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4. BULGULAR

4.1. Demografik Verilerin Frekans Tabloları

Em 5 de julho de 1924, exatamente no aniversário de dois anos do levante de 1922, eclodiu a revolução em São Paulo, movimento que foi acompanhado de levantes no Mato Grosso (12 de julho de 1924), Sergipe (13 de julho de 1924), Amazonas (23 de julho de 1924) e Pará (26 de julho de 1924) e da revolução no Rio Grande do Sul (29 de outubro de 1924). O plano em São Paulo era ocupar os quartéis da Força Pública, sublevando essas unidades, para depois ocupar militarmente a cidade, prendendo o presidente do estado, Carlos de Campos (CPDOC, 1997).

No período entre 5 e 28 de julho, a cidade ficou ocupada pelos revolucionários, mas as forças legalistas conseguiram resistir. Diante da impossibilidade de vitória e da iminente chegada de reforços de outras regiões, os revoltosos abandonaram a cidade com destino ao interior do estado, formando a chamada divisão paulista, comandada por Isidoro Dias Lopes e composta por cerca de três mil revolucionários do Exército, da Força Pública e voluntários civis (Prestes, 2009).

Já em 29 de outubro de 1924, ocorreu um levante no Rio Grande do Sul, liderado pelo Capitão do Exército Luís Carlos Prestes. Os revolucionários do Sul seguiram para o Noroeste do estado do Paraná, onde se encontraram com os revolucionários paulistas, no dia 11 de abril de 1925, na cidade de Benjamin Constant. Da fusão das tropas revolucionárias paulistas e gaúchas, nasceu a Coluna Prestes (Prestes, 2009).

Devido à sua idade avançada, o General Isidoro Dias Lopes exilou-se na Argentina e a Coluna passou ao comando do Major Miguel Costa, que recebeu o título de general revolucionário; por sua vez, assumiu a chefia do Estado-Maior da Coluna o Capitão Luís Carlos Prestes, promovido ao posto de coronel revolucionário. Como Prestes era quem fazia os comícios que tentavam sublevar o povo dos locais pelos quais a Coluna passava, ela acabou entrando para a história oficial como Coluna Prestes, tendo sido o movimento revolucionário que mais durou entre todos do movimento tenentista.

A Coluna percorreu cerca vinte e cinco mil quilômetros, por treze estados do país, no período entre 11 de abril de 1925 e 3 de fevereiro de 1927 (Prestes, 2009). A estratégia utilizada era,

em vez de uma guerra de movimento, uma ‘manifestação de protesto armada’ e itinerante que serviria como um constante chamado à ação contra o abominado Bernardes. A ideia não era derrotar as forças mandadas contra eles, e muito menos o velho objetivo de tomar o poder no Rio de janeiro; o

propósito, agora, era continuar vivos, manter a coluna em movimento e parecer invencíveis. (MacCann, 2007, p. 353).

Em 1927, os integrantes finais da Coluna Prestes refugiaram-se na Bolívia, permanecendo exilados no exterior até uma nova oportunidade de derrubada das oligarquias, que ocorreu somente em 1930, com um acordo entre os “tenentes” e os políticos da Aliança Liberal. Essa aliança culminou com a chamada Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder, mas gerou uma cisão no movimento tenentista, visto que Vargas utilizou seus ministros militares e a cooptação política para controlar os “tenentes”. Além disso, buscando evitar que surgissem novos militares rebeldes que pudessem ameaçar sua posição, Vargas interveio diretamente no berço dos oficiais rebeldes: a Escola Militar.

4.3.1 A participação popular na Revolução de Isidoro

Sobre o apoio popular que Isidoro Dias Lopes tinha conseguido por meio de acordos com líderes do movimento operário e do Partido Comunista, Dules (1977, p. 197) observa que

os conspiradores militares, mais inspirados pelo ex-capitão do Exército Joaquim Távora do que pelo cauteloso ‘chefe revolucionário’ Isidoro Dias Lopes, rebelaram-se na cidade de São Paulo, a 5 de julho de 1924 [...] No dia 8 [...] os revoltosos forçaram o governador Carlos de Campos e as tropas legalistas a fugirem da capital.

Ao mesmo tempo, o povo passava a saquear diversos armazéns localizados no Brás e na Mooca [...] A Plebe, com pesar, observou que ‘houve muita gente que aproveitou a ocasião sem estar necessitada, como também muito desperdício e estrago de víveres’. Também não deixou de registrar, contudo, que os saques eram uma evidente comprovação da fome que grassava nos lares da grande maioria dos participantes da pilhagem. Isidoro, em entendimentos com José Carlos Macedo Soares, presidente da Associação Comercial de São Paulo, tomou providências para proteger os armazéns e depósitos de víveres.

Depois, forneceu armas e incorporou em suas forças um bom número de operários estrangeiros, especialmente os mais experimentados no teatro europeu da Primeira Guerra Mundial. Mas os líderes trabalhistas mais radicais ficaram decepcionados com o ‘general revolucionário’. Queriam armas para a formação de ‘batalhões verdadeiramente populares’, a fim de cortar as comunicações , agitar e levantar a população do interior e organizar guerrilhas contra as forças governamentais. Isidoro, acatando as advertências de Macedo Soares quanto a infiltração bolchevista, rejeitou peremptoriamente as ideias de João da Costa Pimenta e se tornou inacessível aos outros militantes ‘radicais’.

Dules (1977) chega a essas conclusões após acessar fontes como os arquivos do jornal A Plebe, especialmente o artigo “Movimento revolucionário”, publicado na edição 244, de 25 de julho de 1924, e as memórias de Everardo Dias, na obra História das lutas sociais no Brasil146.

Pereira (2010) também estuda a Revolução de 1924 e, quanto aos saques aos mercados e armazéns, narra que,

a princípio, os oficiais rebeldes tentaram coibir as invasões, constando que o duro tenente Cabanas chegou a fuzilar sumariamente alguns soldados que saquearam lojas e casas abandonadas no centro. Mas logo assumiram uma atitude tolerante ao tomar consciência de que a população, confinada há vários dias, enfrentava graves problemas de abastecimento, acentuados pela ganância de comerciantes que vendiam os produtos escassos no mercado negro a preços altíssimos. O próprio tenente Cabanas relata como – depois de convencer vários negociantes a abrir seus estabelecimentos – esbarrou na intolerância do administrador do Mercado Municipal: ‘Este funcionário, indiferente às desgraças do povo, não quis atender-me. O momento não comportava dilações; os populares ansiosos esperavam uma resolução. Resolvi tomá-la ordenando que se arrombassem as portas e os gêneros fossem distribuídos gratuitamente pelas famílias pobres. Como o abastecimento era livre, alguns abusos foram praticados’.

Uma vez iniciado o movimento, foram necessários vários dias e muitos esforços para conter as agitadas invasões, que naquelas horas finais da quarta- feira trouxeram grande inquietação aos negociantes e industriais da cidade e muita alegria aos lares pobres. (p. 61).

Pereira (2010) constrói sua obra a partir de consulta à farta documentação sobre a revolta de 1924, como a obra de João Cabanas, A Columna da Morte: sob o commando do Tenente Cabanas (1928); relatórios da Câmara Municipal de São Paulo; jornais de São Paulo, como Diário Popular, O Estado de S. Paulo, O Grito e A Marreta; jornais do Rio de Janeiro, como Correio da Manhã, Jornal do Comércio e O Paiz; entre outras fontes.

Os resultados dessas pesquisas mostram que o General Isidoro Dias Lopes, apesar de escolhido para liderar a revolução e de ter procurado líderes sindicais e membros do Partido Comunista para apoiar a sublevação, teve suas restrições sobre ampliar as reivindicações do movimento e incluir na pauta as exigências dos movimentos operários. Além disso, mesmo os revolucionários que mais se aproximaram da população fizeram-no mais para amenizar o sofrimento causado pela própria rebelião do que por seguirem uma ideologia de esquerda, como narra o próprio Tenente Cabanas (1928).

4.3.2 Os candidatos a heróis da FPESP: o Major Miguel Costa e o Tenente Cabanas

Entre os revolucionários que participaram da sublevação em São Paulo, merece atenção especial a participação do Major Miguel Costa no levante. Ele conseguiu cooptar para a sublevação centenas de integrantes da Força Pública, incluindo quatro capitães e cerca de vinte tenentes, entre eles, o Tenente João Cabanas, que se destacou por suas ações de ocupação da Estação Ferroviária da Luz e saque dos armazéns gerais, quando foi distribuída alimentação para a população (Prestes, 2009).

Tanto Miguel Costa quanto Cabanas passaram a ser vistos sob duas óticas: a oficial e a romântica. A visão oficial classificava-os como criminosos e traidores; já a visão romântica, difundida por meio de manifestos e da obra A Columna da Morte, sob o commando do Tenente Cabanas, construiu uma imagem de que eles eram uma espécie de heróis da Força Pública, tinham conseguido ludibriar as forças legalistas e participavam ativamente da Coluna Prestes, inclusive com o Tenente Cabanas comandando a Coluna da Morte, destacamento da retaguarda da Coluna Prestes que foi amplamente difundido pelo jornais da época (Prestes, 2009; Pereira, 2010).

Além disso, as biografias e autobiografias desses dois “heróis” da FPESP trazem alguns pontos em comum, como um forte sentimento de patriotismo, perceptível em atos como a insistência de Miguel Costa em fazer constar de sua “fé de ofício” sua naturalização como brasileiro147. Por sua vez, na obra de Cabanas (1928), encontram-se os seguintes registros referentes à exaltação patriótica tanto de Cabanas quanto de Miguel Costa:

Seriam 6 horas da manhã quando transpuz o portão principal do quartel e notei logo, surprehendido, um desusado movimento no pateo interno, apresentando o aspecto de uma tropa que está em preparativos de guerra.

Desconfiando e sob a influencia dessa surpreza, deparei com o major Miguel Costa, fiscal do regimento, que, pondo-me o revolver ao peito, perguntou nervoso:

– Você é brasileiro? – Sou.

– Então tem que adherir á revolução.

Sem titubear, de accordo com minhas idéas, inspirado na confiança absoluta que sempre nutri pelo major e prescindindo de explicações que o momento não comportava, respondi afirmativamente. E, concentrando-me um pouco

147 Segundo os registros na “fé de ofício” do General Miguel Costa, arquivada no Departamento de Serviços

Administrativos do Quartel General da PMESP, Miguel Costa nasceu na Argentina, em 3/12/1885, migrou para o Brasil com seus pais, em 7/9/1892, com sete anos de idade incompletos. Alistou-se no Regimento de Cavalaria da FPESP em 1901 e, em 17 de janeiro de 1922, foi deferido seu requerimento feito ao secretário da Justiça e da Segurança Pública para que fizesse constar em sua “fé de ofício” a seguinte alteração: ser argentino, naturalizado brasileiro.

ante o grave passo que ia dar na vida, senti no meu intimo a revelação de uma força nova, capaz de todas as audacias, de todo sacrifício em prol de minha pátria querida que, segundo meu modo de ver, necessitava de um movimento armado para ser nella implantado o verdadeiro systema republicano tão essencial ao desenvolvimento e grandeza moral do paiz. Assim, sem ter entrado em conspiração e sem ter sido previamente consultado, disposto, porém, a sacrificar-me por um ideal que entendia e entendo nobre, entrei resolutamente na revolução. (pp. 7-8).

Esse patriotismo presente no citado diálogo também é reproduzido no trecho a seguir da mesma obra, porém existe, ainda, um conteúdo xenófobo por parte de Cabanas, ao referir-se ao Major Júlio Cesar Alfieri, que havia nascido na Itália, como segue:

Ao levantar-me avistei na esquina o major Alfieri acompanhado de um grupo de italianos de má catadura. Em attitude humilde e bastante temerosa, dirigiram-se a mim dizendo que estavam allí em missão policial, porem puramente pacifica. O governo o tinha encarregado, a elle Alfieri, de vigiar o palacete e a casa do genro do presidente do Estado, até que algum official revolucionário se approximasse. Alfieri procurou-me fazer algumas insinuações pouco dignas e incompatíveis de serem expostas por um estrangeiro como era elle. Indignado perguntei-lhe:

– O sr. é brasileiro?

– Você, Cabanas, bem sabe que sou italiano mas... Não quiz mais ouvil-o e disse-lhe:

– Pois si você confessa não ser brasileiro, julgo que não tem direito de se immiscuir em nossas questões internas o que constitue um acto irritante e intolerável. Por isso vae ser fuzilado.

Dispuz-me, em beneficio da revolução, a fazer, de facto, passar pelas armas o italiano Alfieri, mas depois da revistal-o, encontrando em seu poder um mappa com a indicação do rumo a seguir pelas forças governistas, na retirada, resolvi mandal-o ao commandante Miguel Costa, o que fiz com o seguinte bilhete escripto a lápis, maís ou menos nestes termos:

‘Sr. major Miguel Costa – Com este faço-lhe apresentar o italiano Alfieri. por mim feito prisioneiro nos Campos Elyseos. Foi elle, como sabe, a alma da defesa do palacete e bem interrogado poderá revelar alguma cousa de utilidade á revolução, Permitta-me pedir-lhe que o trate como merece. Se não fora o desejo que tenho de conseguir alguma declaração importante, já o teria fuzilado. Junto a este um mappa que apprehendi em poder do mesmo Alfieri – Liberdade e fraternidade. – Cabanas.’ (Cabanas, 1928, p. 36).

Ressalte-se que, na análise dessa fonte, deve-se ater ao contexto em que ela foi produzida, ou seja, na década de 1920, período em que havia forte propaganda governista acusando os revolucionários de diversos delitos148. Por isso, Cabanas (1928) constrói um texto no qual procura constantemente “justificar seus atos”, utilizando-se de expressões que visavam

148 Um exemplo da campanha de difamação promovida pela imprensa contra os revolucionários foi o artigo

publicado pelo jornal Correio Paulistano, em 3 de setembro 1924, página 4, que tratou o Tenente Cabanas como o “famigerado tenente Cabanas”. Outro exemplo foi o artigo do jornal Correio Paulistano, em 3 de julho de 1924, que acusou o Major Miguel Costa de desviar recursos da revolução para a casa da irmã dele.

a fortalecer o sentimento de testemunho da verdade em seu texto, como “as páginas que vão ser lidas provam” e “Narro, com fidelidade, os factos que se desenrolaram sob as minhas vistas” (Cabanas, 1928, prólogo). Mesmo assim, em 1928, sua obra já estava em sua sexta edição, o que comprova certa difusão do mito de Cabanas e, por consequência, por meio das citações da obra, de outros heróis revolucionários, como o Major Miguel Costa. Portanto, pode-se concluir que estava sendo construída a imagem dos heróis revolucionários paulistas oriundos da FPESP, o que pode ter contribuído para a difusão da ideologia do soldado-cidadão a outros integrantes da corporação.

Benzer Belgeler