender uma ocorrência de lesões corporais. Que ao chegar no local já encontrou o acusado detido pelos policiais do PPO218, que no momento tomou conhecimento que o acusado havia agredido sua amásia, que inclusive a vítima estava alojada numa casa próxima da sua bastante machucada, que embora a vítima não estivesse em condições de falar, narrou ao depoente que o conduzido a agrediu com socos e pontapés, e em seguida, usando de um facão desferiu-lhe vários golpes no seu corpo, cortando-lhe o pé e as nádegas, [...] que a vítima não mencionou o motivo das agressões, mas o depoente ficou sabendo nas vizinhanças de que essas agressões ocorrem com freqüência219.
As citações acima foram retiradas de alguns Autos de prisão em flagrante delito e, mesmo diante da quantidade mínima encontrada, acreditamos que em muitos outros casos ocorreu a interferência de terceiros para acabar com ataques violentos contra mulheres. O que se prova pela menção do ocorrido. Em algumas entrevistas, como a de Mércia que relatou o fato de, certa feita, um vizinho ter chamado a polícia para seu marido, depois foi a filha e, posteriormente, os médicos:
[...] teve uma época que ele me deu uma facada nas costa aí o vizinho muito amigo da gente chamou a polícia prá ele, aí ele ficou preso e o pessoal dele foi lá e tirou, né, ficou preso uns quatro dias aí voltou de novo, aí continuou fazendo as ruindade. [...] da outra vez foi minha menina mais velha que chamou a polícia prá ele, foi a vez que ele me machucou toda me bateu até quebrar minha dentadura, aí minha menina foi e chamou a polícia, prendeu ele de novo, né aí depois ela ficou com dó porque algemaram ele dormindo, mas já era tarde
216 PROCESSO DE LESÃO CORPORAL. N.º 003.575 – DPDOR – AFGC. Montes Claros: 1988. Fl. 01. 217 PROCESSO DE LESÃO CORPORAL. N.º 003.851 – DPDOR – AFGC. Montes Claros: 1992. Fl. 03.
218 Postos Policiais que funcionam como extensão do Batalhão de Polícia nos bairros mais populosos e com índice maior de criminalidade em Montes Claros.
porque já tinha chamado, né? Aí o pessoal da casa que ela trabalha foi lá e tiraram aí depois que ele passou uns dia na cadeia voltou bebendo de novo [...] teve um dia que ele machucou minha filha, eu tive que pegar ela e levar no hospital cheguei lá os médico perguntou, né como ela tinha machucado [...] aí eles chamaram a polícia, eles foram lá e buscaram ele de novo e prendeu ele, ele ficou lá uns cinco dias220.
Outra a nos retratar a interferência de terceiros em suas brigas com o marido foi Mercedes. Ela fugiu de casa para ficar com o seu agressor e teve com ele 4 filhos/as; ela enfatizou que não denunciava seu marido porque não poderia contar com o apoio de ninguém e, sozinha, tinha medo de não conseguir criar seus filhos; em sua fala percebemos que o seu sofrimento lhe parecia uma forma de castigo, primeiro por ter fugido da casa dos pais, depois por permanecer e, de certa forma, se tornar dependente do seu agressor. Outra ênfase de sua fala é ela nos indagar acerca de o imaginário popular conceber que mulher que permanece em relações violentas “é porque gosta de apanhar”, esquecendo que muitos outros aspectos contribuem para tal permanência. Segundo ela:
[...] tinha uns vizinho meu que já desconfiava, eu tinha tanta vergonha que eu nem conseguia conversar com eles, eu não contava prá ninguém porque eu fugi de casa para ficar com ele, né? Como é que eu ia pedir ajuda pros meus pais? Certa vez ele me bateu tanto, que eu gritava, não me mata, não me mata! Aí acho que esses vizinhos que desconfiava, chamou a polícia, os policial veio e levou ele, depois ele voltou, eu não fiz nada, não fui lá denunciar ele não...tem gente que acha que a gente apanha porque gosta, né? Não sei como podem pensar nisso, quem vai gostar de apanhar? Naquela época eu tinha que ficar com ele, eu só tinha ele e os nossos quatro filhos, voltar prá casa dos meus pais? Não, eles não ia aceitar221.
Essas idéias equivocadas, de que mulher gosta de apanhar ou que em briga de marido e mulher não se deve interferir, avaliam a violência contra as mulheres, e especialmente a doméstica, como uma situação de violência isolada, descontextualizada, que necessita ser pensada diferentemente de outras situações de violência. Ao fazermos essas análises, esquecemos que as escolhas de cada indivíduo não dependem unicamente de sua consciência e individualidade, mas, antes, as escolhas são feitas de acordo com outras questões que estão presentes nas vidas dessas mulheres agredidas, como a cultura, a tradição, a condição política, econômica e financeira, a educação recebida, o que a sociedade vê como certo ou errado, a
220 Mércia, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008. 221 Mercedes, mulher espancada. Montes Claros, junho/2008.
opinião de familiares e amigos, dentre outros inúmeros pontos que estão presentes no cotidiano, na relação dessas mulheres.