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4.2. Etkin Kullanıcı Arayüzü 93

4.2.1. Tasarım 94

B. S. Santos dedica parte de seus estudos à tentativa de definir a configuração do paradigma emergente, que, para ele, só pode ser obtido por via especulativa. O autor esclarece que o novo paradigma não pode ser apenas científico, na medida em que emergirá no contexto de uma sociedade revolucionada pela ciência. Portanto, precisará ser, também, um paradigma social, que ele chama de “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”.

A primeira tese, a partir da qual o autor caracteriza e identifica o paradigma emergente, diz que “todo conhecimento científico-natural é científico-social”. Nela, B. S. Santos entende que a distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais deixou de ter sentido e utilidade, e a superação desta oposição tende a tornar o conhecimento do paradigma emergente não-dualista, fundado na superação das distinções. Resta saber o sentido e o conteúdo de tal superação e quais ciências seriam preponderantes

na determinação de seus parâmetros. Para o autor, a recuperação do papel do sujeito na produção de conhecimento requer a superação da dicotomia. Assim, o novo paradigma que dela emerge revalorizará os estudos humanísticos, desde que as próprias humanidades sejam profundamente transformadas. Ele aponta, também, que para ser agente catalisador da progressiva fusão das ciências naturais e sociais, esta concepção humanística das ciências sociais precisa colocar, além da pessoa no centro do conhecimento, a natureza no centro da pessoa.

“Todo conhecimento é local e total”. Essa é a segunda tese do autor, a partir da qual o processo de crescente especialização da ciência moderna vem restringindo os objetos sobre os quais incide o conhecimento produzido. O aumento de rigor do conhecimento caminha paralelamente à crescente arbitrariedade e à necessidade de proteção/controle das fronteiras entre os diferentes caminhos. Isso significa que o caminho disciplinar é também um conhecimento disciplinado, em virtude da necessidade de policiar e reprimir as possíveis transposições de fronteira. No paradigma emergente, o conhecimento se constitui não mais em torno de disciplinas, mas em torno de temas; a fragmentação pós-moderna é uma fragmentação temática, e não mais disciplinar, entendendo-se temas como galerias pelas quais os conhecimentos progridem ao encontro uns dos outros.

O conhecimento avança à medida que seu objeto se amplia, pela diferenciação e pelo alastramento de suas raízes em busca de novas e mais variadas interfaces. Na medida em que se organiza em torno de temas estruturados, em função de sua adoção por grupos sociais concretos como projetos de vida locais, o conhecimento pós-moderno é local. Mas, sendo local, ele é também total, porque salienta a exemplaridade dos projetos cognitivos locais.

A ciência do paradigma emergente se configura como uma ciência tradutora por incentivar os conceitos e as teorias desenvolvidos localmente a emigrarem para outros lugares cognitivos, de modo a poderem ser utilizados fora de seu contexto de origem. A última parte desta argumentação e deste aspecto da ciência pós-moderna é fundamental para pensar questões relacionadas à pesquisa e à apresentação de seus resultados em ciências sociais. B. S. Santos assume o caráter relativamente imetódico deste tipo de

conhecimento, que se constitui a partir de uma pluralidade metodológica que, segundo ele, só é possível mediante transgressão metodológica.

Na terceira tese “todo conhecimento é autoconhecimento”, entende-se que a ciência moderna e a ideia de conhecimento objetivo, factual e rigoroso, expulsaram de si o homem enquanto sujeito empírico. Sobre esta base, criaram-se a distinção entre sujeito/objeto que, no entanto, jamais foi pacífica no campo das ciências sociais. Por esse mesmo motivo, as ciências sociais foram consideradas atrasadas em relação às ciências naturais.

O problema deveu-se à necessidade de articulação metodológica entre a distinção epistemológica e a distância empírica, entre o sujeito e o objeto, visto que os objetos de estudo eram homens e mulheres. B. S. Santos aponta que, historicamente, essa fronteira foi se fragilizando com a crescente incorporação de métodos da antropologia à sociologia, e, no campo das ciências físico- naturais, a mecânica quântica foi a primeira a trazer o sujeito de volta, ao demonstrar a inseparabilidade entre o ato do conhecimento e seu produto. Essa argumentação e a possibilidade que ela instaura de afirmar que o objeto é a continuação do sujeito por outros meios, leva à demonstração da terceira tese. Assim, os pressupostos metafísicos e sistemas de crenças e valores não vêm antes nem depois da explicação científica, mas são, sim, partes integrantes dela. A prevalência da explicação científica sobre outros modos de explicação/compreensão da realidade nada tem de científico; é um juízo de valor, naturalizado através de um processo lento. Logo, ressubjetivado, o novo conhecimento científico ensina a viver e traduz-se num saber prático.

A quarta tese do autor “todo conhecimento visa constituir-se em senso comum” reafirma o caráter não científico do estatuto privilegiado da racionalidade científica. B. S. Santos defende a ideia de que a ciência moderna produz conhecimentos e desconhecimentos. Opõe-se a isso a ciência pós- moderna como sabedora de que nenhuma forma de conhecimento, em si mesma, é racional. Só a configuração de todas as formas de conhecimento é racional. Isso implica a necessidade de diálogo e interpenetração entre as diferentes formas de conhecimento. Aponta-se, assim, a importância primeira de conhecimento do senso comum neste diálogo, por ser ele o conhecimento vulgar e prático, com o qual, no cotidiano, orientamos as nossas ações e

damos sentido a nossa vida, reabilitando-o da condição de falso e superficial à qual a ciência moderna o relegou.

Mesmo entendendo que o senso comum é uma forma de conhecimento que tende ao conservadorismo e à mistificação, B. S. Santos vê nele uma dimensão utópica e libertadora, que aflora em algumas de suas características e pode ser ampliado através do diálogo com o conhecimento científico. Quanto às dimensões potencialmente libertadoras do senso comum, o autor descreve que esse faz coincidir causa e intenção e, subjacente a ele, está uma visão de mundo assentada na ação e no princípio da criatividade e da responsabilidade individuais. Além disso, o senso comum é considerado um conhecimento exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas, é interdisciplinar e imetódico e privilegia a ação que produza rupturas significativas no real. É, ainda, retórico e metafórico.

Interpenetrado pelo conhecimento científico, o senso comum pode estar na origem de uma nova racionalidade. Uma racionalidade feita de racionalidade. B. S. Santos defende a necessidade de inversão da ruptura epistemológica e transforma isso na ideia de necessidade não mais de inversão, mas da realização de uma segunda ruptura epistemológica. Na ciência pós-moderna, o salto mais importante é o do conhecimento científico para o conhecimento do senso comum. O conhecimento científico pós- moderno só se realiza como tal na medida em que se converte em senso comum.