• Sonuç bulunamadı

Ela vem de família nordestina pobre e tradicional. É a mais velha de três irmãos, ocupou lugar de destaque, sendo a única formada. Trabalhou muito em restaurantes como gerente e conseguiu se formar na universidade. Com valores tradicionais arraigados, conta com o pai dominador que impunha suas vontades, inclusive sobre as formas de consumo da família. Fazer cobranças para que se casasse logo e não aceitasse a relação sexual no namoro eram condições impostas. Acredita que se casou como forma de fugir das pressões familiares, apesar de gostar e se entender bem com H6.

Em sua família havia brigas e disputas entre opaie a mãe, que diz não ter trazido para a relação a dois (antimodelo). Ela diz:

Eu vejo o contrário [...] o que eu lembro da relação dos meus pais é que eles brigavam muito,eles discutiam muito [...] era uma coisa que me incomodava muito [...] eu tinha pavor [...] eu não trouxe isso pro meu casamento porque eu não gostava [...] era problema financeiro [...] era muitos filhos e só meu pai trabalhando [...] quando meu pai chegava em casa,minha mãe falava tudo o que nós fizemos, e meu pai ter que corrigir,minha mãe não corrigia [...] meu pai tinha dupla jornada [...] ficavam (os pais) sem falar bastante tempo [...] meu pai ficava mal-humorado, com a cara fechada com a gente também [...] eu falo que meu pai é bipolar [...] quando ele começa a conversar, ele não para [...] quando ele emburra, ele empaca [...] porque ficava aquele clima ruim, ele mal comia, já ia deitar [...] um clima pesado [...] eu sempre tive pavor disso [...] (Grifo nosso).

Esse aspecto do pai de se calar e dormir quando havia discussões éidentificadono marido:

[...] eu lembro bastante quando ele (o marido) chega de repente,vai tomar banho, e vai direto dormir, mal fala comigo. Não tenta verificar o que eu tenho, não tenta abrir um diálogo pra ver o que eu tenho [...] já vai direto dormir [...] isso me deixa um pouquinho magoada. Mas, ao mesmo tempo, eu também entendo que ele tá cansado, porque trabalhou bastante, eu procuro me colocar no lugar dele, porque eu também já passei por isso [...] aíeu também me culpo, porque eu tô em casa descansada [...] (Grifo nosso).

Diz que o pai é uma pessoa sofrida e que, ela diz: “dorme em cama dura que é pra lembrar o banco que ele dormia [...] minha mãe afrontava, eu já não”. Este padrão do pai foi nomeado de “ausência” por ela e é utilizado até hoje quando ela lida com as dificuldades com o esposo e talvez com a própria oniomania.

Ela fugia dacasa dospais para a da amiga por conta das brigas deles: “Eu deixava eles (os pais) discutirem lá e saía fora [...] eu me ausentava, pra não ver [...] eu ia pro meu quarto, ou eu ia pra casa de colegas (Grifo nosso).”

Ela repete arejeição do conteúdo como de seu pai, e a utiliza com o esposo ao não parar de gastar o dinheiro. Ele diz: “É só prejuízo [...]. Gastou, gastou, que se gasta até hoje eu nem falo mais nada [...] tá sem controle [...] eu não posso controlar [...] ela pode até não gastar hoje, mas amanhã ela gasta, com certeza vai gastar [...] não acreditando nela”. Ela diz: “[...] dever não me preocupa [...] não é uma coisa que eu não durmo [...] uma coisa que eu passo mal por estar devendo [...] talvez os problemas familiares me atinjam mais [...] me leva a comprar pra eu me sentir melhor.”

Ao não se preocupar com as dívidas, este comportamento pode ser compreendido como uma fuga, resposta útil quando a empregou na época das brigas na casa de seus pais.

A mãe dela gostava de ter coisas novas, negócios, carro, etc. O pai dela era comedido, isso gerava brigas. O marido logo se pronuncia e diz se considerar “pé no chão”, algo que ela diz ter sido até ficar com os problemas de compras:

[...] o meu pai já era de ficar calado, e se ausentar, minha mãe afrontava [...] trocar os móveis, ter um carro melhor, era essas coisas que minha mãe queria ter [...] meu pai tinha os pés no chão, tem que pagar isso [...] não vamo dar um passo maior que a perna [...] minha mãe [...] não, vamo abrir o negócio [...] vamo ser independente (dizia para o marido). H6: “Eu também sempre fui pé no chão.” M6: “Pensando

bem, esse lado da minha mãe (gastar) ressurgiu (em M6) [...] eu segurei muito [...] porque só trabalhava e investia [...] na educação de nossa filha (Grifo nosso).”

Ela e a mãe aparentam ter proximidade e identidade comuns. A mãe sofreu um AVC e é ela quem cuida. O marido acha que essa proximidade tem sido problemática para ela e para a família atual:

[...] eu acho que dinheiro não é tudo [...] se morar ali (ao lado dos pais dela) vai ser a mesma coisa, não vai mudar [...] vendo o problema dos outros, ela tem que se dedicar pra sua família, e não pros outros [...] eu não sei até quando a gente tem paciência, porque a gente vê as coisa errada, tem que aceitar e tem que ser mais forte pra dar a volta por cima [...]. (Grifo nosso)

A família dele é do Nordeste, cujos pais são agricultores. Ele é o sexto de nove filhos. Seus pais não brigavam, mas havia desconfirmação da parte do pai em relação à sua mãe e irmãos. Ninguém podia se dirigir ao pai dele, só a mãe. A desconfirmação ocorria com frequência por seu pai ser calado e fechado. Ele diz que se acostumou com a tristeza que isso gerou. Dessa maneira, o pai de H6 continua a desconfirmar quase todos os filhos por não se interessar pelo conteúdo da mensagem, e assim se tornou impermeável a todos. Ele diz:

[...] ele não falava nada [...] se tá bom, tá bom, se tá ruim, tá ruim. Não fala nada [...] ele não fala nada, a maior parte do tempo calado, sempre foi assim.Até parece que ele não está se sentindo bem, mas é o jeito dele[...]. Eu falava com a minha mãe pra falar com meu pai [...] é ela que dava o jeito das coisas com ele [...] se eu fosse pedir pra ele,eu não ia pedir pra ele [...] porque não falava nada [...].

Sua mãe arguentou e aprendeu a conviver com o jeito do marido, se submetia a uma relação que ela não aceitava:

[...] ele nunca pegou um telefone pra atender (ligação de H6), nunca [...] às vezes me sinto triste [..] no começo até chora, mas o tempo vai passando, aí você acaba se acostumando [...] tudo que vai fazer (a mãe), comprar,ele não fala nada. Só depois ele acaba aceitando, e fica dando risada, não fala nada [...] Ela vai por conta dela [...] é barra dura, não é aquilo que ela queria. (Grifo nosso)

Nas histórias da mãe de H6, ele observou nela uma mulher tolerante e conformada. Apesar de se submeter, acabava por tomar decisões sozinha. Entretanto, é uma mãe preocupada, batalhadora e persistente com relação aos filhos. Ele diz:

[...] só ela sabe, explica pra você, porque ela teve sempre do lado dele, ele sempre foi assim [...] às vezesela até chora, não é a primeira vez que eu vejo [...] ela já chorou várias vezes [...] ela também se conforma [...] se ela tem alguma coisa pra resolver e vai pedir a opinião pra ele, e ele fica quieto, não fala nada, ela vai e faz de tudo pra gente ser feliz [...]. Ela faz tudo, se tiver difícil, ela vai lá e faz tudo [...] é minha mãe que resolve as coisas por nós [...].

É possível crer que H6 tenha na mãe o modelo de mulher que resolve os problemas por ele, e que no cotidiano do casamento ele repita o modelo e não consiga resolver os problemas sozinho.

A família de ambos tem como base um contexto cultural tradicional nordestino e com tendência a desvalorizar a mulher, que é desconfirmada, e o poder fica centrado nas mãos dos homens. O casal atual repete o modelo de desconfirmação utilizando aevitação de conversas e o não registro do conteúdo da comunicação, como a de seus pais. As duas mães, tanto a de H6 quanto a de M6, eram pessoas que tentavam resolver as coisas da casa, sendo que a dele encontrava pouca resistência do marido e a dela disputava com o marido. É possível pensar que na família dele há um padrão complementar rígidoem que a mãe se submete e na dela

simétrica com disputas entre o casal.