• Sonuç bulunamadı

Os pais de H5 brigavam e discutiam muito e havia presença de violência verbal, de desqualificações, de brigas e discussões violentas presenciadas pelos filhos:

[...] às vezes a gente até escutava eles discutindo lá no quarto. Na nossa frente chegavam até discutir às vezes. Era cada briga feia [...] chegava ao ponto de ser coisa, discussão muito violenta mesmo [...] muitas questões financeiras ali [...] minha mãe queria comprar alguma coisa, às vezes ele não podia, porque tava faltando dinheiro, então acabava brigando por causa dessas situações [...] mas qualquer coisa era motivo pra discussão [...] sempre soube que ele tava no banco com a conta negativa, sempre tava fazendo empréstimo [...].

Seu pai nunca falou de dinheiro abertamente com os filhos, que sempre souberam das suas condições financeiras.

O pai de H5 acabou perdendo um negócio assim que decidiu vendê-lo ao namorado da filha, pois este não pagou por sua parte ao sogro e H5 foi excluído dessa sociedade e negociação.

Era comum seu pai ficar sem dinheiro, apesar de ser funcionário de banco, o que aumentava a própria angústia e não comentava com ninguém. Diz que a aparência dele de ranzinza era reflexo das dificuldades financeiras geradas pelas compras em excesso da esposa

e por fazer empréstimos no banco, comportamento que ele também tem. Um aspecto relevante era o modo de sua mãe gastar. Ela queria coisas para a casa e o pai não tinha dinheiro para tal, não podendo atendê-la. Segundo M5, a sogra comprava e jogava fora algumas coisas, algo que ele repete, considerando que a mãe de H5 tenha problemas com compras. H5 repete o padrão de gastos e é acudido pela esposa, assim como sua mãe foi pelo seu pai.

O pai controlava as despesas e não dizia que estava com a conta no banco negativa, apesar de que os familiares sabiam. Assim como H5, o pai é quieto e fechado. Ele diz: “[...] a família do meu pai é uma família assim, sempre fechados [...] de cara brava, não bravos, mas de cara brava. Carrancudos”. Seus pais não tomavam decisões juntos, e assim ele repete esse modelo.

Sua mãe demonstrava claras diferenças de tratamento entre ele e a irmã, desenvolveram uma aliança e não o deixava comprar coisas. Ele diz não que se importava em consumir. Ela o diminuía e desqualificava, usando estilo brusco. Ele aprendeu a se calar ao ver as coisas que não concordava. Ele diz:

A minha irmã [...] é uma mulher muito vaidosa, sempre tem que ter do bom e do melhor, e minha mãe sempre alimentou isso dentro dela (a irmã), ela é a princesa, ela é a rainha [...] mas eu não era assim tão paparicado [...]. Ela queria as coisas e conseguia [...]. Entravam em dívida por causa dela [...] minha mãe entrava por causa dela, porque queria manter a vaidade dela [...]. Meu pai acatava muito [...] por uma questão de personalidade da minha mãe e da minha irmã, que eram muito fortes e dominavam ele [...] minha mãe fazia a cabeça dele pra satisfazer (a irmã). (Grifo nosso)

H5 foi desconfirmado e humilhado pelos pais, sofreu violência verbal da mãe, que o considerava incompetente e incapaz de fazer e resolver as coisas: “Sempre aceitei essa situação e nunca falei nada [...] chegou ao ponto que eu não tinha como voltar atrás. Quando eu percebi isso, ai eu peguei e saí de casa. Fui pra fora [...]”. Com a sua esposa ele repete a desconfirmação vivida na história familiar, pois também não a consulta, desconfirmando-a, independentemente do ponto de vista dela:

[...] sou muito impetuoso [...] tem que ser do meu jeito, vai e pronto [...] rapidinho resolvo [...] mas tem muita coisa que eu vou e faço sem falar com ela. Depois que aconteceu, aí eu vou esperando a bronca [...]. Apesar de ser casamento, onde une tudo [...] eu acho que tem certas coisas que não precisa tá toda hora falando [...] não me vejo como orgulhoso [...] é uma decisão assim na hora [...] às vezes é rápida.

Ele viveu desde cedo sob as críticas da mãe e acredita que a esposa repete sua mãe ao tentar ajudá-lo e ao dar conselhos. M5 é interessada pelo que acontece com ele, e talvez ele compreenda isso como crítica até mesmo pela forma que ela se comunica: “Porque ele é um pouco teimoso [...] aí ele: ‘Ah, mas será?’. Ai,eu: ‘Não, você tem que fazer [...]. Usina não dá mais’ [...] sempre teve um papel de convencer [...] convencimento [...] ele é orgulhoso.”

Assim como seu pai ficava impermeável às vontades da esposa, e vice-versa, ele também não consegue atender às de sua esposa, que diz só poder fazer as coisas com o próprio dinheiro, sem poder contar com ele. Ela diz:

[...] hoje em dia a única que tem sonho sou eu, ele não [...] eu vejo ele no meu sonho [...] se eu quiser realizar meu sonho, vou ter que correr atrás sozinha [...] achava que ele teria um futuro [...] assim [...] não teve um final que nós pensávamos.

Porém consegue mudar o padrão ausente de seu pai e estar presente com ela e os filhos. Em sua família de origem não havia modelo de proximidade afetiva entre o casal, tampouco de H5 com a irmã. Desse modo, ao se aproximar de seus filhos e da esposa, tenta realizar um antimodelo.

Segundo H5, seu pai se submetia a sua mãe. Assim, provavelmente, o casal estabeleceu um padrão de interação complementar rígido com submissão masculina.

Ela viveu em uma família tradicional, o pai era o provedor e a mãe, dona de casa. Em suas experiências os modelos familiares implicavam que a mulher perpetuasse o modelo tradicional se casando, principalmente, antes de ficar mais velha. Ela tinha que dar satisfações para o pai de suas atitudes e decisões. O pai dela era trabalhador, tinha comércio próprio, era centrado e correto. O conceito de família inclui como critério principal a escolha do marido por valor atribuído àforça de trabalho. Sua mãe tinha sonhos, especialmente o da casa própria, que foi cumprido, porém não exatamente como ela desejava. (A mãe dela queria uma casa maior, e para o pai a que tinham já estava boa.)

M5 diz que ela era “melindrosa”, que evitava falar as coisas para a mãe, pois era quem a cobrava mais, em especial pelo casamento, por causa da idade. A cobrança é a atitude repetida por ela em sua vida conjugal. Na relação a dois, ela procurou repetir o padrão paterno ao controlar as contas e tentar fazer sobrar dinheiro. Seus pais pouco divergiam sobre seus pontos de vista, o que talvez facilitasse o estabelecimento de ajustes financeiros. Aparentemente, havia proximidade afetiva entre ambos e é provável terem estabelecido

13.3 FLUXO VERTICAL – COMUNICAÇÃO

Quanto ao diálogo do casal, sobre o nível de relação pessoal, observamos que iniciaram o relacionamento com a aceitação. Ela diz: “[...] no começo a gente conversava muito, tanto que em seis meses de casada já compramos apartamento [...] trocava ideias, tinha sonhos [...].” Atualmente, ele consegue controlar aquilo que influi negativamente na relação, procurando um equilíbrio:

[...] vi que tava fazendo besteira [...] fazer isso eu tô fugindo da minha responsabilidade [...] tenho que arcar com meus erros e procurar acertar [...] De três anos pra cá reconheço que tenho errado muito [...] tô errando menos [...] Não me sinto mais dessa forma, não [...] quando ela fala comigo, fico bravo [...] começo a pensar [...] tenho que modificar.

A aceitação não se processa com frequência na relação, por resistência e impermeabilidade da parte dele e tentativa de controle da parte dela.

Quando emergem tensões, a rejeição assume a frente da interação, aspecto que surgiu algum tempo depois no casamento. Ele diz: “[...] eu acho que tem que ser aquilo, tem que ser aquilo. Não ouço, assim, opinião de terceiros [...] já perdi um pouco desse orgulho [...] certas coisa dá certo e muita dá errado.” Ela aponta para as mudanças que ele deveria realizar e rejeita o modo de ele agir e de se comunicar, usa o estilo brusco, algo que se cristalizou na relação.

Quanto à desqualificação, a categoria está presente na relação interpessoal por meio de declarações contraditórias, mudanças de assuntos, interpretações literais, tangenciamento, estilo brusco, incoerências, desconfirmações. Ele diz:

De uns tempos pra cá eu comecei assim a ficar mais devagar nas ações das coisas. Como se alguma coisa me impedisse [...] quando ela pedia as coisas [...] acabava esquecendo e não fazia [...] eu mentia [ ...] ela sabia que eu tava enrolando [...] inventando alguma coisa pra justificar o que não teria feito [...]. Eu acho que eu consigo enganar ela, mas [...] tá escrito na minha cara que eu tô enrolando [...] como se eu fosse um estorvo. Motivo de tudo que dava errado na vida dela, eu sou o culpado de tudo dar errado [...] ela me chamou de vagabundo. E eu saí com o carro, com tudo, pra me jogar na represa [...] (declarações contraditórias, interpretações

A desconfirmação faz parte da comunicação, por exemplo, quando ela tenta comandar o relacionamento rejeitando seus conteúdos e ações. Quando ele aceita o que lhe é comunicado, usa também de desconfirmações, que ocorrem quando H5 se cala. Ele diz:

O que eu vejo nela (a esposa) é que ela vê esse problema e quer resolver de uma forma diferente [...] quer que eu vá em frente [...] uma cobrança que eu acreditar mais em mim [...] quando me cobram as coisas eu fico bravo, com raiva [...] minto [...] quando ela (a esposa) conversa comigo, mais sério [...] ela até fica brava: ‘Você não vai falar nada? Vai só ouvir?’. M5: É porque ele não fala. É um monólogo, porque eu falo e ele ouve. H5: Ela fica brava ainda porque eu não falo [...] era cobrado e fechava [...] carrego comigo a questão de ficar fechado, quando sou cobrado eu me retraio [...] ela (a esposa) quer [...] uma maior participação. Ela chama a atenção e vem como se fosse uma questão de tá na liderança da situação. Tá no comando [...] à medida que ela conversa e chama a atenção com algumas coisas, eu paro pra pensar: ‘exatamente ela tem razão’ [...] dependendo, tem hora que eu ainda converso com ela. Mas tem horas que eu ainda tenho dificuldade [...] o principal tema é a questão do dinheiro [...]. M5: [...] eu já conversei [...] daí ele não responde. Uma vez escrevi tudo que eu pensava, e daí ele respondeu [...] deixava em cima do travesseiro [...] Aí, no outro dia, ele também escreveu, se colocou, e daí em cima das colocações dele eu tornei a escrever [...] daí eu falei: ‘Não adianta ficar escrevendo, vamos conversar’. Eu tento achar maneiras [...] me deixa sufocada mesmo é isso deu falar. E ele não responder. E eu cobro isso [...] cheguei a falar ‘me bate [...] me chacoalha!’. (Grifo nosso)

O tangenciamento é maneira utilizada por ele para se comunicar:

[...] acho uma coisa que tem que ter uma empatia muito grande [...]. Nunca falei isso pra ela [...]. Nunca cheguei a comentar [...] quando uma coisa não dá certo, ela já fica nervosa, irritada, muito chateada. Às vezes, tem coisa que eu não falo pra não ver ela irritada [...]. Quando ela pergunta, aí eu falo. Se ela não pergunta, eu não falo [...] eu só tô omitindo [...] assuntos que deixam ela meio conturbada, estressada, eu evito de falar [...] não tô deixando os fatos escondidos.

Ela diz: “É a mesma coisa do filho [...]. Ele não aceita o que eu falo [...] pra mim não

brigar, eu pego e faço de conta que eu aceito [...].”

Estilo brusco ocorre quando ela atinge seu limite e explode. Ele diz: “[...] ela me chamou de vagabundo. E eu saí com o carro, com tudo, pra me jogar na represa [...] isso me deixou magoado [...] mas caiu um raio na minha frente e eu vi que tava fazendo besteira [...] fazer isso eu tô fugindo da minha responsabilidade [...].” Ela responde:

Ele falou que chamei ele de vagabundo, eu não falei [...] ele foi na atribuição do Estado e só completou (a jornada) [...] ‘tinha aula e você não pegou?. Por quê?’ [...] ‘ah,eu não ia dar conta do horário’ [...] ‘Ia dar conta: você é capaz [...] tem condições’ [...]. Então é um relacionamento muito difícil [...] eu tô chamando a

atenção. É a mesma coisa do filho [...]. Ele não aceita o que eu falo [...] pra mim não brigar, eu pego e faço de conta que eu aceito [...] sou um ponto de equilíbrio [...] da família mesmo [...] se eu desestabilizar [...] ele vai pro buraco e os filhos [...] eu cobro muito [...] eu sou mãe mesmo [...] em todos os pontos, eu cobro, eu converso, eu dou conselho, eu pergunto como que éa vida deles (dosfilhos). Do mesmo jeito que eu faço com ele [...] me vê como a coluna da família [...] como batalhadora [...] o que acontece quando ele faz uma coisa de errado, a primeira coisa é brigar mesmo, e falar: ‘por que você fez?’ [...] mas depois eu chamo [...]. (Grifo nosso).

A incoerência ocorre quando ele pretende “não comunicar”. Ele diz:

[...] eu percebo que ela tem razão, eu fico quieto. É meu modo de demostrar que ela tá certa (calado) [...] quando eu vejo que eu tô certo, ai eu brigo [...] sempre fui dessa forma, de ficar ouvindo [...] é uma coisa minha. Não sou de falar muito [...] eu penso que ela poderia entender que eu sou dessa forma [...]. Eu não faço porque eu quero provocar, não falo porque é meu jeito [...]. Não tem o que discutir uma coisa quetá certa [...]. Eu reconheço que tô errado e que ela tá certa [...] quando eu tenho em mente que tá certo o que eu tô fazendo, eu contra-argumento [...] reconheço que precisa ter mais diálogo [...] várias vezes eu tô assim de cara mais fechada, mas não é porque tô de cara fechada que tô pensando alguma coisa. Às vezes tô, às vezes num tô. A gentetem altos e baixos de humor [...] tem dias que eu tômais pensativo [...] fico pensando o que eu posso fazer pra melhorar, o que eu fiz de errado, fiz certo, falo ou não falo [...]. (Grifo nosso)

O sintoma das compras compulsivas comunica questões de poder, controle e disputa,

problemas de distanciamento físico e emocional do casal, em especial o sexual. Ele diz:

[...] eu procuro colaborar com ela [...] tomo inciativa e ajudo em casa [...] prestativo [...] até na parte sexual a gente não tem tido muitos encontros sexuais. Tesão mesmo [...]. Antes eu tinha [...] por conta do remédio [...] cansaço [...] mas não é motivo, a gente pode superar isso [...] essa falta de apetite [...] será que é porque eu tô fazendo essas coisas erradas.

Ela concorda:

Eu acho que ele passa muito pouco das coisas dele pra mim [...] Eu sou mais assim [...] tudo que eu tenho que falar eu chego pra ele e falo [...]. Ele se fecha [...] ele acha que é autossuficiente pra resolver tudo [...] sou muito persistente [...] senão não estaria casada [...] acho que marido e mulher é pouco [...]não gosto de ficar expondo [...] as pessoas [...] eu sou muito sozinha [...] pra cuidar do problema dele [...]. Quem vai atrás? [...] sou eu [...] hoje me vejo como a melhor amiga dele, a que quer ajudar ele a curar [...] eu me sinto um suporte [...] eu não queria isso [...]. Então, é um relacionamento muito difícil [...] eu tô chamando a atenção. É a mesma coisa do filho [...] Ele não aceita o que eu falo [...] pra mim não brigar, eu pego e faço de conta que eu aceito [...]. A gente não briga e num xinga [...]. A briga é que eu chamo atenção pra ele.

A desatenção de H5 pode ser compreendida como uma forma de defesa contra violência e frustrações e um modo de desconfirmação, igual à que passou com seus pais. Ele diz:

[...] alternativa que eu encontrei foi essa, de sair (da casa dos pais), porque pelo menos eu não vejo nada dessas coisas [...] isso causou, foi isso que ela sempre falou, eu tenho certeza que foi isso, insegurança, autoestima [...] seria baixa [...] minha mãe sempre foi assim: ‘Ah,você não sabe fazer nada, você é burro, fica quieto aí, deixa eu faço’ [...] nunca me pôs pra fazer alguma coisa, mesmo errado, sempre procurou fazer as coisas no meu lugar [...]‘você não sabe fazer nada, você é um lerdo. (Grifo nosso)

Em termos dos padrões de interação do casal, observamos a presença significativa do padrão complementar rígido, no qual as divergências se adaptam sob o custo da submissão ora de um, ora de outro. Em alguns momentos, há simetria e aceitação mútua, em especial quanto ao que consideram sobre o início da relação e, curiosamente, quanto ao que imaginam para o futuro. Sua esposa tenta assumir o poder na relação e se hiper-responsabiliza por ele. Um ponto que chama atenção é a vida conjugal sem o sintoma, que para ele daria oportunidade de ter mais qualidade de vida e para ela seria possível recuperar a intimidade sexual do casal. Ela diz:

[...] falo sempre: ‘[...] você tem que falar comigo antes’ [...]. É em tudo. Eu acho que ele passa muito pouco das coisas dele pra mim. Eu sou mais assim [...] tudo que eu tenho que falar eu chego pra ele e falo [...]. Ele se fecha [...] ele acha que é autossuficiente pra resolver tudo.

Ele diz:

Até com ela tenho dificuldade [...] não que eu não confie nela, muito pelo contrário. Meu pai também era muito fechado [...] quero resolver as coisas e talvez eu passeaté por cima dela [...] essa coisa de companheirismo, de resolver junto, tem muita coisa que eu ainda sou resistente [...]. Como no início do casamento nosso [...]. Aquela questão de ser marido e mulher, o casal, um ajudando o outro [...]. O que um puder fazer pelo outro faz, a gente tásempre nesse sentido. Realmente ser um casal feliz, né? [...] teria mais carinho.

M5 concorda:

Ah, a convivência, tudo que pega é por causa disso. Nossas discussões são em volta disso [...]. Nós temos filhos maravilhosos, que não têm problema nenhum, nosso

relacionamento, a gente não briga se não for por causa desse tema [...]. Se ele não tivesse esse problema, assim, financeiramente que acho que a gente estaria melhor também, né?

O nível de percepção interpessoal indicou a presença da pontuação da sequência, gerando os impasses e a consequente dificuldade do casal fazer o registro de seus pontos de vista e validá-los. Ele diz:

[...] tudo que eu faço, eu faço com boa intenção, não é questão de prejudicar ninguém, mas as coisas que eu acabo fazendo, acabam prejudicando de certa forma. Minha intenção não era essa, mas acabou dando tudo errado [...]. Às vezes, tem coisa que eu não falo pra não ver ela irritada [...]. Quando ela pergunta, ai eu falo [...] se ela não pergunta, eu não falo [...] eu só tô omitindo [...] assuntos que deixam ela meio conturbada, estressada, eu evito de falar [...] não tô deixando os fatos escondidos.

Ela diz: “Ele não aceita o que eu falo [...] pra mim não brigar eu pego e faço de conta que eu aceito [...] sou um ponto de equilíbrio [...] da família mesmo [...] se eu desestabilizar [...] ele vai pro buraco e os filhos.” A comunicação digital expressa por ela é confrontada com a analógica da parte dele. Cada um tenta invalidar a posição do outro, formando um panorama em que a disputa se faz presente. Este aspecto fica acentuado quando eles se utilizam da

impermeabilidade. Ela diz: “[...] mas eu não confio mais [...] eu já falei isso pra ele: ‘eu não

confio mais’ [...]. ‘Você vai ter que me provar.’ Vai se a mesma coisa de um drogado [...] dez anos sem entrar em dívida”.

H5 desqualifica a esposa ao não entregar o salário nas mãos dela. Mostra

impermeabilidade e pontuação da sequência, ao retirar todo o dinheiro da poupança, sem

que ela soubesse, o que seria para pagar o imóvel tomado pela Caixa Econômica Federal. Repetiu com a esposa padrão relacional de falta de confiança da mesma forma de seus pais. Ele diz:

[...] comecei a tirar o dinheiro da poupança. Às vezes, quando ela dava, e eu nem depositava. Gastava o dinheiro todinho. Gastava com o quê? Com porcaria. Eu não sei, com tanta coisinha aqui, coisinha ali, que acabou o dinheiro indo todo embora. E eu tava engordando, ansiedade. Você sabe, né? O dinheiro tá na conta, você não deposita, só tira, chega uma hora que acaba. Então, como ela trabalhava o dia inteiro, então ela não via, dava na minha mão pra mim fazer todo o serviço.

Ela então diz: “Aí a gerente (do banco) falou: ‘Não, não existe essa conta’. Aí eu fiquei desesperada [...]. Aí eu peguei e liguei pra ele e falei: ‘(H5) cadê meu dinheiro?”

O padrão complementar rígido se estabelece, ora por desconsiderá-la nas decisões, ora por se submeter. Ele diz:

Não sou de falar muito [...] eu penso que ela poderia entender que eu sou dessa forma [...]. Eu não faço porque eu quero provocar, não falo porque é meu jeito [...]. Não tem o que discutir uma coisa que tá certa [...]. Eu reconheço que tô errado e que ela tá certa [...] quando eu tenho em mente que tá certo o que eu tô fazendo, eu contra-argumento.

A resiliência se dá por H5 ter buscado o tratamento e aceitar melhor o problema e a posição de sua esposa. A busca por ajuda e o reconhecimento da violência vivida na sua família de origem, assim como a busca de um tipo de relacionamento de apoio, colaborampara a construção da resiliência. Ela é persistente em cuidar e manter a relação conjugal. Apesar disso, ambos não conseguem transformar padrões relacionais rígidos e disfuncionais em uma comunicação saudável, onde a diferença possa ter um encaixe.

14 ANÁLISE DO CASAL 6