O jornalista e jurista José Miguel de Lemos Brito funda o jornal em 4 de maio de 1918. A sua pequena gestão de quase dois anos tem como marcas mais evidentes a campanha de apoio a Rui Barbosa a presidente da República e a governador da Bahia. Em assembléia de acionistas, noticiada pelo periódico a 19 de agosto de 1919, Brito informa decisão definitiva de afastamento do cargo de diretor do jornal. Indica o nome de outro jornalista do seu grupo político, Homero Pires, para ocupar o lugar de redator-chefe. Pires, que também trabalha na Imprensa Oficial da Bahia, permanece à frente do noticiário do comércio até 1929.
A importante passagem para a década de 1930 põe à prova a capacidade de permanência do diário. Alguns outros influentes e longevos órgãos de imprensa
baianos não suportam a força do governo Vargas. O mais antigo jornal da região, O
Diário da Bahia, sucumbe nessa época. Imparcial anuncia, em 27 de novembro de
1929, nova gerência com Everaldo da Cunha e a permanência do diretor-chefe, Manuel Vaz. Em 1930, não há mais a identificação “Órgão das Classes Conservadoras da Bahia”, abaixo do nome da folha. O governo federal, reagindo à forte resistência impetrada em suas páginas, obriga a parada das prensas.
Após sete meses de ausência, o jornal surge com graves modificações: a) na parte superior da primeira página, é mantido o ano XII; b) no dia 8 de março de 1931, portanto, é indicado o n. 1 da gestão que tem Mário Monteiro como Diretor- redator-chefe e Diretor-gerente Mário Simões. A proprietária do jornal denomina-se Cia. Editora e Gráfica da Bahia;56 c) e no lugar outrora ocupado por “Órgão das
Classes Conservadoras da Bahia” inscreve-se “Matutino noticioso e independente”. Mário Simões faz parte, como atesta Honestilio Coutinho, da imprensa oficial do estado, em 1923.57
A Bahia faz parte da oposição ao golpe de 1930, portanto, sofrendo imposições, prisões, “empastelamentos” e exílios. W. Moraes explica o ambiente de alta periculosidade para os jornalistas no início da Revolução de 30:
As primeiras prisões verificadas em Salvador foram dos jornalistas Cosme de Farias, Joel Presídio e Alfredo Lopes, e em Lençóis, do jornalista Franklin de Queiroz, Redator-Chefe de O Sertão e antigo secretário daquele famoso Batalhão Patriótico que perseguiu a Coluna Prestes até a Bolívia. O fato ocorre no dia 4 de outubro, na mesma data em que se verifica a depredação de A Tarde, e no dia 6 já a ABI se põe em campo no sentido de obter, junto às autoridades, a libertação dos confrades presos, formando ainda uma declaração de protesto em termos de solidariedade ao vespertino da Praça Castro Alves. Seguem-se as prisões de Octávio de Carvalho, Diretor interino do Diário da Bahia e de Mário Monteiro, diretor
de O Imparcial, com a conseqüente suspensão do aguerrido matutino.
A censura estabelecida pelo capitão Eurípedes Lima, Secretário da
56 Segundo Laís Mônica Reis Ferreira, “desde a sua fundação, o jornal teve vários proprietários até que em 1933 passou às mãos da Companhia Editora e Gráfica da Bahia de propriedade do industrial e político baiano Álvaro Martins Catarino.” FERREIRA, Laís Mônica Reis. O Integralismo na Imprensa da Bahia: o caso de O Imparcial. Revista de História Regional. Ponta Grossa - PR, n. 11, p. 53, Verão 2006.
57 COUTINHO, Honestílio. Imprensa Oficial do Estado. In: TAVARES, Luís Guilherme Pontes (Org.).
Apontamentos para a história da imprensa na Bahia. Salvador: Academia de Letras da Bahia e
Segurança Pública, atribui ao delegado de polícia de plantão a missão de proceder à verificação de toda a matéria a ser publicada, diariamente, nos jornais, punindo com a pena de prisão os transgressores.58
Durante a campanha para a Constituinte de 1933, em 4 de maio, novamente muda a situação jurídica e administrativa do diário. Na parte superior da primeira página, temos: Gerente: José Dias de Carvalho; Propriedade de uma sociedade anônima; Redator-chefe: Laudemiro Menezes. Mais uma vez, fica sem funcionar por uma semana (2 a 9 de julho de 1933), em virtude de um atentado e empastelamento, conforme notícia de 9 de julho de 1933, p. 1. Inaugurando um dos movimentos mais efervescentes do jornal, Guilherme de Almeida59 profere defesa do
integralismo, a ideologia dos diretores e jornalistas.
A reflexão paciente da cotidianidade expressiva do matutino, um contraponto àquela cisma de versos sobre o mar, faz ver que as opiniões sobre os indivíduos públicos é tão cambiante quanto os signos lingüísticos. Um exemplo impresso em tipos garrafais e retratos distorcidos é Luís Carlos Prestes; anteriormente simpático “Cavaleiro da Esperança”, transforma-se no vilão comunista, ao mesmo tempo em que ganha força o movimento liderado por Plínio Salgado.
O jornalista Victor Hugo Aranha, um dos chefes da Ação Integralista Brasileira regional, torna-se proprietário da folha. Contudo, Laudemiro Menezes continua na direção. Desaparecendo a propriedade da Editora e Gráfica da Bahia, em seu lugar, escreve-se “Matutino Independente”. Com a direção de V. Hugo Aranha, torna-se definitivamente “camisa verde”, com generosos destaques aos textos de Plínio Salgado.60 No mês de outubro de 1939, tem como diretor-geral Álvaro M. Catarino, o
58 MORAES, 1997, p. 185. grifo nosso.
59 ALMEIDA, Guilherme de. Defesa do integralismo. O Imparcial, Salvador, p. 5, 5 ago. 1933.
60 SALGADO, Plínio. O Jacaré e o Tapuia. O Imparcial, Salvador, 28 fev. 1937. Pela Ordem..., p. 4; Recordações. O Imparcial, Salvador, 3 mar. 1937. Pela Ordem..., p. 4; O lobo com a pele de ovelha.
O Imparcial, Salvador, 12 mar. 1937. Pela Ordem..., p. 4; Carta a Castro Alves. O Imparcial, Salvador,
p. 5, 22 mar. 1937. O jornal também oferece destaque aos livros do chefe político e escritor: LEONARDOS, Henry. Geografia sentimental. O Imparcial, Salvador, p. 3, 7 mar. 1937. Resenha de livro de Plínio Salgado; MARÇAL, Heitor. Plínio Salgado e o romance nacional. O Imparcial, Salvador, 7 mar. 1937. Pela Ordem..., p. 4; Castro Alves e o Integralismo. O Imparcial, Salvador, p. 3, 30 mar. 1937. Também sobre Plínio Salgado; Geografia sentimental. O Imparcial, Salvador, p. 5, 30 mar. 1937. Resenha sobre romance de Salgado; Nosso Brasil. O Imparcial, Salvador, p. 5, 23 jul. 1937. Resenha de livro de Plínio Salgado; VIEIRA, Oldegar. Dois livros revolucionários ― Geografia
sentimental e Nosso Brasil ― Plínio Salgado. O Imparcial, Salvador, 6 set. 1937. Semana
mesmo que o adquire através de sua Companhia Editora e Gráfica da Bahia, em 1933.
As novas coordenadas de Catarino mantém a 'Página de Ala', como a principal seção de literatura e encerra a 'Semana Universitária'. Se o auge da guerra atrai leitores, como principal assunto, continua-se o ataque aos comunistas. Os anos seguintes buscam um caminho para o fortalecimento da região. A saída encontrada pelo articulista Wilson Lins é o prosseguimento da vigilância contra o fascismo integralista e o imperialismo stalinista. O estilo de reportagem sobre os combates navais, terrestres e aéreos se utiliza regularmente da escrita literária, nas páginas do jornal.
A missão de vigília, motivos, causas, e relato das atividades subversivas no Brasil sofre mudanças. O diário, agora de propriedade do coronel Franklin Lins,61 dá
grande destaque ao que é entusiasticamente denominado de: “A 5ª Coluna quer articular-se na Bahia ― Dissolvida, ontem, em Feira de Santana, uma reunião de agentes do Eixo ― Carlos Albuquerque (foto), o articulador da trama criminosa ― As providências da Polícia”. Após desenvolver artigo no qual reúne informações factuais sobre os encontros comunistas e avaliações pejorativas das atividades adversas, o jornal demonstra que não perde a verve política, mesmo se desdobrando em várias frentes de luta: contra os comunistas, de forma mais ampla, contra os integralistas e
61 Sobre o coronel, o próprio jornal informa quando do seu falecimento: “Do coronel Franklin Lins de Albuquerque pode-se dizer que foi, sempre, um homem de lutas, na têmpera de um sertanejo que sabia amar a sua terra e defendê-la, como só o fazem os fortes e decididos. Foi como o desabamento de um grande jequitibá das nossas bravas selvas dos sertões, a sua morte. E só morto, ele passa, agora, a conhecer o que seja repouso e descanso. Porque sua luta pela vida se conta dos seus dez anos de idade, filho da então pequenina vila de N. S. da Conceição dos Paus de Ferro, no Rio Grande do Norte, do casal Manoel Lins de Albuquerque e d. Aguida Oliveira Lins de Albuquerque, nascido a 15 de janeiro de 1881. [...] De Sento Sé a Pilão Arcado [na Bahia] trabalhou, venceu dificuldades e logrou árduas vitórias de seus esforços na lavoura [ouricuri, carnaúba e etc.] na pecuária, na política. Em 1900 consorciava-se, ainda em Sento Sé, com a professora d. Sofia Mascarenhas Albuquerque, desde então a companheira inseparável. [...] Desse consórcio, houve os seguintes filhos: José, Judith e Esther Lins de Albuquerque; dr. Waldomiro Lins de Albuquerque, presidente da Caixa de aposentadorias e Pensões dos Servidores do Estado, advogado e jornalista, casado com a professora d. Carmosina Menezes Albuquerque; dr. Franklin Lins Albuquerque Júnior, advogado, consultor jurídico da Junta Comercial e oficial de gabinete da Interventoria Federal do Estado, casado com d. Cremilda Cairo de Albuquerque; dr. Theodulo Lins de Albuquerque, médico e industrial no Estado, um dos dirigentes da Sociedade Brasileira de Ceras Vegetais Limitada, casado com d. Inez Oliveira de Albuquerque; e Wilson Lins de Albuquerque, escritor e jornalista, e nosso antigo companheiro de redação.” In: Cel. Franklin Albuquerque: o falecimento, ontem, do grande industrial baiano e bravo sertanejo. O Imparcial, Salvador, p. 1, 28 maio 1944. (sem ass.). O coronel havia sido acometido de um derrame cerebral fulminante no dia anterior enquanto fazia a barba.
contra o interventor Landulfo Alves, no espaço mais restrito. Em virtude dos diversos processos e ausências por causa das campanhas agressivas, a direção de Wilson Lins é transferida para os seus irmãos ― Diretor ― Theodulo L. Albuquerque; Redator-Chefe ― Waldomiro Lins, embora jamais deixasse de interferir nas ações do matutino e publicar as suas colunas.