DESTEK NİTELEYİCİ
3.2. Politik Tartışma Analizi Şeması (Fairclough Modeli)
3.2.1. Pratik argüman yapısı
As considerações mais gerais mostram a formação de modos de gerir a cidade reproduzidos em diversas escalas nos mais diversificados lugares, mas nada nos contam sobre os processos específicos e suas peculiaridades. As lutas estabelecidas pelos atores de determinado lugar informam como construíram o espaço social em que vivem. Assim, narrando as experiências de alguns personagens escolhidos, conseguimos vislumbrar outro tipo de relação com o trabalho e com a moradia que perfazem as práticas cotidianas de viver na cidade. É o que faremos no próximo capítulo, a partir de análises das entrevistas com os mutirantes.
Há todo um novo universo de organizações não governamentais e assessorias técnicas que sinalizam um momento histórico diferente no qual se modificou o cenário de participação mais ativa da comunidade, como vemos acontecer no mutirão em questão, discussão que será retomada no terceiro capítulo, ao analisarmos a experiência do banco comunitário. Há toda uma articulação do
25 SADER (1988) afirmou a constituição de “novos sujeitos” políticos que surgiram da
institucionalização dos movimentos sociais. Hoje, nos questionamos se a política ficou de fora dessas novas configurações que se apresentam como formas de organização da vida na cidade.
movimento por habitação, da população que participa do processo de mutirão e do poder público que reflete esse novo momento e um novo contexto em que essas articulações são estabelecidas, numa chave mais burocratizada.
Na fala de Rodrigo, arquiteto da assessoria técnica, responsável pela obra, encontramos essa preocupação acerca do pragmatismo desses atores sociais: o poder público e o movimento emperraram o encaminhamento mais acelerado da obra, o que representaria importante solução para os mutirantes — esses, sim, participando efetivamente com trabalho e destinando um tempo da vida que parece não ser o mesmo tempo da gestão pública e dos movimentos sociais, tal como configurados hoje.
Se, por um lado, são inegáveis as questões do controle social do investimento público e da redução de custos na produção de habitação social, por outro lado a impossibilidade de arbitragem pública do trabalho em canteiro, sua quase invisibilidade, seu silenciamento, seu caráter não contabilizável para além das cotas de cada família, os difíceis processos de aprendizado, a reposição das dimensões hierárquicas assentadas em regulamentos de obras compatíveis com uma lógica da produtividade do trabalho e, ao mesmo tempo, presos aos imperativos do movimento de moradia e de suas associações, compõem um quadro bastante complicado entre os mutirantes, destes com as associações, assessorias e com seus próprios familiares (quem trabalha nos finais de semana, como se combinam trabalho em mutirão e relações de gênero, formas de sociabilidade familiares, etc.), sem que as dimensões de equivalência mercantil, expressas nas formas contratuais do trabalho e nos modos de arbitragem desse trabalho, possam ter qualquer efetividade (RIZEK e BARROS, 2006, p. 391).
A gestão da Cohab demora a liberar as verbas e acaba não se responsabilizando pelo término da obra; promessas são feitas, mas não se consegue efetivamente a responsabilização pela parte burocrática da obra. O movimento de moradia vem recebendo a contribuição mensal dos mutirantes, que, ainda durante a obra, continuam pagando com certa assiduidade à associação e ao movimento sua contribuição. Forças que poderiam acelerar a obra parecem entorpecidas pelas práticas burocráticas que vão minando outra dimensão do processo, que poderia dar visibilidade a este trabalho mutirante e fazer pressão política para que a obra possa
findar. Os mutirantes foram derrotados! Derrotados pela passagem do tempo que só os levaram a um círculo tenebroso da burocracia, onde perderam (ou vão ainda perdendo) toda a potência transformadora do processo. ARANTES, P., (2007) afirma que, para se opor ao movimento do capital, é preciso um vigor que consiga se sustentar no tempo com força; e aqui esses mutirantes perderam.
Para discutir a cidade atual, é preciso ver algumas características que vão se tornando marcantes para compreensão dos processos de sua reprodução. Há certo gosto de promessa não cumprida que impregna os movimentos sociais latentes das décadas de 1980 e 1990 no País e se tornam lugar hoje onde o pragmatismo gestionário dos governos (tanto da direita como de esquerda) se fortalece como forma de lidar com a situação brasileira. As ONGs haviam modificado esse cenário de organização urbana.
Na década de 1980, os canais de participação se alargam para dar lugar a atores sociais até então ausentes destes espaços. É o período de proliferação de ONGs, associações profissionais, entidades de defesa de direitos humanos, de minorias, e de meio ambiente, entre outros (JACCOUD; SILVA e BEGHIN, 2009, p. 380-381).
A escolha pelo sistema de mutirão como modelo para a construção da casa está articulada com o processo de constituição dos modelos mais democráticos de participação que foi se desenhando a partir da década de 1980. Muitas experiências que levantaram a bandeira da participação social tornam-se modelos para a gestão da pobreza por meio de políticas públicas, mas nem sempre com resultados efetivos de abertura de novos espaços democráticos de participação.
Contudo, sem âncora no igualitário e sem a construção de um social, forjou-se no Brasil uma história de modernidade sem mudanças significativas. E a pobreza, a miséria, a falta de oportunidades de emprego, a seletividade do acesso à terra parecem assim compor um mosaico cuja chave para decifrar sua perenidade ao longo dos séculos ainda desafia a sociedade (DELGADO e THEODORO, 2009, p. 413).
A forma moderna que a condução das políticas sociais toma depois da constituição de 1988 é uma modernização das formas, das leis, que chega para uma parcela da população, mas chega muito mais lentamente para outras parcelas mais empobrecidas da sociedade brasileira.
A modernidade dos direitos adquiridos das classes médias e da absurda falta destes mesmos direitos — ou de grande parte deste — a que são submetidos os mais pobres. A modernidade da exclusão, da não inclusão, da ausência de políticas, da falta de respostas institucionais, do silêncio para com amplos segmentos da população. Não é falta de Estado, mas a constituição de uma dada conformação de Estado, conformação esta que se coaduna com um espectro social onde graça a desigualdade em sua reprodução ampliada (DELGADO e THEODORO, 2009, p. 414).
Há então parcelas da população que, como mostra SINGER, A. (2009), passaram a ser alcançadas por políticas sociais compensatórias nas duas gestões do governo Lula (2003-2010), que fizeram chegar o Estado a regiões do País onde ele se encontrava ausente no atendimento aos mais pobres. As políticas sociais, como o Programa Bolsa Família, assim como o aumento real do salário mínimo e a abertura do crédito consignado para os aposentados, operaram transformações importantes para a chamada “classe c”, que SINGER, A. (2009) chama de subproletariado (a parte dos trabalhadores que ganham até dois salários mínimos per capita, precarizados no trabalho informal, desempregados que fazem bicos).26 Embora sejam graduais e não alterem as
grandes estruturas de funcionamento político e econômico do País nem colidam com o capital (SINGER, A, 2009), as transformações representam aumento real do poder de compra (e de endividamento) dos trabalhadores brasileiros e faz efetivamente uma modificação nas paisagens dos bairros pobres de todo o País,27 o que se reflete em novas
26 “Apesar de não dispormos de uma atualização para o trabalho realizado por Singer, a lógica permite
supor que os processos de aumento da produtividade, desindustrialização, desemprego estrutural, subemprego, precarização do trabalho em geral e crescimento da pobreza que acompanharam a implantação do neoliberalismo nos anos de 1990 tenham, no mínimo, mantido a proporção de subproletários no proletariado em geral” (SINGER, A., 2009, p. 98).
27 É interessante notar essas transformações, porque fazem parte de um contexto de mudanças que
possibilidades aquisitivas, antes impensáveis para essas camadas de baixíssima renda da população, como nota SINGER, A. (2009). POCHMANN (2010) diz que este processo se parece mais com mudanças no enfrentamento de questões fundamentais para trabalhadores muito empobrecidos, através de políticas de melhora real do salário mínimo, por exemplo, do que com mudanças de classe social dessas camadas da população brasileira.
Esses contextos econômicos recentes vão criando novos contornos sociais. No capítulo seguinte, por meio de relatos e da análise das falas de nossos entrevistados do mutirão, traçaremos algumas considerações sobre esse universo da relação intrincada entre trabalho e cidade. Assim, podemos compreender como os participantes do mutirão Recanto da Felicidade ali permaneceram, ou com trabalho, ou com pagamento das faltas, inseridos no processo de obtenção da casa. Sem essas referências das dificuldades para acessar outros programas de habitação ou mesmo outras políticas sociais, não compreenderíamos essas motivações para permanecer, mesmo com a vida em transformação.
Neste processo em que a governamentalidade instala-se de forma mais definitiva, vimos transformações nas gestões públicas brasileiras, profundas e necessárias, mas que, em grande medida, não conseguem modificar práticas de setores importantes e necessários para que no País se construam espaços democráticos mais alargados, tanto quanto se poderia imaginar pela forte organização associativa trazida pela luta política na linha de frente das reivindicações populares.
Para os mutirantes, permanecem reproduzidas as formas de trabalho e de relação com a cidade em que uma chave da humilhação constitui esses sujeitos, e o mutirão continua a reproduzi-la. No capítulo seguinte investigamos essas relações. No capítulo terceiro, porém, vamos perscrutar práticas novas de trabalho que derivam das atividades do banco comunitário, como os movimentos culturais, sempre com essa interrogação sobre se constituem redes que se interligam de forma a constituir práticas anticapitalistas. A ver.
aumento do número de estabelecimentos de comércio e maior variedade de produtos ofertados, no bairro em que se situa o banco comunitário investigado.
1.6. O papel das ONGs e da assessoria