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Tanrı’nın Ahlakın Kaynağı Olması

B. TANRI

1. Tanrı’nın Nitelikleri

1.2. Tanrı’nın Ahlakın Kaynağı Olması

Entre os estudos que focam a relação entre língua e cultura temos a linguística antropológica, antropologia linguística, etnolinguística, linguística etnográfica, etnografia linguística, etnografia da linguagem. Alguns estudiosos afirmam que essa diversidade de denominações deve-se às enfases de abordagens dadas a essa relação, contudo, como afirma Camacho (2003, p. 995), “esta distinção é mais um princípio teórico do que uma realidade prática, já que ao analisar de forma concreta alguma das muitas facetas da relação existente entre língua e cultura a diferença entre ambas perspectivas se dilui.”16

Para além dessa diversidade de abordagens e de denominações, interessa-nos explicitar que a Etnolinguística,

É concebida como uma disciplina científica que, baseada no reconhecimento da existência de uma íntima relação entre língua e cultura, tem o propósito de analisar como a cultura condiciona os produtos linguísticos de uma sociedade e como, inversamente, esses produtos refletem a cultura na qual se encontra submersa essa

sociedade. (CAMACHO, 2003, p. 995). 17

Corroborando essa concepção, Baylon (1991, p. 56) ressalta que os dois grandes desafios da Etnolinguística são conhecer a cultura através da língua e analisar a língua a partir de dados socioculturais. Na oportunidade, ressaltamos que muitos estudiosos consideram que os procedimentos metodológicos a serem utilizados para a concretização daquilo que Baylon aponta é que, de fato, constituem os desafios dessa área.

16 Esta distinción es más un principio teórico que una realidad práctica, ya que al analizar de forma concreta alguna de las muchas facetas de la relación existente entre lenguaje y cultura la diferencia entre ambas perspectivas se difumina. (CAMACHO, 2003, p. 995).

17 Se concibe como una disciplina científica que, partiendo del reconocimiento de la existencia de una íntima relación entre el lenguaje y la cultura, se propone analizar cómo la cultura condiciona los productos lingüísticos de una sociedad y cómo, inversamente, esos productos reflejan la cultura en la que se encuentra inmersa dicha sociedad. (CAMACHO, 2003, p. 995).

Cosériu (1987, p. 05), por sua vez, declara que a Etnolinguística é o estudo da linguagem em relação com a civilização e a cultura das comunidades e, atualizando a concepção de Etnolinguística, Dick (2002/2003, p. 182) explicita que

Na perspectiva sincrônica dos estudos contrastivos, a etnolingüística firmou-se como decorrência da necessidade de se entender as variantes e as invariantes sociais, bem como os níveis de linguagem que modelam os pensamentos e o modo de ser e de viver da população em análise. (DICK, 2002/2003, p. 182).

Nesse contexto, importa-nos enfatizar a concepção de Bernard Pottier, que serviu de âncora para muitas das formulações anteriormente mencionadas. Assim, para esse

estudioso, a Etnolinguística consiste no “estudo das relações entre uma língua e a visão de mundo daqueles que a falam” (POTTIER, 1973, p. 124-125), ou ainda, é “o estudo da

mensagem linguística relacionada com todas as circunstâncias da comunicação.” (POTTIER, 1970, p. 03).18

Em razão dessa complexidade e abragência de domínio do objeto da Etnolinguística, Pottier (1970, p. 03) afirma que alguns problemas emergem das principais linhas de investigação etnolinguística, a saber, a relação entre língua e visão de mundo, a relação entre língua e comunicação e as reflexões sobre a linguagem e as línguas.

Em relação ao recorte etnolinguístico língua e visão de mundo, Pottier (1970, p. 03) aponta como prováveis entraves as taxionomias linguísticas existentes (lexicais, gramaticais e universais) além das teorias: as etnolinguísticas e a glotocronologia. Quanto ao foco língua e comunicação, merecem atenção as etnoteorias da linguagem, as interpretações (motivação, sinestesia, conotação) e as representações (gráficos e som) e em relação às

reflexões sobre a linguagem e as línguas precisamos atentar para os tipos de linguagens (situações linguísticas, línguas específicas, tipos de locutores), os usos (tipos de discurso, processos, comportamentos) e a aculturação (os contatos de línguas, alfabetização e educação).

Interessa-nos evidenciar, por acoplar-se ao propósito deste trabalho, o recorte etnolinguístico língua e visão de mundo, alicerçado no entendimento de que compreender a visão de mundo de um grupo exige conhecimento do seu universo linguístico e analisar suas especificidades linguísticas preconiza conhecimento da cultura desse grupo.

Nesse contexto, Pottier (1970, p. 04) destaca a necessidade de se observar as taxionomias linguísticas, especialmente, as taxionomias lexicais, que como signos linguísticos

18 L'étude du message linguistique en liaison avec l'ensemble des circonstances de la communication.

podem recobrir-se de uma conceituação sêmica específica, trazendo à tona o que ele denomina problema da identidade do signo. Para compreendermos esse problema, Pottier faz referência à necessidade que têm os esquimós, assim como, por exemplo, os profissionais do ramo de resorts especializados em esportes de inverno, de construirem um extensivo e detalhado inventário linguístico com lexias simples e complexas sobre a neve, já que reconhecem distintas variedades de neve no contexto em que estão inseridos. Certamente, não pertencendo aos grupos anteriormente citados e, consequentemente, não possuindo a visão de mundo que suas experiências lhes permitem construir, não entenderemos a importância e a necessidade de tal inventário.

O segundo problema apontado por Pottier (1970, p. 04), decorrente das taxionomias linguísticas lexicais, concerne aos campos semânticos: “O significado de uma unidade lexical depende do conjunto no qual funciona, a definição de microcampos de experiência fornece a base para qualquer estudo da estrutura lexical.”19 Assim, a

compreensão do léxico está atrelada ao estabelecimento de campos semânticos como a cultura

dos esquimós, a dos quilombolas, “a cultura do café, o futebol, os acidentes de trânsito, o

diálogo dos amantes, ou o discurso marxista”20. (POTTIER, 1970, p. 04).

Assim, segundo ele, analisando uma unidade lexical a partir de sua inserção em

um dado campo semântico, “praticamente desaparece o conceito de homonímia e se reduz a

polissemia: escorpião pertence tanto ao microcampo do ‘zodíaco’ ou da ‘astrologia’, quanto

ao microcampo ‘animal de uma região’.”21 (POTTIER, 1970, p. 04).

Então, é preciso atentar para o fato de que as conceituações insurgem dos contextos específicos de uso, a precisão conceitual de uma unidade lexical só pode ser estabelecida dentro desse contexto, pois são os aspectos étnico-culturais de uma comunidade que delineiam o contorno semântico do seu léxico.

Ainda quanto à relação entre lígua e visão de mundo, Pottier (1970) sinaliza a existência de um problema de ordem teórica — as etnolinguísticas e a glotocronologia — gerado pela complexidade da relação entre língua e o ambiente. Primeiramente, quanto ao que nomeia glotocronologia, Pottier (1970, p. 08) destaca que é audacioso demais, por isso,

19 La signification d'une lexie étant tributaire de l'ensemble dans lequel elle fonctionne, nous mettons à la base de toute étude de structuration lexicale la définition de microchamps d'expérience. (POTTIER, 1970, p. 04). 20 La culture du café, le football, les accidents de la route, le dialogue amoureux, ou le discours marxiste. (POTTIER, 1970, p. 04).

21 Ainsi disparaît pratiquement le concept d'homonymie, et s'allège celui de polysémie: scorpion appartient soit

au microchamp « zodiaque » ou « astrologie », soit au microchamp « animaux de telle région». (POTTIER, 1970, p. 04).

hipotético, tentarmos definir uma data precisa de separação entre línguas que possuem muitas similaridades denominativas e/ou conceituais.

Quanto às etnolinguísticas, ele ressalta que devemos evitar qualquer posicionamento extremista referente à relação língua e ambiente e que é necessário diferenciarmos as experiências particulares de cada indivíduo das experiências coletivas, responsáveis por imprimir diferenças linguísticas entre os grupos humanos. Considerando tais observações, esse estudioso diz ser pertinente atentar para o fato de que

A ligação entre língua e cultura é evidente, uma vez que a língua é um código econômico de transmissão de informações, em certas circunstâncias: formas polidas dependerão dos hábitos sociais da comunidade, e as realidades cotidianas

provavelmente serão expressas economicamente.22 (POTTIER, 1970, p. 07).

Dessa maneira, segundo ele, a análise diacrônica de uma língua, por exemplo, não pode ser baseada na realidade objetiva, mas sim, na adaptação da linguagem à experiência da realidade, isto é, à forma particular de um grupo perceber o mundo, exemplificando que, por isso, o fenômeno da lexicalização pode levar séculos para se completar e se constituir como tal. (POTTIER, 1970, p. 08).

Referente à complexidade e magnitude do domínio da Etnolinguística, precisamos considerar, ainda, sua natureza interdisciplinar, bem como as críticas que apontam amplitude e imprecisão de seus médodos de coleta e análise de dados.

Broschart (1970, p. 16-17), nesse sentido, em seu artigo intitulado Sapir et l’ethnolinguistique, afirma, com base nos estudos de Hymes (1964), que os métodos usados

na Etnolinguística estão alicerçados, basicamente, na estrutura “quem disse o quê a quem, onde e como”, isto é, nos elementos da comunicação — locutor, interlocutor, mensagem, código, canal, contexto.

Quanto a esses elementos, importa-nos ressaltar que Broschart (1970, p. 17) enfatiza as questões semióticas envoltas nos canais da comunicação, as questões étnicas prevalecentes no conteúdo da mensagem e no contexto de comunicação e as questões sociais

intrínsecas ao locutor e ao interlocutor que, como “participantes do ato de comunicação

[locutor/interlocutor], são importantes não só porque determinam, em parte, os demais

22 Le lien entre langue et culture est évident, dans la mesure où la langue est un code économique de transmissiodn'un e information, dans certaines circonstances : les formes de politesse seront dépendantes des habitudes sociales de la communauté, et les réalités quotidiennes auront de fortes chances d'être exprimées économiquement. (POTTIER, 1970, p. 04).

elementos da comunicação, mas também por sua situação social.”23. Por fim, para esse

estudioso, é na interação de todos esses pontos que a Etnolinguística busca compreender os significados construídos culturalmente por um grupo. (BROSCHART, 1970, p.17).

Ainda quanto à metodologia da pesquisa etnográfica, sobretudo de base oral, outro ponto alvo de questionamentos é a duração necessária do período de contato do pesquisador com o grupo pesquisado para que se cumpram os propósitos da pesquisa etnolinguística. Quanto a isso, Pottier (1970, p. 04), apenas, destaca que os pesquisadores de campo que permanecem longos períodos nos locais pesquisados estão mais capacitados a fornecer informações consubstancias sobre as particularidades linguísticas e culturais de um determinado grupo, uma vez que estão na presença de seu amplo universo semiótico.

Existem, ainda, outros pontos da metodologia etnolinguística que, em geral, são foco de atenção dos pesquisadores, como as condições em que são realizadas as entrevistas, as normas de trascrição, os critérios de análise observados.