Embora a relação das jovens funkeiras com a família seja muitas vezes permeada por conflitos, esta é uma importante instituição para elas, principalmente a figura da mãe, que é apontada pela maioria das jovens como a pessoa que está sempre ao lado delas e com quem podem sempre contar. Com a ausência do pai, o que ocorre na maioria dos casos (apenas uma das jovens reside com o pai e a madrasta), a mãe assume todas as responsabilidades com os filhos/as, tornando-se a principal referência de apoio, proteção e afeto.
Pesquisas realizadas por estudiosos da juventude (DAMASCENO, 2013; ABRAMO & BRANCO, 2005; GONÇALVES & COUTINHO, 2008) apontam que a família ocupa um lugar importante na vida dos/as jovens, mesmo diante das várias mudanças ocorridas na estrutura familiar, como divórcios e recasamentos, o que pode acarretar alguns conflitos. Trata-se de uma realidade moldada pela mudança, mas que traz em si muitos elementos de permanência. Ao mesmo tempo em que apresentam dificuldades de relacionamento com a família, as jovens funkeiras a atribuem grande importância nas suas vidas. É como se a família, diante de tantas incertezas e riscos, mesmo com todos os seus problemas, fosse um ancoradouro, o que elas têm de permanente.
A maioria dos conflitos envolvendo as jovens funkeiras e suas famílias inclui a dificuldade para se relacionar com os padrastos e problemas relacionados ao seu
envolvimento com “coisas erradas”, incluídos aí os namoros com rapazes envolvidos com drogas, as fugas das jovens para participar de festas e “curtições” e também a marcação do corpo com piercings e tatuagens. A reprovação das mães para algumas atividades das filhas acaba por ocasionar discussões entre estas e as filhas.
As mães das jovens funkeiras apresentam um comportamento ambíguo com relação ao comportamento das filhas, ora se apresentando como liberais, ora mais conservadoras. São liberais com relação ao fato de as filhas dançarem funk e não parecem atribuir muita importância ao fato de as filhas namorarem e se iniciarem sexualmente muito cedo, mas não permitem os piercings, as tatuagens e as festas fora do bairro.
Ela brigou que só a porra. Ela falou: Tu quer se riscar todinha, num sei o quê, num sei o quê. Se fosse pelo menos pra fazer uma coisa bonita também, isso aí ficou todo malfeito. Tô nem aí, eu faço outra por cima (Thayssa, 14 anos).
As jovens relataram que as mães não permitem que elas façam tatuagens ou coloquem piercing, mesmo assim elas fazem sem a anuência das mães e procuram esconder. Com o passar do tempo, as mães descobrem, brigam e acabam se acostumando por saberem que não há mais o que ser feito.
Além disso, as mães não permitem que as filhas frequentem festas em bairros mais distantes. As jovens, porém, não deixam de ir, alegando para as mães que vão dormir na casa de alguma amiga ou algum parente que mora em outro bairro.
Eu ia escondido. Eu dizia que ia pra tal canto e ela dizia pra eu chegar tal hora, só que eu não chegava tal hora, chegava no outro dia. Ela brigava comigo, às vezes ela me batia, mas agora ela não bate mais. Eu dizia que tava dormindo na casa da Karol, dizia que dormia na casa da minha tia (Katyn, 16 anos).
Percebi que as tentativas de proibições das mães estão muito relacionadas aos riscos a que as jovens estão expostas quando saem à noite para fora do bairro em companhia de homens considerados pelas mães como “pessoas erradas”, podendo envolver-se em acidentes ou em situações violentas, dado o envolvimento dos rapazes com quem elas saem com o crime.
Os trechos da entrevista de Katyn são elucidativos no sentido de mostrar os riscos com os quais as jovens se envolvem, o que causa grande preocupação para as mães, gerando
conflitos entre elas. “A Karol pediu uma vez pra ir pra esse canto, pra essa festa, a mãe dela não deixou, aconteceu aquilo com ela”23 (Katyn, 16 anos).
Na sequência, ela relata uma das vezes que saiu escondida da mãe para participar de uma festa e acabou se machucando também:
Teve uma vez que a gente foi do mesmo jeito, foi numa moto com quatro pessoas em cima e eu era quem tava no tanque. Eu fiquei com medo. Eu tava atrás aí queimou isso aqui da minha perna, aí ficou queimado. (Katyn, 16 anos).
Dançar funk não acarreta riscos para a vida das jovens e ainda lhes permite sonhar com o futuro e “fazer sucesso” no bairro. O sucesso que elas passaram a fazer com as apresentações foi importante no sentido de dar visibilidade ao grupo, causando maior aceitação, principalmente por parte das mães.
Embora considerem a dança “imoral”, as mães das jovens apoiam o grupo, principalmente depois que elas passaram a fazer apresentações no CUCA. Sempre que podem, vão assistir às apresentações e uma delas é quem costura as roupas usadas nessas ocasiões.
Minha mãe concorda, né, só que meu pai não concorda mais, porque ele disse que isso é uma coisa que não vai pra frente. Aí eu disse pra ele que, se é uma coisa que nós faz com vontade, vai pra frente, sim (Karol, 16 anos).
No começo elas num gostavam muito, não (a mãe e a avó). Agora elas já tão acostumadas, sabem que, se num deixar, eu vou sempre... Elas diziam que é uma dança muito imoral (Thayssa, 14 anos).
Minha família acha que é um gosto meu, né, se é um gosto meu, ela não pode fazer nada, porque eu que gosto, eu que quero dançar, né? Falam que é uma dança
“imoral”, mas, assim, eu nem ligo, porque eu quero dançar, eu quero fazer isso...
Meu pai quis me proibir no começo, mas a Renatinha foi pedir a ele, aí ele deixou (Rafaela, 12 anos).
O motivo da não aceitação do grupo por parte dos pais e de alguns moradores do bairro se dá pelo conteúdo erótico presente nas letras das músicas e nos passos sensuais encenados durante a dança. Muitos/as jovens frequentadores/as do CUCA também criticam o grupo por dançarem uma música “imoral”, considerando as jovens indecentes e vulgares.
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Karol (16 anos) tem uma cicatriz vertical que atravessa toda a coxa esquerda, decorrente de um acidente de moto enquanto ia para um baile funk. Em uma moto estava o piloto, ela e mais duas amigas. Karol teve o osso quebrado em dois lugares e teve que passar por cirurgia para colocar platina na perna. Andar de moto nessas condições é uma atitude frequente das jovens funkeiras segundo as suas afirmações.
Tem uns pessoal que dança aqui também que fala que a gente gosta de se exibir muito, é muito imoral essa dança pra gente, a gente ainda é muito nova (Katyn, 16 anos).
Muita gente diz pra eu poder dançar swingueira, porque funk é imoralidade, porque também por causa da nossa idade, né? Que o funk é uma coisa que não é pra ser desse mundo. Como uma pessoa aí do CUCA (Karol, 16 anos).
As críticas às jovens e às suas performances estão relacionadas à estigmatização do próprio funk, que é considerado um estilo musical que incita um comportamento considerado “desviante”. O fato de as jovens funkeiras serem ainda bastante jovens, como elas ressaltam em suas falas, reforça a reprovação e as críticas que recaem sobre elas. São garotas muito jovens, vestem roupas muito curtas, bem como ouvem e dançam uma música considerada “imoral”.
O motivo pelo qual as jovens integrantes do grupo de funk são bastante criticadas se deve ao fato de que elas rompem com um determinado papel feminino valorizado pela sociedade na qual estão inseridas. As jovens funkeiras não atendem ao padrão de mulher “ideal” construído socialmente. O modo como utilizam o corpo para encenarem toda a sensualidade e o erotismo do funk transgride com as normas sociais.