A Regional Sudoeste da Bahia é formada por 39 municípios, com 1.131.868 habitantes e abriga uma das mais expressivas zonas de criação de bovinos do estado. Possui uma área de 42.542,9 km² que corresponde a 7,5% do território baiano, e, aproximadamente, 8,13% da população do Estado da Bahia.
A atividade agrícola está concentrada na cafeicultura, nos municípios de Vitória da Conquista, Planalto e Barra do Choça, e na horticultura, em Jaguaquara e municípios vizinhos (SALGADO, 2006, p. 6).
A regional Sudoeste conta com centros urbanos muito importantes do estado: Vitória da Conquista, Itapetinga e Jequié, sendo que Vitória da Conquista é o terceiro município do Estado, com uma população, conforme o IBGE (2011), de 310.129 habitantes.
Os municípios baianos que fazem parte da regional Sudoeste são: Anagé, Barra do Choça, Belo Campo, Boa Nova, Bom Jesus da Serra, Caatiba, Caetanos, Cândido Sales, Caraíbas, Cravolândia, Encruzilhada, Firmino Alves, Ibicuí, Iguaí, Irajuba, Itambé, Itapetinga, Itaquara, Itarantim, Itiruçu, Itororó, Jaguaquara, Jequié, Lafayette Coutinho, Lagedo do Tabocal, Macarani, Maiquinique, Manoel Vitorino, Maracás, Mirante, Nova Canaã, Planaltino, Planalto, Poções, Potiraguá, Ribeirão do Largo, Santa Inês, Tremedal e Vitória da Conquista, sendo essa última classificada como centro sub-regional muito importante.
A luta pela terra na Regional Sudoeste da Bahia data de antes do MST se organizar nessa região. Conforme Honorato Filho (2006, p. 32), a consolidação do MST, de fato, no sudoeste baiano aconteceu com a ocupação da Fazenda Mocambo em agosto de 1994, localizada no município de Vitória da Conquista – BA. Entretanto, o MST fez ocupação também em outros municípios da regional: Barra do Choça, Encruzilhada, Anagé, Ribeirão do
Largo, Iguaí, Poções, Cordeiros e Itapetinga. Porém, foi em Vitória da Conquista que ele iniciou, se expandindo para os demais municípios. A organização da luta pela terra nessa regional esteve relacionada ao processo de modernização conservadora do capitalismo no Brasil, na década de 1970, e à crise da cafeicultura no Sul do Brasil, nesse mesmo período, quando a geada (fenômeno climático) e a ferrugem acabaram com as plantações de café da produção sulista.
Para superar essa crise, os produtores brasileiros que exportavam café viram nessa região baiana um campo para expansão dos seus negócios devido à posição geográfica e às condições climáticas favoráveis. Começaram, então, a investir nessa localidade comprando terras e expulsando do campo muitos camponeses para que as “modernas fazendas de café” fossem implantadas. Foi quando o Governo Federal trouxe, também, para a região o Instituto Brasileiro do Café (IBC) com o objetivo de fazer financiamentos e dar assistência técnica para os empresários no cultivo do café. Nesse período, houve expropriação dos trabalhadores do campo, os quais foram obrigados a vender suas terras e se deslocarem para bairros periféricos de Vitória da Conquista, como relata Medeiros:
Muitos trabalhadores perderam suas terras porque as venderam muito barato, foram morar no Alto Maron e, mais miseráveis que antes, são obrigados ao trabalho de 10 a 12 horas diárias deslanchando pela febre do café. Queixa-se a população urbana de falta de água – Conquista possuía cerca de 80 mil habitantes no Censo de 70 e final da década estima-se em 160 mil. Como desapareceram as pequenas propriedades, com elas também foram embora os gêneros de subsistência. As verduras, as frutas, o feijão o milho e a própria farinha estão praticamente extintos da região. A própria carne do boi outrora mais abundante e por isso mais barata, com o aprimoramento da pecuária leiteira aumenta de preço: um quilo de carne estava custando por volta de 70 cruzeiros enquanto a diária média do trabalhador rural não chegava a 45. (MEDEIROS, 1979, p. 23-24).
Porém, isso não foi aceito de forma passiva pelos trabalhadores, os quais, com a ajuda da igreja, dos sindicatos e do Partido dos Trabalhadores começaram as primeiras lutas pela conquista da terra, ainda na década de 1960. Dada a efervescência das lutas instaladas e do contexto ditatorial vivido pelo país, dentre as lideranças, havia pessoas que foram perseguidas, presas e até exiladas, confirmando, assim, a organização dos trabalhadores na luta pela terra desde antes de o MST chegar à região.
Outro município que merece destaque, por ser onde aco nteceu a gênese do MST na regional, mesmo antes da consolidação deste movimento, foi o município de Barra do Choça, especialmente uma região de terra fértil para a agricultura e pecuária, conhecida como Pau- Brasil na qual existem histórias de luta e resistência contra os grileiros que tentaram tomar as
terras dos camponeses. É o que podemos observar nas entrevistas abaixo de acordo com uma pesquisa realizada por Medeiros (1979):
Não aceitamos fazer como o Zé de Chico, Pedro Vieira, Mané Bodinho e outros que largaram tudo que tinham, com medo de lutar para não perder os seus direito de plantar, foram depois morar, lá na Conquista, na beira da rua, passando fome. Muita gente aqui nessa região toda ou abandonou por medo, ou saiu em troco de banana da sua terra e foi trabalhar de alugado no café. É por isso que a fome aumentou depois que chegou o café. No princípio houve até muita alegria porque tinha ganho certo, mas, depois que sumiram todos roçados, o café ficou mesmo ruim.(1979, p.24).
Nós moramos aqui no Pau-Brasil, desde que nascemos e já temos mais de 50
anos de idade, mas tem gente muito mais velha do que nós aqui”, relatam os posseiros José e Pedro. “Nossos pais já morreram velhos caducos e tinham
nascido aqui. Essa terra nós ouvíamos falar, era do Rogério Gusmão, mas esse homem morreu e nós nunca fomos incomodados por ele. Nós nem chegamos a conhecê-lo. Faz mais de 10 anos que a viúva dele, Dona Sinhá, chamou os posseiros e explicou que queria vender a fazenda, mas não queria tomar nada de ninguém. Por isso ela estava disposta a indenizar os que aceitassem: ela daria 50 alqueires de terra (cerca de 1.000 ha) nos fundos da fazenda. Na verdade, ela indenizou uma parte das famílias e a outra parte que não aceitou a indenização, ela não chegou a dar a terra.(1979, p. 24). Depois dessa estória de café, apareceu por aqui um tal de Germano Souza Neves, de uns seis anos para cá dizendo que tinha comprado a fazenda e agora todo mundo teria que sair, ou então aceitar uma mudança lá pras terras da piçarra. Nós nem aceitamos sair nem tão pouco ir para a piçarra. Acredite que toda sorte de miséria e ameaça e perseguição esse homem já fez com o povo do Pau-Brasil. Laudelino, desgostoso, enforcou-se, Clemência e Jacinto morreram de susto no coração, quando germano invadiu as roças e tocou fogo nas casas. Intimação nem se conta mais, é para mais de cem. E os grandes estão com ele porque o Delegado de Barra do Choça falou que para deixarmos as terras depois de ter dito muito desaforo para nós. Esse Delegado de Vitória da Conquista, faz pouco dias, esteve aqui numa reunião com a gente e não permitiu que nenhum posseiro falasse. Veio acompanhado de vários soldados, e comandante do Batalhão da Polícia Militar; acabou
dizendo que ele “estava aqui para garantir o dinheiro que o governo estava emprestando aos fazendeiros para plantar o café”, e os posseiros daqui tinha de desocupar as terras para Germano prosseguir no plantio”.(1979, p. 24).
Tais entrevistas retratam o exemplo da truculência dos grileiros de terra na região e a força da justiça em favor dos proprietários no período ditatorial. Entrou em cena a igreja ajudando os trabalhadores, sensível aos problemas vivenciados por esses camponeses, assumindo uma postura de solidarizar-se, nesse caso, com essa comunidade injustiçada, culminando com a ocupação de 180 famílias.
Vale ressaltar que foi dessa intervenção das igrejas pela causa dos camponeses que surgiram os movimentos sociais do campo, no sec. XX. Todavia, nesse contexto fica explícito
que havia setores organizados e preocupados com os problemas sociais sofridos pelos trabalhadores do campo brasileiro, inclusive na Regional Sudoeste da Bahia. Mas ainda não havia, nesse contexto, a presença do MST, o qual, nesse período ainda está em fase de discussão pelos dirigentes e não se efetivou enquanto movimento social, o que só iria acontecer em 1984, no 1º Congresso Nacional.
Existem poucos trabalhos acadêmicos sobre a história do MST nessa região da Bahia, a exemplo de Medeiros (1979), Honorato Filho (2006), Salgado (2006), Santos (2002), Oliveira (2009), sendo o primeiro, o que mais se detém nesse aspecto. Entretanto, as demais pesquisas se referem a questões educacionais, passando pela contextualização histórica da regional apenas de forma sucinta, com base na história oral de militantes, sindicalistas e pessoas da igreja católica que faziam parte da CPT e das CEB. Sendo assim, tal aspecto ainda se constitui uma lacuna a ser preenchida por pesquisadores futuros, dada a riqueza da contribuição dos movimentos sociais nesse contexto.
O Setor de Educação do MST da Região Sudoeste da Bahia foi criado em 1995, a partir de contradições dos Movimentos Sociais e do sistema capitalista, oriundas de uma conjuntura nacional que se caracterizou como processo dialético da luta dos trabalhadores por conquistas sociais e econômicas a nível nacional. É o mais bem estruturado do Estado.
Na Regional Sudoeste da Bahia, coincidentemente, os primeiros assentamentos, Amaralina e Etelvino Campos, tiveram como professores das escolas municipais neles inseridas, pessoas ligadas a movimentos sociais e Comunidades Eclesiais de Base (CEB), às quais estavam ideologicamente relacionadas aos objetivos educacionais do MST, o que facilitou o debate entre o referido Movimento e os educadores, para criar o Setor de Educação do MST na Região61, sendo que o mesmo foi formado por educadores pertencentes ao quadro de servidores públicos do município de Vitória da Conquista (PEREIRA, 2008, p. 68).
Inicialmente, as escolas municipais dos assentamentos faziam parte das Escolas Municipais Isoladas do Município, às quais possuíam uma direção e coordenação específica. As escolas que não faziam parte desse conjunto eram agrupadas recebendo a denominação de Círculos Integrados, que também tinham seu corpo administrativo e pedagógico. Em 1994 começaram a ocorrer reuniões periódicas dos professores dos assentamentos de Vitória da Conquista com educadores do MST de outras regiões do país, onde o Movimento já estava consolidado, para discutir formas de organizar e estruturar o setor na Regional Sudoeste.
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A partir de várias reuniões das lideranças do MST com a administração municipal, surgiu em 1996, o Círculo Integrado das Escolas de Assentamentos, composto de um diretor, uma vice-diretora e um coordenador, todos, educadores do município de Vitória da Conquista, cujo objetivo era trabalhar a educação nos assentamentos e acampamentos de acordo com a Proposta de Educação do Movimento, explícita no Caderno de Formação nº 08, onde estão definidos os princípios norteadores da educação escolar nos as sentamentos de Reforma Agrária, os quais se dividem em Filosóficos e Pedagógicos. Visou também corrigir a defasagem idade/série, evitar a evasão e a repetência, garantir a matrícula de todos os alunos na rede escolar (PEREIRA, 2008, p. 34).
Em 1997, início da primeira gestão do Partido dos Trabalhadores frente à Prefeitura do Município, o setor de educação do MST conseguiu a sua autonomia político/ pedagógica no sentido de escolher o quadro de profissionais para compô- lo, por meio de entrevistas dos professores que pleiteavam vagas nas escolas de assentamentos e acampamentos, que nessa época já eram onze de 1ª à 4ª série e uma de 1ª à 8ª série. O objetivo era ter nas escolas pessoas que coadunavam com os objetivos do MST. A referida autonomia foi conquistada a partir da luta da categoria dos professores municipais por meio do Sindicato Público Municipal dos Professores de Vitória da Conquista (SIMMP) e está garantida no Art. 43º do Acordo Coletivo de 1997.
Em 1999, o Círculo Integrado das Escolas de Assentame nto se ampliou, ficando da seguinte forma: Círculo Integrado das Escolas de Assentamento Sede e Círculo Integrado das Escolas de Assentamentos do Chapadão, ambos com direção indicada pelo MST, dentre os professores militantes do Movimento. Essa forma de funcionamento aconteceu até 2005 em Vitória da Conquista. Nos demais municípios as escolas continuaram funcionando até a presente data sem fazer parte de nenhuma divisão burocrática específica. As brigadas da regional Sudoeste que conseguiram autonomia junto às secretarias de educação são: Sede, Chapadão, Manoel Bonfim, Maria Zilda. As demais ainda não conseguiram total autonomia frente às secretarias municipais de educação para gerenciar as questões administrativas e pedagógicas.
De acordo com o setor de educação do MST, a Regional Sudoeste contou, em 2012, com 20 escolas. Três escolas com o ensino médio e, entre as demais, três com educação infantil e ensino fundamental I e II e as outras, apenas com o ensino fundamental I, sendo que o que total de alunos está em torno de, aproximadamente, 1.500.
Os planejamentos acontecem em cada brigada, mas, de acordo com o coordenador estadual do setor de educação, esse ainda é um problema, haja vista que nem todos os coordenadores de brigada conseguem conduzir esse pro cesso.
É um problema que tenta resolver a partir de avaliações constantes. É claro que a militância no movimento não é 100% nesse aspecto. A militância tem muita dificuldade de formação, e varia a cada época. E até mesmo a própria conjuntura interfere. (COORDENADOR ESTADUAL DO SETOR DE EDUCAÇÃO).
Os planejamentos são coletivos, inclusive com a participação da comunidade, conforme expressa uma professora da brigada Chapadão:
Os planejamentos têm a participação dos líderes de alguns dos assentamentos. Por exemplo: a gente faz o planejamento em cada assentamento, e a gente pega 2 ou 3 representantes da comunidade para participar. (PROFESSORA, BRIGADA CHAPADÃO).
Como as “frentes”62 foram criadas nas regionais do Estado para cada modalidade de ensino com o objetivo de facilitar o trabalho, verifica-se que a Regional Sudoeste possui todas as frentes, uma vez que já possui assentamentos que têm todos os níveis e modalidades da educação básica. No caso do Ensino Superior, além dos cursos oferecidos regularmente pelas universidades brasileiras, existem os que são oferecidos por estas instituições de ensino superior em parceria com o Programa Nacional de Educação na Refor ma Agrária (PRONERA), em que pessoas dos assentamentos estudam ou estudaram. Tais cursos têm monitores, os quais são educandos oriundos dos movimentos sociais que representam tais movimentos nas universidades parceiras.