B. TANRI
2. Tanrı’nın Kanıtlanması
2.2. Tanrı’nın kanıtlanması ve Nedensellik İlkesi
4.1.1Localidade
O quilombo Jamary dos Pretos, localizado no município de Turiaçu-MA, foi escolhido, entre outros motivos, por se situar em um município historicamente conhecido pela presença de quilombos de grande representatividade na luta da resistência dos negros escravizados no Maranhão; ser composto em sua grande maioria por descendentes diretos de escravizados; localizar-se em área rural, afastada da sede do município de Turiaçu; ter sua identidade quilombola consolidada pelo autorreconhecimento e pela titulação emitida pelo Governo do Estado do Maranhão, através do Instituto de Terras do Maranhão – ITERMA, em 2003, e ainda em razão da ausência — considerando os estudos já realizados sobre essa localidade, como os desenvolvidos pelo Projeto Vida de Negro (1998), por O’Dwer e Carvalho (2002) e Alonso (2004) — de um inventário etnolinguístico/etnoterminológico dessa comunidade.
4.1.2 Perfil dos informantes
Participaram desta pesquisa 24 (vinte e quatro) informantes, sendo 18 (dezoito) quilombolas — para constituição do corpus de análise, mais especificamente, para a identificação e análise das particularidades denominativas e/ou das particularidades do processo de conceptualização realizado pelos quilombolas de Jamary dos Pretos, sobretudo, para identificação e análise dos semas que revelam a particular visão de mundo desse grupo
— e 06 (seis) não quilombolas — para constituição do corpus parâmetro, mais especificamente, para identificação e análise dos semas universais, caracterizadores do
conceptus, e dos semas intencionais-modalizadores, formadores do metametaconceptus, os quais — contrapostos aos semas étnico-culturais, caracterizadores do metaconceptus —
permitem a identificação tanto das unidades do léxico de Jamary dos Pretos que configuram exclusividades denominativas e/ou conceptuais quanto das unidades que configuram vocábulos-termos.
Os informantes quilombolas são homens e mulheres nascidos/as no quilombo Jamary dos Pretos e integrantes de uma das seguintes faixas etárias: Faixa I – 20 a 40 anos, Faixa II – 41 a 60 anos e Faixa III – mais de 60 anos. Os informantes não quilombolas são homens e mulheres nascidos no estado do Maranhão, residentes atualmente na capital São
Luís, alguns com vivência e experiências em comunidades não quilombolas situadas em área rural e com nível de escolaridade, geralmente, superior.
É fundamental pontuarmos, inicialmente, que nesta pesquisa de base etnolinguística/etnoterminológica, consideramos, evidentemente, que os fatores mais relevantes para a análise sobretudo do semantismo específico atribuído pelos quilombolas de Jamary dos Pretos a certas unidades lexicais da língua geral são os aspectos étnicos, históricos e culturais formadores da visão particular de mundo que possuem.
Contudo, sabendo que a fala individualizada é sempre singular, resultante de uma mistura de muitos fatores, quando do estabelecimento do perfil dos informantes deste estudo, consideramos, adicionalmente, alguns fatores sociais visando, quiçá, sua pertinência para a análise de possíveis diferenças conceptuais estabelecidas pelos próprios informantes de Jamary dos Pretos em relação às unidades lexicais constitutivas desta pesquisa.
Nesse sentido, precisamos salientar também que, embora saibamos que a
escolaridade, ou seja, a educação sistemática formal tenha como objetivo principal o ensino da norma culta da língua e que, consequentemente, poderia gerar variações conceptuais em relação às unidades lexicais analisadas, decidimos desconsiderar esse fator social quando da definição do perfil dos informantes de Jamary dos Pretos, pois cogitamos desde o início — com base em estudos realizados anteriormente nessa e em outras comunidades quilombolas maranhenses — que apenas os informantes mais jovens da comunidade, isto é, os da Faixa I - 20 a 40 anos, apresentariam um nível de escolaridade mais elevado (ensino fundamental completo, ensino médio e ensino superior), devido ao fato de serem recentes as conquistas dessas comunidades no âmbito educacional. Os informantes da Faixa II – 41 a 60 anos e os da Faixa III – mais de 60 anos, em geral, conforme confirmamos posteriormente em campo, seriam analfabetos ou semianalfabetos, apresentando, apenas, quando muito, o ensino fundamental incompleto.
Consideramos, contudo, o aspecto geracional, pois a estratificação de uma amostra em pelo menos três faixas etárias— Faixa I – 20 a 40 anos, Faixa II – 41 a 60 anos,
Faixa III – mais de 60 anos — possibilita a investigação de indícios de mudanças linguísticas que, no caso desta pesquisa, poderiam configurar possíveis diferenças conceptuais estabelecidas pelos próprios informantes de Jamary dos Pretos em relação a determinadas unidades lexicais da língua geral.
Segundo Labov (2001), considerando o tempo aparente, caso uma mudança esteja em progresso é possível observar que a faixa mais idosa da amostra, no caso deste estudo, a faixa III (quilombolas com mais de 60 anos), realiza a variante semântica inovadora com
menos frequência do que os falantes da faixa etária mais jovem, no caso deste estudo, os informantes pertencentes à faixa I (quilombolas entre 20 e 40 anos).
Quanto à faixa etária mais idosa, selecionamos preferencialmente as pessoas mais velhas da comunidade, pois, em geral, quanto mais idosas mais informações substanciais fornecem sobre seu universo. Considerados, em Jamary dos Pretos, os guardiões da memória das tradições culturais da comunidade,
Os moradores mais idosos do povoado são depositários das múltiplas versões sobre os mocambos e o tempo da escravidão. Através da memória coletiva, esse grupo elaborou sua própria noção de quilombo, que deve ser reconhecida como ‘outro
modo de conhecimento’, fundado numa experiência histórica específica e usado
segundo critérios de validade próprios ao grupo. Tal modelo reflete-se, ainda, na configuração espacial do povoado de Jamary, nos planos significativos de organização social e no modo como esses planos se entrecruzam, tanto nas
representações quanto nas ações cotidianas do grupo. (O’Dwyer, 2002, p. 30).
A faixa etária mediana (Faixa II – 41 a 60 anos), por sua vez, foi levada em consideração por poder possibilitar, entre outros e se necessário, que se verificasse se uma possível variante conceptual inovadora estaria seguindo em tendência decrescente no
continuum idade ou se essa faixa estaria apresentando alguma especificidade que
representasse uma adaptação da fala desse perfil de idade a algum contexto de uso específico. A análise da faixa etária pode, ainda, indicar se as tendências de uso de uma ou outra variante conceptual estariam se mantendo próximas em todas as faixas etárias e, assim, revelar a ocorrência de um processo de variação estável.
Em suma, nesta pesquisa de abordagem etnolinguística/etnoterminológica, decidimos verificar se, secundariamente ao fator étnico-cultural, a faixa etária interferia nas possíveis diferenças conceptuais dadas pelos próprios quilombolas da comunidade de Jamary dos Pretos a uma mesma unidade lexical.
Também selecionamos o fator social sexo com o intuito de averiguar sua interferência secundária na possibilidade de variação conceptual estabelecida pelos próprios quilombolas de Jamary dos Pretos a uma dada unidade lexical.
Estudos têm comprovado que, em geral, nas sociedades ocidentais, as mulheres costumam ser mais conservadoras em relação ao que caracteriza a norma culta. Dessa forma, tendem a empregar com menos frequência as formas linguísticas estigmatizadas dentro de uma comunidade de fala do que os homens (LABOV, 2008 [1972]). Por outro lado, as mulheres destacam-se por liderarem processos de mudança, empregando mais frequentemente a forma inovadora quando as mudanças ocorrem em direção à norma culta.