Neste capítulo, num movimento do mais próximo ao mais distante, e em casas longe de serem modernas, como as de Mies Van Der Rohe, pertinente é começar pelo mais próximo: o quarto. Não apenas por ser do ponto de vista funcional o espaço mais íntimo e exterior – pois ele é pensado para dormir e sonhar – mas também porque, quando num conjunto de espaços mapeados nas obras analisadas, ele é o primeiro a ser desenhado: no primeiro conto, “Estilo”, de Os Passos em Volta, o narrador acorda em sua cama no quarto; e é do quarto que Soares, em Livro do Desassossego, começa sua vida, seja vendo pela janela, preparando‐se para o trabalho ou se imaginando caminhar pelas ruas.
As duas obras tem no espaço do quarto um território fulcral para compreensão da dimensão fundante de um movimento comunitário. O quarto, em cada obra tratado especificamente, torna‐se espaço para construir uma exterioridade de outra maneira que não uma compreendida como comunicação ou ainda representação do mundo, mas pela produção de afetos literários a partir desse mesmo. Na obra de Helder, o quarto tem uma dimensão que segue atrelada às diversas vozes narrativas presentes nos contos. Ora num constante jogo nas mudanças de perspectiva de dois narradores, como no conto “Duas Pessoas”, ora como habitante de uma pensão em “Escadas e Metafísica”, ora como um poeta em “Holanda”; o narrador não tem uma única forma nem é monológico, assim como seu espaço íntimo é o mesmo não sendo o mesmo.
Sendo diversos os narradores, em Os Passos em Volta não há uma continuidade visível entre os 23 contos. Não há uma relação ou filiação que os tome como parte de um todo maior. A única possibilidade que se pode dizer a respeito de uma ligação entre os diversos narradores é que ao longo do livro, e em diversas formas, exposto neles está a construção do olhar de um poeta, segundo argumenta Sérgio Cohn na apresentação do livro: As narrativas nos apresentam uma a uma a construção do olhar do poeta. Seja em textos como o de abertura, ‘Estilo’, com seu diálogo com um interlocutor nunca explicitado, talvez o próprio leitor, seja
em textos que permanecem na tênue fronteira entre a alegoria e o fabular. Assim, poderíamos dizer, num rompante de coragem, que este é, de sua maneira sempre singular, um livro de formação. (HELDER, 205, 09)
Estes muitos narradores, cada qual com sua própria voz de poeta, produzem não uma expressão do estado das coisas – não há nenhum resquício romântico em Helder nesse sentido. Em cada narrativa uma investigação própria a respeito de um estar e relacionar‐se com o mundo é produzida pela escrita. Sendo esta tese uma investigação literária das maneiras de se interagir com o mundo pela literatura, a voz narrativa no livro está interessada em construir um modus operandi de sua poética. Por isso, Sergio Cohn confirma a colocação acima. E o espaço onde o narrador está produzindo esta línguagem como forma de interação com o mundo a fim de ser poeta, é o quarto.
Já no Livro do Desassossego, Soares, ainda que único narrador na obra, procede tal como os narradores de Helder. Faz uso do quarto como dispositivo conector com o mundo de forma específica, utilizando seus sentidos como forma de, pelo interior, construir exteriores literariamente. Sendo que “raramente se descreve o quarto” (GIL, 2010, 41), importa pouco o que é o espaço onde se está; para o ajudante de livros residente na Rua dos Douradores, o quarto só serve enquanto espacialidade que coloca em marcha o devir‐outro por um dos seus sentidos, dito poeticamente. O quarto é exposto não a partir do que ele é, que seria seu interior, mas do que ele pode provocar, exterior então. Através de portas, janelas e outras aberturas, o que interessa ao narrador é como o quarto serve de dispositivo de um devir‐exterior que confere expressividade. Como coloca GIL (2010, 43), “O dentro comunica com o fora, a alma‐cidade com a cidade exterior, o infinitamente pequeno das sensações com o infinitamente grande do cosmos. E o dispositivo que põe o sonho em movimento é o quarto‐janela‐olhar.”
Não obstante, a voz narrativa de Os Passos em Volta também se interessa por esse devir‐exterior, mas longe de uma expressividade tal como faz Pessoa em relação às sensações de Soares. Para Helder, sua operação na língua é fazer o que não é expressivo, porque é vazio, tornar‐se marca visível no texto. Isso significa que Helder se interessa na palavra não pelo que ela pode comunicar a respeito do
quarto, mas pelas operações que ela pode desempenhar na construção de um estilo, como delineado e a ser posteriormente analisado em “Estilo”, primeiro conto de sua obra em análise.
Assim, o quarto não é apenas espaço narrativo no qual ações se dão. Enquanto lugar de investigação, é rastro de uma relação entre palavras, cujo intuito é produzir uma particular poética. O quarto é o que acontece a ele em ambos os casos, na medida em que como afirma Silvina Lopes em Inocência do Devir sobre Passos em Volta a respeito de um de seus elementos: a porta Das portas da casa, às do corpo e às das palavras, trata‐se sempre da demarcação de um interior e de um exterior, que põe em relevo que aquilo que separa pode ser aquilo que liga. A condição é que as portas não sejam codificadas, que se abram onde se desencadeiam movimentos, ‐ nas palavras pelas quais se passa e se nasce o próprio passar. (LOPES, 2003, 12).
É do quarto que partem ou é nele que atravessam ou são produzidos movimentos que fazem nascer um modo de operar a gramática, uma linguagem, um modo poético de interagir com o mundo, diverso e localizado lá fora. Do quarto opera‐se um exercício de linguagem onde o que é “o quarto” vai desaparecendo como referência narrativa para se tornar palavra potencial. Tal dimensão espacial ganha autonomia em relação a qualquer referencial exterior, sendo comunitária não porque é lugar comum e de mútuo entendimento, mas de onde se criam novos territórios ao operar um desvio da capacidade apenas representativa da linguagem. Nesse espaço específico há, em ambos os casos, uma afirmação poética do quarto como uma experimentação de linguagem. Assim, diversos são os movimentos comunitários que surgem ou recortam‐no, sendo que a cartografia destes nos dá quatro mapas: das ambiências do quarto como catalisadoras de experimentações na linguagem; das portas como aberturas; das janelas como conectores; e das escadas e retretes como uma experiência de fronteira do poeta.
.DOS AMBIENTES
Recuperando a afirmação de José Gil em Devir‐eu de Fernando Pessoa, em que Soares “raramente descreve o quarto” (GIL, 2010, 41), seu interior é objeto de pouca reflexão nessa tese. Sua ambiência, aqui, é tomada como “(...) um espaço negro, obscuro, de que não se fala: é o espaço das costas que o narrador deixa para trás quando se levanta para ir a janela” (GIL, 2010, 41).
Entretanto, na obra de Helder, acontece justamente o contrário: o ambiente do quarto é espaço onde sua literatura opera, onde esses passos em volta dados pela voz narrativa completam um exercício estilístico fomentado desde o primeiro conto, “Estilo” até o último “Trezentos e Sessenta Graus”, através de uma série de contágios que modulam diferentes quartos a partir de estratégias próximas.
.AMBIENTE 01: SOMBRAS E FÓSFORO
Em Os Passos em Volta, no primeiro conto, “Estilo”, o narrador acorda às quatro da manhã num quarto vazio, assombrado por uma massa de sombras levantada por um fósforo aceso. O ambiente anódino e genérico de um quarto especifica‐se por esse acontecimento. A camisa sobre a cadeira ganhando contornos impossíveis segundo o narrador, transformando em penumbra um espaço antes qualquer e indiferente. E essa situação de engrandecimento de algo corriqueiro pela luz de um fósforo age como dispositivo para fazer o narrador pensar em algo maior: “a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...” (HELDER, 2005, 11).
A luz do fósforo, ao invés de iluminar o ambiente, o que significaria esclarecer e deixar tudo “às claras”, faz justamente o contrário: produz zonas cinzentas, onde a luz não penetra. Este claro e escuro, não como racionalidades antagônicas, mas dois espectros produzidos por uma racionalidade, ou iluminação, são o volume impossível da vida. A iluminação do que está no quarto não dá certezas, mas constrói imagens ambivalentes, onde claro e escuro tornam‐se possíveis de uma mesma realidade. Esse ambiente primeiro, nessas formas, sugere