A literatura no jornal cumpre um papel imediato de auxiliar na transmissão de uma mensagem aos leitores diários das páginas grandes e frágeis do matutino. Se o matutino comunga de representações políticas, partidárias, seja de situação ou de oposição, todo o corpo impresso segue também esse programa estabelecido pelos dirigentes e editores. Mesmo retirados de contextos diferentes, os escritos literários ― poemas, folhetins, contos, crônicas, etc. ― estão articulados a demandas programadas pelos jornalistas políticos. Trata-se de uma literatura empenhada.
O empenho motivador da produção de literatura de jornal expressa especificidade em pelo menos dois conjuntos e seus desdobramentos: o que é
literatura de jornal e a que corpus e autores de literatura pode-se chegar através do jornal. Um dos escritores mais estimados durante a existência de O Imparcial é o maranhense Coelho Neto, que fixa no romance o susto, o estupor da prensa gravando a literatura de jornal. Ocupados pela árdua tarefa de preparar os escritos poéticos, corrigindo, muitas vezes reescrevendo versos que se consagram no futuro, os revisores/compositores ouvem e sentem as contrações vigorosas da máquina impressora logo ao lado.
Neto não descreve as contrações das marcas de civilização. De outro ângulo, ali vão sendo consumidos os talentos mal desenvolvidos junto com propaganda de reles vinhos e restaurantes de quinta categoria:
Já as primeiras páginas haviam descido para a clichagem. Em baixo, martelavam pancadas crebras, como de matracas. A caldeira reboava num retroar soturno de caverna que repercutisse, sem descontinuar, o gorgorejar possante de águas encachoeiradas.
Na sala da revisão, estreita e abafada, mal comportando as quatro mesas de serviço, os revisores repousavam; apenas o Brites, esgalgado e míope, lia o artigo de fundo, todo em períodos lamentosos, augurando fome e lutas; e o Amaro, conferente, acusando a pontuação, de quando em quando batia na mesa pancadas secas com um lápis ou dizia claramente uma palavra, repetindo-a devagar, sílaba a sílaba, enquanto o Brites, debruçado sobre a prova, fazia a emenda, resmungando.160
A representação da vida jornalística termina por retratar profissionais debilitados, soldos insuficientes, muito distantes de um retrato romântico do mundo das tribunas ou da cultura brasileira. Por outro lado, vislumbra-se ali uma porta de entrada para o exame da literatura que, não de propósito, é favorecida por escritor cujo sucesso, à época de exame d'O Imparcial, é indiscutível. Alguns dos seus romances (quase 100) são dedicados ao jornalismo como o citado Turbilhão e A
conquista. A valorização da imprensa no mundo ficcional posiciona o autor de Banzo, outrora na catástrofe do esquecimento, no foco das discussões sobre a
literatura na Pós-modernidade e nesse exame da literatura de jornal.
Os estágios culturais do Brasil estão desenhados de tal forma em sua obra que o trabalho na imprensa, na sua juventude, início da década de oitenta do século XIX, é o ponto de partida para a publicação em livro. Do jornalismo, o autor não se aparta, exatamente como Machado de Assis, até sua morte em 28 de novembro de 1934. Ao contrário, consagrado em livro, o que Octavio de Faria e Raimundo Menezes afirmam161 significar o monopólio da casa Chardron, editora portuguesa, o
autor volta-se para a imprensa, ficcionalizando-a. A vantagem do romance sobre o jornalismo é que ele, como área fora da perspectiva da literatura dita mais hegemônica, pode agora ser examinado como representação no espaço informativo: ― a literatura de jornal.
No texto “A estabilidade da noção de história da literatura no Brasil”,162 Luís
Costa Lima detecta um sério espaço vazio, muitas vezes “contornado” ou “recalcado”, no que tange a um conceito de literatura norteador da historiografia. Para Costa Lima, os historiadores buscam a especificidade da literatura no trabalho de constituição do Estado-nação, sem se preocupar em fortalecer os sentidos de sua ocupação propriamente dita. O autor de Dispersa demanda defende a exploração reflexiva dos objetos poesia e ficção para determinar o que é literatura. Ao que parece, a história da literatura atua, dando relevo no exame, ao envolvimento social da arte literária. Para ele, “a ênfase nas condições sociais que gerariam os traços nacionais vinha pelos menos desde Montesquieu e, ao longo do século XIX, só continuaria a crescer.”163
A partir das provocações de Costa Lima, vê-se a necessidade de configuração da literatura de forma a tornar a prática da história literária menos dissociada do seu objeto. Nisso, menos fragilizada quando argüida sobre o assunto
161 MENEZES, Raimundo. Dicionário literário brasileiro. 2. ed. São Paulo, 1978. p. 196-7; FARIA, Octávio de; GOMES, Eugênio. Coelho Neto e Lima Barreto. In: COUTINHO, Afrânio (org.). A
literatura no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: José Olympio/Itatiaia, 1985. p. 230.
162 LIMA, Luís Costa. A estabilidade da noção de história da literatura no Brasil. In: JOBIM, José Luís et alii (Orgs) Sentido dos lugares. Rio de Janeiro: ABRALIC, 2005. p. 52-58.
163 Id. Ibid., p. 55.
Isso significa dizer que a função social do escritor sobrepõe-se até mesmo ao que é, em si, a edificação de romances e poemas. Tal ação é tomada para si pela historiografia. Autores como Antonio Cândido e Silvio Romero compreendem a investigação sobre ficcionistas e poetas como trabalho teleológico e sociológico, respectivamente. Para eles, a significação do que é literário depende do seu encaixe com o projeto de Nação. Ou seja, vale mais, nessa classificação, se a produção literária contribui para o estabelecimento e fortalecimento do estado Brasil.
de ocupação; por vezes, mais voltado para o trabalho de fixação da identidade nacional. Afinal, caberia perguntar se a literatura teria uma existência em si ou se dependeria da tutela nacional. O estudo d'O Imparcial faz observar uma longa lista de críticos, folhetinistas, cronistas, romancistas, poetas chamados a uma tarefa, cuja expressão “órgão das classes conservadoras da Bahia” afirma tratar-se de uma colaboração buscando objetivos correlacionados: fazer literatura (atitude de escrita ficcional calçada no empenho estético) e lutar por uma causa.
A pena, enquanto encanta, entoa o último bordão civilista de Rui Barbosa, combate as intervenções de Epitácio Pessoa, Artur Bernardes e Getúlio Vargas, engrandece e escarnece, a depender da data, Plínio Salgado, Luís Carlos Prestes, Vargas, Hitler, Mussolini, Stalin e Franco. A impertinência crítica de Costa Lima confronta o que se toma como óbvio (a literatura) com a sua especificidade, tida por ele, ao reler o teórico e historiador alemão F. Schlegel, como fraca e imprecisa. Se tal provocação atinge diretamente o que se tem feito com o nome de literatura, o olhar derreado sobre a atividade de jornais amplia a desconfiança crítica.
Nos vespertinos, a literatura é feita em parceria com as posturas políticas: a representação da violência é realizada a partir de cores nas quais estão como vilões, os detentores do poder instituído ou usurpado. Basta proferir sem ressentimento, mas como aviso, que a transposição para o formato consagrado e hegemônico do livro faz desaparecer este “calor da hora”. O hábito comum de tratar de literatura no jornal não costuma considerar o mérito do literário, como também a mescla com a política será questionada naquele meio (Eugênio Gomes tem um texto sobre política e literatura em O Imparcial). A tentação pela pureza no estudo dos discursos da literatura ou da política corre o risco de corromper ou distorcer a identidade da atividade em jornal.164
A reflexão sobre as áreas de literatura e política ainda não está fixada totalmente no momento em que as duas práticas são chamadas a atuar na imprensa. Isto facilita o trabalho de localização e identidade da literatura de jornal. As histórias da literatura e os estudos políticos aparecem pouco tempo depois que
164 Não necessito incorrer nos desdobramentos teóricos desencadeados por críticos como Silviano Santiago, Stuart Hall e Homi Bhabha, a respeito dos prejuízos com a insistência na defesa da pureza.
as práticas da literatura de jornal se estabelecem, pelas necessidades de formação da identidade nacional. Há nos estudos historiográficos a desconfiança da importância dessa literatura. Paulo Silva, no seu livro sobre os intelectuais baianos de 1930 a 1949, constrói uma afirmação acabada sobre a questão:
Descendentes de proprietários rurais ou de segmentos urbanos bem situados no aparelho de Estado (promotorias públicas, magistério superior, magistratura) ou na iniciativa privada, os intelectuais baianos eram também integrantes das classes dirigentes; não constituem um subgrupo destas, para dizer melhor, era a própria classe dirigente na dupla tarefa de se
dedicar às letras e à atividade política; eram engajados, mas a favor de si
mesmos, ao contrário do que se propunha a fazer o intelectual 'pequeno burguês', modelo cuja presença verificou-se no Brasil dos anos 1950 e 1960. Foram homens ligados a partidos, facções ou grupos com acesso a postos dirigentes. Em sua grande maioria foram bacharéis em Direito, ocuparam funções no magistério secundário e superior; participaram dos debates políticos do período, influenciando na formação de opiniões; tomaram parte em entidades e instituições culturais públicas e privadas. Foram no sentido estrito do termo, políticos, mas foram também intelectuais, 'homens de letras e pensamento'. Escreviam e publicaram
trabalhos na imprensa diária, em revistas ou em forma de livros – romances, ensaios, discursos, 'polêmicas'.165
A longa citação de Silva nos é extraordinariamente útil pelo contorno que descreve do sistema político-intelectual baiano, embora confira adjetivos só combináveis ao corpus que analisa. O historiador baiano examina o Movimento Autonomista, aliança de oposição a Getúlio Vargas, de 1930 a 1949. A sua pesquisa, que culmina em tese de doutoramento, na Universidade do Estado de São Paulo, examina o papel de três historiadores e intelectuais do movimento: José Wanderley Pinho, Nestor Duarte Guimarães e Luiz Viana Filho. Todos são profissionais das letras engajados em tarefa política conservadora.
De fato, as letras são utilizadas com aquele perfil, fato condenado pelo historiador, cuja ação é miniatura de comportamento nacional e internacional. Sendo assim, deve-se explicitar a não-exceção política e intelectual na Bahia. Além da época tratada, os protagonistas da pesquisa têm sua produtividade social, intelectual e literária relacionada a O Imparcial. Paulo Silva destaca de onde saem os
165 SILVA, Paulo Santos. Introdução. In: ______. Âncoras de tradição: luta política, intelectuais e construção do discurso histórico na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2000. p. 17. (grifos meus).
“romances, ensaios, discursos, 'polêmicas'”, e seus produtores. Eles são provindos de elites prejudicadas pelos governos autoritários do período. Justifica o trabalho encontrar entrelaçados ficcionistas e políticos, mesmo que não seja, como discuti anteriormente, uma novidade na cultura brasileira.
Uma das vantagens do estudo de Santos Silva, e de outros pesquisadores das Ciências Sociais, é buscar a imprensa como um espaço de atuação. O subtítulo de seu livro denuncia o papel intelectual como trabalho dinâmico e aguerrido: “Luta política e construção do discurso histórico na Bahia”. Enquanto a ligação entre a vida e a obra livresca precisa de um discurso ensaístico que a intermedeie, a literatura de jornal está deflagrada pela realidade, na forma de resposta à brutalidade daqueles anos (não importando de/para quem ela seja direcionada, por exemplo). No jornal, as idéias que muitas vezes transformam-se em livro e em manual (correndo o risco da nomeação sobrenatural de gênio) são combatidas, louvadas, recicladas: o sentido de mudança e de dialética está presente. O Plínio Salgado herói dos anos 1930 transforma-se no vilão dos 1940.
Apesar de diferenças lúcidas como as palavras de Roland Barthes, em Aula, sobre a literatura comportar todos os conhecimentos, ainda não se consegue deslocar a tentação de encontrar a palavra literária no seu próprio campo, diferenciada dos outros, como disse anteriormente, pura. A literatura de jornal, atuando como memória de combates culturais, deve reforçar o trabalho de conservação dos periódicos e jornais porque neles pode existir um gênero de literatura, como defendem Alceu Amoroso Lima, Antônio Olinto e Barbosa Lima Sobrinho (desautorizando André Gide).