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O diário, imbuído de vigiar, refletir e informar sobre as atividades comunistas e subversivas no Brasil, dá grande destaque ao que entusiasticamente denomina de: “A 5ª Coluna quer articular-se na Bahia – Dissolvida, ontem, em Feira de Santana, uma reunião de agentes do Eixo – Carlos Albuquerque, o articulador da trama

criminosa – As providências da Polícia”. Após desenvolver artigo com os comunistas, o jornal demonstra que não perde a verve política, mesmo se desdobrando em várias frentes de luta: contra os comunistas, de forma mais ampla, contra os integralistas e contra o interventor Landulfo Alves, no espaço mais restrito.

A colaboração de Jorge Amado, um conhecido e atuante escritor comunista, demonstra que nenhuma das ideologias políticas (integralismo ou comunismo) estão sendo radicalizadas no jornal de Franklin Lins. As necessidades específicas de noticiar e permanecer em circulação também são levadas em conta. À medida que a visão sobre Stalin ameniza, com a tomada de posição junto aos aliados, esse processo de dialética jornalística se torna mais nítido. A notícia “Saudamos os exércitos Soviéticos e o marechal Stalin”149 informa quando a virada acontece.

Se primeiro há uma desconfiança quanto à aproximação do ditador russo, com notícias que atentam pelo hábito traiçoeiro dos bolchevistas, agora há uma reverência desbragada. Os motivos dessa mudança em choque são factuais: ao contrário do que se espera ― o avanço poderoso das forças hitleristas ― os comunistas estão na ofensiva, empurrando a força alemã de volta ao centro da Europa. Assim, por pouco tempo, temos em jornais brasileiros e baianos a simpatia pelo antes enlouquecido premier socialista. Outro indício dessa expectativa é o número de autores de esquerda publicando no diário, entre eles, o romancista paraense Dalcídio Jurandir,150 o jornalista cearense Pompeu de Souza,151 Eneida de

Morais,152 Astrogildo Pereira153 e outros.

O auge de 1942 imprime o modo agressivo como se avalia o movimento integralista, tantas vezes homenageado. O texto de seu diretor dá o tom da recepção contemporânea aos camisas verdes: “Guerra ao Integralismo”, em 'Momento Político',154 Wilson Lins. Associando os antigos partidários do Sigma à

149 SAUDAMOS OS EXÉRCITOS SOVIÉTICOS E O MARECHAL STALIN. O Imparcial, Salvador, p. 4, 10 nov. 1943.

150 JURANDIR, Dalcídio. John Dewey e a ridícula agressão do seu Tristão de Athaíde. O Imparcial, Salvador, p. 5, 13 jan. 1943.

151 SOUZA, Pompeu de. Os mortos não se revoltam. O Imparcial, Salvador, p. 3, 21 nov. 1943. 152 MORAIS, Eneida de. Dos dois lados ― métodos fascistas. O Imparcial, Salvador, p. 3, 20 março 1945.

153 PEREIRA, Astrogildo. Uma Carta. O Imparcial, Salvador, p. 3, 21 jun. 1945.

154 LINS, Wilson. Guerra ao Integralismo, em Momento Político. O Imparcial, Salvador, p. 3, 14 fev. 1942.

Gestapo alemã, a agressividade do articulista é posta à prova quando denuncia, em 24 de fevereiro, que o jornal é vítima de ameaças de empastelamento e de prisão do seu gerente. A verve jornalística e crítica do jovem cronista é movida por uma tradição de imprensa da Bahia e do Brasil: a polêmica.

A mudança de rumos traz de volta o antigo chefe político José Joaquim Seabra para os meios de comunicação de massa. Empenhado pela autonomia estadual, Seabra dá depoimento em O Imparcial, sobre o perigo do modelo político da Gestapo.155 A segunda versão do Movimento Autonomista baiano é uma síntese

política da primeira metade do século XX. Estão reunidos o vilão de 1912, J. J. Seabra, o odiado interventor da primeira revolução de Vargas e futuro governador, Juraci Magalhães, mais todos os combatentes ligados aos irmãos Octávio e João Mangabeira (deputados), Ernesto Simões Filho, fundador de A Tarde e, com eles, a imprensa local.

O ímpeto combativo de Wilson Lins decorre em prisão e processo, cujo final é bem sucedido. Em notícia de 9 de maio de 1942 (p. 4), é “Absolvido Jornalista Wilson Lins ― a sentença do Juiz Martins de Almeida”, demonstra-se que o jornal é cada vez mais aguerrido na sua comunidade, principalmente contra o Interventor Federal. Ironicamente, o processo e a sentença são expressivos do papel da imprensa e da recepção no momento em que se festeja o seu aniversário.156

fatos que estão ligados à sua existência, ainda que não sejam propositais, ou relacionados ao aniversário do combativo veículo. A homenagem a O Imparcial é revertida ao projeto político. Transformada em escrita, em gênero jornalístico ou literário, a vida é vítima da ficção.

Homero Pires157 inicia uma série de textos resenhando a biografia de Rui

155 J. J. SEABRA E UM LIVRO QUE ANALISA A GESTAPO. O Imparcial, Salvador, p. 8, 26 abril 1942.

156 MARGARIDO, Tristão. Soneto a Wilson Lins – no aniversário d’O Imparcial. Salvador, 9 maio 1942. Vida Social, p. 5.

157 PIRES, Homero. A vida de Rui Barbosa pelo sr. Luiz Viana Filho. O Imparcial, Salvador: I – 8 maio 1942, p. 7; II – 14 maio 1942, p. 5; III- 23 maio 1942, p. 5; IV- 04 jun. 1942, p. 5; V- 11 jun. 1942, p. 5; VI- 19 jun. 1942, p. 5; VII- 27 jun. 1942, p. 5; VIII- 4 jul. 1942, p. 5; IX- 9 jul. 1942, p. 5; X- 16 jul. 1942, p. 5; XI- 17 jul. 1942, p. 5; XII- 21 jul. 1942, p. 5; XIII- 23 jul. 1942, p. 5; XIV- 24 jul. 1942, p. 5; XV- 1 ago. 1942, p. 5; XVI- 4 ago. 1942, p. 5; XVII- 5 ago. 1942, p. 2; XVIII- 6 ago. 1942, p. 5. Do mesmo autor: Rui e O Papa e o Concílio. O Imparcial, Salvador: I- 11 ago. 1942, p. 5; II- 13 ago. 1942, p. 5. E: Rui e o Civilismo. O Imparcial, Salvador, 18 ago. 1942, p. 4.

Barbosa, no ensejo da publicação sobre o renomado tribuno, de autoria de outro político-intelectual ― Luiz Viana Filho. Pires é personagem importante na vida do jornal, porque, quando do afastamento do seu criador, é nomeado para o lugar de Lemos Brito em 1919. Por sua vez, Rui Barbosa é a força propulsora que incentiva e fornece matéria de inesgotáveis páginas no diário. A mudança de perfil político, de contexto cultural e ideológico nas instâncias mais amplas, nacional e internacional, não consegue demover certas preferências e idéias.

Uma delas é a figura de Rui Barbosa. Num contexto nacional em que vai perdendo pouco a pouco a sua força, devido à morte em 1923, e a nova cultura do século XX (Modernismo e Modernidade), o águia de Haia continua vibrando forte. Deputado cassado pela dissolução da Câmara Legislativa Nacional e praticando somente a advocacia em Salvador, Luiz Viana Filho transforma o trabalho de escrita da biografia A vida de Rui Barbosa em oportunidade de luta política. Em suas palavras, o livro sobre o mestre civilista é a plataforma destilada em outras palavras no jornal:

Eu entrei na biografia por uma porta falsa, porque a primeira biografia que eu fiz foi a do Rui e ela foi feita, justamente, em 38, mais ou menos, depois do Estado Novo; (...) eu me dava muito com o Baleeiro, andava muito na casa dele, que era no Cabula, e um dia ele sugeriu que eu fizesse uma biografia do Rui, que nós precisávamos fazer ressurgir a figura do Rui, do liberal, do jurista, que era a antítese do Estado Novo, a antítese de Getúlio. A minha idéia foi fazer o Rui com este objetivo, foi para difundir no país as idéias democráticas das quais, evidentemente, o Rui é o grande pioneiro no Brasil, a grande personalidade; [...].158

O jornal noticia um logro comercial cometido por um poeta famoso, mostrando mais isenção do que a esperada. Em “O poeta quis escrever uns versos... e o negociante perdeu a sua Underwood ― o sr. Alfredo Loureiro Maior ilaqueado na sua boa fé pelo poeta Leopoldo Braga.”159 A notícia dá conta de uma sociedade

comercial entre os dois senhores que acaba em livro publicado para um e prejuízo

158 VIANA FILHO, Luiz. Apud SILVA. 2000. p. 194.

159 O POETA QUIS ESCREVER UNS VERSOS... E O NEGOCIANTE PERDEU A SUA ‘UNDERWOOD’ – O SR. ALFREDO LOUREIRO MAIOR ILAQUEADO NA SUA BOA FÉ PELO POETA LEOPOLDO BRAGA. O Imparcial, Salvador, p. 8, 2 nov. 1943.

para o outro. Em certo sentido jocoso, o informe demonstra quais os meandros para se alcançar os êxitos do trabalho intelectual. As questões literárias são concluídas na delegacia, sem deixar de oferecer um retrato espontâneo do sistema que não antecipa poetas ladrões e prósperos empresários logrados. Se há uma desordem, essa tem endereço na literatura.

O real surpreende o reino da escrita. Tanto flagrante do sistema mesclado com a cotidianidade, como notícia irônica para o estudo da literatura, porque os assuntos das letras são tratados, normalmente, a partir de um distanciamento de superioridade. Por outro lado, atributo tão conhecido no século XIX, a malandragem, uma das faces da boemia literária, ainda tem muitas utilidades na sociedade regional. Disperso entre as pendências de literatos e o culto a intelectuais-políticos, o matutino debate-se em um mundo polêmico para sustentar um projeto: a defesa de visão de mundo perante a comunidade. Em algumas oportunidades, o projeto chama-se Rui Barbosa e em outros, democracia. O fato de ter abraçado a causa com toda a energia tem a correspondência no vigor com que eleva seus heróis e desanca os desafetos.