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Tanrı’nın Ön Bilgisi ve Özgür İrade

B. TANRI

1. Tanrı’nın Nitelikleri

1.3. Tanrı’nın Ön Bilgisi ve Özgür İrade

Com o intuito de estabelecer uma metodologia de configuração dos traços semântico-conceptuais de um conceito no percurso gerativo da enunciação de codificação e de decodificação, Barbosa (2004, p. 56) parte do pressuposto de que

Com efeito, é na instância discursiva que se produz a cognição e a semiose, se

instaura a conceptualização de um ‘fato’, se engendra um conceito e sua

manifestação lingüística. É no discurso manifestado, pois, que se presentificam os traços conceptuais, num procedimento de codificação; e é dele que se extraem, num procedimento de investigação, esses mesmos traços.

O reconhecimento do discurso como o ponto de origem e de consolidação dos traços semântico-conceituais torna possível a caracterização de diferentes tipos de contextos,

ou seja, de “discursos manifestados em que são engendrados conceitos, por distintos processos. Tais contextos constituem as principais fontes de que são extraídos os correspondentes traços semântico-conceptuais.” (BARBOSA, 2004, p. 56).

O percurso gerativo da enunciação de codificação e de decodificação é constituído por três momentos — percepção, início e fim da conceptualização — que “constituem o

próprio percurso da cognição, entendido como a apreensão e construção de uma ‘visão de

mundo.’” (BARBOSA, 2004, p. 57).

Esse percurso inicia-se, assim, com a percepção dos ‘fatos naturais’, dos objetos do mundo que são

[...] substâncias estruturáveis, como informação potencial, para os homens, mas que se convertem em substâncias estruturadas, quando apreendidas pelos grupos lingüísticos e socioculturais, de diferentes maneiras, embora mantenham um núcleo de percepção biológica universal. (BARBOSA, 2004, p. 56).

Nesse primeiro momento, então, os fatos naturais estruturáveis e recortes culturais preexistentes disponíveis na realidade fenomênica (biofatos, sociofatos, psicofatos e manufatos) são biologicamente e, por conseguinte, indistintamente percebidos por qualquer ser humano, contudo, após serem apreendidos pelos grupos humanos, esses fatos naturais são convertidos em substâncias linguisticamente estruturadas, reveladoras das especificidades da

axiologia de um grupo ou de um indivíduo. “Tais fatos estão disponíveis no universo natural

(semiótica natural) como virtualidades, hipóteses a serem trabalhadas a partir de uma massa

amorfa, cuja significação depende da ação humana.” (HJELMSLEV, 1975, p. 73).

O segundo momento desse percurso caracteriza-se pela transição da percepção à conceptualização. Mais especificamente, esse momento do percurso gerativo da enunciação é pré-denominativo e consiste no início do processo de conceptualização, de construção do protótipo, uma vez que nesse momento o ser humano começa a interferir e projetar-se sobre os fatos naturais, escolhendo traços semânticos que delinearão os fatos da natureza.

A conceptualização é o processo de “redução/ampliação seletiva de traços caracterizadores dos ‘fatos naturais’, constitutivos da substância do conteúdo [...]; em última análise, é o processo de conversão da ‘substância do conteúdo’ em ‘forma de conteúdo”

(BARBOSA, 2009, p. 01), ou seja, a conceptualização é o processo de constituição de núcleos semânticos a partir da atribuição e da supressão de valores e de funções definidos pelos dados da experiência, da ideologia, da visão do mundo, enfim, da axiologia de um grupo étnico- cultural.

Esse estágio inicial da conceptualização compreende três tipos de atributos semânticos, conforme expõe Barbosa (2004, p. 57),

[...] o das latências, em que os fatos observáveis têm os seus traços identificadores em estado potencial, como substâncias de conteúdo (HJELMSLEV, 1975, p. 53-64) estruturáveis, apreensíveis; o das saliências, em que certas características dos fatos se destacam por si mesmas, na semiótica natural; e o das pregnâncias, em que o

sujeito enunciador individual e/ou coletivo seleciona e escolhe os traços que irão configurar o conceito que têm do fato em questão. (POTTIER, 1992, p. 61-69).

O terceiro momento do referido percurso é o da consolidação ou conclusão do processo de conceptualização, isto é, é o momento da

[...] produção dos modelos mentais, dos conceptus (RASTIER, 1991, p. 73-114),

noções ou conjuntos noêmicos – traços semânticos conceptuais –, a que

correspondem, por seu turno, os recortes culturais, os recortes construídos, em última análise, os designata. (BARBOSA , 2004, p. 56-57).

Esse terceiro momento constitui o “processo de elaboração cultural exercido pelo

homem (semiótica humana), cuja intervenção gera o universo antropocultural, conceptus < - > designata.” (LATORRE, 2011, p. 74).

O quarto momento do percurso gerativo da enunciação é o da lexemização e da

terminologização, ou seja, é o momento de instauração da significação, quando se dá a

“conversão do conceito em grandeza-signo, em que se deixa o nível cognitivo para se passar

ao nível semiótico propriamente dito.” (BARBOSA, 2004, p. 57). Assim,

Nessas condições, de acordo com Pais (1993, p. 188), os conceptus ou lexes devem ser considerados como lexias em potencial, configurando-se como ponto de partida do processo de lexemização e de terminologização. Assim, o metassistema lexemático, ou terminológico, conjunto das lexias com suas expressões e conteúdos (sobressememas ou sememas polissêmicos), sua rede de relações, constituem instância de competência que precede e autoriza a atualização da lexia num discurso concretamente realizado. (BARBOSA, 2004, p. 57).

O quinto momento do percurso gerativo da enunciação é o da contextualização em que tem-se

[...] um epissemema (simultaneamente, com a redução dos semas do sobressemema, ou seja, a seleção, determinada por uma situação de discurso e de enunciação, e o acréscimo de semas do contexto, na combinatória sintagmática), de que resulta a semiose. (BARBOSA, 2004, p. 58).

É interessante ressaltarmos que no percurso gerativo da enunciação ocorre tanto a criação de um vocábulo e/ou termo, como também a ressemantização de vocábulos e/ou termos já existentes.

A formação do conceito é pré-denominativa, nesse sentido, o conceito precede ou mesmo independe da denominação, já que é perfeitamente possível compreendermos que podemos perceber e conceptualizarmos um fato estabelecido no universo antropocultural para o qual não temos ainda uma respectiva ou correspondente denominação.

De fato, os conceitos mantêm diferentes tipos de relações com as denominações: há, como dissemos, conceitos sem denominações, há conceitos com apenas uma denominação, há conceitos com duas ou mais denominações, como também é possível que uma mesma denominação comporte dois ou mais conceitos. (BARBOSA, 2004, p. 58).

É imprescindível ressaltarmos que, nesta pesquisa, concebemos denominação como o processo de representação da percepção e da conceptualização de um fato por meio de uma forma linguística, ou seja, é a atribuição de uma forma sígnica a um fato conceptual. Dessa forma, a denominação tem sua gênese na conceptualização.

Após observarmos as etapas de formação do conceito no percurso gerativo da enunciação, bem como de considerarmos as relações estabelecidas entre denominação e conceptualização, concluímos que conceituar diz respeito ao processo de construção de um

“modelo mental que corresponde a um recorte cultural e, em seguida, de

escolha/engendramento da estrutura léxica que pode manifestá-lo de maneira mais eficaz. Tal processo tem como ponto de partida o universo natural.” (BARBOSA, 2004, p. 59).

No ensejo, faz-se necessário elucidarmos que há uma concepção lato sensu de

conceptus, isto é, o conceptus corresponde ao modelo mental dialeticamente articulado a um recorte cultural ou designatum, ao qual se refere Rastier (1991), apresentando uma acentuada complexidade estrutural, representada por três subconjuntos:

[...] um subconjunto de noemas biofísicos ou ‘universais’, conceito stricto sensu; um subconjunto de traços semânticos conceptuais ideológicos, culturais, metaconceito; um subconjunto de traços semânticos conceptuais ideológicos, intencionais, modalizadores, metametaconceito. (BARBOSA 2001, p. 154).

Figura 4 – Estrutura do conceito lato sensu

(1) Noemas universais, biológicos (2) Noemas ideológicos, culturais (3) Noemas ideológicos, intencionais Fonte: Barbosa (2001, p. 57)

conceptus

metaconceptus

Esses três subconjuntos contêm noemas característicos, assim, 1) o conceptus stricto sensu é constituído por noemas universais, biológicos, que garantem a múltipla nomeação e servem à conceptualização da semiótica natural; 2) o metaconceptus é composto pelos noemas ideológico-culturais que operam os movimentos de redução/ampliação de traços semânticos de acordo com as singulares experiências de um grupo étnico-cultural, logo, esses noemas, a partir de um recorte cultural específico, (re)constroem de forma particular o mundo semioticamente construído por um grupo humano; nas palavras de Barbosa (2001, p. 53), o

discurso etnoliterário “enfatiza o metaconceptus, que é o subconjunto dos traços

semântico-conceptuais culturais, produzindo simultaneamente uma modificação do recorte cultural, própria de uma reconstrução particular do mundo semioticamente construído.”; 3) o

metametaconceptus é formado por noemas ideológicos-intencionais-culturais que configuram

os embates: “Neste último, o noema [intenção] é o mais importante, por oposição ao

[ideológico] do subconjunto anterior, não tão marcado como o [intencional].” (BARBOSA,

2004, p. 61).

Pelo exposto, compreendemos que ao engendrarmos um conceito, inevitável e simultaneamente, geramos, em correlação com ele, três outros conceitos: “seu contrário e os

contraditórios decorrentes, já que o raciocínio do homem funciona por oposições, dentre as

quais, relações entre contrários e contraditórios.” (BARBOSA, 2004, p. 62).

Para exemplificarmos, ao gerarmos o conceito <<bem>>, por exemplo, necessária e simultaneamente, engendramos o seu contrário, <<mal>>, e seus respectivos contraditórios,<<~bem>> e <<~mal>>.

Figura 5 – Conceitos contrários e contraditórios <<bem>> <<mal>> <<~mal>> <<~bem>> Fonte: Barbosa (2004, p. 61)

Para entendermos a estrutura completa do conceptus latu sensu, precisamos retomar o subconjunto de noemas universais do conceito stricto sensu na perspectiva da

“análise contrastiva, entre grupos socioculturais diferentes, e [...] da análise comparativa entre

neutralização da oposição existente entre concepções diferentes de um mesmo ‘fato’. (BARBOSA, 2004, p. 62).

O plano conceptual consiste na forma final do processo de atribuição e de supressão de valores, funções e traços a partir da projeção do homem ou do grupo sobre os fatos da natureza e da sociedade que lhes permite compor e compartilhar sua visão de mundo. Conceber determinada realidade significa para o homem ou para um grupo tecer seu contexto sociocultural específico cuja origem se desenvolve dinamicamente no tempo e no espaço.

A interação dos aspectos linguísticos, sociais e culturais reflete-se nas especificidades do léxico marcadas, entre outros, pela multiplicidade conceptual que transforma as unidades lexicais em grandezas-signos únicas, testemunhas das mudanças dos sistemas sociais e culturais.

O modo de percepção dos dados no universo antropocultural reafirma as especificidades e multiplicidades conceptuais que se formalizam no universo léxico, produzindo, às vezes, grandezas-signos inéditas que testemunham as mudanças dos sistemas sociais e culturais.

Uma observação importante a ser feita, diante das informações fornecidas, é que, considerando a estrutura de formação do conceito latu sensu analisada nesta pesquisa —

conceptus, metaconceptus e metametaconceptus— podemos afirmar que o discurso científico

salienta o conceptus; o discurso etnoliterário, como o dos grupos étnicos, o metaconceptus; e o discurso ideológico-manipulatório, o metametaconceptus.