Conforme demonstrado no referencial teórico, a segurança é algo que o Estado não pode se furtar de prover aos seus cidadãos. No mundo contemporâneo, o país que constitui uma capacidade de resposta às ameaças QBRNE esta garantindo uma das faces desse direito.
Os estudos bibliográficos realizados nesta pesquisa apontam para novos campos teóricos a serem explorados pela Administração Pública, no que se refere às políticas públicas voltadas a organizar as forças de resposta às ameaças QBRNE, envolvendo múltiplas agências governamentais e não governamentais, servidores públicos, privados e voluntários, demonstrando que a área é um grande desafio de gestão, pela complexidade, transversalidade, amplitude, risco e necessidade de respostas imediatas.
Observou-se que para os EUA o uso de ADM pelo terrorismo representa um dos mais graves riscos potenciais para a segurança nacional. Assim, as políticas públicas apresentadas pelo governo federal norte-americano priorizam as ações dentro da técnica com planejamento de longo prazo.
Os esforços das instituições são direcionados a uma meta explícita, clara e de fácil compreensão, favorecendo a continuidade e coesão das ações empregadas. Levam em consideração que não há uma previsibilidade ideal para se proteger de um ataque de ADM e o investimento no recurso humano tornou-se prioritário e fundamental para a boa gestão, com a capacitação para preparo e resposta às ameaças QBRNE e ações voltadas ao suporte dos operadores de primeira resposta, com o fornecimento dos meios necessários ao cumprimento de suas funções.
Há o esforço para descentralização da execução das ações de resposta com o controle e supervisão do governo federal, buscando eliminar as sobreposições de atuação, melhorando a aplicação dos recursos públicos, integrando os níveis de administração local, estadual e federal, primando pelo melhor desempenho e competência de cada órgão.
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Executivo e Legislativo, com decisões da Presidência da República e secretários de Estado, sendo o Modelo de Fluxos Múltiplos de Kingdon uma ferramenta adequada para compreender o processo de construção das políticas públicas norte-americana para atender as demandas de uma nação que já empreendia um esforço de guerra contra o terror.
Na análise das políticas públicas brasileiras observou-se que as leis e decretos federais estudados caracterizam-se, principalmente, por estabelecer mecanismos de controle, fiscalização e troca de informações em relação aos agentes QBRNE. Porém, nada trazem sobre estruturação ou procedimentos de resposta em caso de ataques com agentes QBRNE.
Diferente do NRF, dos EUA, a Política de Mobilização Nacional é focada nas ações de defesa militar, fica restrita aos atos de guerra, à agressão estrangeira. Não há uma planejamento para comportar na mesma estrutura de operação de resposta os múltiplos cenários de ameaças, não somente a agressão estrangeira, mas, inclusive, os atos hostis internos contra o próprio país. Por outro lado, a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC) tem foco nos desastres naturais e danos ambientais, mas também existe objetivo relacionado às ameaças QBRN, porém de maneira superficial. A política pública de segurança não trata os aspectos relacionados às ameaças QBRNE no que diz respeito à inteligência, prevenção, contramedidas, capacidade analítica e investigativa.
Constatou-se que os investimentos em equipamentos, instalações e capacitações para a área foram realizados de maneira setorial, dispersos em diversos órgãos, nunca dentro de uma visão global para o país em termos de resposta às ameaças QBRNE. Há dificuldade em identificar os gastos do Poder Público destinados a um determinado objetivo, dificuldade em identificar os resultados atingidos a partir dos investimentos realizados e de descriminar em detalhes o emprego dos recursos orçados em lei para o que efetivamente foi realizado. As aquisições deveriam seguir uma proposta de trabalho mais ampla, com a complementação de recursos e estabelecimento de procedimentos conjuntos entre as instituições para evitar o desperdício de recursos.
Ao analisar a evolução dos Grupos Especializados em Bombas e Explosivos da Polícia Federal, ficou evidente que a área só começa a se estruturar em 1996, alicerçada em uma série de cursos de capacitação e difusão de doutrina, porém somente em 2007 ganha o primeiro investimento de impacto, em decorrência de um grande evento que foi os Jogos
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Pan-Americanos de 2007. Nos dois anos que antecederam os Jogos, houve um trabalho pelo corpo técnico das instituições envolvidas com as ações de resposta as ameaças QBRNE para que mesmo sem todos os recursos necessários evoluíssem com a troca de experiências, treinamentos e operações em conjunto.
Mesmo com a falta de uma vontade política superior expressa, os quadros técnicos das instituições, os especialistas e detentores do conhecimento, geraram suas soluções para contornar os obstáculos e fomentaram a integração e operações conjuntas.
Enquanto os EUA tem um detalhamento apurado de responsabilidades de atuação das instituições e há uma coordenação bem definida para as ações que devem ser desencadeadas pelo serviço público com a participação dos governos locais, estaduais e federal, no Brasil este ajuste de responsabilidades é gerado em cada situação enfrentada, deixando o processo decisório para os operadores de segurança no momento que se deparam com as ocorrências que exigem solução imediata e sem margem para uma discussão ou preparo aprofundado.
O desafio dos brasileiros ainda é organizar, equipar, treinar, preparar e integrar as instituições públicas. Para os norte-americanos a fase a ser trabalhada é a participação da população na política pública de resposta às ameaças QBRNE, onde o cidadão recebe instruções por campanhas publicitárias, prospectos de orientação e por meio de cursos disponibilizados e acessíveis a todos.
Portanto, entende-se que no Brasil não há uma política pública suficientemente abrangente para organizar as ações de respostas em caso de um ataque QBRNE. O que se tem é um mosaico de políticas públicas relacionadas aos agentes QBRNE, sendo uma parcela decorrente de resoluções e convenções internacionais das quais o Brasil é signatário, previsões de controle, fiscalização, proibições de fabricação, estoque e uso de materiais específicos, e em alguns casos, troca de informações de inteligência e técnicas.
A gestão pública brasileira tem que avançar para adotar as ferramentas adequadas de planejamento estratégico, tornar-se pró-ativa, utilizar plenamente o ciclo PDCA, mapeando as competências necessárias e existentes e melhorar a gestão do conhecimento para às ameaças QBRNE, não somente dentro de cada instituição, mas também entre as instituições.
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No Brasil, a estrutura de resposta às ameaças QBRNE não consegue se desenvolver a contento. A janela de oportunidade política não se “abre” plenamente e dessa forma, não são priorizados os investimentos na área pelos dirigentes. Eis aqui um campo de investigação futura, através de uma pesquisa com a cúpula da Administração federal brasileira, para compreender o que limita a vontade política para área, se é o desconhecimento do assunto por parte dos políticos (HAMBURG, 2002, p. 37), se é a crença de imunidade a um ataque terrorista, falta de recursos ou negligência dos dirigentes.
As ações necessárias para estruturar o país, para fazer frente a um atentado QBRNE, passam necessariamente por servidores especialistas no assunto. Estes dominam o conhecimento técnico e profissional, o que acaba, conforme Olivieri (2011, p. 1410), gerando espaço para uma oposição entre burocracia e política, onde os políticos comandam e definem as políticas, assumindo a responsabilidade pelos resultados e os técnicos são comandados e politicamente irresponsáveis. Conforme demonstrado pelo National Research Council (2004) as etapas de estruturação da força de resposta são longas, complexas e dispendiosas.
O problema tratado das ameaças QBRNE vai além da visão de Olivieri, pois as políticas definidas pela cúpula, ou a falta destas, geram um risco imediato de vida para o servidor especialista, o risco que ele assume na ocorrência vai além do aceitável, estando inclusive a população exposta pelas escolhas políticas, mas cuja responsabilidade de atuação recai inteiramente para o profissional da segurança pública.
Os pensamentos de Tenórios (2008), Kannane, Fiel Filho e Ferreria (2010) convergem para o mesmo ponto. O servidor que está a frente da gestão de um incidente QBRNE é empurrado para a tomada de decisão baseado na racionalidade e conhecimento científico que tem, passa a ser técnico e político ao mesmo tempo. Como não há um preparo do corpo político para compreender os riscos decorrentes das ameaças QBRNE, acabam as propostas de política públicas, sendo originadas pelos tecnocratas.
Pode-se concluir que as políticas públicas de resposta para ameaças QBRNE surgem dispersas em diversas instituições, promovidas pelas equipes técnicas, de maneira descentralizada e sem uma orientação do governo central, o que acarreta sobreposição de atividades, havendo casos de problemas não tratados, desprezando-se a complementação de recursos e efetivos. O modelo norte-americano de criação das políticas públicas da área adota uma construção de
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cima para baixo, enquanto no Brasil é visto um processo em construção de baixo para cima.
Em sendo um processo de baixo para cima, os administradores públicos e os técnicos acabam por ter que assumir um papel fundamental para o sucesso na construção de uma política pública abrangente para fazer frente às ameaças QBRNE. Devem se despir de corporativismos institucionais e buscar o diálogo e intercâmbio de conhecimento aplicado na área. Devem Deixam de ser exclusivos executores e passarem a participar da elaboração da política pública. Serão empreendedores e promotores das propostas de políticas públicas, articulando e fomentando o debate, e levando o conhecimento para as esferas mais altas da Administração Pública, de forma a preparar a recepção da proposta construída por diversos atores governamentais.
Existem outros modelos para preparação da reposta a ameaças QBRNE, diferente dos EUA, que podem ser objetos de estudos como o adotado pelo Canadá (PUBLIC SAFETY CANADA, 2011a, 2011b, 2011c), França, Inglaterra e Espanha, que podem ser pesquisados, avaliados e comparados, os quais podem melhorar a compreensão do processo de concepção e definição da agenda decisória sobre o tema.
O desafio para os governantes brasileiros é criar uma capacidade de resposta às ameaças QBRNE em curto espaço de tempo. Com data limite para o próximo grande evento a ser sediado no Brasil, o esforço e monumental. Isto significa realinhar as instituições públicas para o cumprimento de uma missão, dar-lhes versatilidade e capacidade de adaptação a situações que as próprias normas e regras não conseguiram prever e planificar; é adotar a visão estratégica, com sólido planejamento, prospecção de possíveis cenários, para conduzir os ajustes dos procedimentos preventivos, dos processos de capacitação continuada; e descentralizar as equipes, comando e decisões, porém sem perder a harmonia e a cooperação interinstitucional, é dar voz à participação de uma diversidade de especialistas governamentais de diferentes órgãos, esferas de governo e conhecimento técnico.
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