• Sonuç bulunamadı

Recuperando
 a
 afirmação
 de
 José
 Gil
 em
 Devir‐eu
 de
 Fernando
 Pessoa,
 em
 que
Soares
“raramente
descreve
o
quarto”
(GIL,
2010,
41),
seu
interior
é
objeto
de
 pouca
 reflexão
 nessa
 tese.
 
 Sua
 ambiência,
 aqui,
 é
 tomada
 como
 “(...)
 um
 espaço
 negro,
obscuro,
de
que
não
se
fala:
é
o
espaço
das
costas
que
o
narrador
deixa
para
 trás
quando
se
levanta
para
ir
a
janela”
(GIL,
2010,
41).


Entretanto,
na
obra
de
Helder,
acontece
justamente
o
contrário:
o
ambiente
 do
 quarto
 é
 espaço
 onde
 sua
 literatura
 opera,
 onde
 esses
 passos
 em
 volta
 dados
 pela
 voz
 narrativa
 completam
 um
 exercício
 estilístico
 fomentado
 desde
 o
 primeiro
 conto,
“Estilo”
até
o
último
“Trezentos
e
Sessenta
Graus”,
através
de
uma
série
de
 contágios
que
modulam
diferentes
quartos
a
partir
de
estratégias
próximas.


.AMBIENTE
01:
SOMBRAS
E
FÓSFORO


Em
 Os
 Passos
 em
 Volta,
 no
 primeiro
 conto,
 “Estilo”,
 o
 narrador
 acorda
 
 às
 quatro
 da
 manhã
 num
 quarto
 vazio,
 assombrado
 por
 uma
 massa
 de
 sombras
 levantada
 por
 um
 fósforo
 aceso.
 O
 ambiente
 anódino
 e
 genérico
 de
 um
 quarto
 especifica‐se
por
esse
acontecimento.
A
camisa
sobre
a
cadeira
ganhando
contornos
 impossíveis
 segundo
 o
 narrador,
 transformando
 em
 penumbra
 um
 espaço
 antes
 qualquer
e
indiferente.
E
essa
situação
de
engrandecimento
de
algo
corriqueiro
pela
 luz
de
um
fósforo
age
como
dispositivo
para
fazer
o
narrador
pensar
em
algo
maior:
 “a
nossa
vida...
compreende?...
a
nossa
vida,
a
vida
inteira,
está
ali
como...
como
um
 acontecimento
excessivo...”
(HELDER,
2005,
11).


A
 luz
 do
 fósforo,
 ao
 invés
 de
 iluminar
 o
 ambiente,
 o
 que
 significaria
 esclarecer
 e
 deixar
 tudo
 “às
 claras”,
 faz
 justamente
 o
 contrário:
 produz
 zonas
 cinzentas,
 onde
 a
 luz
 não
 penetra.
 Este
 claro
 e
 escuro,
 não
 como
 racionalidades
 antagônicas,
 mas
 dois
 espectros
 produzidos
 por
 uma
 racionalidade,
 ou
 iluminação,
 são
 o
 volume
 impossível
 da
 vida.
 A
 iluminação
 do
 que
 está
 no
 quarto
 não
 dá
 certezas,
 mas
 constrói
 imagens
 ambivalentes,
 onde
 claro
 e
 escuro
 tornam‐se
 possíveis
de
uma
mesma
realidade.
Esse
ambiente
primeiro,
nessas
formas,
sugere


novas
 maneiras
 de
 pensar
 o
 que
 é
 iluminado
 ou
 não.
 Ele
 faz
 conhecer
 pela
 linguagem,
ou
grafia
nos
termos
desta
tese,
um
espaço
diverso,
que
é
sempre
dado
 como
espacialidade
tal
qual
qualquer
outra
de
igual
nomeação.


Assim,
 iluminando
 o
 que
 é
 indiferente,
 Helder
 produz
 penumbras
 que
 descartam
 as
 zonas
 claras.
 Constrói
 um
 sentido
 em
 seu
 projeto
 literário
 através
 dessas
zonas
cinzentas.
Inicialmente,
neste
conto
“Estilo”,
escrita
está
uma
carta
de
 intenções
a
respeito
de
seu
estilo
poético:
“o
estilo
é
um
modo
sutil
de
transferir
a
 confusão
 e
 violência
 da
 vida
 para
 o
 plano
 mental
 da
 unidade
 de
 significação.”
 (HELDER,
 2005,
 11).
 Ao
 acordar
 no
 quarto
 às
 quatro
 da
 manhã
 aterrorizado
 pelas
 sombras
e
melancolia
do
mundo,
estiliza:


Às
 vezes
 uso
 o
 processo
 de
 esvaziar
 as
 palavras.
 Sabe
 como
 é?
 Pego
 numa
 (grifo
 nosso)
 palavra
 fundamental.
 Palavras
 fundamentais,
 curioso...
 Pego
 numa
 (grifo
 nosso)
 palavra
 fundamental:
 Amor,
 Doença,
 Medo,
 Morte,
 Metamorfose.
 Digo‐a
 baixo
 vinte
 vezes.
 Já
 não
 significa.
 É
 um
 modo
 de
 alcançar
 um
 estilo.
(HELDER,
2005,
13).



 


Não
“pegar
uma
palavra”,
o
que
por
conseguinte
significaria
“pegar
a
língua”,
 que
 então
 afirmaria
 uma
 instrumentalização
 da
 mesma
 para
 montar
 um
 estilo
 de
 escrita.
 “Pegar
 numa
 palavra
 fundamental”
 é
 “pegar
 na
 língua”
 que,
 por
 sua
 vez,
 afirma
 um
 agir
 sobre
 a
 língua.
 Assim,
 o
 quarto
 é
 espacialidade
 repetida
 em
 outros
 oito
contos
–
“Holanda”,
“Quarto”,
“Policia”,
“Escada
e
Metafísica”,
“Vida
e
Obra
do
 Poeta”,
 “Poeta
 Obscuro”
 e
 “Trezentos
 e
 sessenta
 Graus”
 –
 destituído
 de
 qualquer
 significação,
 sendo
 palavra
 apenas,
 portanto,
 território
 experimental
 de
 sentidos.
 Deve,
portanto,
ser
compreendido
em
cada
uma
de
suas
únicas
espacialidades
dadas
 em
 cada
 conto,
 não
 sendo
 resumido
 a
 imagens
 preconcebidas.
 Na
 repetição
 diferenciada
 do
 espaço
 que
 será
 analisado
 adiante,
 um
 contágio
 se
 estabelece
 a
 partir
 de
 um
 fio
 condutor
 que
 é
 a
 imagem
 primeira
 deste
 espaço
 interior
 configurando
um
modo
de
operar,
sempre
de
acordo
com
as
circunstâncias
de
cada
 contexto
 poético.
 Nessa
 disseminação
 iniciada
 por
 um
 “Pegar
 numa
 língua”,
 portanto,
há
uma
fundação
feita
em
cada
conto.
Se
em
cada
parte
do
livro,
funda‐se
 um
sentido
de
quarto,
pode‐se
dizer
que
em
cada
um,
um
mundo
é
produzido
tendo


o
 mesmo
 em
 alguns
 momentos
 como
 um
 micro‐cosmo.
 Assim,
 o
 poeta
 é
 alçado
 à
 condição
de
deus
em
cada
geo‐grafia.



Trazendo
de
volta
neste
momento
Bataille
para
fazê‐lo
dialogar
com
Helder
 em
 Os
 Passos
 em
 Volta
 ,
 tendo
 em
 vista
 essa
 dimensão
 divina,
 é
 importante
 rever
 como
 a
 noção
 de
 sagrado
 e
 divino
 do
 segundo
 tem
 pouco
 a
 ver
 com
 uma
 religiosidade,
 embora
 haja
 uma
 componente
 espacial.
 Para
 o
 autor
 francês,
 a
 divindade
tem
muito
menos
a
ver
com
figuras
religiosas
e
se
aproxima
muito
mais
de
 uma
relação
de
origem
a
partir
do
uso
da
língua.
Uma
relação
com
o
original
ou
uma
 noção
de
origem
a
ser
fundada
pelo
uso
da
palavra
é
o
objetivo
de
Bataille,
e
não
 voltar
 e
 pensar,
 do
 ponto
 de
 vista
 histórico,
 o
 início
 ou
 primeiro
 significado
 da
 palavra.
Ou
seja,
não
é
sobre
o
significado
já
dado,
mas
sobre
quais
sentidos
e
afetos
 se
podem
produzir
ao
fundar
esses
novos
espaços,
neste
caso,
quartos,
manipulando
 referências
exteriores
e
considerando‐o
como
grafia.
Da
mesma
forma
que
Benjamin
 em
A
Tarefa
do
Tradutor
e
Helder
em
seus
poemas
Mudados
para
o
português,
não
 é
 sobre
 ir
 em
 direção
 a
 uma
 origem,
 mas
 estabelecer
 uma
 dimensão
 donde
 se
 podem
 originar
 novos
 reais
 pela
 manipulação
 da
 língua.
 Assim,
 esse
 poeta‐deus
 inicia
em
“Estilo”,
e
pelo
quarto,
sua
língua
via
linguagem.



.AMBIENTE
02:
DO
LEITE


Num
primeiro
movimento
de
fundação,
em
“Holanda”,
conto
imediatamente
 posterior
 a
 “Estilo”,
 o
 quarto
 reaparece
 não
 como
 espaço
 onde
 toda
 a
 narrativa
 toma
 lugar.
 Nessa
 narrativa
 dada
 por
 um
 poeta
 sentado
 num
 país
 que
 “agora
 é
 vacas”
e
num
fluxo
de
consciência
que
termina
com
o
aparecimento
de
uma
visita,
o
 quarto
desdobra‐se
como
lugar
de
experiência
“desejada”
com
o
demônio.
Porém,
 ainda
 que
 não
 principal,
 é
 território
 de
 onde
 o
 poeta
 parte,
 reparte
 e
 se
 reparte
 (HELDER,
2005,
16).


O
quarto
fica
sobre
uma
loja
onde
se
vendem
leites,
natas,
queijos,
 cremes.
Tudo
isso
é
gordo
e
branco.
Ele
desce
as
escadas,
pára
em
 frente
 a
 leitaria.
 Que
 é
 isto?
 –
 pergunta.
 Refere‐se
 a
 Deus,
 devorador
 de
 natas.
 –
 Há
 uma
 confusão
 qualquer
 –
 supõe.
 –
 Sou