É formada por 31 municípios, os quais compreendem o Território de Identidade, denominado de Oeste Baiano, com destaque para as cidades de Barreiras, Cotegipe, Santa Maria das Vitórias. Fica à margem esquerda do Rio São Francisco, com uma área de 116.786,918 km² e 524.220 habitantes (IBGE, 2005).
A ocupação dessa regional começou em 1553, quando tiveram início as “Entradas” para o interior da colônia em busca de mão de obra escrava para trabalhar nos engenhos e na exploração de riquezas minerais. Porém, a região do vale do São Francisco, nessa época, se tornou um espaço de criação extensiva de gado e de exploração do garimpo, sendo que o escoamento dessa produção foi feito através da navegação no Rio São Francisco.
Era uma localidade de forte resistência dos coronéis que se expressava em mandonismo, escravidão e violência, ações diretamente relacionadas à concentração de terras. Desenvolveu-se uma cultura típica, com característica própria de tipos denominados de “o cabra”, “o coronel”, “o cangaceiro”, “o vaqueiro”, “o barqueiro”, “o pescador”, e outros que muitas vezes se confundiam numa mesma pessoa (SOUZA, 1998, p. 7). Nessa regional, os
trabalhadores ficavam submissos aos coronéis, sem poder deixar a região e, quando haviam desentendimentos, saíam às escondidas, deixando para trás tudo que lhes pertenciam.
Foi nesse contexto que surgiu o revolucionário Carlos Lamarca, ex-coronel do Exército e militante do Movimento Revolucionário 08 de outubro – MR-8, que em 1968, se instalou naquela regional com o objetivo de fazer uma revolução socialista, pelas áreas rurais, onde o povo oprimido criaria uma guerrilha armada contra o Estado ditador. Iniciou a implantação de frentes de conscientização em diversas áreas de atuação, como na prática do esporte e do teatro, na discussão política e na atuação social. O erro fatal de Lamarca foi confundir miséria e pobreza com condições revolucionárias (SOUZA, 1988, p. 34).
Essa regional sofreu grandes transformações nas últimas décadas, principalmente devido à expansão do agronegócio, com a cultura da soja, contribuindo para a exploração capitalista, por meio da concentração de terras em grandes latifúndios. Essa reorganização do território rural feita para a sojicultura teve início desde a década de 1960, com a política de substituição de importações adotada pelo governo daquela época, e teve como vítima os trabalhadores do campo que foram expropriados para a cidade devido à utilização de equipamentos tecnológicos na agricultura, concentração de posses de terra e aumento do tamanho das propriedades, implementando aí um processo de modernização conservadora no campo. Os indicadores econômicos colocam essa regional, principalmente o município de Barreiras, como um dos maiores centros de desenvolvimento da bacia do São Francisco (MATOS, 2007).
Os estudos que tratam desse aspecto no oeste baiano64 afirmam que nesse ponto o urbano intensificam os investimentos do capital no rural, impulsionando as mudanças necessárias – inclusive espaciais - para uma nova lógica de acumulação. Com isso, as cidades do agronegócio se multiplicam, tornando-se cada vez mais complexas, como lugares de cooperação do capital agrícola, resultando em novas territorialidades (ELIAS, 2006).
Para tanto, houve a adoção de um pacote de medidas para o campo por parte do governo federal, em parcerias com empresas multinacionais, o qual foi denominado de “revolução verde”, que ficou sobre a responsabilidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), que faria a difusão pelo país do pacote tecnológico, cujo objetivo era garantir compromissos firmados entre o Estado Brasileiro e o capital internacional, aumentando a produção agrícola do país para exportação e com isso atingir o equilíbrio da balança comercial (FRANCO, 2001).
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Assim, foi criado um conjunto de medidas de apoio fiscal e crediário à produção agrícola brasileira, o que foi explicitado por meio do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) no período de 1972-1974, no governo do presidente Médici. Segundo Fernandes (2001), tal política fez parte da 2ª Revolução Agrícola Contemporânea, associada ao desenvolvimento da indústria química e mecânica, o que leva à produção em massa de insumos agrícolas.
Essas mudanças se constituíram um terreno fértil para manobras de po líticas territoriais das grandes empresas, ampliando o campo de ação dos capitais privados para o agronegócio. Como o pacote tecnológico vendido ao Brasil não foi acompanhado de políticas que garantissem uma melhor distribuição de rendas e de terras, isso redundou em graves consequências sociais e socioambientais, acentuando a divisão social do trabalho (VEIGA, 1991), transformando também as relações entre campo e cidade.
De acordo com Franco (2001, p. 23),
[...] outro desdobramento da modernização desigua l na agricultura foi a exclusão dos pequenos proprietários, que não tiveram acesso ao crédito rural e, portanto, não puderam concorrer no mercado com a produção em massa dos latifundiários, como resultado, grande parte desses proprietários venderam suas terras ou migraram para as cidades. Ademais, outra parcela foi se tornar bóias frias e assalariados subordinados aos grandes empreendimentos agrícolas.
Na Bahia, o modelo da “revolução verde” na agricultura foi implementado, principalmente na regional Oeste, por meio do Programa de Desenvolvimento dos Cerrados e do Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados, cujo objetivo era implantar pólos de desenvolvimento da revolução verde através da integração ao crédito rural orientado, assistência técnica, pesquisa, apoio de infraestrutura, o que beneficiou os médios e grandes produtores. A especulação fundiária nessa época fez com que as propriedades rurais ampliassem a ocupação de áreas em 70% em 10 anos, com um aumento na ocupação de terras em 131% (SEI, 2000).
A ocupação das terras do oeste baiano foi feita, em sua maioria, por agricultores, cooperativas e empresas do Sul do Brasil associados ao capital internacional. No caso da agricultura familiar, esta se desenvolveu, principalmente às margens do Rio São Francisco, onde as famílias aproveitaram para tirar o seu sustento da pesca; e, nos períodos de cheia, quando o rio deposita em suas margens matérias férteis, a população aproveita para cultivar a agricultura, na época das vazantes. Além disso, é feito um processo de exploração da força de
trabalho em sistemas de diárias, roças arrendadas ou contratos de meia, em que o trabalhador planta a roça e fica apenas com a quinta parte.
A meia é usada também entre os produtores de mandioca e nas casas de farinha. Nas diárias das fazendas de gado, o valor muda quando o vaqueiro se alimenta na fazenda. Se o vaqueiro possui cavalos e arreios, recebe um de cada três novilhos nascidos. Esperando essa retribuição, o vaqueiro sempre viveu de vales q ue depois eram descontados. No caso da pesca, a maioria sempre trabalhou por conta própria, mas são relatados casos de pagamentos com meia produção, ou com um terço, quando eles pescam em lagoas da propriedade de alguém (SOUZA, 1988).
Dessa forma, é possível perceber as formas de exploração capitalistas presentes nessa regional, sendo que a reforma agrária é, atualmente, um mecanismo de luta contra esse modelo excludente e reprodutor do poder oligárquico. Os primeiros assentamentos de reforma agrária foram implantados no município de Barra, em 1988 e, atualmente, estão presentes em quase todos os municípios.
A partir de 2003, foram também realizados outros proces sos de desapropriação de terra devido à luta dos movimentos sociais do campo. Dentre eles, as comunidades de Fundo de Pasto. Estas são formações socioeconômicas que configuram um modelo singular da posse e uso da terra no semi-árido, cuja expressão social vai além da participação como força produtiva, pois nessas formações se realizam pastoreios comunitários extensivos do gado de pequeno porte e de agricultura de subsistência. Para contrapor ao capital, os movimentos sociais ainda enfrentam o problema de grilagem de terra. De acordo com Wanilson Santos, integrante da coordenação estadual do MST, em entrevista para o jornal EcoDebate,
[...] um dos grandes empecilhos ao avanço da reforma agrária no Oeste Baiano é a grande dificuldade existente para demarcar os lotes dos assentamentos. É uma região que ainda possui muita grilagem de terras, com grupos que trabalham só com isso, a serviço dos estabelecimentos do agronegócio.
Figura 8 – Ocupação do MST a uma rodovia da regional Oeste.
Como estratégia de enfrentamento ao capital, na regional, o MST tem utilizado as ocupações dos espaços públicos para pressionar o Estado, no sentido de conseguir os objetivos de luta, como assentamentos de famílias em áreas rurais ocupadas, construção de escolas, postos de saúde, dentre outros.
Nessa regional, o setor de educação está estruturado com coordenações nas brigadas. Em apenas alguns municípios é possível implementar a proposta de educação do MST, pois existem prefeituras em que o diálogo não acontece. A coordenadora estadual do setor de educação na região fez a seguinte afirmação: “Os professores de lá são da cidade e não tem
problema que o MST enfrenta em todas as regionais do Estado em algumas escolas para que os seus princípios sejam trabalhados. O planejamento acontece nos municípios onde o MST tem autonomia para fazê- lo, de forma interdisciplinar, e são trabalhados com base em projetos temáticos:
O planejamento é interdisciplinar, quinzenalmente. A gente pega um tema pra trabalhar todas as disciplinas. É mais fácil para trabalhar com as turmas multisseriadas porque a gente só modifica o conteúdo de acordo com a série. Os temas são discutidos de acordo com a necessidade da comunidade. A decisão dos temas é coletiva. (COORDENAÇÃO DO SETOR DE EDUCAÇÃO – REGIONAL OESTE DA BAHIA, 20/11/2012).
Nessa regional existe um esforço do governo municipal para a implementação do Programa Escola Ativa nas escolas das áreas de assentamentos do MST, o que tem gerado conflitos entre a coordenação da educação do MST e as secretarias municipais de educação, por não haver concordância nesse sentido. O MST entende que esse programa é voltado para os interesses capitalistas, por isso, não o aceita nas áreas de assentamentos e acampamentos que estão sob seu domínio.