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Na crítica ao paradigma da ciência moderna, B. S. Santos aponta uma série de limitações na objetificação do outro e na ideia de que só o conhecimento científico constitui forma válida de conhecimento. O autor aponta, ainda, a tendência à redução do universo dos observáveis ao universo dos quantificáveis, e o rigor do conhecimento ao rigor matemático do conhecimento.
B. S. Santos parte da construção epistemológica de Bachelard e de sua ideia de que o conhecimento científico se constrói contra o senso comum, em
um processo de ruptura epistemológica. Para Bachelard, a tarefa da ciência é levar à superação das opiniões, das formas falsas de conhecimento, para tornar possível o conhecimento científico, racional e válido. Identificando a crise do paradigma da ciência moderna como um período de transição paradigmática, B. S. Santos vai formular a questão central de sua concepção sobre a necessidade do reencontro com o senso comum, nos termos de uma racionalidade envolvente.
Uma vez feita a ruptura epistemológica, o ato epistemológico mais importante é a quebra com a ruptura epistemológica. Assim, o autor se dedica a mapear os diferentes modos de relacionamento entre a ciência e o senso comum nas ciências sociais, entendendo que o senso comum carrega em si mais do que uma acomodação dos grupos subalternizados a sua subordinação. Ele tem sentido de resistência, que pode se transformar em arma de luta contra essa mesma subordinação, tornando inadequada a oposição simplista entre ciência/luz, senso comum/trevas.
A impropriedade de opor a ciência ao senso comum se fundamenta na ideia de que a ciência também pode ser conservadora e defender o status quo. Falar em senso comum de modo fixo e absolutizado representa a negligência das circunstâncias nas quais ele é produzido e que são fundamentais para a formulação dele. A indissociabilidade entre a ciência e o senso comum invalida a absolutização maniqueísta da oposição racionalidade/ciência, irracionalidade/senso comum.
B. S. Santos vai avançar sobre as condições teóricas que permitiriam ao senso comum desenvolver plenamente sua positividade e contribuir para com a emancipação cultural e social. O autor aponta, como condição essencial, a necessidade de uma configuração cognitiva, a partir da qual tanto ele, quanto a ciência moderna, superem a si mesmos para dar lugar a uma outra forma de conhecimento. É desta convicção que procede a ideia da dupla ruptura epistemológica: a ruptura com a ruptura epistemológica que não neutraliza a primeira.
A dupla ruptura procede a um trabalho de transformação tanto do senso comum como da ciência. A segunda ruptura transforma o senso comum com base na ciência constituída, e no mesmo processo transforma a ciência. Com esta dupla transformação, pretende-se um senso comum esclarecido e uma
ciência prudente, um saber prático que dá sentido e orientação à existência e cria o hábito de decidir bem.
B. S. Santos aponta o objetivo da dupla ruptura epistemológica como criação de uma configuração de conhecimentos que seja, ao mesmo tempo, prática e esclarecida, sábia e democraticamente distribuída. A dupla ruptura epistemológica precisa se constituir como o modo operatório de hermenêutica da epistemologia. Deve-se repensar a ciência e seus modos de constituição, desconstruindo-a para inseri-la numa totalidade que a transcende, voltada para a emancipação e para a criatividade, mas não como ciência. A desconstrução hermenêutica da ciência precisa seguir certas orientações para poder levar à constituição de uma configuração de conhecimentos que possa contribuir com a emancipação. Isso, porque não é qualquer conhecimento que contribui para a emancipação. É preciso compreender e levar em conta a indissociabilidade entre o campo da racionalidade cognitiva do conhecimento científico e o campo da ética e da política.
As orientações de B. S. Santos para a viabilização da dupla ruptura epistemológica e a constituição de uma epistemologia pragmática são três:
1a) A atenuação do desnivelamento entre o discurso, visando a ampliar o diálogo e promover a horizontalização das relações, hoje, baseadas na cisão e na hierarquia entre os discursos eruditos e os do senso comum.
2a) Voltar-se para a superação de uma outra dicotomia, a que opõe contemplação e ação. A indissociabilidade entre a produção científica e os usos que dela são feitos torna crescentemente sem sentido a ideia de uma produção desinteressada de conhecimento. É preciso explicitar essa indissociabilidade para fortalecer a superação da função política e ideológica que a separação entre a verdade científica e a verdade social da ciência exerce. O objetivo é levar a uma valorização global da práxis, que torne possível à técnica converter-se numa dimensão prática, e não o contrário.
3a) A necessidade de encontrar um novo equilíbrio entre adaptação e criatividade. Segundo B. S. Santos, o preço invisível do conforto é a renuncia à liberdade de agir e ao fruir com autonomia. A necessidade deste novo equilíbrio só pode ser contemplada no contexto de uma práxis fundamentada numa compreensão de ciência que privilegia as consequências, e obriga o homem a
refletir sobre os custos e os benefícios do que faz e do que lhe é feito. Uma prática, assim entendida, saberá dar à técnica o que é da técnica e à liberdade o que é da liberdade.
Sustentando a indissociabilidade entre as discussões especificamente sociais e políticas das de ordem epistemológica, nas quais as questões iniciais dessa reflexão vão se desenvolver e ganhar consistência, B. S. Santos aponta de modo sistemático e organizado as condições teóricas e sociais da dupla ruptura epistemológica.
Para o autor, o paradigma da ciência moderna enfrenta uma crise que não poderá ser resolvida por reformas. Trata-se de uma reconceitualização da ciência que resulta de um conjunto de condições teóricas. A primeira delas deriva da necessidade de problematização do próprio sentido da ciência, da validade do conhecimento científico em face dos demais conhecimentos, e exige que se submeta a própria epistemologia à reflexão hermenêutica.
A segunda condição trata de que o processo de reflexão hermenêutica deve se dar pela desconstrução dos objetos teóricos que a ciência constrói sobre si mesma, permitindo sua desdogmatização.
A terceira condição expressa que a reflexão hermenêutica é uma pedagogia de uma epistemologia pragmática, de uma concepção pragmática de ciência e de verdade do conhecimento. Desse modo, subentende-se a ideia de que a prática científica é uma prática intersubjetiva, e se justifica teórica e sociologicamente pelas consequências que produz na comunidade científica e na sociedade em geral, e entende como indissociáveis a verdade epistemológica e a verdade sociológica.
A quarta condição teórica aponta a diversidade da possibilidade de avaliação das consequências das práticas científicas sobre a sociedade e a comunidade científica, em virtude da especificidade das lutas de verdade que nessa última se dão. Isso, considerando a verdade como o efeito de convencimento dos discursos de verdade em conflito.
A quinta condição aponta a necessidade de a concepção pragmática de ciência se articular a uma concepção retórica do discurso científico, para que o saber científico possa se abrir a outros saberes e propiciar a segunda ruptura epistemológica.
A sexta condição reafirma a ideia de compromisso com o estabelecimento do que se poderia chamar de uma ciência mais sábia e mais democrática. O que se pretende é a construção de um novo senso comum, com mais sentido, ainda que menos comum.
A sétima condição retoma a ideia da precedência epistemológica das ciências sociais sobre as ciências naturais, e das correntes compreensivas críticas das ciências sociais sobre outras ciências.
No que se refere às condições sociais de dupla ruptura epistemológica, B. S. Santos relembra a sua inconclusividade na medida em que as duas rupturas se desenvolveram de modo desigual. A teorização das condições sociais deve se dar no seio de uma teoria da sociedade que identifique contextos de prática social propiciadores da forma de conhecimento que se pretende promover com a dupla ruptura epistemológica. Se todo conhecimento é contextual, é preciso identificar em que contexto se produz e se aplica o conhecimento, nas sociedades capitalistas.
Considerando cada contexto como uma comunidade de saber, B. S. Santos aponta duas questões relevantes. Primeiro, o entendimento de que nas sociedades complexas, nossa cotidianidade é múltipla, internamente diversificada e com significados diferenciados. Isso nos leva à segunda questão, que trata do entendimento de que somos, enquanto indivíduos, configurações em que se articulam e interpenetram nossos seres práticos, todos eles produtos-produtores de sentidos, sendo o sentido de nossa presença no mundo e de nossa ação em sociedade uma configuração de sentidos. Assim, B. S. Santos vai considerar que cada contexto interativo estrutural é uma comunidade de saber dúplice, na qual há uma forma local, nativa de saber, e pelo saber científico, do qual não é habitualmente sujeito. Isso quer dizer que a distribuição desigual de poder entre os diferentes grupos sociais transforma alguns deles em sujeitos sociais de conhecimento e outros em objetos, o que interfere na aplicação do conhecimento científico.
A diferenciação entre a aplicação técnica e a aplicação edificante da ciência se configura como uma nova conflitualidade, uma luta entre dois paradigmas científicos, entendida como parte integrante de outra mais ampla entre dois paradigmas societais. A luta pela ciência pós-moderna e pela aplicação edificante do conhecimento científico é a luta por uma sociedade que
as torne possíveis e maximize a sua vigência. É, talvez, nesse sentido, que se encontra a face mais política do pensamento de B. S. Santos, que se ocupa de uma reflexão sobre as questões sociais e políticas, e da tentativa de construção de uma teoria à respeito do que ele chama de transição societal.
3.2 Boaventura de Sousa Santos e o paradigma emergente das ciências