Segundo Filomensky, Tavares e Cordás (2008), estudos realizados com o objetivo de medir a eficácia de certos remédios obtiveram resultados significativos, revelando que os pacientes apresentam melhoras, embora não se tornem assintomáticos. Os autores ressaltam,
porém, que o tratamento farmacológico da impulsividade e do desejo de comprar é ainda experimental.
Em relação ao Citalopram (antidepressivo), o único estudo duplo cego sobre esse medicamento, realizado por Koran e colaboradores (2002), mostrou resultados favoráveis. Para Black (2007a), o medicamento é eficaz, já que a remissão pode perdurar ao longo de um ano de tratamento. O mesmo autor, em 2001, levantou dados sobre tratamentos
farmacológicos e observou uma variação entre eles, com o uso, por exemplo, de Fluoxetina, Bupropiona, SRIs (combinados com estabilizadores de humor), Fluvoxamina, Citalopram, Naltrexona e de antagonistas opioides.
A Fluvoxamina (antidepressivo) foi abordada por meio de estudo duplo cego de Black et al. (2000), que envolveu 23 pessoas. Eles concluíram que pacientes que tomam a Fluvoxamina ou o placebo respondem quase similarmente durante o tratamento, apesar de a primeira ocasionar efeitos colaterais, confirmando os achados de Ninan et al. (2000). Black et al. (2004) apontaram que a substância é útil no tratamento do comprar compulsivo – independentemente da associação com sintomas depressivos –, mas ainda se mantém sem comprovação de superioridade. Os autores são claros ao dizer que a psicoterapia analítica e as estratégias cognitivo-comportamentais têm obtido melhores resultados. Entretanto, Marcinko e Karlovic (2005) realizaram pesquisa delineada como estudo de caso – acompanharam o uso de Fluvoxamina, combinado à psicoterapia, e identificaram melhoras relativas ao comportamento de comprar, as quais perduraram por doze meses. Indicam não haver confirmações, via testagem controlada, para o uso de antidepressivos e de antagonistas opioides. Estes estudiosos afirmam que os inibidores de receptação de serotonina (SRIs) permanecem como os fármacos mais bem estudados.
McElroy et al. (1994) realizaram pesquisa delineada como estudo de caso, com vinte pacientes, e apontam para o efeito positivo dos antidepressivos. Filomensky, Tavares e Cordás (2008) corroboram McElroy e acrescentam: “Os antidepressivos e os estabilizadores de humor são as medicações mais utilizadas no tratamento de compras compulsivas, em decorrência do alto índice de comorbidades” (2008, p. 129).
A Naltrexona é um agonista parcial de receptores opioides aprovado para o tratamento da dependência por álcool, que atua no sistema nervoso central, no processo de prazer/dor. Quando utilizado em doses altas, mostra-se promissor no tratamento, assim como nos casos de jogo patológico, de cleptomania e de alcoolismo (KIM et al., 2001; KIM, 1998; GRANT et al., 2003).
O Topiramato, testado por meio de relato de caso, favorece a remissão do comportamento de compras (GUZMAN; FILOMENSKY; TAVARES, 2007).
Para Tonelli et al. (2008), os estudos que envolvem antidepressivos inibidores de recaptação de serotonina se mostram promissores e sua utilização está de acordo com a dos fármacos aplicados nos tratamentos do espectro obsessivo-compulsivo, cujas respostas são bem estabelecidas. Assim medidas não farmacológicas, como o acompanhamento psicológico e o preenchimento de diários (automonitorização), quando aplicadas juntamente com medicamentos, podem influenciar na melhora do quadro dos indivíduos. No entanto, os pesquisadores consideram escassas as evidências a respeito do tratamento farmacológico – que, em geral, envolve drogas de efeito serotonérgico – e acreditam que as metodologias empregadas devam ser mais criteriosas.
Marcinko e Karlovic (2005) concordam com a não existência de um tratamento- padrão para o transtorno. Também afirmam que os relatórios encontrados sobre o uso de fármacos, apesar de indicarem uma grande variação de métodos e de amostragens, sugerem que a intervenção farmacológica é efetiva para o tratamento do transtorno.
5 MÉTODO
Com vistas a atender aos objetivos deste trabalho, planejou-se uma pesquisa qualitativa, delineada por meio de Estudo de Caso Múltiplo, desenvolvida a partir de entrevistas semiestruturadas e de genogramas. Foi contemplado um levantamento extenso da bibliografia referente à oniomania e das questões relacionais presentes na terapia, com foco em casais nos quais um dos parceiros apresentasse um quadro de compras compulsivas.
Uma das funções da pesquisa qualitativa é reunir elementos que permitam trabalhar focalmente um tema. No caso deste estudo, nosso foco são os padrões de relacionamento de casais em que um dos membros seja diagnosticado como comprador compulsivo. Para Kublikowski (2008, p. 5), este tipo de pesquisa “focaliza em profundidade pequenas amostras e até mesmo casos singulares, escolhidos de forma intencional”. Denzin e Lincoln (1994) afirmam que a pesquisa qualitativa estuda os fenômenos procurando compreendê-los a partir dos significados que os participantes lhes atribuem, com ênfase no processo e no significado. Ela também envolve uma variedade de materiais empíricos, que descrevem os momentos e os significados de vida dos indivíduos. Isso faz do pesquisador um bricoleur, isto é, um articulador que oferece soluções para determinada situação. Seu papel é entender a pesquisa tal qual um processo interativo, moldado por elementos como história pessoal, gênero e etnia. Dessa maneira, ao trabalhar com padrões de relacionamento conjugal em que um dos membros do casal seja um comprador compulsivo, a pesquisa qualitativa favorece uma compreensão aprofundada dos padrões em relação aos significados atribuídos a eles pelos participantes, assim como do papel das compras compulsivas em danças de caráter psicológico praticadas por esses casais. É importante notar que “significado” se refere ao processo pelo qual as pessoas organizam suas ações não em torno das coisas em si, mas em torno do que tais coisas representam para elas – o que nos remete aos símbolos, à linguagem e à cultura.
Para o delineamento da pesquisa, planejamos um Estudo de Caso Múltiplo, aqui definido como instrumental (STAKE, 1994). Mas cada caso foi definido como um estudo de caso, ou seja, um quadro, ao ser examinado, oferece um olhar mais aguçado sobre determinado assunto. O caso em estudo possui um papel de apoio, facilitando a compreensão e a teorização de algo mais. Ele é utilizado para responder a uma questão e para ampliá-la. Considerando que a pesquisa foi realizada com oito casais participantes, trata-se de um
Estudo de Caso Múltiplo, ou seja, de um estudo instrumental ampliado para diversos casos (YIN, 2003). Quando se planeja uma pesquisa deste tipo, o procedimento pode ser considerado uma variante do método do estudo de caso.