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Çerçeveleme Teorisi (Framing theory)

DESTEK NİTELEYİCİ

3.2. Politik Tartışma Analizi Şeması (Fairclough Modeli)

3.3.1. Çerçeveleme Teorisi (Framing theory)

Perceber como os moradores vivenciam a cidade a partir da experiência do mutirão nos faz seguir alguns contornos da cidade moderna que sugerem vias de como, contemporaneamente, podemos lidar com os processos intensos de transformação social.

A cidade, desde sua origem, é a “expressão mais acabada” para as suas civilizações correspondentes, diz RONCAYOLO (1988). Há diversas leituras de uma mesma cidade que a multiplicam em diferentes e desiguais refrações do que ela se constitui para os mais diferentes grupos e também para cada sujeito, para cada morador. São Paulo se expressa em suas desigualdades mais gritantes, percebidas por todos das mais diferentes formas. Os moradores das áreas periféricas pobres percebem seu “direito à cidade” de formas absolutamente distintas das formas de quem habita áreas plenas de equipamentos urbanos. Se a segurança, os equipamentos urbanos de melhor qualidade e a beleza são destinados só para alguns — e isso é explícito para quem circula pela cidade nos trajetos para o trabalho —, isso significa que usufruir, fruir a cidade não é para todos da mesma maneira.

GONÇALVES FILHO (2007) mostra, através de relatos de um grupo da Vila Joanisa, na periferia de São Paulo — onde realizou pesquisa por anos — que muitos moradores desenvolvem um sentimento de não ter direito a ter direitos, bem como de impossibilidade de poder fruir a cidade. Para eles, é como se não houvesse esse direito ao acesso do que a cidade oferece aos outros; disso resulta uma angústia que se projeta a cada novo evento em que esteja envolvida alguma possibilidade de se aproveitar a cidade para além do habitual. Ocorre então uma interdição de se apropriar

como experiência de algo novo, criativo. Para o autor, essa impossibilidade representa um comprometimento desses sujeitos que não podem experimentar o prazer sem um “gosto amargo”, como se algo tivesse se perdido, e em alguns casos esse prazer é inacessível. Expressam, nesta medida, experiências de humilhação social que comprometem essa relação com a cidade e com outras sociabilidades.

Na experiência do mutirão, para muitos, a participação é algo que não abre novos espaços de criatividade, de democracia ou maior ativismo no fazer da cidade, elementos que podem mudar os sujeitos de formas mais duradouras e que vão para além da obra. A vivência deficitária na cidade os aparta de uma integração social e, por conseguinte, os interdita a experenciar de forma positiva a autogestão na obra. Para outros, essa experiência em si é de fato muito rica, mas essa denegação de reconhecimento pode aparecer em outros campos da vida, como no acesso ao mundo do trabalho, também de forma angustiante — como veremos a seguir, no caso de Rosa, que gostaria de ter uma inserção diferente no mercado de trabalho, mas isso não parece estar a seu alcance.

Pensando nesta questão de forma mais abrangente, podemos caracterizar as políticas de habitação, assim como outras políticas sociais, muitas vezes como constituídas numa chave já travada para sujeitos que não podem experimentar novas formas de interação com outros sujeitos e com a cidade. Os sujeitos assujeitados a essa experiência são esses a quem o Estado e a cidade não oferecem alternativa.

Os indivíduos fizeram essa escolha anos atrás, quando se decidiram por essa forma de participação para conquistar a casa própria e hoje não se permitem modificá-la: o longo tempo de obra acaba amarrando os participantes ao processo do mutirão até o final (que ainda parece distante). Como Rosa, perto de 40 anos, que trabalha como empregada doméstica, mas gostaria de trabalhar com desenho de interiores, já que possui formação nesta área e trabalhou com isso antes de vir para São Paulo. Diz que sofre um preconceito enorme por ser doméstica e acredita ser muito difícil conseguir trabalhar nesta outra área em que tem formação técnica. Para ela, esta experiência em um trabalho de menor prestígio social torna suas outras qualidades e qualificações para o mercado de trabalho envoltas em grande invisibilidade social. A marca material do registro na carteira de trabalho é a mais visível, mas ela se sente marcada também na sua sociabilidade e mobilidade no mercado de trabalho,

percebendo uma mudança de atuação profissional quase como uma impossibilidade. Sua forma dinâmica de trabalho no mutirão mostra uma capacidade de liderança, de condução de um grupo de trabalho através da sua articulação e capacidade de vislumbrar as diferentes situações impostas pelo andamento da obra, tudo isso narrado por ela com grande clareza das suas próprias capacidades de liderar um grupo sem autoritarismo e rebaixamentos sociais. Mas a impossibilidade de novo acesso ao mercado de trabalho expressa, a seu ver, uma falta de reconhecimento social ainda sem perspectiva de recuperação.

E aqui nos deparamos com as contradições inerentes a esse processo de autogestão na construção da casa por mutirão. Em alguma medida, a participação de Rosa é extremamente positiva e poderia ser relevada como exemplo de constituição de espaços de grande autonomia e constituição de sujeitos políticos formados por uma participação no processo de autogestão, mas a sua vida pessoal e profissional ficou totalmente comprometida por seu trabalho na obra. Essa forma de invisibilidade pode ser compreendida como humilhação social. Estas condições de sofrimento são exploradas de forma muito sensível no texto de COSTA, F. B. (2004) e mostram que a relação com o trabalho pode constituir uma dimensão fundamental da vida nesta ligação com a formação das identidades sociais, das experiências que ficam comprometidas e cindidas por esse rebaixamento de expectativas e oportunidades. Isso porque se trata de sofrimentos do corpo e psíquicos, mas também de sofrimento político, como diz GONÇALVES FILHO (no prefácio de COSTA, F. B., 2004).

Ao tratarmos da desigualdade social, é possível que a dominação passe despercebida, mas é fenômeno político por excelência; não é possível tratar deste tema sem fazer referência ao poder, referência que se torna obrigatória e politiza a sua discussão. Igualdade é uma categoria política, diz GONÇALVES FILHO (2007), que supõe a “supressão da dominação”. Em situações de rebaixamento social, há sempre um humilhador e um sujeito que se deixa humilhar; em “experiências de humilhação”, movimentam-se sentimentos passados que não se consegue elaborar de outra maneira: o sujeito não é humilhado por vontade própria, mas porque aprendeu a se portar socialmente de maneira a acreditar que é inferior quando posto em determinadas situações, que lhe são certamente angustiantes.

Humilhação social é sofrimento longamente aturado e ruminado. É sofrimento ancestral e repetido. Um sofrimento que, no caso brasileiro e várias gerações atrás, começou por golpes de espoliação e servidão que caíram pesados sobre nativos e africanos, depois sobre imigrantes baixo- assalariados. Alcançou roceiros, mineiros ou operários, também uma multidão de pequenos servidores, subempregados e desempregados (GONÇALVES FILHO, 2007, p. 6).

A partir da análise desta relação conflituosa dos diferentes trabalhos realizados por esses mutirantes, perguntamos: como atores eminentemente políticos, ou com uma ação de alguma maneira política, podem ter chegado a essa situação de invisibilidade social? Como o mutirão se transformou nesse processo tão penoso, com um trabalho tão pouco representativo?

Os mutirantes mais ativos nunca poderão aceitar esta pouca representatividade do trabalho de mutirão, porque estão lá há anos, trabalhando, cansando-se, privando-se do convívio familiar. Mas sem dúvida há uma experiência comum de opressão, de submissão a um processo que pode ser traduzido no sentimento de inevitabilidade.

Para Rosa, o trabalho em si, na casa de uma família, e sua convivência por lá — o cotidiano, enfim — não é ruim; ela diz que ganha um salário bom, consegue pagar suas contas e ajudar o filho. Mas há de fato um problema no modo de recepção social deste trabalho: não há nenhum reconhecimento social, o trabalho é visto de forma depreciativa e isso a fere. Isso porque, entre outras coisas, como lembra GONÇALVES FILHO (ainda no prefácio de COSTA, F. B., 2004), na nossa sociedade reservamos aos pobres as atividades de trabalhos simplificados e devemos sempre nos ater ao fato de que quem participa de um mutirão vive este trabalho de exceção. Para ela, a consequência deste processo, com a sua participação no mutirão, faz com que todos os seus fins de semana sejam tomados pelo trabalho na obra, e ela abriu mão de morar com seu filho. O envolvimento no mutirão a afastou de seu então marido, o pai de seu filho, que não a apoiava e não se interessava por esta experiência, o que fez com que a relação conjugal se desgastasse, e a partir disso viesse a separação. Com um filho pequeno para criar e seus múltiplos trabalhos, a criança acabou indo morar com o pai. Os longos anos de obra são de fato implacáveis: todos os sonhos e expectativas

profissionais também estão estacionados, esperando um desfecho, enquanto os anos passam. Sem dúvida, isso cria uma sensação de inadequação para ela, em um emprego que não lhe permite alimentar sonhos de crescimento profissional; ela sente a idade, a impossibilidade de conviver com seu filho mais de perto.

Agora que meu filho vinha morar comigo eu arrumo um emprego a noite? A melhor coisa é minha mãe vir morar comigo, aí ficamos todos juntos. Aí meu filho vem morar comigo. É melhor, né? Vou ficar perto da minha mãe e do meu filho. Ele sente. Quando tem alguma festa, alguma coisa da escola ele nem me chama: - Não vai chamar sua mãe, Gabriel? Nem vou chamar minha mãe ela vai estar no mutirão, né? Não adianta chamar que ela vai falar que vai estar no mutirão. Tem um monte faltas que tem que pagar, não dá para fica faltando. A avó paterna faz tudo, mas não é aquela vó carinhosa, muito pelo contrário, é tudo na gritaria. Eu vejo que ele está crescendo revoltado.

E assim mantém a experiência do mutirão resguardada pela convicção de que ter a casa própria é umas das grandes conquistas que poderá usufruir com seu filho. Com um filho já crescido e com a sua preocupação com a educação que lhe é dada por outra família, ela afirma que os hábitos da criança, diferentes do que gostaria de lhe ter passado, mostram as consequências das suas escolhas.

***

As soluções habitacionais passam por esses sacrifícios, porque não há muitas alternativas, mas se apresentam de forma rebaixada para quem tem uma renda inferior a três salários mínimos. Os mutirantes que ganham mais do que isso repensam esta solução como uma escolha que poderia ter sido diferente; quem tem uma renda menor não vê o processo do mesmo modo e ainda credita ao mutirão qualidades de acesso à única possibilidade da casa própria. As diferenças aparecem na forma de estruturar a participação no mutirão.

No Recanto da Felicidade, tendemos a ver este processo como um caso de invisibilidade: a Cohab segue a burocracia “normal” para tocar a obra e fazer

lentamente seus aditamentos financeiros; com isso, os mutirantes seguem um regime de trabalho pelo tempo que durar este cabo de guerra em que os dois lados puxam a corda para ver quem vence.

De forma melancólica, CARVALHO (2004) afirmou, há mais de cinco anos, que este mutirão permanece em atividade por tradição, e os mutirantes continuam lá, seguindo a “tradição” de serem invisíveis, neste exercício de opressão.

Tome-se o caso de dona Maria, uma das “véias” do mutirão, uma senhora de mais de 70 anos, que não pôde fazer a inscrição no programa de mutirão porque sua idade, já naquela época, não permitia, sendo então sua filha a fazer a inscrição por ela. Não havia como saber que o processo seria tão longo, e essa imprevisibilidade reconfigura as relações sociais a todo o momento. Mesmo numa idade já contabilizada, já mediada pela morte social,29 foi possível para dona Maria

entregar-se ao mutirão, embora a passagem do tempo escancare suas grandes dificuldades neste processo de invisibilidade social. A moradia precária, em favela próxima à obra, mostra a necessidade de um espaço maior, mais estruturado para a convivência de uma família grande. Dona Maria fala da sua falta de paciência com os netos nas visitas à casa (com seus diversos moradores e seus problemas, com todos sempre espremidos e apertados pelo pouco espaço de convivência); as visitas dos parentes já não cabem em sua pequena casa e na sua vida cansada, mas ela segue trabalhando na creche, cuidando das crianças dos mutirantes.

Com marido e filhos, dona Maria veio do Nordeste para São Paulo em busca de condição mais razoável de trabalho e aqui teve mais outras crianças (dez ao todo, com os quatro que perdeu). A situação de moradia sempre foi de precariedade extrema, mesmo antes que o marido a deixasse por conta da bebida. Hoje mora com três filhos (um com necessidades especiais), numa moradia de três cômodos, muito acanhada para todos. Dona Maria tem muita dificuldade em escutar e fala bem baixinho. Vai contando das crianças que viu crescer na obra, muitas das quais hoje já são adolescentes.

2.2. A construção social do