2. LİTERATÜR ÇALIŞMASI
2.3. Türk Eğitim Sistemimiz
Em 1919, foi eleito presidente da República o ex-chefe da delegação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes de 1919, o advogado Epitácio Pessoa118, que nomeou para ministro da Guerra o jurista Alfredo Pinto Vieira de Melo, sendo que esse último ficou somente entre julho e outubro de 1919 à frente do ministério (Lopes & Torres, 1950). Em outubro de 1919, assumiu o Ministério da Guerra o engenheiro, político e historiador Pandiá Calógeras, que nomeou como chefe do Estado-Maior do Exército o Coronel Eduardo Monteiro de Barros (Marcusso, 2010), ou seja, o chefe do Executivo nomeou para ministro da Guerra um civil, em detrimento dos generais da ativa. A esse respeito, MacCann (2007) observa a resistência que alguns oficiais tiveram com relação à nomeação de um civil para o cargo de ministro da Guerra, como se vê a seguir:
Durante o Império fora comum haver civis na pasta do Exército. Apesar disso, na memória coletiva do corpo de oficiais esse fato estava associado à falta de entusiasmo do imperador pelas Forças Armadas. Talvez o indicador mais claro da hostilidade dos militares à ideia seja o fato de Calógeras ter sido o primeiro e último civil a exercer esse cargo. Curiosamente, parece provável que ele tenha sido uma escolha conciliatória, calculada para evitar problemas piores com os oficiais. Os dois senadores mais mencionados para o Ministério da Guerra eram os mais anatemizados pelos militares. [...] Calógeras e seu colega da pasta da Marinha, Raul Soares, também ele civil, tinham a virtude política de ser mineiros, assegurando, assim, o apoio de Minas Gerais para o governo de Pessoa. (pp. 282-283).
Além das animosidades com os militares em razão da escolha do ministro da Guerra, o governo de Epitácio Pessoa foi marcado por manifestações grevistas ligadas ao incipiente movimento operário brasileiro, o qual, muito em razão dos baixos salários, da crise econômica e das péssimas condições de trabalho, organizou sindicatos e movimentos que culminaram em grandes greves, especialmente as greves de 1917, 1919 e 1922. Ressalte-se que o movimento dos trabalhadores do período foi influenciado por anarquistas como José Oiticica, Everardo
Dias e Edgard Leuenroth e que, em 1922, nasceu o Partido Comunista do Brasil (PCB), fundado por lideranças como os ex-anarquistas Astrojildo Pereira e Otávio Brandão119. Por sua vez, o governo de Epitácio Pessoa reagiu com o forte emprego de força repressiva, incluindo o uso de tropas das forças públicas dos estados e tropas do próprio Exército. Além disso, em janeiro de 1921, foi publicada a Lei de Repressão ao Anarquismo, que previa severas penas para os líderes do movimento trabalhista (Carneiro, 1989).
Nesse período, a situação econômica do país não era das melhores e a crise afetava diretamente os salários dos oficiais do Exército e da Marinha. MacCann (2007) analisa o quadro econômico e salarial dos oficiais no final da década de 1910 e início de 1920 e relata que
a taxa de câmbio flutuante e a inflação de preços tornavam o salário dos oficiais insuficiente para manter a família. Antes da Primeira Guerra Mundial, o mil-réis valia aproximadamente 33 centavos de dólar; durante a guerra, esteve em torno de 25 centavos, mas em 1923 cair a para 0,09 centavo, antes de aumentar lentamente para cerca de 15 centavos entre 1924 e 1926. As taxas de câmbio eram importantes porque o Brasil importava boa parte dos gêneros alimentícios e a maioria dos produtos industrializados consumidos pela classe média urbana. No início de julho de 1924, os preços dos produtos básicos atingiram níveis tão exorbitantes, e tantas pessoas encontravam-se em situação desesperadora, que o presidente suspendeu as tarifas aduaneiras por sessenta dias para os alimentos importados. (p. 312).
Mesmo com a crise econômica e os problemas da escolha do ministro da Guerra, o ensino e a instrução na EMR continuavam sob o controle da Missão Indígena, o que provocou mudanças que agradaram até mesmo o ministro da Guerra Pandiá Calógeras, como registra Motta (2001) ao analisar os relatórios ministeriais de 1920:
Compreende-se, assim, porque em 1920 o Ministro Pandiá Calógeras, no seu primeiro relatório, tenha escrito – ‘É notável o entusiasmo com que na Escola Militar se trabalha. Quadros e alunos porfiam por ascender aos graus mais apurados de instrução’. E no ano seguinte acrescenta: ‘Continua a Escola sob excelente comando, merecendo o carinho e o respeito de todos os brasileiros. Nada há que modificar nos programas com que o preparo técnico tem sido ministrado’. Nunca, desde 1811, a Escola causara tanta satisfação e tranquilidade a um ministro. (p. 264).
Tudo aparentemente corria bem até a campanha eleitoral para a sucessão de Epitácio Pessoa no cargo de presidente da República. O Governo Federal apoiava a candidatura do presidente de Minas Gerais, Arthur Bernardes, que concorria com o ex-presidente Nilo Peçanha, representante da coligação política Reação Republicana, formada pelos chamados estados de
segunda grandeza (Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia), que se uniram para romper a hegemonia de São Paulo e Minas Gerais120. Foi uma das campanhas eleitorais mais concorridas na história da República e a Reação Republicana buscou apoio de militares, como o ex-presidente e Marechal aposentado Hermes da Fonseca, que exercia a presidência do Clube Militar121.
Durante essa campanha, em 9 de outubro de 1921, o jornal Correio da Manhã publicou trechos de uma suposta carta do candidato Arthur Bernardes para o senador Raul Soares. Nessa publicação, Arthur Bernardes teria afrontado a dignidade dos oficiais do Exército, especialmente do Marechal Hermes da Fonseca, como se vê no trecho a seguir da matéria, publicada no jornal com a manchete “Ultraje ao Exército”:
[...] Mais do que isso: esta carta, enviada por elle [Arthur Bernardes] ao sr. Raul é uma indignidade e uma affrotta atirada ao Exército, representado nos seus officeas, até os mais graduados, chamados de venaes e capazes de serem ‘comprados’. Gira ella em torno do banquete que a officialidade desta guarnição offereceu ao marechal Hermes no Palace Hotel. Pôde-se não enxergar no marechal Hermes o homem talhado para exercer a presidência da República num momento como o que atravessamos, quando as necessidades do paiz exigem o pulso de um estadista experimentado e bem versado na administração. Mas dahi a affirmar que o marechal Hermes é ‘um sargentão sem compostura’ vae uma grande differença. Pois foi o que delle disse o sr. Arthur Bernardes, na carta que dirigiu ao seu comparsa de aventura política, levando o seu desaforo ate ao ponto de affirmar que o banquete, offerecido pelo marechal aos officiaes, taxados de apaniguados como ser ‘ridículo e acintoso’, foi tambem uma ‘orgia’[...]. (Correio da Manhã, 1921, p. 2).
Arthur Bernardes defendeu-se, alegando que as cartas eram falsas122; contudo, a animosidade entre o Exército e o candidato à Presidência da República aumentou, inclusive com uma maior participação do Clube Militar, presidido pelo Marechal aposentado Hermes da Fonseca.
Apesar dos atritos, Arthur Bernardes foi eleito presidente da República nas eleições de março de 1922 e assumiu o governo em novembro do mesmo ano. Antes da sua posse, em maio de 1922, ocorreram diversas rebeliões nos estados do Maranhão, Amazonas e Ceará, conforme notícia publicada em 23 de maio de 1922 no jornal Correio da Manhã, intitulada “Convulsão política em vários estados da União”, como segue:
120 Verbete ‘Reação Republicana’ (CPDOC, 2012). 121 Verbete ‘Clube Militar’ (CPDOC, 2012). 122 Verbete ‘Arthur Bernardes’ (CPDOC, 2012).
Desde sábbado que a cidade, anda agitada e temerosa. A tarde daquelle dia foi de intensa expectativa, e domingo a cidade acordou sabendo da prisão dos sargentos e dos officiaes que estavam conspirando por ordem do general Fontoura na residencia, de um capitão do Exercito, de sua confiança. Essa conspiração, a favor do sr. Epitacio, segundo affimou o chefe da 1ª região, augmentou duvidas ás desconfianças de que o povo se acha possuído nestes últimos dias. Dahi os boatos que hontem desde o amanhecer, encheram a cidade.
Dizia-se que no Ceará alguns factos anormaes na vida pacata do burgo serpista tiravam a tranquillidade preguiçosa do governo.
No Maranhão foram presos, alguns officiaes do Exercito, graças ao que o governador do Estado não dormira em palacio.
O Pará estava debaixo de fogo, tendo a flotilha de guerra ali estacionada sido fortemente tiroteiada pela policia. O governador Souza Castro e sua família tinham fugido do palácio e estavam sob a guarda da policia. (Correio da Manhã, 1922a, p. 1).
A mesma edição do jornal Correio da Manhã trouxe, na página 2, uma notícia intitulada “A crise”, que versava sobre um aviso circular reservado emitido pelo ministro da Guerra e endereçado aos comandantes de unidades do Exército. O aviso relatava a suspeita de que movimentos rebeldes estavam sendo planejados e que havia o risco de eclosão de movimentos sediciosos no Brasil, como segue:
A 27 do mês passado, o sr. Calogeras dirigiu ao commandantes de corpos e unidades independentes do Exército a seguinte circular reservada:
‘O governo da república está informado de que uma propaganda antipatriota visa, no momento atual, solapar as insituições, procurando fomentar em diversos pontos do pais alterações de ordem publica e crear movimentos sedicioços. Recommendo-vos por isso, fazer sentir aos vossos subordinados quanto se impõe, mais do que nunca, prestigiar as autoridades legalmente constituídas, cercando-as das garantias necessarias, se ameaçadas por uma tentativa de rebelião.
Cumpre que os commandantes de grandes e pequenas unidades, tendo presente a alta missão do Exército, esteio da ordem constitucional, procurem assegurar a conservação do regimen da lei, impedindo por todos os recursos ao seu alcance que se verifiquem a anarchia e o desrespeito à autoridade. Nesse sentido, o governo tem por muito recommendado que seja immediatamente attendida qualquer solicitação dos governos estaduaes, em vista do prompto restabelecimento da ordem porventura alterada. (Correio da Manhã, 1922b, p. 2).
Como é possível verificar, o clima insurrecional já era do conhecimento do Governo Federal, sendo que a situação agravou-se em 27 de maio de 1922, em função das eleições para governador no estado de Pernambuco. A mando do Governo Federal foram deslocadas diversas guarnições militares para a região, sob o pretexto de garantir a ordem pública para as eleições;
por sua vez, utilizando o jornal Correio da Manhã123, a oposição acusou o presidente Epitácio Pessoa de estar aproveitando as tropas do Exército para fraudar as eleições.
No dia 1º de julho, o Marechal Hermes da Fonseca enviou um telegrama para o comandante da 2ª Região Militar (então sediada em Recife), concitando-o a não cumprir a ordem de interferir na política pernambucana. Esse telegrama chegou ao conhecimento do presidente Epitácio Pessoa e do ministro da Guerra, Pándia Calógeras, que repreendeu o Marechal Hermes da Fonseca, como segue:
MINISTÉRIO DA GUERRA - DEPARTAMENTO DO PESSOAL DA GUERRA - Rio de Janeiro, 1º de julho de 1992 - o ministro enviou a este Departamento o seguinte aviso de hoje datado:
Considerando que o militar, pelo facto de estar associado não se exonera dos deveres de subordinação e de disciplina previstos na legislação que rege as forças armadas;
Considerando que o sr. marechal Hermes Rodrigues da Fonseca dirigiu à guarnição do Recife um telegrama sobre assumpto de serviço attinente ao cumprimento de ordens do governo se que para isto tivesse competencia legal, nem como marechal sem commissão que a tanto o autorizasse, nem como presidente do Clube Militar;
Considerando que nesse telegrama, citando o art. 14º da Constituição Federal, insinua que o governo da República, contra a solennes e inequívocas declarações de s. ex. o sr. presidente, está intervindo no Estado de Pernambuco e tem expedido ordens illegais;
Considerando, ainda, que no mesmo documento, põe em duvida a palavra de seu superior hierarchico, o chefe constitucional das forças de terra e mar; Resolvo no exercício dos poderes contidos no art. 452, letra a, do RISG e de accordo com o artigo 420, letra b, do mesmo regulamento, reprehender severament o sr. marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. (Assignado) - João Pandiá Calogeras. (Correio da Manhã, 1922k, p. 1).124
O Marechal Hermes da Fonseca encaminhou uma carta ao presidente da República questionando sua punição, o que ensejou, por parte do Governo Federal, a decretação da prisão do marechal e o fechamento do Clube Militar, em 2 de julho de 1922125. Com a prisão do Marechal Hermes da Fonseca, diversos comandos militares prepararam uma rebelião, com o intuito de depor o presidente Epitácio Pessoa, a qual eclodiu em 5 de julho de 1922 e teve como principais focos: a 1ª Circunscrição Militar no Mato Grosso, comandada pelo General Clodoaldo da Fonseca, primo do Marechal Hermes da Fonseca; o Forte de Copacabana,
123 Conforme notícias vinculadas nas edições do jornal Correio da Manhã de 27 de maio de 1922 (p. 2), 28 de maio
de 1922 (p. 2), 29 de maio de 1922 (p. 2), 30 de maio de 1922 (pp. 1-2), 31 de maio de 1922 (p. 1), 1º de junho de 1922 (pp. 1-2), 2 de junho de 1922 (p. 1), 3 de junho de 1992 (p. 1), entre outras edições.
124 Punição do Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, publicada no Boletim do Departamento de Pessoal do EN
Brasileiro e veiculada no jornal Correio da Manhã.
125 Conforme notícia veiculada na primeira página da edição de 2 de julho de 1922 do jornal Correio da Manhã,
comandado pelo Capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do Marechal Hermes da Fonseca; e a Escola Militar, comandada pelo General Eduardo Monteiro de Barros126, ex-chefe do Estado- Maior do Exército.
Rodrigues (2009) cita a forte reação do governo no tocante à revolta, resultando no desligamento imediato dos envolvidos:
[...] a bem da disciplina, 256 (duzentos e cinquenta e seis) alunos envolvidos e que continuaram preso; 333 (trezentos e trinta e três) alunos que foram distribuídos pelas unidades das diversas regiões militares para serem desligados do serviço ativo do Exército; e 58 (cinquenta e oito) restantes mencionados que foram postos em liberdade. (p. 9).
Não foram afastados e punidos somente alunos, o comandante da escola, General Eduardo Monteiro de Barros (Peres et al., 2011), e todos os instrutores e professores que tiveram alguma ligação com a Missão Indígena foram desligados. Entre os pronunciados no processo de crime resultante da rebelião, foram citados os seguintes instrutores da Escola Militar:
Quadro 37 – Relação nominal dos oficiais pronunciados pelos acontecimentos de 5 de julho de 1922,
realizada e monitorada pelo Departamento do Pessoal da Guerra, de acordo com a situação de cada militar.
POSTO NOME SITUAÇÃO
Primeiro-Tenente Odílio Denys Em liberdade em Pádua
Primeiro-Tenente Arlindo Maurity da Cunha Menezes Desertado
Primeiro-Tenente Braziliano Americano Freire Desertado
Primeiro-Tenente Illydio Rômulo Colônia Em liberdade no Rio de Janeiro
Primeiro-Tenente Juarez do Nascimento Fernandes Távora Desertado
Primeiro-Tenente Cyro do Espírito Santo Cardoso Em liberdade em São João Del Rei
Primeiro-Tenente Aristóteles de Souza Dantas Em liberdade no Rio de Janeiro
Primeiro-Tenente Edmundo Macedo Soares e Silva Desertado
Fonte: Adaptado de Rodrigues (2009).
Na sequência, sob a administração do ministro da Guerra, General Setembrino de Carvalho, a missão militar francesa assumiu a instrução na EMR e promoveu a reforma no currículo, culminando com a reforma de 1924 (Rodrigues, 2009). Contudo, foi no Forte de Copacabana que a natureza romântica do movimento foi exposta, nas palavras de Santos (2004, p. 65):
Mas a natureza romântica da Revolução de 22 é exposta no Forte de Copacabana, onde, convocados a render-se, os militares retalharam a bandeira do Forte e acompanhados por um civil gaúcho, cada um com um pedaço da Bandeira Nacional junto ao coração, marcharam de peito aberto para enfrentar as forças legalistas [...].
Para entender as causas mais profundas do início do movimento tenentista, é preciso uma avaliação sobre a cultura e o ethos dos oficiais do Exército no início da década de 1920. Nesse sentido, o quadro dos oficiais era composto por mais de 85% de oficiais subalternos e intermediários (tenentes e capitães), não sendo raro, por questões de fluxo de carreira, encontrar um capitão recém-promovido na casa dos quarenta anos que havia estudado na Escola Militar da Praia Vermelha ou um segundo-tenente recém-promovido que havia recebido os ensinamentos dos instrutores da Missão Indígena. Para MacCann (2007), esse quadro enfraquecia o espírito de corpo entre os tenentes e a disciplina, como se depreende do trecho a seguir:
Os mais velhos haviam estudado na academia de Praia Vermelha, ao passo que os que haviam ingressado depois de ter sido fechada, em 1904, provinham ou de duas instituições efêmeras no Rio Grande do Sul (1905-11), a Escola de Guerra em Porto Alegre e a Escola de Aplicação de Infantaria e Cavalaria em Rio Pardo, ou da nova Escola Militar do Realengo (1911). As mudanças filosóficas e práticas ocorridas na educação dos oficiais durante os primeiros vinte anos do século refletiam-se naqueles homens. A ausência de uma bagagem educacional comum necessariamente dificultava a formação do espírito de corpo e do nível de união necessários à coesão institucional. De fato, a meu ver esse foi um fator que contribuiu para a disposição de desrespeitar a hierarquia e rebelar-se. (pp. 276-277).
Em que pese essa aparente falta de espírito de corpo narrada por MacCann (2007), outros pesquisadores concluem que existiam elementos mínimos que identificavam os oficiais do Exército como um grupo: o ethos de oficial do Exército, a condição de classe média e a romântica defesa da honra, a qual, segundo Santos (2004), estava relacionada com a “[...] aura romântica que pairava sobre o Exército, dos duelos, da ideia de morrer pela Pátria.” (p. 59).
De fato, essa aura romântica derivou da formação de um ethos ligado à cultura burguesa que se instalou na sociedade ocidental a partir da segunda metade do século XVIII. No campo literário, sua grande expressão foi o romantismo, caracterizado pelo predomínio da sensibilidade e da imaginação sobre a razão, pelo lirismo e pelo individualismo, sendo que, a partir da Revolução Francesa,
[...] o ideal Romântico espalhou-se no mundo ocidental, levando o caráter de agitação e transgressão próprios dos revolucionários franceses que metia medo na aristocracia francesa. Para Gramsci, o jacobinismo é o correspondente político do idealismo, e poderíamos dizer que o idealismo é o correspondente filosófico do romantismo, os três movimentos têm como característica comum o fato de serem inspirados pela ascensão da burguesia. (Santos, 2004, p. 59).
Subjetivando-se dentro dessa cultura romântica, o sacrifício pela pátria e por belos ideais levou o agente à categoria de mártir e de herói, elemento que, de acordo com Santos (2004), esteve presente no Primeiro e no Segundo Tenentismo, tendo sido sua maior expressão os dezoito mártires, ou heróis, do Forte de Copacabana, como se depreende do trecho a seguir:
Esse gesto é, segundo a nossa interpretação, a chave para entender o episódio, e o modo como o Exército incorporou-o à sua tradição, apresentando-o não como uma sedição contra o governo mas como ‘o supremo sacrifício de um punhado de jovens, pelo mais puro ideal de regeneração da Pátria’, nas palavras do site oficial do Exército brasileiro. Ou ‘um dos episódios de maior heroísmo da história brasileira’, segundo o folheto turístico do Forte Copacabana. Este episódio é paradigmático da visão romântica de ‘morrer pela pátria’. (Santos, 2004, p. 65).
Quanto às Escolas Militares, elas possuíam um ethos, uma cultura e um corpo de tradições que eram comuns à Escola Militar da Praia Vermelha, às efêmeras escolas da segunda metade da década de 1910 e à EMR. Nesse contexto, Santos (2004) considera que “a ideologia das escolas militares e sua romântica defesa da honra” (p. 22) contribuíram para a formação do movimento tenentista.
Carone (1972) também analisa o Tenentismo e conclui que
[...] o movimento tenentista, surgindo de divergências dentro do próprio grupo, e revelando preocupações sociais e políticas, mostra, por suas manifestações esporádicas, o pensamento romântico e pequeno-burguês da identificação entre indivíduo e situação histórica: para os revolucionários, as arbitrariedades de Epitácio Pessoa é que explicam a revolução de 1922 e, o apoio que militares dão ao seu governo, uma afronta à ‘honra da nossa classe’; para eles, os mortos da revolução têm a felicidade de entrar” na Eternidade, porque na terra tinham sofrido pela justiça; e o sangue derramado dos companheiros ‘mostrará, ainda, ao Exército transviado, que é o de hoje, o caminho da honra e do civismo’. (pp. 363-364).
Essa visão de defesa romântica da honra impregnou a Escola Militar de tal forma que somente uma reestruturação também romântica conseguiu apagar os efeitos dessa cultura. Com isso, os “tenentes” continuaram seus atos de rebeldia, mas a escola permaneceu afastada dos conflitos. No entanto, mesmo com esse afastamento, o fantasma do Tenentismo rondou a Escola
Militar, pois os próprios “tenentes” buscaram aliados no berço da oficialidade do Exército: a EMR.