Depois de debatermos sobre os temas, tanto oralmente, no debate regrado, quanto de forma escrita, no fórum de discussão, chegou a hora de planejarmos e escrevermos a primeira versão do nosso artigo de opinião. Para escrever o texto, os alunos escolheram o tema “A Lei da Palmada”.
O planejamento e a escrita da primeira versão foram realizados individualmente, uma vez que os alunos precisam demonstrar competências escritas de seleção e organização das ideias em defesa do ponto de vista abordado.
Com a primeira versão já escrita, os alunos reuniram-se em duplas para realizarem a leitura dos seus textos, verificando a coerência e a coesão textuais, a informatividade e a aceitabilidade, bem como a paragrafação e a correção ortográfica. Fui passando em cada dupla, orientando os trabalhos e retirando as dúvidas quanto à escrita formal dos textos.
Os alunos não se mostraram apáticos à atividade, pelo contrário, queriam acertar, elaborar um bom texto, pois sabiam que iriam publicá-lo no blog. Além do desejo de construir um bom texto, eles queriam que os colegas também construíssem, estimulando o espírito colaborativo.
Os estudantes escreveram, revisaram e reescreveram seus textos, em seguida, expuseram-nos em forma de comentário no blog, assim, tivemos textos:
Agressões proibidas
Hoje alguns pais é favorável a lei da palmada por que esta lei defende as crianças e os adolescentes de agressão.
Os pais também gostaram muito dessa lei, por que eles acham que é covardia e crueldade bater numa criança indefesa, e bater na criança quando ela é pequena pode deixar lembranças ruins, e pode ser que até fique com problemas psicológico.
Por isso que a lei foi bem posicionada para as pessoas saberem que outro jeito de resolver, mas sem agressão e sim na conversa legal com seu filho[a].
A lei tem que ser cumprida pelos pais, por quer eles tem que ter consciência do que ele vai fazer, mas sempre se lembrando de que não deve bater no filho, pois é proibido.
Aluno G - 8º ano
No texto apresentado pelo aluno G, percebemos alguns fatores que caracterizam o gênero, como ponto de vista definido, nesse caso, a favor da lei que proíbe os pais de baterem em seus filhos “Hoje alguns pais é favorável a lei da palmada por que esta lei defende as crianças e os adolescentes de agressão.”; argumentação em favor da tese escolhida “que é covardia e crueldade bater numa criança indefesa, e bater na criança quando ela é pequena pode deixar lembranças ruins, e pode ser que até fique com problemas psicológico.”; fechamento das ideias “A lei tem que ser cumprida pelos pais, por quer eles tem que ter consciência do que ele vai fazer, mas sempre se lembrando de que não deve bater no filho, pois é proibido.”; e, além disso, o aluno conseguiu formar o texto seguindo uma sequência lógica, fechando a ideia do parágrafo anterior e inserindo outra, mas sem perder a conexão entre os parágrafos.
Alguns alunos apresentaram maiores dificuldades no momento de produzir os textos, necessitando de um acompanhamento mais específico, como é o caso das alunas MC e D. Em relação à aluna MC, o seu texto foi motivo de brincadeiras por parte dos colegas,
felizmente, brincadeiras positivas, pois ela não costumava escrever muito, além de muitas vezes atrapalhar a construção dos colegas com brincadeiras fora do contexto, mas, dessa vez, ela foi além do esperado pelos colegas, revelando interesse em produzir o artigo de opinião para postar na internet. A versão final do texto de MC ficou assim:
Lei Da Palmada
As Mães de hoje só querem saber de bater nos seus filhos e não de educar, elas acham que é só as escola que educam mas o direito dela é educar junto com as escolas.
Por isso existe a Lei Da Palmada para ensinar a não bater nós filhos, para ensinar a conversar com os filhos quando eles fazem alguma coisa errada.
Mas os pais e as mães não querem saber de conversar para educar, eles acham que é só batendo que os filhos obedecem e não conversando por isso eles batem bastante e não adianta de nada os filhos apanharem mais e mais.
Essa Lei deve ser cumprida e fiscalizada.
Aluna MC - 8º ano
Já a aluna D ainda frequenta as salas do alfaletramento, apresentando inúmeras deficiências na escrita. Após elaborar o seu texto, a aluna D foi revisá-lo com o aluno G, e, durante a interação entre os dois, foi bastante interessante vê-lo explicando a forma como ela deveria reorganizar o texto. Ele iniciou chamando a atenção da aluna D para a forma de elaboração dos parágrafos do artigo, pois ela não havia concluído as ideias antes de iniciar o parágrafo seguinte, então, o aluno G a fez perceber que antes de iniciarmos um novo parágrafo, é necessário finalizarmos o anterior.
Outro fator observado por ele foi a ausência do (r) no final de algumas palavras, como leva(r) e respeita(r), logo em seguida, a aluna D mostrou ter compreendido, pois passou a observar outras palavras e verificar que elas também teriam o “r”.
O aluno R também se aproximou para ajudá-los, ele percebeu que ela havia escrito o vocábulo “apalmada” e os dois dialogaram sobre a escrita dessa palavra:
Tem certeza que está correto? (Aluno R, diário de campo, 12/11/2012) Eita, é separado.(Aluna D, diário de campo, 12/11/2012)
Evidenciando que a aprendizagem acontece de modo reflexivo, quando nos colocamos em situação de pensar. E assim ficou o texto elaborado pela aluna D:
Contra lei da palmada
É claro que deve levar palmada porque é assim também que a criança aprende a respeitar porque sem a palmada não tem como ele respeitar ninguém de casa e nem da rua por isso que eu sou contra o projeto de lei.
A criança sem a palmada faz o que quer da vida, até coisa que não deveriam fazer, eles vão falar "pra mim família já morreu, agora só é vida errada", porque não teve educação adequada dos seus pais.
Por isso os pais tem que se sentar com seu filho para da um bom conselho e as vezes uma palmada.
Aluna D - 8º ano
Com a ajuda dos colegas e do professor, nesse processo de revisão e refacção textual, os alunos aprendem a analisar se as ideias foram expostas com clareza, se os recursos escolhidos para dizer o que se tem a dizer foram eficazes e de que maneira o material produzido pode ser melhorado.
Essa forma de interação entre aluno/aluno/professor demonstra que a aprendizagem foi centrada no aluno, nas dificuldades individuais, sendo, para Christensen (2012), uma forma de fazer com que os alunos “aprendam de acordo com as modalidades, que se adaptem aos tipos de inteligência nos lugares e nos ritmos preferidos por eles”. Para Coll (1994, 84), as interações entre os alunos não devem ser consideradas como secundárias, tendo “um papel de primeira ordem na consecução das metas educacionais.” Assim, por meio da colaboração entre os pares, melhoram-se o rendimento escolar e o desenvolvimento de habilidades, como pudemos perceber na aluna D e na aluna MC.
Nesse processo de letramento e de construção da identidade, a associação dos gêneros textuais digitais aos não digitais revelou-se bastante pertinente, tendo em vista a aversão dos jovens pela escrita e o fascínio que os meios digitais exercem sobre eles. Trazer esse fascínio para a arte de escrever foi o nosso desafio, utilizando as tecnologias digitais para ampliar o poder de criação dos jovens estudantes.
Para Papert (2008, p. 43), “Uma das maiores contribuições do computador é a oportunidade para as crianças experimentarem a excitação de se empenharem em perseguir os conhecimentos que realmente desejam ter”. Portanto, o uso adequado dos computadores em sala de aula pode auxiliar o professor a criar os contextos centrados na aprendizagem “para mudar de paradigma e concentrar-se na criação, na gestão e na regulação de situações de aprendizagem.” (grifos do autor) (PERRENOUD, 2000, 137), fazendo com que os educandos construam conhecimento, transformando o isolamento e a indiferença de muitos alunos em colaboração, interesse e participação, elementos pelos quais eles irão aprender a aprender.