HELAL GIDA SERTİFİKASI NEDİR?
2.1. HGS tarihçesi
2.1.2. Türkiye’de HGS
Em 2011, o mutirão Recanto da Felicidade entrou no seu oitavo ano de obra, o que, para a grande maioria dos seus participantes, significa um tempo ainda maior no processo para obtenção da casa própria, se contabilizada a participação anterior no movimento de moradia até o início da obra propriamente dito.20
As entrevistas com os mutirantes do Recanto da Felicidade foram feitas com um roteiro aberto de questões que pudessem dar espaço para as reflexões sobre as diferentes dimensões dos trabalhos e de como a vida se organiza a partir desta linha conectiva. As visitas ao mutirão ocorreram ao longo dos anos de 2009 e 2010, onde realizei entrevistas e conversas com os mutirantes e com os membros da assessoria técnica. Ao todo foram 16 entrevistas gravadas. As visitas também foram contingenciadas pelo andamento da obra, já que em momentos sem recursos disponíveis a obra ficou muito lenta e com pouco movimento do mutirão, e assim retomei as visitas em momentos de maior movimento, quando os recursos para término de boa parte da obra foram finalmente conquistados junto à Cohab.
A chegada ao campo no mutirão apresenta-se como um choque: a etapa ainda em construção é composta por três prédios em um terreno com um declive muito acentuado que se apresenta já da rua de baixo e torna-se um espanto desde a primeira
20 Houve uma substituição de 50% das famílias da associação Recanto da Felicidade, visto que, já desde
o início, as desistências foram acontecendo devido à demora no início da obra. Depois, ao começar a construção dos prédios e com o trabalho acontecendo em todos os finais de semana, mais famílias desistiram e foram substituídas, conforme depoimentos de mutirantes em CARVALHO (2004). Mas, com o alongamento do tempo de obra, essas desistências cessaram, visto que, a partir de certo momento, a participação na obra torna-se ponto incontornável e o tempo investido é maior do que a possibilidade de desistir.
visita: será esta a obra? É. A obra está sendo executada em duas etapas: a primeira parte composta pela construção de dois prédios, em um terreno na mesma rua, com mutirantes morando nos apartamentos prontos desde 2008; a segunda etapa composta pela construção de mais três prédios, em outro terreno em declive, e esta parte da obra apresenta uma maior complexidade de execução. A Cohab privilegiou a primeira etapa, com vistas à inauguração dessa parte da obra naquela gestão; “sobrou” então a segunda etapa de maior complexidade e mais dispendiosa em todos os aspectos da sua edificação (CARVALHO, 2004), o que certamente colaborou em muito para atraso dos cronogramas de obra, repasse e aditamentos de verbas.
O mutirão está localizado na Zona Oeste da cidade de São Paulo, na região administrativa da Subprefeitura do Butantã, no bairro do Jardim Educandário, distrito de Raposo Tavares (em torno de 97 mil habitantes), bem na divisa com a cidade de Taboão da Serra, em região de periferia com predominância de classe média baixa e de crescimento lento,21 mas com áreas de alta e muito alta vulnerabilidade
social.22
Percebemos uma mistura de uma periferia mais consolidada, com alguns serviços essenciais nas proximidades, mas também com novas ocupações em áreas irregulares, em loteamentos não legalizados ou favelas, com demandas por equipamentos urbanos (GOMES, 2008). O conjunto está localizado em dois lotes que distam 300m um do outro; no entorno foram surgindo novas ocupações e favelas desde a conquista definitiva do terreno do conjunto, há mais de uma década. O convênio para a construção do conjunto foi assinado em 1999, na gestão municipal de Celso Pitta, em negociação que envolveu a Secretaria de Habitação da Prefeitura e a União de Movimentos de Moradia. Como não houve repasse de verbas, a obra só teve início bem
21 Cf. mapas de distribuição de grupos sociais na cidade de São Paulo de MARQUES e TORRES (2005,
p. 69).
22 CARVALHO (2004) descreve a área como remanescente de conjunto da Cohab-SP Jardim
Educandário, formado por prédios de quatro andares, além de um entorno com lotes urbanizados em que os moradores receberam material para construção por mutirão, nos moldes da gestão Mário Covas (1982-1985) — este tratava-se de mutirão sem autogestão, e também uma ocupação em terreno com alguma regularidade no seu parcelamento.
mais tarde, com um “termo aditivo”, só em janeiro de 2002. Até ali só havia alguns esboços de como seria o conjunto.
Com declividade muito acentuada, passando de 50% em alguns pontos do terreno, o custo da obra na área maior ficaria muito elevado por causa de muros de contenção, terraplanagem e rampas de acessibilidade. Por decisão da Cohab, da assessoria técnica e da associação, chegou-se a um projeto que reduziria os custos de cada unidade. Ao mesmo tempo, aumentou-se o número de unidades, o que resultou no projeto que está sendo executado: na área maior, três prédios com dez andares cada um e com elevadores (não previstos inicialmente), somando 120 unidades; na área menor; dois prédios de cinco andares, com 40 unidades, já finalizados — com um total de 160 unidades construídas (CARVALHO, 2004).
É importante contar a história do conjunto, pois isso ajuda a compreender como a demanda por habitação é tratada pelo poder público na cidade de São Paulo. A partir das continuidades e descontinuidades nas gestões da prefeitura, vemos o gerenciamento desses conjuntos construídos por mutirão tratados burocraticamente pela Cohab, sem se observar que há uma mão de obra diferente e que exigiria tratamento distinto da mão de obra contratada. Deste modo, percebe-se como as gestões das políticas de habitação afetam os participantes, ao mesmo tempo em que tornam suas experiências invisíveis para a gestão. A maneira como são conduzidos os processos de cada conjunto habitacional expressa isso.
O início da formação da demanda do mutirão deu-se com a filiação ao movimento de moradia da Zona Oeste. Tão logo saiu o convênio, criou-se a associação dos mutirantes, que logo precisou realizar a ocupação do terreno no Jardim Educandário, como forma de “garanti-lo” para a obra e evitar, desta maneira, que o terreno fosse tomado pelas favelas que foram sendo construídas em todo o seu entorno. Até o início da obra, os moradores revezaram-se nesta guarda do terreno sob ameaça iminente de ocupação, fato relatado pelos mutirantes que participaram desde o início da associação. Segundo os mutirantes, a própria notícia da assinatura do convênio para construção do conjunto atraiu novos moradores para a região, o que culminou no aparecimento de novas favelas no entorno dos terrenos. Esse processo é visto por eles com muita ambiguidade: por um lado, notam que faz parte da expansão da cidade o aparecimento de moradores interessados em construir casas nas proximidades do
conjunto que estará ou está sendo construído, por conta da promessa de melhoria da infraestrutura urbana (portanto, haveria certa “naturalização” do processo); por outro lado, as favelas são malvistas pelos mutirantes, como locais que aproximam os perigos da cidade ao conjunto cercado do mutirão (sempre como se o perigo, as violências da cidade, viessem de fora).
No mutirão Recanto da Felicidade, mais de 60% da mão de obra mutirante são mulheres, e há um grupo delas que é chamado carinhosamente de “as véias” (CARVALHO, 2004). Esta grande adesão feminina traz características peculiares para a obra. Muitas destas mulheres, tanto as jovens quanto as de mais idade, não tinham nenhuma identificação com esse trabalho braçal, e o envolvimento nas atividades de obra dos fins de semana é visto por muitas como obrigação para cumprir os acordos estabelecidos e o regulamento da obra, conteúdo que aparece nas entrevistas com elas e nas conversas com o assessor técnico. Poucas conseguem se envolver de forma mais efetiva.
A observação dos trabalhos nos dias de mutirão foi muito interessante: em um cenário de três prédios de dez andares, ainda em construção, em um terreno íngreme, a obra sempre parece avançar a passos muito lentos. As “véias” e outros mutirantes afastados dos trabalhos pesados da obra ficaram alocados em trabalhos considerados mais leves — como dona Maria,23 que ficou na creche, cuidando das
crianças. A creche do mutirão ficou alocada no Educandário, uma instituição próxima ao mutirão que presta assistência social, especialmente a crianças e jovens.
Dona Maria se diz sempre preocupada com as crianças, principalmente com as meninas, que tinham contato com jovens moradores no abrigo do Educandário; por isso, ela cuidava para que as crianças ficassem sempre à vista. Muitas dessas crianças já estão grandes e muitas cresceram indo à obra; era portanto uma grande responsabilidade, afirma ela, cuidar dos filhos de quem estava trabalhando no mutirão. No início, também havia uma cozinha comunitária em que essas mulheres mais velhas trabalhavam, mas foi fechada nos últimos anos por não obedecer ao regramento da Vigilância Sanitária. Outro local em que algumas dessas mulheres são alocadas é a biblioteca comunitária da associação, localizada em um dos
apartamentos — neste caso, são três mulheres que estão com restrições médicas para participar dos trabalhos mais pesados da obra. Os mutirantes nessa situação também são postos em outras atividades, como cuidar do banheiro, entregando papel higiênico, ou servindo água aos mutirantes.
Nos fins de semana, a obra recebe em torno de 90 mutirantes por dia normal de trabalho (durante a semana, vão os pedreiros contratados e mutirantes que preferem cobrir seus dias de trabalho ou faltas durante a semana). Entretanto, em obra tão grande, o número sempre parecia reduzido demais para que a empreitada chegasse ao término o mais rápido possível. Em períodos de falta de recursos, este número diminuía ainda mais e não se chegava a 30 mutirantes. Nas conversas com a liderança da coordenação (que, entre outras tarefas, faz o controle de frequência), começam a surgir os “casos” mais complicados: a mulher com 35 anos que tem um problema grave de coração; o homem com sérios distúrbios psiquiátricos que a família deixou como mutirante depois da morte da mulher e que inicialmente participara da obra; o mestre de obra com pressão alta, que foi da obra para o hospital (e alguns meses depois acabou afastado desta função remunerada). Há ainda ocorrências de pessoas de mais idade que morreram neste período de obra e de outras que adoeceram e se afastaram. Há também um grande número de mutirantes que, afinal, não pôde participar do trabalho pesado. Nos intervalos para o almoço, os trabalhadores reuniam-se e lembravam vários mutirantes que haviam morrido durante a obra ou as mulheres que haviam tido filhos. As histórias de cada um vão sendo recordadas e compartilhadas nesses longos anos de convivência.
O caso de seu Antonio é interessante, para se ver como os longos anos de obra supõem sempre negociações de novos papéis para todos. Seu Antonio é uma liderança do movimento de moradia desde a década de 1970, ainda durante a ditadura militar (CARVALHO, 2004). Na obra, desempenhou esse papel de liderança e também formou lideranças na família, em decorrência de sua longa participação no movimento: sua filha cuida da parte administrativa da obra; seu genro, das compras do mutirão. Tornou-se ainda contramestre de obra contratado pela associação, com a anuência dos mutirantes, embora esta situação ferisse o estatuto da obra. Em muitos momentos, essa relação de tanta proximidade, misturando papéis, ficou problemática, até que, em meados de 2010, ele foi destituído das suas funções de contramestre. Seu trabalho
junto à obra vinha sendo questionado, devido à qualidade e ao andamento lento da obra. Muitos membros da coordenação começaram a reclamar de seu trabalho e redigiram um documento com as obrigações de um mestre de obra, e ele não cumpria essas responsabilidades. Até sua filha, que tem importante posição de comando na associação, concordou que seria necessário demitir o pai e chamar outro profissional, processo importante para a condução da obra. Mas seu Antonio ficou muito ressentido com a situação. Na assembleia em que se reuniu quase a totalidade dos mutirantes (no final do ano de 2010) para decidir pela nova coordenação, mostrou-se muito nervoso; andava para lá e para cá e falava alto, reclamando de todos e da injustiça que, em sua opinião, haviam feito com ele. Na saída dos mutirantes, ao término da votação e da aclamação da nova diretoria — a qual manteve os membros mais atuantes que concordaram em permanecer e completaram o quadro da associação com novos nomes de mutirantes (em um sistema de votação espontânea em que os mais votados iam sendo consultados se queriam ou não participar da nova diretoria) —, seu Antonio foi o comentário geral. As mulheres especialmente estavam bravas com as ofensas que ele havia proferido e diziam que ele não poderia xingar a todas de prostitutas. Mas seu Antonio estava sentindo a perda de seu poder político, a perda das suas funções remuneradas, a perda do apoio da comunidade para continuar à frente da obra.
1.4. Circuitos de trabalho na cidade,