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TARTIŞMA

Belgede KABUL VE ONAY SAYFASI (sayfa 64-70)

Tratado brevemente no Capítulo I volta-se ao contexto político e cultural, que possibilitou a criação do espetáculo ―Anjos d’Água‖. Para isso é necessário um pouco mais de aprofundamento na análise das circunstâncias que favoreceram a criação do espetáculo. Nesse momento é preciso deixar mais expostos os aspectos políticos e ideológicos que contribuíram para o processo.

Como vimos anteriormente, no período de 2005 a 2009 foi realizado pelo Núcleo de Eventos da Secretaria Municipal de Cultural o projeto ―Auto de Natal‖, que tinha como objetivo criar um espetáculo cênico alusivo à data natalina. Eram selecionados, a critério da própria Secretaria Municipal de Cultura (SMC), os grupos que comporiam o espetáculo, que era concebido por funcionários da referida secretaria. Saliento a título de compreensão do leitor que naquele momento eu ainda não atuava na função pública como diretor de danças da SMC. A atriz e diretora teatral Natércia (Teta) Campos, também a convite da SMC realizou a direção artística do espetáculo nesses quatros anos. A meu ver, os resultados das montagens revelavam um modelo estético convencional e uma metodologia tradicionalista no processo de criação, utilizando elementos recorrentes à simbologia natalina cerceados pela esfera do entretenimento. Assim, elementos como anjos, demônios, reis magos, Maria e José, o nascimento do Salvador eram recorrentes e não se distanciavam de uma abordagem religiosa cristã que operava como aporte narrativo, poético e também político dos trabalhos.

Em 2010 o projeto ganha outro formato, pressionado pelos grupos artísticos da cidade que não foram convidados nas edições anteriores e que desejavam participar do evento, tendo em vista o recebimento dos cachês bem como a oportunidade de participar de espetáculo no formato técnico de um ―auto‖. Havia nessas produções um considerável investimento na parte estrutural, com tratamento profissional de iluminação, palcos e sonorização que de certa

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forma inflamava o desejo dos grupos em estar nesse lugar, considerando que em Uberlândia o Auto de Natal passou a ser sinônimo de um espetáculo de qualidade, com destinação de um montante de recursos relevante.

Também pelo desgaste do modelo do espetáculo, que embora buscasse a cada ano novos olhares sobre o tema, acabava se repetindo enquanto estrutura, em função da visão da direção e da equipe de trabalho reincidentes durante todo o período. Nesses moldes, participei como coreógrafo da Cia Bailar de Dança na primeira e na segunda edição do projeto, juntamente com outras companhias em ascensão no cenário da dança brasileira como a Cia Balé de Rua, de Fernando Narduchi e o Vórtice Cia de Dança de Guiomar Bom-ventura. Nesse lugar de artista-coreógrafo, participar do Auto de Natal foi importante na medida em que me possibilitou perceber de dentro os modelos e metodologias que vinham apresentando desgastes, tanto no pensamento artístico quanto na definição do formato, apropriação do enredo e tratamento na convocação dos artistas para o espetáculo.

A partir de minha entrada 2007 no quadro de funcionário da SMC, respondendo pela Coordenação do Setor de Danças, passei a colaborar internamente com o projeto nos aspetos da produção e execução do espetáculo. Na Diretoria de Cultura, instância maior que abrigava as outras coordenações como teatro, música, literatura, artes visuais e cinema, uma nova forma de gerir os projetos se instaurava, a perspectiva de sugestionar o espaço da cidade como uma possibilidade de repensar o alcance e a legitimidade das ações públicas.

Em consonância com essa tendência, a equipe envolvida na realização começou a perceber a necessidade de reformulação do modelo do projeto que já apresentava sinais de decadência com a ausência de público, a repetição dos mesmos grupos convidados e, como apontado acima, questões também que envolviam a concepção do projeto artístico do espetáculo, que não apresentava de um ano para outras mudanças significativas.

Em 2010 então é lançando um edital público para a realização do projeto12. O formato

não seria mais de um ―auto‖. Ao invés de um único espetáculo a idéia foi selecionar sete grupos artísticos que apresentassem propostas com temáticas referentes ao natal para serem apresentadas separadamente em espaços alternativos da cidade, inclusive no espaço público. Os critérios de seleção dos grupos, bem como o direcionamento para o conteúdo do

12Nos anexos consta o edital do projeto que expõe o desejo de ocupar os espaços públicos da cidade e a maneira de democratizar a participação dos grupos artísticos no projeto. EDITAL Nº 019/2010 - PROJETO AUTO DE NATAL - EDIÇÃO 2010.

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―Natal na Cidade Perdida‖ - Grupo Opus 6 – Performance 10/12/2010 – Uberlandia/MG – Foto: Leo Crosara

espetáculo, demonstraram o desejo da SMC naquele momento de criar uma ação na cidade que pudesse preservar de certo modo os aspectos tradicionais do natal, retomando seus elementos religiosos e signos recorrentes. Ao mesmo tempo em que não abriu mão do enredo natalino, esse edital buscava incentivar a produção de trabalhos que pudessem renovar processos de criação, sugerindo a originalidade de propostas e olhares sobre o tema. Respeitados em seus processos de criação e livres para dedicar a uma pesquisa técnica e artística em torno do tema, o que se observou naquele ano foram trabalhos de naturezas variadas que apresentavam um panorama amplo de resultados, abarcando desde trabalhos ligados à tradição natalina de escolas confessionais, como foi o caso do Coral da Universidade Católica, que propunha o regaste das músicas natalinas das regiões brasileiras, até trabalhos de natureza cênico-performática, caso do espetáculo ―Anjos d’Água‖.

Outros trabalhos de grupos selecionados para essa 5ª edição do projeto também fizeram releituras mais ambiciosas e criativas sobre o tema. Entretanto, o previsto no edital quanto à abordagem natalina na prática foi resignificado, e até mesmo sucumbido no resultado final dos trabalhos. Houve de fato um tratamento dos temas natalinos bastante atípico e subjetivo. Além do ―Anjos d’Água‖ outra exceção foi o espetáculo ―Natal na

Cidade Perdida‖ do Grupo Opus 6 com direção de Johnny Charles Alves. Esse trabalho apresentou ao publico de Uberlândia salutares inovações técnicas por meio de uma dança realizada entre estruturas de metálicas e equipamentos de alpinismo, tecido acrobático aéreo, aliados a técnicas de circo teatro. Sem compromisso com elementos clássicos como narrativa, construção cênica, figurinos e outros, que pudessem indicar ligação imediata com o tema do natal, pelo menos nas suas referências tradicionais, esse trabalho buscou romper com o formato de abordagem clássica do tema.

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É nesse contexto cultural e político que surgem os primeiros argumentos para a criação do espetáculo ―Anjos d’Água”: A ideia de pensar um trabalho que a princípio pudesse ocupar a arquitetura da fonte luminosa desativada da Praça Tubal Vilela e tivesse como proposta a resignificação do tema natalino. No elemento água talvez estivesse contido o sentido de renovação, do renascimento, e das boas-novas inerentes ao verdadeiro espírito do natal. O desejo de concretizar o funcionamento da fonte talvez inconscientemente pudesse ser entendido como um presente de natal, não apenas aos habitantes, mas também à cidade. Talvez na minha concepção saudosista, nostálgica e, de certa forma até melancólica, trazida das outras experiências das montagens com os regadores, no espetáculo ―Anjos dá Água‖, esse desejo pela água ganhasse mais relevância. É nesse momento, a partir da montagem do espetáculo que percebo fundidas as identidade de um gestor público imbuído com a democratização e fruição da dança nos espaços públicos e do encenador que utiliza de um aspecto político (a fonte seca) como questão problematizadora para a criação de um espetáculo.

Belgede KABUL VE ONAY SAYFASI (sayfa 64-70)