82
80 DOLORES, Maria. Ai de mim... O Imparcial, Salvador, 17 mar. 1929. 'Coluna Feminina', p. 3; Felicidade não conhece o amor! e Esperando. 24 mar. 1929, p. 3; A Páscoa do meu sonho – cântico à minha terra. 31 mar. 1929, p. 3; Muito tarde. 07 abril 1929, p. 3; Ânsia de viver... 14 abril 1929, p. 3; Eu sei que não virás... 28 abril 1929, p. 3; Eu sei que não virás. 30 abril 1929, p. 3; Minha aldeia querida. 12 maio 1929, p. 3; A casa da farinha. 16 jun. 1929, p. 3; S. João... 23 jun. 1929, p. 3; O lobo esfomeado. 30 jun. 1929, p. 3; Transfiguração. 7 jul. 1929, p. 3; A hora do adormecer. 13 jul. 1929, p. 3. O prestígio da colaboradora de Página Feminina é demonstrado pelo texto “Mãos Trágicas, em carta apresentando a um dos redatores da Revista Fon-Fon a poetisa D. Maria Dolores”, de 29 jul. 1929, p. 1. A continuação da “Coluna Feminina” apresenta textos de Maria Dolores: Mãos Trágicas. 31 jul. 1929, p. 5; Mãos Divinas. 4 ago. 1929, p. 5; Símbolo. 11 ago. 1929, p. 3, a Lafayete Guimarães; A alegria de viver. 25 ago. 1929, p. 3; Quando o dia morre. 8 set. 1929, p. 3; Orgia de luar. 15 set. 1929, p. 1; A Rendeira. 1 out. 1929, p. 5; O caminho da vida. 6 out. 1929, p. 3; Em silêncio ... Na penumbra. 20 out. 1929, p. 3; Como eu desejo morrer. 1 dez. 1929, p. 3; Carta a Papai Noel. 25 dez. 1929, p. 3.
81 O Imparcial, Salvador, 19 dez. 1940. 'Página Feminina e Cinematográfica', p. 5. 82 O Imparcial, Salvador, 21 out. 1933.'Livros e Autores', p. 2.
A partir de 20 de setembro de 1933, o jornal ganha um grupo de colunas, uma para cada dia da semana, sempre na mesma página: ‘A Prosa das Quartas’ (contos e fragmentos de narrativas); ‘Notas de Arte’ (às quintas-feiras), na página 2: ‘Pintura Baiana’, de Floriano Mendonça; ‘De Além-Mar’ (p. 2): “Poetas que não vingam”, artigo de Mario Portocarrero; sábado: ‘Livros e Autores’ (p. 2), artigo de Quixadá Felício; e domingo: ‘Letras Femininas’ (p. 2), na qual continuam os poemas de Maria Dolores. Os autores dos textos das colunas não são fixos e ocorre de Quixadá Felício colaborar em ‘Livros e Autores’, numa semana, e imprimir artigo em ‘Notas de Arte’ na outra.
3.3.10 ‘Pela Ordem’, a força do artigo de fundo
83
A nova organização do jornal ocasiona o surgimento de colunas, como ‘Pela Ordem...’, impreterivelmente na quarta página. Criada pelo jovem ensaísta baiano Afrânio Coutinho, publica-se nela o artigo de fundo, sendo colaboradores os prestigiados críticos do calibre de Bastos Tigre, Monteiro Lobato, Alceu Amoroso Lima, A. Alexandre Machado, Afrânio Coutinho, o conde Afonso Celso, sua filha Maria Eugênia Celso, Alberto Guerreiro Ramos, o padre Assis Memória. Uma característica da coluna dirigida por Coutinho é ser publicada na íntegra naquela página, sem continuar em outra. Faz parte da rotina do jornal um texto começar na primeira página e ser concluído na quinta ou sétima, quando não passa para a edição do outro dia.
Tanto na escolha e defesa de uma ordem para o País como nas palavras
pela ordem ― com o tradicional gesto da mão esquerda espalmada horizontalmente,
em frente ao peito, e a direita, na vertical, tocando o centro da palma, usada em reuniões conturbadas ―, o nome privilegia textos reflexivos a respeito da religião, da política cultural e partidária, da filosofia, do sistema de governo, sobre a identidade brasileira e a ordem mundial. O criador da coluna escreve textos sobre a noção pessoal de cristandade, abordando o que considera deturpações espirituais e até atraindo celeumas com as ordens religiosas da Bahia. A literatura também é discutida, com todos os aspectos do entorno literário: mercado editor, tradução, textos para crianças, movimentos na Europa e no Brasil, o ensino, a invasão das publicações estrangeiras e outros.
A mudança de diretores e o longo percurso de tempo permitem acontecimentos curiosos. Em 30 de novembro de 1935, aparece mais um texto de Heitor Moniz, em ‘Pela Ordem....’. O lugar de destaque do periódico é oferecido ao filho de Antonio Moniz, o governador da Bahia (1916-1920), rechaçado por Lemos Brito. O signo do combate que sempre caracteriza as páginas, desde o primeiro dia até 'Pela Ordem...', porta também a convivência da contradição, só percebida pela atenção à cotidianidade da cultura no jornal, em fluxo temporal: o ser que aparece aberto afronta as noções de coerência que praticamos. À medida que protegemos os códigos de coerência, encobrimos o ser.
3.3.11 ‘Vida Social’, a crônica conta histórias
84
Na estrutura do periódico, a coluna ‘Vida Social’, que substitui a antiga e bem- sucedida ‘Crônica Social’, tem seu melhor momento com os textos dos colaboradores: Tetrá de Teffé, o conde Afonso Celso, João Paraguaçu ou Paraguassu (M. Paulo Filho), Ulpi, Quixadá Felício, Sílvia Patricia, Nini Miranda (talvez a diretora), Raul Azevedo, Dermival Costalima, Bayard, Heitor Moniz. Num formato duplamente perceptível a estudo, os textos impressos na seção oscilam entre uma escrita ficcional e a crítica dos acontecimentos culturais e literários do presente e do passado.85 Os autores discutem constantemente sobre os feitos da
84 O Imparcial, Salvador, 15 ago. 1937. 'Vida Social', p. 6.
85 TEFFÉ, Tetrá de. Crepúsculo ... de autores. O Imparcial, Salvador, 3 jul. 1936. 'Vida Social', p. 2; ULPI. Tempos modernos. 4 jul. 1936, p. 2; TEFFÉ, Tetrá de. O jornalista. 14 jul. 1936, p. 2; ANTONIO, Marco. O naufrágio dos poetas. 16 jul. 1936, p. 2; AZEVEDO, Raul. Livros dos outros. 11 ago. 1936, p. 2; MONIZ, Heitor. Um romancista do norte. 3 set. 1936, p. 2; PATRÍCIA, Silvia. Stefan Zweig, o grande idealista. 5 set. 1936, p. 2; PARAGUAÇU, João. Fioravanti. 7 set. 1936, p. 7; MONIZ,
literatura local.
‘Vida Social’ mantém vigor ao longo dos anos de existência (é publicada até o término do jornal), principalmente pelos textos enviados do Rio de Janeiro, por M. Paulo Filho, sob o pseudônimo de João Paraguaçu, que publica até 1943. Ele também produz artigos com seu nome próprio, como em “Macumbeiros”,86
resenha de um livro de Cláudio Souza. E com o famoso pseudônimo cronístico, em ‘Vida Social’, realiza uma série de textos sobre grandes homens do passado, entre eles, Rui Barbosa.87 A lembrança de Rui, nas crônicas históricas, objetiva manter uma
memória pessoal e uma visão de mundo política ainda vivas.
Falecido em 1923, Rui permanece através de sua memória, às portas da década de 1940. Uma versão de Brasil marcado pela oratória como símbolo civilizado e o apego à tradição ainda mais antiga, que vem do século XIX, tentam sobreviver. Os opositores a essa ideologia, ancorada na reminiscência dos feitos políticos e diplomáticos do tribuno, desejam novos rumos. Tais renovadores, mais aproximados da configuração de República do que tomam consciência (as bases de violência ainda não tinham sido abandonadas), propõem um novo modelo de intelectual, mais ligado às esquerdas e cada vez menos saído das cátedras dos bacharéis.
Heitor. O João Caetano de Lafayete Silva. 16 nov. 1936, p. 2; TEFFÉ, Tetrá de. O último romance de Duvernois. 7 jan. 1937, p. 2; PARAGUAÇU, João. Casimiro e outros. 13 jan. 1937, p. 2; R. A. Há dez anos passados... 14 jan. 1937, p. 2; VILLELA, Iracema Guimarães. Trovadores de outrora. 15 jan. 1937, p. 2.
86 PAULO FILHO, M. Macumbeiros. O Imparcial, Salvador, p. 6, 30 dez. 1936.
87 PARAGUAÇU, João: Rui e o príncipe dos poetas. O Imparcial, Salvador, 2 fev. 1937. 'Vida Social', p. 2; Rui no Colégio Abílio. 28 maio 1937, p. 6; Rui e o piano. 5 ago. 1937, p. 6; Gounod em casa de Rui. 9 ago. 1937, p. 2; Rui e Azevedo. 6 jan. 1938, p. 7; Rui e De Martens. 21 jan. 1938, p. 7; Rui no Senado. 27 jan. 1938, p. 7; Rui na Academia. 25 fev. 1938, p. 7; Rui e a Academia. 9 abr. 1938, p. 7; Rui e Hermes. 6 out. 1938, p. 7; Rui glorificado. 9 nov. 1938, p. 7; Rui no Provisório. 29 abril 1939, p. 7; Rui e Pinheiro. 3 maio 1939, p. 7; Rui e os Caxinanás. 4 maio 1939, p. 7; Berlios em casa de Rui. 27 set. 1939, p. 7; Rui e o positivismo. 11 out. 1939, p. 7; Rui e as crianças. 4 nov. 1939, p. 7; Rui e Assis Brasil. 14 dez. 1939, p. 7; Rui e Anatole France. 15 jul. 1941, p. 2; Alcindo e Rui. 1 maio 1942, p. 5; O jubileu de Rui. 30 maio 1942, p. 5; Rui e Seabra. 2 dez. 1942, p. 3; PAULO FILHO, M. Os livros de Rui. O Imparcial, Salvador, 26 jun. 1938. 'Pela Ordem...', p. 4.
3.3.12 ‘Crônicas do Rio’
88
É criada também a seção 'Crônicas do Rio', a partir do texto “Letras Baianas”,89 que tem Nelson de Souza Carneiro como redator e que escreve crítica e
crônica de maneira esparsa nos anos anteriores. A seção realiza uma crônica política, legislativa e assuntos da capital federal de interesse do povo baiano. Logo de início, Souza Carneiro dá destaque ao poeta Aloysio de Carvalho: “O dia de Lulu Parola,”90 praticante famoso em um dos gêneros mais populares do jornal. O
epigrama liga-se ao repente de poetas como Muniz Barreto, e ao poema jocoso e erótico de que dois expoentes são Gregório de Matos e Laurindo Rabelo. Regularmente, os poemas de Lulu Parola aparecem, n'O Imparcial, em sua coluna 'Salão dos Humoristas'.
Nas 'Crônicas do Rio', de 16 de março de 1938, Nelson de Souza Carneiro
88 O Imparcial, Salvador, 8 jan. 1937. 'Crônicas do Rio', p. 5.
89 CARNEIRO, Nelson de Souza. Letras Baianas. O Imparcial, Salvador, 10 fev. 1935. 'Crônicas do Rio', p. 3.
aborda o cânone literário da Bahia de então e seu frágil sistema desencadeador. Em “Bahia ignorada...” o cronista confessa pouco saber sobre o governo, assunto que lhe cabe por se ocupar de política e pela atuação jornalística. O futuro autor da “Lei do Divórcio” apresenta os autores baianos mais destacados e menos conhecidos fora das cercanias estaduais:
Hei, entretanto, de me dirigir aos responsáveis, no momento, pelos destinos dessa grande e desventurada terra, renovando o velho apelo em favor de nossas tradições intelectuais e culturais, que se amofinam por aí e por aqui quase inteiramente se desconhecem. Com efeito. Dos valores baianos, que ainda residem na Bahia, poucos transpuseram as muralhas em que tantos outros se encarceraram.91
O fator da permanência na Bahia continua crucial para muitos dos que pretendem produzir literatura. Para o cronista, a gravidade é dupla: (1) pelo amofinar das tradições pouco incentivadas aqui e, por isso, (2) desconhecidas de outras regiões, principalmente, da capital, de onde fala Nelson Carneiro. Para um cronista que tem como foco de análise e de escrita a passagem dessa cultura e seus diversos trânsitos, a terra baiana afigura-se como uma “muralha” de árdua ultrapassagem para os escritores conterrâneos. Ele dimensiona os intelectuais dignos de lembrança: “Nestor Duarte, Luiz Viana, Edison Carneiro, João Cordeiro, Clovis Amorim, sem falar, é bem de ver, em Xavier Marques e Carlos Chiacchio.” Na busca de uma saída para o impasse da literatura e da cultura baiana “amofinadas”, o cronista observa a importância das instituições culturais:
Volto à necessidade de se confiar à Academia de Letras, movimentada com o acesso de valores da moderna geração, a tarefa de incentivar as boas letras e o estudo da língua nacional, apara de uma campanha melhor orientada das expressões atuais ― da Bahia. Necessário, para isso, seria assegurar à instituição uma sede condigna, datá-la de verba para atender aos serviços de sua secretaria, à distribuição anual de prêmios, à divulgação do órgão oficial.92
91 CARNEIRO, Nelson de Souza. Bahia ignorada. O Imparcial, Salvador, 16 mar. 1938. 'Crônicas do Rio', p. 3.
Interligada ao modelo administrativo e ao gerenciamento das verbas públicas, a Academia de Letras da Bahia sofre de mesmo sintoma que as instituições culturais. Nelson Carneiro sugere o amparo, pelo poder público, através de lei cultural com verba específica, para a qual redige uma minuta no decorrer do texto, a fim de incentivar a produção literária e a divulgação cultural.
Alguns dias depois, 'Crônicas do Rio' publica outro texto sobre a literatura. De fato, não se trata de uma seção de crítica literária, mas o espaço oferecido aos movimentos e a produtos das letras, pelo articulista, tem outro objetivo. Ali, elas estão com um sentido de cultura e de utilidade coletiva. O sistema literário é a tônica da abordagem, apesar de o fato ocorrer sem ser detectado. Eis um assunto para especialistas, mesmo que não sejam eles os principais atores do processo ― legislar é encargo de políticos e bacharéis. Entretanto, sem a presença do estudioso, os temas são sempre tratados como bem inédito e nascido da generosidade. O intelectual tem um papel na sociedade e dele não pode escapar. Em “ALA...”93,
Nelson Carneiro anuncia e avalia os movimentos de literatura dos últimos anos:
Quatro grandes movimentos literários agitaram, nesses últimos anos, a velha terra distante.
O primeiro, sem dúvida, o mais eloqüente foi da Nova Cruzada. Dos que dirigiram poucos ainda vivem. Raros, entretanto, entre esses, mantêm crepitante a chama sagrada, que lhes iluminou os espíritos, Carlos Chiacchio é desses abnegados servidores das boas letras.
Sob sua direção, surgiu, não há muito, Arco & Flexa.
Era a poesia moderna. A prosa sem derrames. A idéia exposta com a frieza de um anatomista que rasga com o bisturi afiado um cadáver.94
O movimento Arco & Flexa, explica o cronista, nasce nas bancas dos cafés, vive nelas e nelas sucumbe. Contudo, os seus frutos conseguem romper o que ele chama de “muralhas chinesas que separam São Salvador do resto do país.” Novamente aparece o gosto pela lista de autores, que, assim, se vão divulgando:
93 CARNEIRO, Nelson de Souza. Ala... O Imparcial, Salvador, 20 mar. 1938. 'Crônicas do Rio', p. 3. 94 Id. Ibid., p. 3.
Apareciam então novos valores. Hélio Simões, que abandonava meio místico os bancos do Colégio Antonio Vieira, surgia de improviso. Lafaiete Spínola, Carvalho Filho e Pinto de Aguiar faziam versos. Ramayana [de Chevalier] discursava. Os trabalhos de Eugênio Gomes mereciam já, então, como ainda hoje, referências especiais.95
A necessidade do incentivador, aquele que vai atrás dos talentos, reforça os convites e provoca a sociedade geral e a artística em particular, é característica da cultura literária. É como se os talentos estivessem adormecidos à espera de alguém que os despertasse. Assim, corre-se o risco de que a literatura esteja concentrada nas mãos dos mestres e dos orientadores. Se Carlos Chiacchio personifica essa figura, ele não está sozinho na constelação de criadores e organizadores culturais. Segundo Nelson de Souza, outro nome rival é Pinheiro Viegas:
Aquele demônio do Pinheiro Viegas coordenou o terceiro movimento literário que a Bahia assistiu nos últimos anos. O movimento foi como ele mesmo, amargo. De constante revolta. De permanente insatisfação. Confinou-se, por isso, à Academia dos Rebeldes. Daquele grupo, poucos os que não triunfaram ainda, os que não têm o pé na estrada da vitória. Basta referir-lhes alguns nomes, com indiscutida projeção nacional: ― Jorge Amado, Edison Carneiro, Dias da Costa, João Cordeiro, Alves Ribeiro, Clovis Amorim, Sosígenes Costa.96
A Academia dos Rebeldes é movimento que, tentando uma diferenciação das iniciativas lideradas por Carlos Chiacchio, busca uma crítica mais contundente. Para os Rebeldes, Arco & Flexa está imbuída dos valores da elite e tem vínculos com a Academia de Letras da Bahia, então, para diferenciar, os pupilos de Viegas desejam ser a alternativa mais popular. Sua rebeldia faz com que também repudie o modelo de Modernismo vindo de São Paulo. Por isso, estudam a cultura popular e religião negra, de que se utilizam seus dois maiores expoentes ali citados: Jorge Amado e Edison Carneiro. O outro movimento, de menor êxito, Academia dos Moços, que é dirigida por Bulcão Junior e Hélio Sodré, também motiva registro por Carneiro:
95 CARNEIRO, p. 3, 20 mar. 1938. 96 Id. Ibid., p. 3.
Depois de vários anos de apatia, de quase total indiferença quando se foram estiolando muitas promissoras capacidades intelectuais, vencidas pelas preterições ou pelas violências, desviadas ainda para sectores diversos, novo movimento literário, chegam-me rumores, aí se registra e, à sua frente, reponta esse gorducho Carlos Chiacchio, beneditino incansável das letras baianas.97
O jornal informa, em texto anterior, a iniciativa da referida Academia dos
Moços,98
sob a presidência de Xavier Marques, que é tratado como “nosso antigo confrade e escritor regionalista”. Os escritores presentes à solenidade são: o orador Hélio Sodré, “um dos fundadores do novo grêmio”, Otto Bittencourt e o poeta Pereira Reis.
Carneiro ilustra um dos pontos que venho discutindo: o forte vínculo entre literatura e violência. Em seu exame, muitos talentos promissores são calados pelo uso cotidiano de ataques corporais e morais, além dos métodos de inclusão nos parcos meios difusores da literatura. Pelo que avalia, nisso acerta o cronista, é preciso constatar a falta ou apatia dos meios literários, mas também há de se analisar conscienciosamente os meios pelos quais se intercepta o surgimento e se divulga a literatura. É como se estivéssemos refletindo sobre um anti-sistema literário, tão poderoso quanto o sistema em si e em luta com esse para que a literatura tome corpo de modo peculiar.
Em matéria de estudo regular de obras consagradas, a procura dos aspectos de entorno, como a vida do autor, o valor do trabalho das letras e o modo como se escolariza os textos, são posicionados em plano menos importante. Isto porque as questões de incentivo, mercado e autoria explicam um produto existente e visível; dificilmente passa dessa contingência. O anti-sistema, por sua vez, protagonista desse conceito de literatura, torna imprescindíveis o destaque e o aprofundamento daqueles elementos formadores do literário, para que se veja a literatura, além do livro, como ação literária. Tratado tradicionalmente como insuficiente, o sistema depende da flutuação de seus aspectos para perceber sua identidade.
97 CARNEIRO, p. 3, 20 mar. 1938.
98 ACADEMIA LITERÁRIA DOS MOÇOS ― A SESSÃO INAUGURAL, ONTEM NO SALÃO NOBRE DA PREFEITURA. O Imparcial, Salvador, p. 2, 2 out. 1931.
Privilégio de poucos, o letramento é motivo de exílios, prisões, violências e assassinatos, principalmente em país com a organização do Brasil, no período. Na Bahia, a letra, arregimentada nos órgãos de imprensa, toma seu lugar decisivo na luta política, seja literária ou intelectual:
Ala das Letras e das Artes ― leio num magnífico comentário de Dermival
Costa Lima, esse encantador cronista de nossa cidade, no O Imparcial, de ontem ― é a ação.
E das Edições Ala já está entregue ao público o segundo volume. Um livro de versos de Chiacchio: ― Infância.
Dermival teve a lembrança de transcrever alguns desses versos. Antes isso. É o consolo dos que não esperam encontrar, nas livrarias cariocas, esse caderno amável de recordações.99
O movimento de Ala, acumulada a experiência dos registros anteriores, vem mais aprimorado e mais forte. Além da constituição do grupo, com componentes da capital e do interior, Chiacchio inova criando as Edições de Ala. Ele tem a consciência desde os debates de 1931, organizados por Maria Dolores, de que não ser provido de editoras pune a literatura local com o mutismo involuntário e depreciativo. Está correto Chiacchio, não havendo por onde veicular as produções,
Ala também providencia edição de obra ou coletâneas.
Não permitindo que sua crônica fique apenas na resenha, Carneiro retorna ao foco principal: que a cobrança dos órgãos gestores não se tome da apatia a que se condena a Bahia na avaliação crítica:
Indispensável, entretanto, que os poderes públicos auxiliem indiretamente, os movimentos intelectuais que agitam, como o da Ala, a velha província, de modo a que possam mais facilmente transpor as lindes estaduais e se projetar, com a força de suas revelações e a beleza de seus inesperados, no panorama intelectual do Brasil.100
99 CARNEIRO. p. 3, 20 mar. 1938. 100 Id. Ibid., p. 3.
Os textos de Nelson de Souza Carneiro compõem o grande quadro literário que o jornal vem construindo sobre a cultura e a literatura. Inseridos a Academia de Letras e os órgãos oficiais patrocinadores, provindos da prefeitura de Salvador e do governo estadual, formam-se as condições ideais para constituir a literatura baiana. O ponto atacado nas 'Crônicas do Rio' não perde de vista vínculos político- administrativos, de que o jornal é o divulgador, com a cultura local. A partir da tomada de consciência (cura) desse intricado cordame que constitui a cultura, é possível refletir sobre o literário enriquecido desde quando amplie seus conceitos sobre literatura. No seu elenco de agremiações, o cronista deixa de registrar o
Grupo da Baixinha, que realiza uma famosa revista: Samba101 (1928).
O efeito institucional e político de 'Crônicas do Rio’ é sentido quando o governo de Vargas aceita subvencionar anualmente os órgãos oficiais de cultura, os quais podem continuar suas publicações na década da II Grande Guerra. Pela seção, é possível que o ser mostre-se através da legislação da literatura.
101 O Grupo [da Baixinha] é responsável pelo lançamento da revista SAMBA que marca época e presença na história da vida literária baiana dos anos vinte do século passado. Graças ao Conselho de Cultura do Estado da Bahia recentemente sai publicada uma edição facsimilada da mesma. A revista mensal Samba é a primeira de feição modernista a ser editada na Bahia, sendo, portanto, precursora da revista Arco & Flexa, liderada pelo poeta e crítico Carlos Chiacchio. Segundo depoimento de Nonato Marques, no livro A poesia era uma festa, 'Samba era uma revista modesta composta em papel jornal. Foram publicados apenas quatro números. A revista teve vida efêmera como os cometas, porém, mesmo assim, deixou um traço luminoso na história da vida literária'. Sérgio Mattos. NONATO MARQUES, O POETA DA BAIXINHA.