A orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos funcionou até 1925 na Escola Livre do Parque Municipal (depois Instituto Municipal de Administração e Ciências Contábeis – IMACO). A Escola Livre de Música foi fundada em 1905, pelo clarinetista, compositor e professor Francisco Flores, mineiro natural de Mar de Espanha, sendo encerrada em 1923 por motivo de multa da prefeitura sob alegação de irregularidades.
Em 1919, o Maestro Flores reúne alguns músicos, e utilizando ainda seus alunos mais adiantados e músicos da Força Pública, forma uma orquestra e sob a sua regência realiza alguns concertos. No entanto, não se poderia chamar este conjunto instrumental de sinfônica. Seus concertos eram muito
espaçados e, além disso, não sobreviveu por muito tempo (OLIVEIRA, 2008, p.13)
Segundo pesquisa de REIS (1993), quando Arthur Bernardes assumiu a presidência do Estado de Minas Gerais, foi criado oficialmente o curso de música, através da Lei nº 800, de 27 de setembro de 1920, em seu artigo 60.
[...] Em 17 de março de 1925, o Decreto nº 6828, assinado pelo Presidente Fernando de Mello Vianna e pelo Secretário do Interior Sandoval de Azevedo, estabeleceu o Regulamento Provisório do Conservatório Mineiro de Música, cujo destino era “ministrar a instrução musical em todos os seus ramos, formando professores de música, de instrumentos e de canto, compositores e regentes de orquestra”. O mesmo Regulamento estabelecia as diretrizes essenciais para o início das aulas no dia 2 de abril de 1925. E determinava que enquanto não fosse expedido o regulamento definitivo a ser discutido no Congresso Mineiro, a Instituição deveria se reger pelas normas constantes do Regulamento do Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, aprovado pelo Decreto Federal nº 16735 de 31 de dezembro de 1924. Em 29 de abril de 1925, às 12:30 horas, foi o Conservatório oficialmente inaugurado, em solenidade realizada em sua sede provisória: o velho casarão do Parque Municipal. [...] (REIS, 1993, p.2)
A criação do Conservatório de Música provocou o aumento de procura pelos cursos de música. Após sua inauguração, o Conservatório permaneceu por pouco tempo na antiga edificação do Parque Municipal até ser transferido para um edifício na Avenida João Pinheiro, adquirido pelo Presidente Fernando de Mello Vianna que, imediatamente, determinou uma nova construção mais adequada ao Conservatório. O prédio definitivo do Conservatório Mineiro de Música foi inaugurado em 5 de setembro de 1926, cuja fachada, em elegantes linhas neo-clássicas ornadas por majestosas colunas com capitéis coríntios, embeleza até hoje a Avenida Afonso Pena, nº1534, como reminiscência da chamada Belle Époque.
O regulamento do Conservatório previa concertos, a serem apresentados oito vezes ao ano pelos alunos e professores, que abrangeriam a música sinfônica, de câmara e vocal, tendo como objetivo ajudar a desenvolver as aptidões dos alunos, habituando-os ao contato permanente com as plateias. Além disso, os eventos proporcionariam ao público geral o conhecimento das melhores obras do repertório
da música erudita de todos os tempos, enriquecendo e fortalecendo a cultura
musical na cidade.19
Para dirigir o Conservatório, o governo convidou o clarinetista e maestro diamantinense Francisco Nunes, que residia no Rio de Janeiro. Em 1920, o maestro já havia organizado uma orquestra, que se apresentou durante a visita do rei Alberto
I da Bélgica a Belo Horizonte.20
Em relato publicado na Revista Acaiaca, Celso Brant narra:
Depois de tomadas as providências iniciais, [Nunes] convidou os músicos e amigos da música para uma reunião, no Conservatório Mineiro de Música. Foi nessa primeira assémbleia geral, realizada em 27 de junho de 1925, que se fundou a Sociedade de Concertos Sinfônicos de Belo Horizonte. [...] Discutiu-se, então, se deveria dar continuidade ao trabalho de Achermann ou se seria preferível formar uma nova sociedade. Por unanimidade, ficou resolvido que deveria ser criada uma nova entidade. Assim nasceu a Sociedade de Concertos Sinfônicos de Belo Horizonte, que foi registrada sob o número 230, no dia 10 de novembro de 1925, no Cartório do 1º Ofício de Judicial Privado do Registro de Títulos e Documentos (BRAND, 1950, p.15).
A orquestra criada por Francisco Nunes teve sua estreia oficial no dia 21 de dezembro de 1925, primeiro aniversário do governo de Mello Viana, no Teatro Municipal, onde passou então a funcionar. A instituição foi mantida ora pela iniciativa privada, ora pelo poder público.
Após a morte de Francisco Nunes, os maestros Elviro Nascimento e Mário Pastore continuaram os trabalhos na direção da orquestra até 1944, quando o prefeito Juscelino Kubitschek, que admirava a música sinfônica, a oficializou por meio de decreto, dando-lhe o título de Orquestra Sinfônica de Belo Horizonte (ou Sinfônica Municipal), com um quadro de setenta músicos. A estreia aconteceu no dia 31 de janeiro de 1944, no Cine Metrópole, sob a regência do maestro ítalo-uruguaio Guido Santórsola, especialmente convidado para a ocasião. No início dos trabalhos, o prefeito determinou que a direção ficaria a cargo do compositor belga Arthur
19 Décadas mais tarde, por meio do Decreto n.3857, de 22 de dezembro de 1960, assinado pelo
então presidente da República Juscelino Kubitschek, a profissão de músico foi regulamentada, sendo criada a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), uma entidade com o objetivo de regularizar e fiscalizar a profissão de músico no país.
20 Prefeitura de Belo Horizonte. Disponível em:
http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/noticia.do?evento=portlet&pAc=not&idConteudo=107366&pIdPlc& app=salanoticias
Bosmans, residente no Rio de Janeiro e regente do Teatro Municipal, da Rádio Nacional e da Orquestra Sinfônica Brasileira.
Bosmans esteve à frente da Sinfônica Municipal até 1947, quando o então prefeito João Franzen de Lima, já no final do mandato, reduziu drasticamente a verba orçamentária destinada à manutenção da orquestra, obrigando a interrupção dos seus trabalhos. Na ocasião, o governador Milton Campos ofereceu a Bosmans a criação de uma Orquestra Estadual formada pelos músicos dissidentes da Sinfônica Municipal.
Posteriormente, em 1948, o novo prefeito Otacílio Negrão de Lima decidiu
apoiar a Orquestra Municipal, convidando o maestro Guido Santórsola para assumir
o cargo de regente. Desta forma, pela primeira vez em sua história, Belo Horizonte contou com duas orquestras sinfônicas. Devido à divisão dos músicos em duas orquestras, o maestro Santórsola precisou preencher o quadro da orquestra municipal com músicos provenientes do Rio de Janeiro e da Europa. Brant (1950, p.44-59) fornece a relação completa dos componentes da Orquestra Sinfônica Municipal, com suas respectivas nacionalidades e currículos: entre eles, 36 brasileiros e 16 estrangeiros (italianos, franceses, belgas, lituanos e alemães).
Outra orquestra que atuou desde 1948 e se encontra em funcionamento até hoje é a Orquestra Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais. Idealizada pelo coronel Egídio Benício de Abreu, manteve-se sob os cuidados do maestro Sebastião Vianna, assistente e revisor de Heitor Villa-Lobos e professor de importantes músicos brasileiros. Esta orquestra teve importante papel na formação de músicos que foram a base da OSMG no ato da sua criação. Dentre os regentes que passaram por ela estão Salvador Villa, Raimundo Vieira, Edson B. Nery, Ney A. Parrela, Dolarino P. da Rocha, Moacir Pereira, Wilson Aguiar, Cristiano L. Duarte, Francisco Leitão, Roldão V. Magalhães, Cristiano L. Carvalho, Paulo P. Linhares, João Bosco O. Rocha, João Jorge A. Soares, Vagner A. Barbosa e João Bernardino A. Filho.
O fato de haver na cidade duas orquestras oficiais sem que houvesse sido construído o tão aguardado teatro incomodou a imprensa mineira, que passou a criticar as autoridades. Um exemplo é o artigo de Vander M. Moreira no jornal Diário
de Minas.21 No referido artigo, o jornalista questiona o fato de coexistirem duas orquestras de porte médio, geridas por duas esferas diferentes do poder público, sugerindo que os esforços deveriam ser unificados e concentrados para criar uma grande orquestra sinfônica na cidade.
Um patrimônio de inestimável valor, a Sinfônica de Belo Horizonte acabou se transformando em motivo de orgulho para a cultura mineira, como descreve Celso Brant, exaltando o trabalho de determinados homens públicos que lutaram junto aos músicos para manter e sustentar a atividade sinfônica:
[...] Não foram muitos os homens públicos que souberam prestigiá-la com o seu auxilio e com o seu incentivo. Na maioria, os donos do Poder esqueceram-na, mostraram o seu cruel desprezo. E com essa indiferença não fizeram senão valorizar a obra daqueles que, mais avisados, mais humanos e mais sentimentais, deram-lhe integral apoio. Merecem destaque, pela sua grandeza de espírito, de coração e de vontade, alguns homens públicos que se mostraram dignos das tradições de Minas. Em primeiro lugar do Estado, Mello Vianna, que em 1925 colaborou para a implantação da Sinfônica, juntamente com seus assessores Sandoval Azevedo e Mário Brant. Posteriormente, Kubistchek de Oliveira que, por decreto assinado em 1944, encampou a Sociedade, dotando-a de subvenção municipal, o ex- prefeito Otacílio Negrão de Lima que possibilitou a sua reorganização, o governador Milton Campos, que a declarou, em decreto de 31 de março de 1950, de utilidade pública, os ex-prefeitos Américo René Giannetti, Luiz Souza Lima, que deram apoio constante à manutenção da Sinfônica. Mais adiante aparecem os nomes de outros homens públicos, envolvidos na sobrevivência da sinfônica em Belo Horizonte. Longe estaria de ser a glória que foi e que continua sendo até hoje a sinfônica mineira, não fosse a dedicação do seu dinâmico presidente em 1950, o Sr. Carlos Vaz de Carvalho, que não poupou para que esse patrimônio da nossa cultura continuasse a ser cada vez mais o motivo de orgulho de nossa gente (BRANT, 1950, p.62).
Embora a situação parecesse resolvida entre as orquestras mineiras, em junho de 1951 Juscelino Kubitschek, já governador, ao lado de seu vice Clóvis Salgado e do prefeito Américo René Giannetti, optou por fusionar ambas as instituições numa só orquestra, que receberia o nome de Sociedade Mineira de
Concertos Sinfônicos (SMCS)22, passando a nova entidade a ser subvencionada
através de um convênio entre os poderes estadual e municipal.
21 O artigo foi publicado na edição de 02 de abril de 1950, com o título Para que duas orquestras?
22A coleção “Documentos Diversos da Sociedade Mineira de Concertos Sinfônicos” que se encontra
no Arquivo Público Mineiro, compreende documentação referente a quatro séries distintas: Documentação Contábil (1948-1972); Gerência de Pessoal (1953-1975); Atas de Assembleias e Reuniões (1940-1976); e Documentos Diversos (1953-1976). Seu acervo é composto de documentos
O novo agrupamento levou tempo para se tornar uma só entidade. A ratificação do convênio previa um mínimo de vinte e seis concertos por ano,
divididos em três séries – para sócios, populares e educativos –, e pelo menos nove
espetáculos gratuitos destinados aos operários e às crianças.
O concerto inaugural da nova instituição aconteceu no dia 23 de agosto de 1953, no Teatro Francisco Nunes, sob a regência do maestro italiano Sergio Magnani.