Além dos prejuízos causados à cidade e aos serviços prestados pela FPESP à população, incluindo o policiamento, a revolução trouxe outras consequências, relatadas pelo presidente do estado de São Paulo, Carlos de Campos, na mensagem encaminhada ao Congresso Legislativo do estado em 14 de julho de 1925, como segue (São Paulo, 1925a): aumento do efetivo da FPESP para 14.079 homens; anistia aos praças que desertaram durante a revolução, mas se apresentaram no prazo de trinta dias (São Paulo, 1924f); exoneração das fileiras da corporação dos oficiais inferiores e praças que se envolveram com o levante de 5 de julho de 1924 (São Paulo, 1924g, 1924h); aquisição de novos armamentos e restauração do parque de aviação da corporação; deslocamento de batalhões da FPESP para combater os revolucionários no Paraná e no Rio Grande do Sul; promoção ao posto imediatamente superior dos oficiais e praças que, durante o levante, lutaram a favor da “legalidade”; criação da “Medalha da Legalidade”, outorgada aos integrantes da Força Pública que lutaram contra os revolucionários de 1924 (São Paulo, 1924i), entre outras medidas.
Ainda em 1924, o contrato da missão militar francesa encerrou-se, não tendo sido prorrogado. Dessa forma, as funções de instrutores passaram definitivamente para os oficiais da própria Força Pública, como relatou o presidente do estado de São Paulo: “Extincta que foi a Missão Franceza, por terminação do seu contracto, continuou nos corpos a instrucção dada pelos officiaes dos mesmos, que muito devem aos ensinamentos daquelle brilhante grupo de instructores.” (São Paulo, 1925a).
Um aspecto importante, mas pouco explorado, na historiografia sobre a Revolução de 1924 foi o impacto da deserção dos revolucionários no efetivo da FPESP. Segundo os registros, foram exonerados: um major, quatro capitães, vinte tenentes150 e cerca de mil praças151, sendo
150 Segundo o Boletim Geral da FPESP nº 78, de 21 de outubro de 1924, foram exonerados por participar do levante
de 1924 os seguintes oficiais: Major Miguel Costa, Capitão Francisco Bastos, Capitão Affonso Henrique Lucas, Capitão Índio do Brasil, Capitão Coriolano de Almeida Junior, Primeiro-Tenente Augusto Abrantes, Primeiro- Tenente José de Oliveira França, Segundo-Tenente Ovídio Sayão, Segundo-Tenente Benjamin Nery, Segundo- Tenente Arlindo de Oliveira, Segundo-Tenente Octaviano Gonçalves da Silveira, Segundo-Tenente Virgilio Ribeiro dos Santos, Segundo-Tenente João Cabanas, Segundo-Tenente João Baptista Nitrini, Segundo-Tenente Benedicto Mario da Silva, Segundo-Tenente José Garcia de Toledo, Segundo-Tenente Thales Prado de Marcondes, Segundo-Tenente João Procópio da Silva, Segundo-Tenente Cesar Honorio de Campos, Segundo-Tenente Benedicto Marcondes da Costa, Segundo-Tenente Manoel Chaves Braga, Segundo-Tenente Banedicto Candido dos Santos, Segundo-Tenente João Demilcedes, Segundo-Tenente Balbino Augusto Xavier e Segundo-Tenente Ary Fonseca da Cruz.
151 Devido à grande quantidade de publicações diferentes referentes às exonerações dos praças da FPESP, não foi
possível uma contabilização exata; por isso, trabalhamos com a mesma estimativa de rebeldes proposta por Andrade e Câmara (1931), ou seja: “Com a retirada das tropas revolucionarias [...] Constituindo uma columna de 2.000 homens, mais ou menos, [...] composta de cincoenta por cento de elementos da Força Publica paulista.” (p. 155).
que, segundo a lei de fixação da FPESP para o ano de 1924, o efetivo da instituição era de 8.829 homens. O quadro a seguir mostra uma estimativa do impacto sobre o efetivo da corporação a exoneração dos rebeldes:
Quadro 42 – Estimativa de exonerações na FPESP, em razão da Revolução de 1924.
POSTO/GRADUAÇÃO FIXADO1 EXONERADOS PORCENTAGEM DE
CLAROS Coronel 1 0 0% Tenente-Coronel 14 0 0% Major 13 1 8% Capitão 56 4 7% Tenente 166 20 12% Alunos 30 0 0% Praças 8.549 1.000 12% Total 8.829 1.025 12%
Nota: 1Conforme São Paulo (1923b).
Neste quadro, é possível constatar que o impacto das exonerações foi relativamente grande, uma vez que a perda foi de cerca de 12% do efetivo, o que se agravou com a saída de batalhões inteiros da instituição para compor as expedições que perseguiram a Coluna Prestes. Dessa forma, o efetivo da corporação que seria empregado no policiamento sofreu significativa redução.
Em 1925, a solução encontrada foi o aumento do efetivo da Força Pública para 14.079 homens (São Paulo, 1924k), o que significou a necessidade de formação de mais de seis mil homens, considerando o aumento do efeito em 5.026 homens, mais os mil que tinham desertado por causa do levante de 1924. Para atender a essa enorme demanda pela formação de mais soldados, a corporação foi reorganizada (São Paulo, 1924l) e foi criado o Batalhão Escola. Além disso, a necessidade de formação de soldados ensejou uma necessidade maior para a formação de oficiais instrutores e de comandantes de tropa.
Essa mesma norma de organização extinguiu o Curso de Instrução Geral que havia sido criado em 1915. Nesse contexto, uma das consequências da maior necessidade de oficiais e da extinção do Curso de Instrução Geral foi a dificuldade de encontrar no efetivo da corporação inferiores com formação escolar suficiente para frequentar o curso de formação de oficiais. Para suprir essa demanda, em 1925, o concurso para o Curso Especial Militar foi aberto para o ingresso direto de civis. Conforme disposto no art. 2º Decreto nº 3.898-A, de 11 de agosto de 1925, poderiam ser inscrever para os exames do Curso Especial Militar:
a) No primeiro ano:
I - os praças aprovados na Escola de Cabos da Força;
II - os que se alistaram com destino a este curso e que exibirem título de estudo nas Escola Públicas do país, ou equivalentes ou superiores ao 3º ano das Escolas Normais primárias do Estado.
b) No segundo ano:
I - os cabos que tiverem mais de dois anos de graduação; II - os oficiais inferiores. (São Paulo, 1925b).
Tais medidas – a extinção do Curso de Instrução Geral e a aceitação de candidatos civis que comprovassem a escolarização mínima equivalente ao terceiro ano das escolas normais do estado – caracterizaram uma tentativa de elitização dos alunos do Curso Especial Militar, como aponta Fernandes (1973 apud Almeida, 2009, p. 94):
[...] com a exigência do nível de instrução como requisito para o ingresso no oficialato, temos dois períodos em que a composição social é diversa. No período que se estende de 1919 a 1925 há uma composição que visa ser ‘popular’ do quadro de oficiais já que objetiva democratizar as oportunidades de acesso ao oficialato às várias camadas da população, sobretudo as mais modestas onde se recrutam as praças. Finalmente, a solução final de 1925 é classista por estar referida e, portanto, limitada, à situação do ensino na sociedade inclusiva onde a educação ainda é privilégio das camadas mais abastadas da população. Referido a este pano de fundo proporcionado pela sociedade brasileira da década de vinte em que a educação é privilégio de uma minoria e a maioria analfabeta, verifica-se que a solução adotada para o ingresso no oficialato da Força Pública em 1925 reforça os mesmos padrões da sociedade: o ingresso no oficialato é privilégio desta mesma minoria.
Mesmo com essas mudanças, o Regulamento do Curso Especial Militar de 1921 continuou a vigorar; portanto, no currículo do curso, não existiam matérias referentes à atividade de policiamento, como se depreende do quadro a seguir:
Quadro 43 – Currículo do Curso Especial Militar, segundo o Regulamento de 1924.
CADEIRA DISCIPLINAS
PRIMEIRA Instrução de infantaria constante dos regulamentos adotados na Força.
SEGUNDA1 Noções de hipologia; equitação; instrução de cavalaria constante dos regulamentos adotados na Força.
TERCEIRA Topografia.
QUARTA Tática e trabalhos de campanha.
QUINTA Armamento e tiro.
SEXTA Legislação e administração da Força; organização policial do estado;
funções das diversas autoridades.
SÉTIMA Francês.
EDUCAÇÃO FÍSICA2 Esgrima; ginástica; natação.
PALESTRAS MENSAIS3 Higiene militar; fisiologia.
Fonte: Adaptado de São Paulo (1921, art. 6º).
Notas: 1Esta cadeira era frequentada somente pelos alunos do curso de cavalaria. 2As aulas de ginástica,
esgrima e natação eram ministradas na Escola de Educação Física da Força. 3Palestras mensais
Cumpre ressaltar, nesse contexto, que a falta de efetivo para o policiamento, causada pela deserção de cerca de mil homens no levante de 1924 e pelo afastamento de unidades inteiras para perseguir a Coluna Prestes, e a dificuldade de completar os quadros da FPESP ensejaram que, em 1926, fosse criada uma instituição específica para a atividade de policiamento: a Guarda Civil. Criada por força da Lei nº 2.141, de 22 de outubro de 1926, essa organização seria auxiliar da Força Pública, mas sem caráter militar, possuindo um efetivo inicial de, aproximadamente, mil homens152.
A tentativa de conseguir candidatos ao Curso Especial Militar que já contassem com estudos equivalentes ao terceiro ano das escolas normais não surtiu o resultado esperado, de modo que, em 1927, a Força Pública foi reorganizada e resurgiu o Curso de Instrução Geral153, o qual também foi reorganizado e, em 1928, possuía as seguintes disciplinas: Português, Matemática, Geografia Geral, Francês, Noções de Física e Direito Constitucional. O próprio presidente do estado de São Paulo, em 1928, Júlio Prestes, emitiu o seguinte parecer quanto ao Curso de Instrução Geral: “O curso de instrucção geral, para inferiores, e o curso complementar para officiaes, têm uma freqüência animadora, e os seus alumnos apresentam regular aproveitamento.” (São Paulo, 1928a).
Outro aspecto interessante quanto aos problemas de formação foi o fato de o sistema de ensino da FPESP não ser suficiente para formar todo o efetivo previsto nas leis de fixação, em especial, o efetivo fixado para 1925, de 14.079 homens. Prova disso é que, para o exercício de 1927, o efetivo fixado para a corporação foi reduzido para 9.288 homens (São Paulo, 1926c), sendo novamente reduzido, para o exercício de 1928, para 8.482 (São Paulo, 1927b). Já o efetivo fixado para 1929 foi de 8.474 homens (São Paulo, 1928b), inferior àquele fixado para a Força em 1924, que era de 8.829 (São Paulo, 1923b). Como o governo do estado não poderia exonerar mais de seis mil integrantes da Força Pública, a abrupta redução do efetivo fixado por lei entre 1925 e 1928 demonstra que essas vagas nunca foram preenchidas, o que comprova que o sistema de formação da corporação não tinha condições de formar todo esse efetivo em apenas dois anos.
Essa conclusão aponta que, a partir de 1924, a Força Pública foi perdendo espaço, de modo que o policiamento foi paulatinamente passado para a Guarda Civil. Nesse sentido, ainda em 1928, foi publicado um novo regulamento do serviço policial (São Paulo, 1928c), no qual a administração dos serviços policiais, incluindo a investigação e o policiamento, era atribuição
152 Art. 1º da Lei nº 2.141, de 22 de outubro de 1926. 153 Art. 7º da Lei nº 2.206-A, de 19 de novembro de 1927.
dos delegados154, enquanto aos oficiais da FPESP caberiam apenas funções administrativas, de treinamento e formação e missões propriamente militares, reduzindo a sua área de atuação e lhes restringindo o poder e a importância.
No mês de março de 1928, foi publicada a lei de reorganização da FPESP, a qual extinguiu o Curso Especial Militar, que formava os oficiais da FPESP, e criou o Curso de Instrução Militar (São Paulo, 1928b). Em 1929, foi criado o Batalhão Escola, composto pela Escola de Recrutas, Escola de Cabos, Escola de Sargentos, Escola de Educação Física, Escola de Automobilismo e Escola de Radiotelegrafia (São Paulo, 1929a). Além da criação do Batalhão Escola, foi publicado o Regulamento do Curso de Instrução Militar de 1929, que voltou a ser destinado apenas aos graduados que tivessem completado o curso de sargento, sendo composto por um Curso de Instrução Geral (literário), um Curso Especial Militar e um Curso de Aperfeiçoamento155.
O novo Curso de Instrução Geral (literário), com duração de dois anos156, era destinado a preparar os sargentos, ministrando-lhes os conhecimentos básicos para a frequência ao Curso Especial Militar157. O curso buscava suplementar a deficiência de formação dos sargentos da Força; com isso, o acesso ao oficialato tornou-se mais democrático, o que demonstra que a abertura para civis e a exigência de estudos mínimos não atraíram a quantidade necessária de candidatos. Isso provavelmente decorreu do fato de que, em razão dos combates da época, poucas famílias desejavam que seus filhos seguissem a carreira militar.
O Curso de Instrução Geral obedecia ao seguinte currículo:
Quadro 44 – Currículo do Curso de Instrução Geral da FPESP, segundo o Regulamento de 1929.
CADEIRA 1º ANO 2º ANO
1ª CADEIRA Português. Português, incluindo literatura.
2ª CADEIRA Francês. Francês.
3ª CADEIRA Corografia do Brasil. Geografia Geral.
4ª CADEIRA História do Brasil. História Universal.
5ª CADEIRA Aritmética. Álgebra e Geometria.
6ª CADEIRA Ciências Físicas e Naturais. Anatomia e Fisiologia Humana; Noções de Higiene. 7ª CADEIRA Instrução Moral e Cívica. Direito Público Constitucional.
AULA ESPECIAL Desenho Linear.
Fonte: Adaptado de São Paulo (1929b, art. 7º, a).
154 Art. 9º do Decreto nº 4.405-A, de 17 de abril de 1928. 155 Art. 2º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929. 156 Art. 6º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929. 157 Art. 3º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929.
O Curso Especial Militar, também com duração de dois anos158, ministrava o ensino militar aos candidatos ao oficialato, desde que aprovados no Curso de Instrução Geral, sendo que o curso passou a ser uma exigência para a promoção ao posto de segundo-tenente na classe de combatentes159. Seu currículo era o seguinte:
Quadro 45 – Currículo do Curso Especial Militar da FPESP, segundo o Regulamento de 1929.
CADEIRA 1º ANO 2º ANO
1ª CADEIRA Instrução militar de infantaria, inclusive equitação. 2ª CADEIRA Instrução militar de cavalaria, inclusive
equitação.
Instrução militar de cavalaria, inclusive equitação, hipologia e veterinária.
3ª CADEIRA Organização do terreno. Tática.
4ª CADEIRA Topografia.
5ª CADEIRA Legislação e administração da Força. 6ª CADEIRA Armamento e tiro.
7ª CADEIRA Instrução moral militar. Organização policial.
8ª CADEIRA Higiene militar.
Fonte: Adaptado de São Paulo (1929b, art. 7º, b).
Já o Curso de Aperfeiçoamento era destinado aos oficiais, até o posto de capitão, que tivessem sido aprovados no Curso Especial Militar, visando a preparar os alunos para as funções de instrutor e comandante de tropa. O curso era dividido em curso médio, voltado para o ensino dos conhecimentos considerados necessários às funções de tenente e capitão, e curso superior, que habilitava o aluno para as funções de major160, ambos com duração de nove meses161. Segundo o Regulamento de 1929 do Curso de Instrução Militar, seu currículo era o seguinte:
Quadro 46 – Currículo do Curso de Aperfeiçoamento da FPESP, segundo o Regulamento de 1929.
CADEIRA CURSO MÉDIO CURSO SUPERIOR
1ª CADEIRA
Instrução militar de infantaria, inclusive armas automáticas e equitação (Escola de Companhia).
Instrução militar de infantaria, inclusive armas automáticas e equitação (Escola de Companhia e Batalhão).
2ª CADEIRA
Instrução militar de cavalaria, inclusive armas automáticas e equitação (Escola de Esquadrão).
Instrução militar de cavalaria, inclusive armas automáticas e equitação (Escola de Esquadrão e Regimento).
3ª CADEIRA Instrução de bombeiros. Instrução de bombeiros.
4ª CADEIRA Aviação. Armamento.
5ª CADEIRA Tática; organização do terreno; topografia. Tática; organização do terreno; topografia.
158 Art. 6º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929. 159 Art. 4º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929. 160 Art. 4º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929. 161 Art. 6º do Decreto nº 4.570, de 7 de março de 1929.
CADEIRA CURSO MÉDIO CURSO SUPERIOR
6ª CADEIRA Tiro. Balística.
7ª CADEIRA Proteções. Serviço de Estado-Maior.
8ª CADEIRA Petrechos usados na infantaria. Material empregado em campanha.
9ª CADEIRA Serviço de polícia civil. Organização do EN.
10ª CADEIRA História militar do Brasil. História militar do Brasil.
AULA Serviço de administração.
Fonte: Adaptado de São Paulo (1929b, art. 7º, c).
Nestes currículos, ainda que a missão francesa tenha encerrado em 1924, percebe-se um conteúdo mais próximo dos regulamentos das Escolas Militares do Exército, em todos os níveis: o Curso de Instrução Geral equivalente ao curso preparatório; o Curso Especial Militar equivalente ao curso de infantaria o cavalaria; e o Curso de Aperfeiçoamento, nos dois níveis, equivalente ao curso de aperfeiçoamento da arma de infantaria e cavalaria. Assim, pode-se concluir que, no tocante ao processo de militarização da Força, sob o aspecto curricular, a corporação estava aproximando-se do nível de profissionalização dos oficiais do Exército, com uma diferença fundamental: entre os integrantes da FPESP, havia uma quantidade muito menor de rebeldes do que no Exército.