TARTIŞMA NEDİR? TARTIŞMA TEORİSİ VE ARAŞTIRMANIN YÖNTEMSEL ARKA PLANI
3.1.2. Tartışma Teorisi ve Tarihçesi 1 Tartışma Teorisi nedir? 1 Tartışma Teorisi nedir?
O conjunto Recanto da Felicidade situa-se em área periférica da cidade. Situado na Zona Oeste paulistana, encontra um entorno com serviços públicos estabelecidos na região, e os moradores e mutirantes apresentam diversos arranjos para acessar serviços de melhor qualidade ou mais convenientes às suas famílias. Um mutirante, morador de um conjunto habitacional localizado bem perto dali e cujos filhos ficavam totalmente por conta dos cuidados de sua mulher (que também trabalha), contou de sua luta para conseguir vaga numa escola de ótima reputação em bairro mais abastado, situado a alguns quilômetros do conjunto. As diferenças acerca de como os moradores conduzem suas relações e circuitos de circulação pela cidade
são marcantes: quando estão muito afastados do centro e quando se encontram numa situação urbana melhor, não se sentem estigmatizados pelo local de moradia. O conjunto de mutirão — embora com um entorno de novas e velhas favelas — está integrado a uma área que se encontrava consolidada, e os participantes e novos moradores já conseguem usufruir dessa relação com a cidade.
Mas, de fato, as diferenças que o local de moradia podem provocar no contato com a cidade são constituidoras desses circuitos por onde os moradores circulam e também, portanto, de acesso ao trabalho. TELLES (2006) mostra, em seus relatos de campo, como moradores das áreas mais distantes de São Paulo sofrem dessa segregação espacial brutal, que limita a construção dos círculos sociais para grande parte dos moradores das áreas mais periféricas, e como isso interfere diretamente na busca e conquista de trabalho — os lugares mais abastados ficam absurdamente distantes e a cidade é fragmentada por realidades díspares. Estas distâncias mostram-se na culpabilização desses indivíduos por sua pouca escolaridade e qualificação para o mercado de trabalho, e as saídas para uma vida melhor estruturada são muito restritas pela situação de segregação urbana. Um círculo difícil de vencer.
Mas não há dúvida de que as formas de trabalho estão absolutamente modificadas por todos os cantos da cidade; o que observamos nas falas dos nossos entrevistados, por exemplo, é uma crescente dependência do trabalho autônomo e também informal. E as relações com a cidade e os circuitos de relações sociais estabelecidas têm ligação intrínseca com o lugar de moradia, como demonstra o fato de que essas personagens não experimentam uma situação de isolamento social e conseguem se movimentar neste incerto cenário do trabalho autônomo, em que os rendimentos não são regulares e podem variar muito nos diferentes períodos do ano. Para se trabalhar desta forma, é preciso montar uma rede de relações que possa garantir os contatos necessários para os trabalhos surgirem.
Este processo de desassalariamento a que camadas importantes da população foram submetidas nos momentos de intensificação de crises econômicas modifica as paisagens sociais, tornando realidade o convívio das comunidades com essa nova cultura mais cindida com o trabalho formal. Há uma massa de pessoas que o mercado de trabalho não absorvia e, assim, houve uma busca de outras formas de reconhecimento social, alocada em outras chaves interpretativas (o consumo, os
círculos sociais, as atividades voltadas para remuneração, que trazem “outras” perspectivas sociais).
Essas novas relações marcam a constituição das comunidades periféricas em São Paulo, deixam seus traços muito presentes no cotidiano — como o medo da perda do emprego ou do trabalho, a falta de uma moradia digna ou a dificuldade em conquistá-la, a precária acessibilidade — e acabam por imprimir marcas sociais nesses moradores da periferia. Afirmando essas características, vamos formando o contexto social no qual o universo da pesquisa está situado, e mesmo que esta não seja exatamente a realidade que cada um enfrenta diretamente, essas marcas ficam e se consolidam nas representações que os indivíduos constituem sobre a cidade, em como conquistar direitos e a sua autoimagem de trabalhadores.
Esta é uma característica que sempre encontramos em São Paulo: as agruras encontradas na periferia da cidade se fazem presentes nas estratégias para a organização da vida e interferem decisivamente nas formas das construções dos vínculos sociais, como vamos poder observar a partir das falas de nossos entrevistados. Assim também ressaltamos que experiências de comunidades mais consolidadas e solidárias podem trazer uma constituição social mais sólida para seus participantes. São novas formas que o trabalho assume, na medida em que a classe trabalhadora perdeu espaço de formalidade e ganhou informalidade e, assim, formas mais desregulamentadas de trabalho tomaram lugar do que antes era o campo de caracterização de uma classe operária mais bem constituída. Essas novas formas se expressam em trabalhos mais precários, em tempo parcial, subcontratados, e na feminização do trabalho — que acrescentou ao quadro a diminuição dos rendimentos, já que no Brasil as mulheres têm remuneração menor do que a dos homens.24
Uma importante consequência deste processo é a maior dificuldade que os jovens encontram para ingressar no mercado de trabalho formalizado. Pela maior dificuldade em conseguir trabalho formal, as perspectivas são de se filiar a trabalhos precários, formas encontradas para quem vive nas áreas periféricas mais empobrecidas da cidade, mesmo em momentos de maior aquecimento econômico em que o País cresce, mas não faz desaparecer os problemas a serem enfrentados (POCHMANN,
2010). Igualmente, para uma faixa de trabalhadores com mais de 40 anos há maior dificuldade em retornar ao mercado de trabalho quando perdem o emprego, principalmente em conseguir de novo um vínculo formal. Essas características do mercado de trabalho desdobram-se nas expectativas dos indivíduos sobre o que podem encontrar no mercado e, portanto, sobre o modo como vão conseguir estruturar a própria vida no meio de tanta precariedade.
Estas transformações são fundamentais, porque configuram outras relações que os indivíduos vão estabelecendo com o trabalho, com a busca por reconhecimento social e, portanto, com a cidade: nas formas de reivindicação de direitos ou na busca de novos modos de (re)inventar o cotidiano. Que “novos sujeitos”25 são esses e que cidade está sendo produzida a partir desses processos?
1.5. Gestão e cidade no Brasil