DESTEK NİTELEYİCİ
3.2. Politik Tartışma Analizi Şeması (Fairclough Modeli)
3.2.2. Tartışma Teorisi ve POLİTİK Söylem Analizi, eleştirel sosyal bilimin amaçları
Uma importante forma de gestão que está no cenário nacional hoje são as ONGs e o chamado “terceiro setor”, que ocupam lugar central nos novos modelos de gestão, apostando na terceirização das funções estatais para se realizar. Estas novas estratégias gestionárias, que levam modelos participativos para a execução de políticas sociais, apresentam dois aspectos aqui importantes para análise: 1) apropriação de inovações dos próprios movimentos sociais ou formas de incorporar reivindicações dos movimentos, 2) mas que, na outra face da moeda, não implantam essas inovações sem antes modificá-las e torná-las um modelo a ser copiado por outras gestões (em muitos exemplos, esse aspecto aparece como marca partidária, o que dá a “cara” da gestão).
As investigações sobre o tema mostram que não há grande margem para a criação de novidades, porque há lógicas que operam nestes expedientes, como diz FELTRAN (2005), que vão desde a profissionalização da atuação da sociedade civil até um funcionamento que obedece à lógica da empresa privada, em que há uma concorrência por verbas públicas que acaba por conformar os programas a serem implementados.28
Também podemos destacar as transformações nos próprios movimentos sociais que perderam força política na sua atuação. Isso retira do horizonte um caráter
28 É bom lembrar, como faz FELTRAN (2005), que o cenário das ONGs e do terceiro setor é muito
variado, incluindo todo tipo de organização, desde movimentos populares até entidades filantrópicas. Há também o risco de se confundir essas articulações, como se fossem todas “iguais”, igualmente antidemocráticas, e é preciso investigar cada uma criteriosamente, para separar suas distâncias e afirmar proximidades. “Há de se marcar, entretanto, que a conflitividade social que havia colocado os movimentos urbanos em cena pública, na década de 1980, e que justamente havia lhes oferecido estatuto político, esteve bastante ofuscada no final dos anos 90. O argumento que desenvolvo no último capítulo procura evidenciar a hipótese de que esse fenômeno também sugere a reflexão sobre o encolhimento da política, e dos campos políticos que os movimentos sociais haviam forjado, na sociedade brasileira como um todo. Os espaços participativos de debate substantivo abertos no interior da poliarquia, que justamente prometiam aos movimentos terrenos políticos duráveis de atuação, que consolidaria seu estatuto político, não cumpriram sua promessa, ao menos não suficientemente. O que podemos ter visto, nos últimos anos, é justamente o oposto dessa tendência, e a literatura recente tem tratado disso” (FELTRAN, 2005, p. 55).
mais democrático que o período anterior trazia com a organização associativa dos movimentos sociais e mantém uma lógica meramente gestionária. Deste modo, MAGALHÃES JR., HIRATA e TELLES (2006) mostram nos relatos de campo que muitas organizações vão sendo estabelecidas nas periferias mais distantes em São Paulo e também estão em grande medida filiadas a interesses particulares em receber verbas destinadas a programas sociais (e não ligadas a sua execução e ao “sucesso” para a comunidade que necessita do benefício ou dos investimentos sociais). Nesta medida, são criadas organizações com esta única finalidade de arrecadar fundos públicos.
Modo muito peculiar pelo qual se estabelece a relação entre trabalho e cidade pelas vias de uma cadeia de mediações e conexões na qual estão cifradas todas as facetas do mundo urbano atual. Toda a tragédia social está aí cifrada. Não precisamos lançar mão de nenhum argumento miserabilista, nem denunciar a fome do mundo, para ter a medida do tamanho da catástrofe social que se tem pela frente... (MAGALHÃES JR., HIRATA e TELLES, 2006, p. 231).
Todas essas questões configuram um universo no qual o jogo social vai se passando e conformando a cidade em que se vive e na qual são criados certos expedientes para a conquista (e a denegação) dos direitos sociais.
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Podemos olhar mais de perto para o papel da assessoria técnica neste processo. Há uma mediação entre Estado e mutirantes realizada pela assessoria, embora a contratação seja feita diretamente pela associação do mutirão. A participação no mutirão em regime de autogestão mostra caminhos inovadores nos princípios de como construir a cidade. Como construir espacialmente e como constituir indivíduos que possam a partir desse tipo de participação ter vínculos sociais mais consistentes, mais democráticos, indivíduos que consigam reivindicar direitos. Mas, neste processo, a constituição da autogestão para o trabalho da obra confere uma gama controlada de decisões possíveis de serem feitas pela coletividade: há outra série de decisões feitas
por instâncias técnicas e burocráticas e com seus discursos, que não deixam margem para decisões coletivas. A autogestão é feita “na medida do possível”; há assembleias para decidir sobre andamento da obra, gastos, escolhas coletivas dos materiais de construção a serem utilizados, etc.; mas há decisões que tomam um caráter técnico, e podemos ver certo conformismo sobre o andamento da obra que não consegue movimentar para além dessas necessidades.
A relação da demanda com a assessoria técnica é também fonte de contradições: há uma parceria estabelecida, mas também momentos mais problemáticos. A obra conta com dois técnicos e um técnico social vindos da assessoria: um engenheiro, que acompanha a obra desde o início, e um arquiteto, que veio substituir outro membro da equipe e que acompanha a obra desde 2008; conta ainda com um técnico social, aqui fonte de maiores problemas para a assessoria técnica. As sucessivas mudanças de técnicos sociais dificultaram a confiança dos mutirantes na nova técnica que chegou em meados de 2010. Ela se apresentou a todos oficialmente na reunião de mudança na coordenação, afirmando que ficaria até o final do processo e tentando conquistar uma posição de parceria com os mutirantes para realizar um trabalho produtivo com eles.
A assessoria técnica faz uma mediação entre a associação e o poder público, representando na obra, portanto, de certa maneira, o poder público através da obrigatoriedade de cumprimento das normas técnicas impostas ao andamento da obra. Mas este procedimento causou no Recanto da Felicidade uma burocratização do processo que se mostrou intransponível: as exigências são sempre muito além do que é possível para uma obra em mutirão cumprir.
Essa obra escancara o processo todo. No tempo, no desperdício. Não teria como ser menos tempo dentro dessa lógica formada pela Cohab (Rodrigo, da Assessoria Técnica).
O programa em que o mutirão está alocado não permitiu que todas as necessidades técnicas obrigatórias da obra fossem cumpridas nos editais da obra, o que causou uma série de problemas quase insolúveis para que obra pudesse ter um fim. Neste caso, o mutirão explode e escancara esta questão dessa burocratização
exacerbada, que veio com a criminalização dos mutirões na gestão Maluf e uma série de mudanças na legislação para este tipo de obra.
HAROCHE (2008) ajuda a organizar esta contradição. Ao trabalhar com autores da escola de Frankfurt, como Simmel e outras importantes referências contemporâneas, como Sennet mostra como os sentimentos formam-se na contemporaneidade: há uma atenção que vai se construindo em relação aos indivíduos, mas uma atenção baseada em desatenção anterior e insuperável na formação de um Estado Democrático. O indivíduo acaba por se contentar com uma atenção superficial que vem das políticas sociais, mas com graves consequências nas formações subjetivas, na capacidade de olhar, de julgar (como diria Hannah Arendt).
O indivíduo, situado no centro das preocupações sociais e políticas, recebe hoje mais e mais atenção. A qualidade e a onipresença dessa atenção superficial, formal e fragmentária tende, no entanto, a despojá-lo da capacidade psíquica de olhar. Ele é continuamente constrangido a olhar e, ao mesmo tempo, despossuído da capacidade de olhar; a atenção exclusiva e incessante direcionada às dimensões visíveis comporta uma dimensão alienante, reificadora, que pode levar à desatenção criminosa, negadora do indivíduo, da pessoa e da subjetividade (HAROCHE, 2008, p. 145).
A cada detalhe observado por essa relação estabelecida pela Cohab com este mutirão mostram-se as dificuldades em fazer novas práticas funcionarem de forma efetiva. A obra estava com um déficit de gastos injustificados de 10% no dispêndio de R$ 24 milhões no final de 2010, e o assessor técnico enfatizou como este número é pequeno nessa administração totalmente amadora da obra. Com os controles muito rigorosos dos órgãos do Estado, a obra é muita mais cercada por fiscalizações e controles, que as construtoras não precisam sofrer e cumprir da mesma forma. Não há assessoria jurídica, não há assessoria de contratos; tudo é feito de forma amadora, inclusive as formas de contratação da assessoria técnica. Nesta medida, os controles mostram que há, por princípio, certa criminalização dos movimentos para a gestão deste dinheiro disposto para a obra, porque sempre são necessários três orçamentos para contratação de serviços e aquisição de materiais. Essa lógica faz funcionar o programa de construção por mutirão; não há nenhuma disposição para que a lógica seja
distinta, o que inviabiliza resultados mais democráticos das relações estabelecidas pela obra para os futuros moradores.
Em 2010, um funcionário da Cohab ficou encarregado de acompanhar a obra. O fato de que isso ocorreu por pressão da assessoria técnica e da associação do mutirão, para que a obra acabasse, nos dá a dimensão dessas dificuldades. O funcionário foi recebido com o preceito de observar o que se poderia ser feito para melhorar processos da obra, mas logo começou a cobrar aspectos que estariam errados; o arquiteto então o chamou, para que juntos solucionassem os problemas apontados. Logo, o funcionário pôs-se a aparecer nos dias em que o arquiteto não estava, e a parceria não conseguiu se efetivar: de fato, ele não estava interessado em resolver os problemas em conjunto com a associação; parecia mais fácil apontar os problemas e cobrar soluções do que buscá-las conjuntamente.
Também é preciso ressaltar que a forma como os contratos são realizados, de forma amadora e sem articulação com outras associações, torna o processo ainda mais complicado. Não há, por exemplo, um banco de empresas que trabalham com mutirões, a Cohab não faz este tipo de sistematização. Assim, a cada novo contrato há grande risco de que os trabalhos ou materiais não sejam de boa qualidade, porque em geral são contratados pelo menor preço possível, o que gera, muitas vezes, a necessidade de refazer trabalhos, com prejuízos enormes ao andamento e aos recursos da obra.